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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

2012, ano de chicotadas

Desengane-se o leitor que, ao ler o título da mensagem, pensou que se escreveria aqui da crise em que o país se encontra mergulhado. Escreve-se antes de chicotadas cinéfilas, pequenas constatações mais ou menos óbvias nas quais fomos tropeçando ao longo do ano. Breves ingenuidades que mantínhamos em relação Cinema e que se foram dissipando com o volume de filmes visto.

A primeira - e talvez a mais importante - foi a do absurdo que é escrever sobre Cinema. Ou, aliás, não tanto do absurdo, mas da impossibilidade de o fazer com total objectividade. Cada filme que se vê - seja blockbuster ou de autor, bom ou mau, extraordinário ou comezinho - alimenta-se de um pouco de quem o vê, revelando-se, antes de mais, uma experiência subjectiva. Claro que há guidelines, considerações a ter em conta quando se julga um filme, mas, no fundo, o que importa é a nossa própria - e muito pessoal - experiência sobre o que se assistiu. Quiçá por isso seja importante reiterar que nada do que se publica neste espaço tem carácter categórico ou qualquer pretensão de verdade absoluta, correspondendo apenas à análise individual de vários objectos. Seguem-se as restantes lombas.


O tempo não dá tempo.

Infelizmente é verdade. O tempo prossegue indiferente às vontades de quem o vive, e é quando mais se precisa das horas que mais depressa elas se esgotam. Quem gosta de Cinema - e particularmente quem tem como actividade, mesmo que amadora, escrever sobre ele - conhece a seriedade do problema e as limitações por ele impostas. Se de um lado há a necessidade de ver o maior número de obras possível, do outro sobra a certeza de que a pressa é inimiga da perfeição. Se se visualizam muitos filmes, ainda mais ficam por visualizar. 2012 foi o ano em que a condição se fez sentir com maior gravidade entre os membros da redacção, levando a que algumas obras de renome escapassem ao nosso olhar crítico. Fitas como O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira, ou DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO, de Joaquim Sapinho, constam dessa lista, entrando e saindo de sala este ano sem que, infelizmente, as tivéssemos visto. E nem consideramos os filmes visualizados por apenas um ou dois de nós, caso contrário o rol não teria fim.

Cobrir um festival é cansativo.

Este foi um falso-tropeção: que cobrir um festival era tarefa cansativa já nós imaginávamos, só não contávamos que fosse tanto. Mas vale a pena. No ano em que o Matinée Portuense realizou a sua primeira cobertura intensiva - ou extensiva, conforme a preferência - de um festival, os seus editores sentiram na pele as mazelas de assistir a três ou quatro filmes por dia. Não que a empresa seja particularmente dramática - e também não será caso para tanto, ou não haveria ninguém, excepto masoquistas, a seguir festivais -, mas deixa algumas marcas. Permite, no entanto, a descoberta de algumas pérolas cinematográficas que, não fosse a sua presença nestes certames, passariam despercebidas ao público nacional. Caso, por exemplo, de EL ARTIFICIO, de Jose Enrique March, merecedor de elogios pela sua invulgar magia e amor à Arte.

A shaky camera raramente resulta de acordo com o pretendido.

Mas parece que há cada vez mais gente a achar o efeito engraçado. Principalmente realizadores com poucas obras no currículo - e uns quantos mais experientes - que se vêem à frente de filmes de acção e/ou terror. E se é verdade que em 2012 funcionou em prol de algumas fitas que dela fizeram uso - CHRONICLE, de Josh Trank e PROJECT X, de Nima Nourizadeh -, também o é que foram mais os casos em que a intenção saiu gorada. Escreve-se, entre outros, de THE HUNGER GAMES, de Gary Ross, de V/H/S, antologia de Terror, ou de RED DAWN, de Dan Bradley, cuja tremedeira incessante prejudicou o acompanhamento da acção. Pedia-se mais estabilidade.

O Cinema Português merece ser visto com olhos de ver.

E em sala, de preferência. Num dos seus melhores anos de sempre, com alguns filmes a receberem prémios e aclamação da crítica estrangeira, o Cinema Português provou a impossibilidade de ser encaixotado como um todo nos estereótipos acerca dele mantidos, muitas vezes pelos próprios portugueses. Acabou-se - ou deveria ter acabado - aquela noção dos filmes muito parados e monótonos, feitos a uma só velocidade; ou a de que os filmes lusos eram só mulheres nuas e homens rudes tentados por elas. Claro que ainda há fitas que se inserem nesses dois tipos, é verdade, mas quem se deu ao trabalho de comprovar encontrou em 2012 muitos - e bons - filmes que fogem à(s) regra(s). Dos vistos, de destacar TABU, de Miguel Gomes, e FLORBELA, de Vicente Alves do Ó; nas co-produções contam-se ainda os muito razoáveis COSMOPOLIS, de David Cronenberg, e BONSÁI, de Cristián Jiménez. Por isso, impõe-se a pergunta: em ano de qualidade acima da média, por que razão foram BALAS & BOLINHOS - O ÚLTIMO CAPÍTULO, de Luis Ismael, e MORANGOS COM AÇÚCAR - O FILME, de Hugo de Sousa - e não colocando em causa o mérito relativo de ambos -, os filmes nacionais com mais espectadores durante 2012? Pedia-se, novamente e como já é hábito, mais.

Filmar sobre Cinema não implica, obrigatoriamente, filmar filmes.

Tudo bem, admito que a epígrafe possa ser confusa. Mas pareceu-me o título adequado para a reflexão em causa e assim ficou. 2012 continuou a tendência manifestada activamente em 2011, a de prestar homenagem ao Cinema através do Cinema. Nada contra a (boa) intenção, mas todos sabemos que delas está o Inferno cheio. Provou-se uma vez mais que a subtileza costuma ser o melhor caminho a seguir. Assim, e sem grande surpresa, filmes como BLANCANIEVES, de Pablo Berger, e HOLY MOTORS, de Leos Carax, encantaram-nos mais do que THE ARTIST, de Michel Hazanavicius, e MY WEEK WITH MARILYN, de Simon Curtis, por exemplo, que esparramaram o seu objectivo por toda a obra.

Quem sabe o que faz nunca esquece como o fazer.

Leos Carax voltou às longas-metragens depois de treze anos de interregno, Manoel de Oliveira, Ridley Scott, Chantal Akerman, Alain Resnais e Michael Haneke mostraram o porquê de serem considerados alguns dos melhores naquilo que fazem. E depois há Abel Ferrara, o mais herético dos católicos, que se esmerou, colocando dois filmes - GO GO TALES e 4:44 LAST DAY ON EARTH - no top anual da Cahiers du Cinéma. Valendo o que vale - até porque um dos títulos data de 2007 -, é razão suficiente para lhe(s) bater palmas.

E por último, e já em jeito de apêndice, a mais óbvia das verdades relembradas:

Nem só de excrementos (e demais fluídos) pode viver um filme.

Não pode, nem deve querer fazê-lo. Porque se a graçola ainda cola durante os primeiros minutos - como em ZOMBIE'S ASS, de Noboru Iguchi -, depressa vai perdendo interesse ao longo do filme. Mas o pior acontece quando uma fita que faz uso desses mecanismos, quer pelas (duvidosas) potencialidades cómicas, quer pelas dramáticas, deseja ser levado a sério. Assobiando para o ar, aponta-se na direcção de THE PAPERBOY, de Lee Daniels, abjecto e frustrado na sua tentativa de chocar, conseguindo apenas provocar certo aborrecimento na audiência. Terá sido, porventura, a chicotada mais desagradável de levar.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Os melhores de 2012

Chega o fim-do-ano e malta cinéfila põe-se a elaborar as suas listas. Nós não somos diferentes e lançamo-nos ao trabalho de passar o ano em revista. Tarefa ingrata, cedo se percebeu. 2012 foi um ano complicado de analisar. A diferença entre os filmes de topo e os que lhes seguiram imediatamente em pontuação foi grande, levando a alguma concorrência - e muita indecisão - pelas últimas posições do top. Cortar revelou-se um mal necessário.

Do mesmo modo, recorreu-se ao corte no processo de selecção. Optamos por considerar apenas as obras com estreia absoluta (mundial) em 2012, descartando como critério a estreia em sala nacional durante o mesmo período. Caso contrário, figurariam seguramente neste lista nomes como McQueen, Tarr e Kaurismäki; ou policiais na Anatólia, filmes que não o são e assassinos adoráveis. E fora essas excepções, há ainda a ausência das fitas deste ano que nos escaparam. Entre os mais notáveis - ou, pelo menos, os mais falados - contam-se os últimos de Tarantino, PTA, Kim Ki-duk, Malick e Russell. Ou - e esta é mesmo imperdoável - o último de Manoel de Oliveira, que "fugiu" das salas sem que o tivéssemos visto.

Dos (muitos) que sobraram, a necessidade de escolher apenas dez pediu mais cortes. Burton, Mendes e Wright, apesar das críticas bastante positivas, não conseguiram encontrar o seu caminho para a lista. E num ano em que as surpresas mais agradáveis surgiram de quem abraçou a sua natureza (e, na sua maioria, simplicidade) - casos de CHRONICLE, DREDD ou MAGIC MIKE, por exemplo -, o estaminé maravilhou-se com a falsa-inocência de Anderson e Berger, foi arrebatado pela violência emocional de Sachs e Haneke, espantou-se com o virtuosismo demonstrado por Gomes, Carax, Paolo e Vittorio Taviani, e recebeu de braços abertos a maturidade de Chbosky, Trevorrow e até mesmo de uma animação. Recusando o pretensiosismo de seleccionar categoricamente os dez melhores filmes do ano, aqui ficam as escolhas da redacção do Matinée Portuense para 2012. Para o ano haverá mais - e, com sorte, melhor - Cinema.


1. AMOUR, de Michael Haneke (Alemanha/Áustria/França, 2012)

«Numa análise cuidada, o que Haneke cria aqui - e que lhe valeu uma segunda Palma em Cannes - não é um filme bonito. É, contudo, algo muito mais poderoso e comovente, uma demonstração cabal de honestidade que roça a brutalidade e se estende aos planos aparentemente mais inocentes - conceito ao qual, na verdade, Haneke acaba sempre por se furtar no seu trabalho - e ângulos mais inesperados.» (ATF)

2. TABU, de Miguel Gomes (Alemanha/Brasil/França/Portugal, 2012)

«Tem-se em TABU, de Miguel Gomes, um dos objectos mais singulares da cinematografia recente portuguesa. Não só pela época que revisita ou sequer pela opção de fotografar a preto-e-branco - O BARÃO, de Edgar Pêra, por exemplo, também se situa nesse espectro -, mas sobretudo no talento envolvido na repescagem e utilização de todo um leque de técnicas e mecanismos que há muito se julgavam caídos em desuso e que aqui conferem ao filme uma dimensão indescritivelmente mágica.» (ATF)

3. SAFETY NOT GUARANTEED, de Colin Trevorrow (EUA, 2012)

«Chegando o final do filme apenas se deseja mais. Se Kenneth realmente viaja no tempo é questão deixada mesmo para o último minuto e para quem está a ver o filme pela primeira vez é o minuto mais longo de todos, mas vale a pena. Tudo culmina num final que para uns poderá ser considerado um escape fácil de todas as questões colocadas, mas para outros será um final apropriado para um filme extraordinário.» (WJR)

4. HOLY MOTORS, de Leos Carax (Alemanha/França, 2012)

«Nem todas as questões que coloca obtêm resposta - nem será nessa direcção que se procura mover -, mas quando um exercício tão habilidoso como HOLY MOTORS surge fica a sensação que não se paga pelo destino, mas sim pela viagem. E que viagem, esta!» (ATF)

5. PARANORMAN, de Chris Butler e Sam Fell (EUA, 2012)

«Parte homenagem cinematográfica ao Terror - as referências vão desde os anos 50 aos 80 -, parte moral a ser apreendida, a sequência que abre PARANORMAN, das melhores do ano dentro do género, deixa logo claros dois dos seus principais objectivos: introduzir os mais jovens a um tipo de filmes (Terror) que, porventura, ainda não conhecerão, e reunir os mais crescidos com a sua criança interior.» (ATF)

6. BLANCANIEVES, de Pablo Berger (Espanha, 2012)

«O exagero do pathos mistura-se deliciosamente com a faena e o flamenco, num vaivém de planos por vezes freneticamente montados e que emprestam alegria e cor, passe a expressão, à história. É quando a câmara trava ou se fixa num qualquer ponto que a tristeza se instala. Filmada com uma beleza e cuidado impressionantes e seguida por uma banda-sonora esmerada, dificilmente se poderia imaginar homenagem mais bonita ao cinema europeu dos anos 20.» (ATF)

7. THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER, de Stephen Chbosky (EUA, 2012)

«Facilmente nos apercebemos que a emoção retratada é principalmente a angústia, também bastante notória no ambiente geral do filme, assim como a solidão e a dificuldade de conviver com algo fora da norma estabelecida pela sociedade. É dirigido para aqueles que são, realmente, diferentes e que de certeza se identificam com algumas das personagens, daí a importância de desempenhos superiores por parte do elenco, o que se verifica e dá alma ao filme.» (WJR)

8. MOONRISE KINGDOM, de Wes Anderson (EUA, 2012)

«História proto-romântica de dois pré-adolescentes que, julgando-se apaixonados, fogem de casa num Verão, revela o talento do cineasta norte-americano em se imprimir em cada fotograma das suas obras. Assiste-se a um perfeccionismo já raro - exibido igualmente a nível dos departamentos, com o merecido destaque a ir para as fabulosas direcções de arte e de fotografia -, demonstração exemplar de um estilo visual característico que, estendido aos limites, se mostra capaz de suportar a fita.» (ATF)

9. KEEP THE LIGHTS ON, de Ira Sachs (EUA, 2012)

«No final, sobra pouco por onde nos agarrarmos, tamanho é o desalento com que Sachs nos deixa; resta, no entanto, alguma esperança e a certeza de que a vida continua, indiferente aos desamores que nos lança. A solução é fechar os olhos, respirar fundo e começar tudo de novo.» (ATF)

10. CESARE DEVE MORIRE, de Paolo e Vittorio Taviani (Itália, 2012)

«É nesse cruzamento entre dimensões - a documental e a ficcional, a da liberdade e a do encarceramento - que os irmãos Taviani, herdeiros contemporâneos do neorrealismo italiano, encontram a sua maior virtude. Através de um equilíbrio estudado - evidente também pela fotografia e sonoplastia cuidadas - criam uma libertação dentro do próprio presídio.» (ATF)