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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Entre Djangos

De Corbucci a Tarantino, de Nero a Foxx, muitas são as diferenças entre os Djangos. Uma delas - porventura das mais insignificantes - resume-se à cor dos capuzes usados pelos acólitos do vilão.



Stills de DJANGO (1966), de Sergio Corbucci, e de DJANGO UNCHAINED (2012), de Quentin Tarantino - com crítica já publicada neste espaço, pela pena do Wladimir Jr. Ribeiro -, respectivamente.

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Ou então vai-se buscar uma imagem a THE BIRTH OF A NATION, de D.W. Griffith, origem - revelada através de uma entrevista em que Tarantino afirmou odiar John Ford pela sua opção de encarnar um dos cavaleiros brancos no filme de Griffith - da tal cena de DJANGO UNCHAINED acima ilustrada. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Django Unchained (2012)

A mais recente obra-prima de Quentin Tarantino não deixa nada por contar, não tem limites e deixa qualquer um preso à cadeira do inicio ao fim. DJANGO UNCHAINED possui tudo que se podia esperar de um filme do Tarantino, violência extrema, personagens caóticas, uma visão obscura e realista de um tema taboo e um estilo de realização e originalidade que apenas Tarantino nos pode proporcionar. A espera foi grande e o resultado compensa e satisfaz todos os desejos depravados dos fãs de Tarantino enquanto nos injecta com uma lição moralista e bastante directa.


Pessoalmente já aguardava esta estreia com imensa ansiedade e dela esperava grandes coisas, felizmente não me desiludiu e até ultrapassou as expectativas. A caracterização das personagens e o desempenho dos actores são óptimas, a destacar Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, cujas personalidades se contrabalançam na perfeição, um caçador de prémios que despreza a escravidão, é calmo e inteligente, e o dono de uma grande plantação que ganha a vida com lutas entre escravos, que por sua vez é mentalmente instável e narcisista. Depois temos Jamie Foxx que mostra do que é capaz e dá vida ao protagonista vingativo e determinado, Django, com um desempenho ao qual se deve dar grande mérito, num papel que muitos teriam grandes dificuldades em desempenhar, Foxx vai para além do que seria de esperar.

Django (Jamie Foxx) é comprado, à força, por Dr. King Schultz (Christoph Waltz) que acaba por lhe oferecer a liberdade. Esta dupla junta-se para apanhar e matar criminosos durante o inverno após o qual partem para salvar a mulher de Django, Broomhilda (Kerry Washington), das mãos de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um magnata das lutas de mandigos que dificilmente dá o braço a torcer.

Django Unchained é divertido de ver, facilmente nos apercebemos que muitos dos actores também se divertem nos papeis que desempenham, uma junção de comédia sem consideração por quem possa ofender, acção sangrenta e destrutiva e uma pitada de romance e heroísmo. Nem todos poderão apreciar o filme pelo que ele realmente é, uma crítica assertiva a uma das épocas mais cinzentas dos Estados Unidos, e poderão ficar ligeiramente ofendidos. Isto é uma das coisas que temos que admirar em Tarantino, a sua capacidade inigualável de não ter qualquer tipo de preocupação pelo que possam vir a achar do seu projecto e o faz como quer e bem lhe apetece, apenas quer transmitir a sua mensagem à sua maneira. E como seria de esperar, Tarantino dá o ar da sua graça com uma aparição breve no filme e ainda que não acrescente nada à narrativa, continua a ser uma adição engraçada aos seus filmes.

Posso garantidamente afirmar que é um grande começo de ano para o cinema. Já com algumas nomeações para os Oscares, aqui no Matinée temos os dedos cruzados para que algum vá para Django Unchained, pois é merecido. Escusado será dizer que se trata de um filme a não perder, teve estreia nacional na passada quinta-feira, e este é um filme que irão querer ver numa sala de cinema pelo menos uma vez. 


Título Original: Django Unchained (EUA, 2012)
Realizador: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Intérpretes: Jamie Foxx; Christoph Waltz; Leonardo DiCaprio; Kerry Washington; Samuel L. Jackson; James Remar
Fotografia: Robert Richardson
Género: Aventura, Acção, Drama, Western
Duração: 165 minutos




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A era da agressão

Recentemente, a propósito da estreia do seu DJANGO UNCHAINED, Quentin Tarantino atribuiu à violência presente nas suas obras um ideal catártico. Uma espécie de retribuição histórica atrasada, o castigo merecido entregue pelos justos; são os heróis transformados em anjos da vingança. Mas a valorização da violência como parte integrante do conteúdo - e não exclusivamente da forma - implica que se pague um preço pela sua utilização. E esse preço surge através da responsabilização.


Explorando essa noção de responsabilidade, Marco Ferreri - realizador meio esquecido, apesar de influente no panorama cinéfilo internacional - criou em 1969 a sua obra-prima, DILLINGER È MORTO, um filme tão inconsequente que só se encaixa no surrealismo. Ou melhor, que se encaixa em muitas correntes sem nunca, no entanto, deixar de pertencer à do inconsciente. Não será por acaso que a obra em questão é das mais complicadas de explicar a quem nunca a viu. Mas lá vai uma tentativa, quase em jeito de sinopse, do que se passa na fita de Ferreri: um designer industrial - Michel Piccoli, magistral como sempre - regressa a casa do trabalho para encontrar a mulher na cama com uma dor de cabeça. O jantar já está frio e o designer, descontente com o que tem pela frente, põe-se a preparar uma nova refeição. Ao vasculhar nas gavetas da cozinha encontra um revólver embrulhado em folhas de jornal; as parangonas referem-se à morte de Dillinger, gangster americano convertido em herói popular.

O que mais nos interessará para o entendimento do fenómeno em evidência - o da responsabilização do cineasta pela violência que exibe nas suas obras - será , no entanto, o anti-clímax de Dillinger è morto. O designer, após seduzir a empregada - e de ser seduzido por ela -, volta ao quarto. Aponta a arma - agora vermelha às pintinhas brancas - à cabeça e, depois de se olhar ao espelho, dispara várias vezes sobre a mulher adormecida. Houve quem relacionasse o uxoricídio com a tentativa do homem em purgar algo (a indolência) de dentro de si ou com a redução de todas as suas possibilidades à inexistência, ao zero-absoluto. Seja qual for o significado dado à cena, é unânime que a morte da esposa se traduz no rompimento dos laços mais íntimos que ligam o designer à sua existência burguesa. A violência surge, portanto, com um propósito identificável.

A mesma catarse é identificável nos filmes de Tarantino. Fará mais espécie, porventura, pela exposição que lhe é dada, pelo detalhe gráfico com que a brutalidade é mostrada ao espectador. E em década de massacres armados, a questão reveste-se de particular importância. A relação entre a violência exibida na tela e a perpetrada fora dela não será tão linear quanto isso, mas revela-se cada vez mais um elemento difícil de ignorar face à multiplicação dos incidentes. Talvez por isso se peça hoje mais do que nunca que os realizadores, argumentistas e produtores se responsabilizem pelos conteúdos que criam e que optem por rejeitar a violência puramente gratuita. São os limites da era da agressão.

António Tavares de Figueiredo