domingo, 11 de março de 2012

The Maiden Danced to Death (2011)

«When you're asked to dance, you dance.»

Nunca fui um grande apreciador de filmes de dança, devo confessar; salvo raras excepções, chego mesmo a abominar o género, abstendo-me, na generalidade, de ver tal classe de filmes. Contudo, tenho de dar aqui a mão à palmatória, e admitir que The Maiden Danced to Death foi um filme que me agradou imenso, tanto que o vi duas vezes numa questão de apenas dois ou três dias. Nada mau para um simples filme de dança, certo?

Errado. The Maiden Danced to Death não é um simples filme de dança. Na verdade, a dança ocupa um papel muito mais periférico no filme do que à primeira vista é dado a entender. Desengane-se quem espera encontrar em The Maiden Danced to Death algo na linha de Step Up, em que todos os problemas são resolvidos por um intrincado número musical e tudo fica bem depois dos protagonista suarem um pouco ao som de uma batida incessante e repetitiva. E ainda bem - The Maiden Danced to Death revela-se a quem o vê como um drama ligeiro, com muitas (por vezes, demasiadas) questões por detrás da dança.

Steve (Endre Hules, que aproveita e também realiza a película) é um húngaro "americanizado" que regressa à sua Hungria natal para encontrar o irmão mais novo, Gyula (Zsolt László), à frente da trupe de dançarinos que Steve havia fundado duas décadas antes e casado com a sua antiga namorada, Mari (Bea Melkvi). Steve concorda, então, em financiar e produzir um espectáculo da sua antiga companhia de dança, dirigido por Gyula, que atravessava sérias dificuldades financeiras. O que Gyula desconhece é que Steve é movido por um desejo de vingança não tão claro quanto seria de esperar.

O trio de protagonistas, todos húngaros, por sinal, são a alma do filme: mesmo com algumas falhas, a sua representação é consistente, proporcionando ao espectador uma experiência cinematográfica agradável. Aliás, o maior elogio que lhes pode ser feito é de que a sua interpretação fez com que nomes como os de Deborah Kara Unger, Gil Bellows e Stephen McHattie (já bem mais estabelecidos no panorama cinematográfico internacional) não acrescentassem nada de significativo à película. No pólo oposto, ficaria a interpretação de Emoke Zsigmond (a Gabi do filme), que embora bonita, não tem o talento suficiente para rivalizar com os demais actores húngaros da produção.

As cenas de dança estão bem executadas, mas, como já se disse antes, não serão o maior chamariz do filme. Não obstante, é engraçado ver dança tradicional húngara exibida no grande ecrã. A fotografia e o trabalho de edição, à excepção de umas quantas transições e cortes bruscos, é razoável (Vilmos Zsigmond, o director de fotografia da película, ganhou um Oscar de Melhor Cinematografia por Close Encounters of the Third Kind, em 1977, tendo no currículo mais umas quantas nomeações à estatueta dourada por trabalhos posteriores).

Quem procurar um drama ligeiro para assistir numa noite de sábado passada em casa terá em The Maiden Danced to Death uma boa alternativa. Não será o melhor filme de sempre, mas há coisas bem piores a aparecerem nos nossos cinemas todas as semanas. Ninguém perderá nada por o ver, e, quem sabe, podem até gostar. A título de curiosidade, falta ainda publicar aqui no blog uma entrevista exclusiva com Bea Melkvi, uma das protagonistas do filme. Mais uma razão para verem The Maiden Danced to Death.


Título Original: The Maiden Danced to Death (Canadá/Hungria/Eslovénia, 2011)
Realização: Endre Hules
Argumento: Endre Hules
Intérpretes: Endre Hules, Zsolt László, Bea Melkvi, Deborah Kara Unger, Emoke Zsigmond, István Zámbó, Krisztián Kolovratnik, Viktoria Kerekes
Música: David Burns, Ferenc Kiss
Fotografia: Zoltan Honti, Vilmos Zsigmond (director de fotografia)
Género: Drama
Duração: 100 minutos


Juan de los Muertos (2011)

«Juan de los Muertos, matamos a sus seres queridos, en qué puedo servirle?»

Quando abri o catálogo do Fantas e li a sinopse de Juan de los Muertos, o primeiro filme de zombies cubano, senti quase de imediato um desejo enorme em o ver. Não por ter expectativas elevadas quando à sua qualidade ou potencial como filme de terror puro e duro, mas porque me senti imensamente atraído por um comentário feito pelo New York Times em relação ao filme, qualquer coisa como «vacas sagradas do socialismo sofrem ataque zombie». «Isto deve ser bom», pensei, «isto deve ser mesmo bom». E não estava enganado: Juan de los Muertos depressa se mostrou o filme mais divertido desta edição do Fantas, e um dos melhores a ser exibido no Grande Auditório do Rivoli.

Juan e Lazaro são dois amigos cubanos que vivem dedicando-se uma imensidão de tarefas e biscates, alguns deles legais, outros nem por isso. Lazaro sonha em abandonar a ilha com o seu filho, em busca de um futuro melhor; Juan, que já esteve fora de Cuba, acredita que na ilha tem tudo o que necessita para sobreviver. A pacata vida de ambos irá ser perturbada quando alguns habitantes da ilha começarem a apresentar um comportamento estranho e a atacar outras pessoas. O governo chama-lhes "dissidentes", porventura um dos nomes mais originais alguma vez dado a zombies famintos de carne humana. Agora, Juan e Lazaro terão de lutar para proteger as suas famílias e a sua comunidade, enquanto tentam lucrar com a tragédia alheia. E assim nasce a frase emblemática do filme (a que abre esta crítica) e um conjunto de peripécias capazes de fazer os espectadores chorar de tanto rir.

Quem for ver Juan de los Muertos na expectativa de ver um filme de zombies clássico, ao estilo de Romero, provavelmente sairá do cinema desiludido; mas, verdade seja dita, nunca foi intenção do filme assumir-se como um produto de terror hardcore, preferindo utilizar os seus zombies como artifício cómico e mote para as críticas sociais que se lhes seguem. Juan de los Muertos é, antes demais, uma comédia, satirizando um regime e a vida levada pelas gentes cubanas. Quem o for ver esperando isso certamente não sairá desiludido. O seu humor varia entre a crítica ao governo (de forma tão aberta que provocou uma onda de demissões no Instituto de Cinema Cubano, que o autorizou) e o humor sexual, passando por breves momentos de comédia física (algumas cenas de chacina de zombies são de morrer a rir).

O pior do filme será, porventura, o gostinho a Shaun of the Dead deixado por algumas das suas partes. Um gosto que não chega a ser amargo, mas que, mesmo assim, chega para irritar e desanimar quem esperava um produto completamente original. O melhor é a interpretação de Alexis Díaz de Villegas, que, neste filme, tem, discutivelmente, uma das melhores personagens em filmes do género, chegando e sobrando para levar o amigo cinéfilo à sala de cinema mais próxima a exibir o filme.

O cinema de terror já não é o que era, com cada vez menos filmes a serem capazes de nos fazer tremer de medo como dantes. Juan de los Muertos também não vem preencher esse vazio, mas compensa noutros aspectos, sendo mais do que merecedor de uma visualização atenta.


Título Original: Juan de los Muertos (Cuba/Espanha, 2011)
Realizador: Alejandro Brugués
Argumento: Alejandro Brugués
Intérpretes: Alexis Díaz de Villegas, Jorge Molina, Andrea Duro, Andros Perugorría, Jazz Vilá, Eliecer Ramírez
Fotografia: Carles Gusi
Género: Comédia, Terror
Duração: 100 minutos




sexta-feira, 9 de março de 2012

The Slut (2011)

Directamente de Israel, chega a nós 'The Slut', realizado por Hagar Ben-Asher que também protagoniza o mesmo. Pode se dizer que é uma espécie de contra-parte de 'Shame', que se baseia no mesmo assunto, 'a day in the life of a nympho', mas infelizmente não atinge a qualidade necessária para sequer sugerir uma comparação.

Como já tinha referido, é um filme sobre a vida de uma ninfomaníaca, que vive com as duas filhas, e como ela lida com o facto de ser o objecto mais rodado da aldeia e de ter encontrado o amor da sua vida, a quem tenta ser fiel. Sim, não é nada de muito apelativo dito desta maneira, mas é mais ou menos a ideia geral.

Todo o ritmo do filme é estranho, lento e chega a ser confuso por não parecer que irá dar a lado nenhum, com cenas aleatórias e pouco relevantes para a história. O facto de não haver quase nenhum som de fundo durante todo o filme também não ajuda, aliás, só o torna muito mais aborrecido, tanto que é difícil manter os olhos abertos. A quase inexistência de falas em 65% do filme deixa o público a pensar: 'que é isto? o que se passa?'. Achei muito difícil de manter o interesse até ao fim, julgo que todo o hype criado à volta disto foi mais pelo facto da realizadora também ser a argumentista e actriz principal, tendo em conta o assunto de que o filme trata. As cenas de actos sexuais, a única verdadeira atracção do filme, são explicitas e completamente legítimas, mas com a falta de certos elementos já referidos acima dá aquela impressão de que estamos perante um filme pornográfico manhoso de má qualidade.

Em geral, é uma desilusão desde o inicio, e após uma história contada a passo de caracol o final até deixa uma pessoa atordoada mentalmente e boquiaberta, mas não no bom sentido da expressão. A actuação dos actores é simplesmente média, nem muito mau mas também nada de extraordinário, a realização também é satisfatória mas a verdadeira essência, o conteúdo e tudo o que une as partes do filme para o tornar sólido é muito fraco, o que deixa o público com um sabor amargo na boca após a visualização e com uma certa sensação de vazio e propósito. Na minha opinião, é uma perda de tempo, excepto se quiser matar a curiosidade ou até se tem tempo a mais.


Título Original: The Slut (Israel, 2011)
Realização: Hagar Ben-Asher
Argumento: Hagar Ben-Asher
Intérpretes: Hagar Ben-Asher, Ishai Golan,
Isho Avital, Yoav Levi, Tzahi Levi
Fotografia: Amit Yasour
Género: Drama
Duração: 87 minutos




quarta-feira, 7 de março de 2012

The Theatre Bizarre (2011)

Muitas vezes o público é intimidado pelos trailers dos filmes ou até mesmo pelas sinopses, sendo feito acreditar que estará prestes a ver uma coisa de um nível de terror tremendo, mas quando acaba de o visualizar apenas uma questão vem à cabeça: 'É só isto?', e este é um desses casos. Baseado no lendário teatro Grand Guignol de Paris, vemos agora Theatre Bizarre, de Douglas Buck, Buddy Giovinazzo, David Gregory, Karim Hussain, Tom Savini e Richard Stanley, que consiste numa antologia de seis pequenos contos de terror que culminam numa história principal. 

O filme começa com uma rapariga jovem que que decide visitar o interior de um teatro que julga estar abandonado, depressa descobre que tal não é o caso e aparentemente à uma peça a decorrer à qual ela assiste. Nisto, a ela são contadas seis histórias diferentes que no teatro são representadas por fantoches, cada um dos realizadores do filme é independentemente responsável por cada uma dessas histórias, e por um narrador que no inicio da peça é representado por um fantoche.

A primeira história, "Mother of Toads", é sobre um casal que se encontra a passar férias em França, infelizmente as coisas não correm como planeado quando são vitimas de acontecimentos estranhos causados por uma bruxa francesa e pela curiosidade insaciável do marido - escusado será dizer que 'a curiosidade matou o gato'. De todos, este será provavelmente o pior e mais aborrecido segmento do filme, já que os assuntos são pouco aprofundados e um tanto vagos. Vale pelas suas breves referências a Lovecraft mas com actuações muito pouco favoráveis.

Na segunda história, "I Love You", continua como algo completamente aborrecido e ridículo, sobre um casal que se vê separado, visto que a mulher, que confessa ser uma oferecida, se farta do marido e decide ir-se embora com um amigo do mesmo, o que leva a que o marido tenha um surto de raiva e violência. Mais uma vez, muito mau, com más actuações.

A seguinte história, "Wet Dreams", sobe a fasquia e revela não ser tão má como as anteriores, com actuações ainda pouco satisfatórias. É sobre as desavenças de um casal, onde o marido é infiel e tem sonhos em que é castrado, e onde a mulher sonha com a morte do marido e da amante, culminando num final que quebra todas as barreiras da realidade e da sanidade.

A quarta história, "The Accident", demonstra o ponto de vista de uma criança face a acontecimentos chocantes, outra vez, muito pouco satisfatória e aborrecido, num assunto que teria potencial para ser mais explorado.

A penúltima história, "Vision Stains", volta com um assunto bem interessante e com cenas bem mais macabras que as sequências anteriores. Trata-se de uma mulher, que após descobrir que consegue absorver as memórias das outras pessoas no momento das suas mortes ao transferir o liquido ocular das vitimas para ela, e decide tornar-se uma biografa, desejo esse que a leva a quebrar os limites do que é permitido a um mero mortal.

Finalmente, a sexta e ultima história, "Sweets", é definitivamente a mais bizarra e perturbante, explorando o vicio de comida de um casal que é levado ao limite. Nesta sequência vemos como um fetiche pode afectar o ser humano que não o sabe controlar.

Tudo acaba com o regresso ao teatro do inicio do filme onde ao longo das histórias ocorreu uma transformação bizarra e inexplicável, tanto ao narrador fantoche como à jovem rapariga na plateia.

Resumindo, é uma antologia pouco satisfatória para não dizer fraca e se procuram algo mais agressivo ou mais coeso aconselho a procurar noutro lado. Numa visão geral poderá-se dizer que entre todas as histórias  há uma ligeira referência religiosa e aos sete pecados mortais, embora um pouco incoerente e nada precisa. 


                                                          Título original: The Theatre Bizarre
Realizador: Douglas Buck; Buddy Giovinazzo; David Gregory; Karim Hussain; Jeremy Kasten; Tom Savini; Richard Stanley
Argumento: Zach Chassler; Richard Stanley; Scarlett Amaris; Emiliano Ranzani; Buddy Giovanazzo; John Esposito; Douglas Buck; Karim Hussain; David Gregory
Intérpretes: Udo Kier; Virginia Newcomb; Shane Woodward; Catriona MacColl; Victoria Maurette; André Hennické; Suzan Anbeh; Debbie Rochon; Tom Savini; James Gill; Lena Kleine; Mélodie Simard; Kaniehtiio Horn; Lindsay Goranson; Guilford Adams
Música: Simon Boswell; Susan DiBona; Pierre Marchand; Mark Raskin
Fotografia: Eduardo Fierro; John Honoré; Karim Hussain; Michael Kotschi
Género: Gore, Terror
Duração: 114 minutos


terça-feira, 6 de março de 2012

A Gentle Rain Falls For Fukushima (2012)

Filme que fez a sua antestreia mundial no Fantasporto 2012. Apesar de ser algo que foge um pouco ao tema do festival, provou ser uma adição favorável ao cartaz, mesmo que um pouco em cima da hora. Num ano em que as submissões asiáticas mostraram ser um pouco agressivas para o público geral, Atsushi Kokatsu veio contrabalançar os restantes filmes do seu país.

O filme é sobre uma família que se reúne após ter sido separada dos seus entes queridos devido a acontecimentos trágicos. Embora só renasçam após já terem vidas feitas, isso não os impede de ainda se tratarem como família e conviverem como o faziam nas suas vidas anteriores.

Ao longo dos primeiros momentos do filme vamos-nos acostumando às personagens que sub-conscientemente são atraídas para a sua casa da sua vida anterior com uma ajuda da primeira familiar, a 'Mãe', que renasceu no corpo de uma rapariga entre os seus 10-12 anos. Esta atraí a atenção de um rapaz adolescente a quem ela trata por 'Pai', enquanto isto, o 'Irmão mais velho', um vendedor e planeador arquitectural, de 35-40 anos, desenvolve uma relação, para ele estranha, com a 'Irmã', uma senhora, de 60-65 anos, duma casa em Fukushima a quem tenta vender os seus serviços. Rapidamente todos seguem o rasto da 'Mãe' e relembram-se  do passado numa reunião um tanto comovente.

Para as pessoas que julgam que da Ásia só saem coisas absurdas ou estranhas este é o filme a ver. Não é uma obra-prima, nem é uma coisa que será considerada espectacular mas é uma história 'bonita' e até mesmo apelativa e a forma como é demonstrada dá mesmo para sentirmos uma ligação com as personagens. Claro, algumas das actuações ainda deixam a desejar mas nada de muito mau, e numa análise mais geral poderá dizer-se que este filme é como uma bufada de ar fresco, cheio de esperança e compaixão.

Obviamente vou aconselhar a ver, não se perde nada ao fazê-lo e de certeza que os fãs deste género mais dramático, com uma pitada de tragédia, vão gostar. É de notar também que todos os lucros deste filme estão destinados ao Tohoku Earthquake Relief Fund, isto porque o filme só foi feito graças ao encorajamento do povo de Fukushima que, mesmo ainda a sofrer devido ao terramoto em Tohoku em Março de 2011, exigiu que o filme fosse feito.


Título Original: Totcheeta Chikicheeta (Japão, 2012)
Realizador: Atsushi Kokatsu
Produção: Tatsuko Kogachi
Intérpretes: Kosuke Toyohara, Jurina,
Shôno Hayama, Chieko Matsubara
Género: Drama
Duração: 94 minutos