segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Trailer de "Cloud Atlas"

Foi divulgado um novo trailer para Cloud Atlas, o novo filme de Tom Tykwer e dos irmãos Wachowski. O filme, que estreou para críticas positivas no Festival de Toronto, inspira-se na obra de David Mitchell e conta seis histórias separadas no tempo narradas por personagens diferentes (os actores interpretam diversas personagens). Estreia 20 de Dezembro em Portugal.


sábado, 8 de setembro de 2012

Total Recall (2012)

Não sai aos seus, mas degenera.

Há qualquer coisa neste TOTAL RECALL que nunca chega a bater certo. Durante duas horas é constante a sensação de que algo de errado se passa no ecrã. Pior ainda será para quem tenha bem presente na memória o Total Recall de há duas décadas, inacreditavelmente superior a este e bem mais próximo ao conto original de Philip K. Dick que lhe serviu de inspiração. Adaptadas da mesma fonte, são mais as diferenças que separam as duas películas do que as semelhanças que as unem.

Da estória, então, nem se fala. Numa época em que a grande maioria da superfície da Terra foi destruída por uma guerra química, a vida faz-se entre Londres e a Austrália. A primeira continua a metrópole, a segunda colónia habitada por trabalhadores mal pagos e gente de gosto e origem duvidosa. Doug Quaid (Colin Farrell) é um dos que viaja diariamente entre os dois continentes, residente nos bairros de lata da Colónia e trabalhador numa das fábricas londrinas. A sua rotina repete-se, mas Quaid começa a sentir que lhe falta algo. Vítima de um pesadelo recorrente com uma mulher que não é a sua esposa, decide visitar a Rekall, empresa que implanta memórias na mente dos seus clientes, esbatendo permanentemente a linha que separa a realidade da fantasia. À imagem do primeiro, a memória e a percepção da realidade são temas centrais neste Total Recall; não chegam a ser convenientemente explorados, mas estão lá. A vida dupla, a opressão do governo, a sobrepopulação também. Afinal de contas, continua a ser uma adaptação, embora liberal, de uma obra de Philip K. Dick, e o escritor nunca se refreou de escrever ficção-científica com fundo social. É de lamentar a direcção que a equipa de argumentistas decidiu dar à obra, mas aí o assunto já será outro. A direcção de Len Wiseman pauta-se pelos mesmos princípios de mediocridade, desperdiçando planos e enquadramentos em movimentos de câmara absurdos. As cenas de fuga pelas cidades parecem saídas de um videojogo de plataformas, tal como a sequência em que Quaid despacha 10 polícias, obsoleta até para o meio em que foi inspirada.

Sobra pouco para aproveitar e recordar neste Total Recall. Perderam-se boas ideias na construcção das cidades, mesmo que fossem óbvias maquetas de outras vistas em filmes do género. A favela da Colónia, inspirada na L.A. multicultural de Blade Runner, perde-se em planos-sequência de perseguições e panorâmicas inseridas nos momentos errados. Já Londres, branca, inspirada na estética utópica da cidade-modelo futurista, quase retirada de um fotograma de I, Robot, construída em altitude,  nunca é merecedora de particular destaque na película. As duas ligadas por um elevador sugestivamente chamado A Queda, que, também sugestivamente, passa pelo núcleo do planeta. As ideias mal aproveitadas precipitam-se umas atrás das outras e deixam um gosto amargo no espectador. Não é de estranhar a meia-dúzia de referências ao antecessor, o outro Recall, colocadas à pressão no filme e gritantes na denúncia da sua origem - a prostituta de três mamas, a senhora gorda à frente de Quaid na alfândega, cópia a papel químico do disfarce do outro Quaid para entrar em Marte, a referência ao Planeta Vermelho. O protagonista chega a ser melhor, mas mesmo isso é contrabalançado por duas péssimas escolhas nos papéis femininos. E nem Bill Nighy ou Bryan Cranston, figuras maiores em lados opostos, parecem dispostos a salvar a fita.

Há duas décadas Verhoeven fez mais com, teoricamente, menos à disposição. Já bem dentro de um novo milénio, o objectivo parece passar mais por mostrar os avanços tecnológicos alcançados na indústria do que fazer justiça à estória. Para isso, mais vale ir a Marte.


Título Original: Total Recall (EUA, 2012)
Realizador: Len Wiseman
Argumento: Kurt Wimmer, Mark Bomback, Ronald Shusett, Dan O'Bannon, Jon Povill (baseado no conto de Philip K. Dick)
Intérpretes: Colin Farrell, Kate Beckingsale, Jessica Biel, Bryan Cranston, Bill Nighy
Música: Harry Gregson-Williams
Fotografia: Paul Cameron
Género: Acção, Aventura, Ficção Científica
Duração: 118 minutos


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

The Tourist (2010)

Um homem de cara desconhecida é perseguido pela máfia russa e pela polícia internacional. A sua amante embarca num comboio rumo a Veneza. Pelo meio, apanha um turista americano de estrutura facial semelhante à da figura misteriosa. No final, vai tudo parar a Itália, num jogo do rato e do gato entre canais, monumentos e demasiada gente à mistura. Pode parecer esquisito, quase esquizofrénico, mas são estas as linhas gerais pelas quais THE TOURIST se guia. Remake de um filme francês - Anthony Zimmer (2005) - perde-se no excesso de talento e acção.

Florian Henckel von Donnersmarck, cineasta alemão de nome complicado, vinha embalado de um brilhante filme com The Live of Others (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007). Pequena pérola do cinema europeu, era previsível que desse o salto para produções maiores e que fosse capaz de atrair algumas estrelas internacionais para o seu próximo projecto. Infelizmente, entre The Live of Others e The Tourist não foi capaz de repetir virtudes, transformando os pontos fortes de um nos defeitos do outro. Incapaz de controlar a história, von Donnersmarck pauta a sua obra mais recente com ritmo inconstante, dando-lhe rumo errático e um final, no mínimo, previsível. Nem os momentos de suspense se elevam neste thriller, marcado por fugas e lutas sem adrenalina. Mas, então, o que fica para se salvar?

A mise en scène é bela e a fotografia mostra-se capaz de a acompanhar. A banda sonora equilibra as contas e o duo de protagonistas, ainda que distantes do seu auge, mostra-se carismático o suficiente para aguentar o espectador. Desperdiça-se talento - faltam bons momentos a Bettany, Sewell e Dalton - é verdade, mas The Tourist não é um filme de todo desagradável. Insosso e demasiado neutro, talvez. O melhor resume-se bem pela cena em que as personagens de Jolie e Depp se encontram pela primeira vez no comboio. O resto queda-se abaixo.


Título Original: The Tourist (EUA/França, 2010)
Realização: Florian Henckel von Donnersmarck
Argumento: Florian Henckel von Donnersmarck, Christopher McQuarrie, Julian Fellowes (baseado no filme original de Jérôme Salle)
Intérpretes: Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany, Steven Berkoff, Timothy Dalton, Rufus Sewell
Música: James Newton Howard
Fotografia: John Seale
Género: Acção, Romance, Thriller
Duração: 103 minutos


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Trailer de "Hansel And Gretel: Witch Hunters"

Tem sido cada vez mais difícil suportar as adaptações a antigos contos infantis clássicos, já foram utilizados bastantes desde o Capuchinho Vermelho (Red Riding Hood) à Bela e o Monstro (Beastly), a próxima adição será Hansel And Gretel: Witch Hunters que contará com a participação de Jeremy Renner e Arterton como a de irmãos. É difícil ter uma expectativa positiva e o trailer não ajuda. Agora já só falta fazerem um filme com o Pinóquio a matar zombies.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

American History X (1998)

No outro dia, à conversa sobre Cinema com uma rapariga, veio-me à cabeça AMERICAN HISTORY X. Para ser justo, o filme terá surgido primeiro no pensamento dela, mas depressa comecei a esboçar dentro da minha própria mente uma resenha muito básica do que seria a crítica à obra. De facto, não desconhecia a película. A bem dizer, devo tê-la visto qualquer coisa como 10 vezes nos últimos 5 anos, ganhando rapidamente lugar na minha lista de filmes preferidos (todos os cinéfilos têm uma) e mais vezes visitados na minha filmoteca mental. Só que, para além do filme, outra coisa captou rapidamente a minha atenção: a minha interlocutora descreveu-o como antigo. Seria tão antigo quanto isso? Ou mais recente do que ambos julgávamos?

Na altura, a "frio", não me consegui recordar do ano em que American History X havia sido produzido. Com recurso a um computador e, principalmente, à Internet (tem sido, no geral, boa amiga nas minhas divagações cinéfilas), pude confirmar que o filme vem datado de 1998, ano em que recebeu estreia limitada nos EUA, antecipando uma candidatura aos Oscars do ano seguinte. Não sendo novo, também não será tão antigo quanto isso. Mas a confusão é compreensível. A fotografia a preto e branco - das melhores que surgiram naquela década, responsabilidade do também realizador Tony Kaye - complica a datação. E o tema do filme também não ajuda à tarefa. É que cinco anos antes aparecera um outro filme sobre nazis - Schindler's List de Spielberg, arrasa-quarteirões do ano em questão - também a preto e branco, esse de época. Os nazis dos dois filmes encontravam-se separados por algumas décadas, mas as atitudes, tão familiares e reconhecíveis, remetiam para o imaginário colectivo e permitiam associações e comparações entre as duas obras. Quais seriam piores, os alemães influenciados pela sociedade em que viviam e prontos a fechar os olhos às atrocidades ideológicos, ou os neo-nazis norte-americanos, indiferentes face à História? American History X reivindica a coroa para si, numa manobra de coragem, caracterizando os seus neo-nazis como gente ignorante sob o comando de um líder não menos insensível e confuso do que os seus seguidores. Mais violento e menos justificativo, esconde as suásticas e destaca as linhas de pensamento falaciosas que destilam ódio e preconceito. Falhou a nomeação para o Oscar de Melhor Filme, que nesse ano, de forma algo estranha (mas já característica da Academia Norte-Americana) foi para Shakespeare in Love, mas ganhou lugar cativo na cultura popular.

E depois há Edward Norton como Derek Vinyard. Um dos actores mais talentosos da sua geração dá vida a uma das personagens mais memoráveis das última décadas. Marcado por tatuagens que fez noutros tempos, quando acreditava noutras ideias, tenta salvar o irmão - o outro Edward do elenco, este Furlong de apelido - do caminho que há anos tomou. A prisão, o crime, a consciência pesada à conta das mortes e do muito ódio acumulado. Em linhas parelelas que se vão cruzando aqui e ali a sua história vai sendo contada. Compreendê-lo nem sempre é fácil, mas é possível alguma identificação. O Oscar de Melhor Actor também lhe fugiu, indo parar a Roberto Benigni por La vita è bella, mas é justo escrever que Norton construiu com base no seu talento um dos retratos mais exactos e coerentes de um homem em conflicto consigo próprio de que há memória no cinema recente. Entre os dois Edwards o filme vai ficando sem espaço para as outras personagens, que vão surgindo subtilmente e levantando importantes questões e dilemas morais. O professor negro, a namorada provocadora, a irmã liberal, todos eles trabalham em prol da resolução do problema central da película: em que parte da vida, e onde, se cruzou Derek com a ideologia nazi? Nenhuma personagem se esforça mais para responder a esta questão do que o próprio Norton, cuja presença, quase sufocante, na sala de edição levou o realizador Tony Kaye, segundo se conta, a quase rejeitar American History X como obra da sua autoria.

O filme, esse, indiferente, a questões de outra ordem que não a sua, mantém-se popular em certos círculos, assumindo-se de difícil digestão, muito por culpa da violência implícita mas crua. Tal como a imagética, por vezes o que não se vê é mais perturbador do que o que surge à vista desarmada. Capaz de provocar profundas introspecções, acaba com a maior das questões que coloca. E se o Mal vier da nossa própria casa?


Título Original: American History X (EUA, 1998)
Realizador: Tony Kaye
Argumento: David McKenna
Intérpretes: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Jennifer Lien, Stacy Keach, Avery Brooks, Alex Sol, Guy Torry, William Russ,
Música: Anne Dudley
Fotografia: Tony Kaye
Género: Crime, Drama
Duração: 119 minutos