Noite de gala em Hollywood. A realeza do Cinema reunida debaixo do mesmo tecto. Passadeira vermelha, vestidos elegantes - e outros que nem tanto - e gente charmosa e bem-parecida. Nada contra, atenção. Até porque no final ainda havia uns quantos prémios - uns tais Oscars - para distribuir. E dois convidados muito especiais, um austríaco, a outra francesa, que se pareciam destacar da multidão anglófona e estrangeiros americanizados. E logo com hipótese de roubarem três dois principais galardões da noite.
Mas antes de Hollywood - ou desta nova Hollywood - já havia Hiroshima. Mais concretamente, HIROSHIMA, MON AMOUR, de Alain Resnais, aquele magnífico filme que muitos colocam - e com razão, diga-se de passagem - no hipocentro da Nouvelle Vague. Um pedaço de Cinema tão delicado quanto contundente, tão directo quanto poético. Em Hiroshima, a décadas das rugas, Emmanuelle Riva testava a possibilidade do amor sobreviver à guerra; cinquenta e três anos depois - mas ainda deslumbrante -, pô-lo-ia à prova na derradeira etapa da vida. Curiosamente, Hiroshima, mon amour também esteve nomeado a um Oscar - Melhor Argumento Original, para Marguerite Duras - que acabou por não ganhar. Seria um presságio?
Por esta altura - e com tudo o que fui escrevendo aqui e ali sobre a corrida aos Oscars -, quem nos acompanha regularmente já terá decerto percebido a preferência da casa por AMOUR dentre os nomeados do ano - ao ponto de o incluirmos na nossa Filmoteca Obrigatória, ainda em construção -, estudo fundamental sobre a resistência do amor à extinção dos seus receptáculos. E se no início da noite ainda cultivávamos alguma (pouca) esperança em relação à sua vitória nas principais categorias em que se incluía, sabendo, no entanto, o quão complicado seria ganhar efectivamente algum desses prémios, cedo fomos percebendo que os membros da Academia dificilmente partilhariam da nossa convicção. Isto não é um lamento. A ocasião não o merece, nem os envolvidos o parecem querer. Apenas uma constatação de que num ano em que a oportunidade se proporcionava como talvez em nenhum outro, a AMPAS preferiu entregar - novamente - o galardão ao candidato mais pró-americano - e Hollywood, vista como uma espécie de refúgio - em detrimento de outros mais merecedores. Nada de novo nesse departamento, portanto.
De resto, os Oscars foram os Oscars que se esperava que fossem. E com espaço para umas quantas surpresas. O anfitrião a espaços politicamente incorrecto, as honras repartidas entre as fitas a concurso - com a de Melhor Edição de Som a ser, literalmente, dividida, ex aequo -, a malta mais favorita a conseguir parecer a mais surpreendida. E Spielberg a levar uma valente tareia do alto das suas - de LINCOLN, leia-se - doze nomeações. A Academia norte-americana favoreceu os seus seus - e Ang Lee, ao que parece -; entende-se, ARGO não é um filme mal feito. Mas alguns dos ignorados mereciam mais atenção.
Sobre a obra de Resnais, fica prometida uma análise num momento futuro, mais oportuno e dado à complexidade da tarefa. Contudo, para fechar estas linhas, um último pensamento: escrever uma cartinha à Academia com sete palavras. Tu n'as rien vu à Riva. Apenas. Acho que bastava.
António Tavares de Figueiredo



