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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Star Wars: The Light

"a long time ago in a galaxy far, far away..."

Em 1977, George Lucas deu vida ao que é hoje um dos maiores e mais influentes franchises no mundo do cinema, Star Wars. Um épico de fantasia e ficção cientifica, segue as aventuras de Luke Skywalker, Leia Skywalker, Han Solo e Chewbacca, acompanhados por dois droides, C-3PO e o seu companheiro arteiro R2-D2, juntos ajudam os Rebeldes na luta contra a opressão do Império Galáctico e os temiveis Sith, Darth Vader e o Imperador Darth Sidious. Uma história que já não precisa de apresentações, tão bem arraiada na nossa cultura que dificilmente haverá alguém que não a conheça. As personagens icónicas, os conceitos fantasiosos e as músicas inesquecíveis já parecem estar presentes diariamente. Quando é que Star Wars se tornou um nome tão familiar?


A influência de Star Wars no mundo cinematográfico é indiscutível, impulsionou o uso regular de efeitos especiais em grandes produções. Uma mistura perfeita de ficção cientifica e fantasia segura pelas costuras por uma banda sonora inconfundível, composta por John Williams, provavelmente, o ponto mais alto da experiência que os filmes proporcionam. A música nunca mal direccionada, acentuando o contraste sempre presente na historia e criando tensão ou alivio sempre que necessário. Uma sinfonia e efeitos visuais e sonoros impressionantes dão vida à verdadeira essência desta epopeia, tão bem concebida que quebrou o estigma das sequelas e ajudou criar o modelo da trilogia cinematográfica que nos é tão familiar hoje em dia. Mostrando ser possível a produção de um franchise com qualidade gradualmente superior e lucros incríveis, ainda mais com o merchandise associado, brinquedos, roupa, até loiça para nomear alguns. 


Se falo de Star Wars não falo apenas do que foi, mas do que é e tem sido desde o inicio, um universo em constante desenvolvimento. O que temos depois dos filmes é uma visão mais pormenorizada da galáxia, através dos olhos de muitos outros artistas e entusiastas que contribuíram para a expansão do universo que George Lucas imaginou, com bandas desenhadas (Dark Horse; Marvel), séries de TV (Star Wars: Clone Wars: Star Wars Rebels, etc) e video jogos (Knights of the Old Republic; Star Wars: The Old Republic) com mais histórias, personagens e aventuras que ainda hoje nos entretêm. Talvez aqui esteja o forte deste franchise, na sua escala astronómica, nunca estamos presos a um conjunto finito de possibilidades, personagens, tudo com um inevitável fim - não. Há toda uma galáxia de planetas, diferentes raças e aventuras ao longo de milhares de anos, com uma história que facilmente se estende para lá da nossa esperança de vida, e para mim será sempre esse o fascínio.


Certamente, Star Wars não são apenas os filmes, mas sim tudo o que deles foi gerado e apenas uma coisa acaba por dar origem aos meios para que tudo isto seja possível, a grande conquista, o legado de Star Wars são, fundamentalmente, os fãs. Com uma lealdade voraz, acho que não haverá uma base de fãs tão numerosa e impaciente para produtos de ficção, e graças a esta incrível demanda e a aquisição da Lucasfilm por parte da Walt Disney, no final de 2012, Star Wars regressa ao grande ecrã dia 17. Será o inicio de uma nova trilogia e um possível conjunto de spin-offs, resta saber se haverá redenção pela trilogia dos anos 2000 ou se nos esperam dias negros. No entanto, uma coisa é certa, as salas vão encher. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 2: o Deus-Maquinista no comando do moralismo universal

Encontro-me com o João, um dos amigos locais, numa cervejaria de esquina, pouco visível ao transeunte mais distraído. Fico com o benefício de escolher a mesa. Que seja uma cabine nos fundos, então. Ainda os finos não encontraram o caminho da mesa e já se fala dos planos dos mestres, de Bergman, Tarkovsky e Reis. Gajo culto, este João. A conversa lembra-me algo que Edgar Pêra escreveu sobre Paulo Rocha: numa das aulas, o último rumava em direcção à tela, de joelhos, oferecendo um braço em troca do olho de Dreyer para tirar planos. O João que, confessa-me, também não acha nada mal o negócio faustiano sugerido por Rocha, despede-se com o resto do seu fino e a certeza de que nestas terras lusitanas ninguém fotografa Cinema tão bem como o Rui Poças. Concordo. E ponho-me a ouvir discussões alheias.

Ao balcão fala-se do Porto. Do clube, claro está! Nota mental: guardar um dia destes para escrever sobre o Porto - a cidade, claro está! - lá no blog. Resisto à tentação de dar uma vista de olhos ao catálogo. Quero manter o desafio de seguir o festival em modo guerrilha, deixar-me guiar pelos deuses do celulóide. Estar na sala às horas marcadas e abrir os olhos, só e apenas. Ao balcão ainda se berra sobre o Porto. O caderno, esse, fica na mala; prefiro escutar o ambiente que me rodeia, saborear o momento. A vida trata-me bem. Merda, tenho de pedir ao Luís a tal entrevista! A ver se o encontro na Católica.

O Sol já se põe quando regresso ao campus. O telemóvel vibra-me no bolso. Nem de propósito, uma mensagem do Luís. O gajo deve ser bruxo! Vou ter com ele. Diz que nos dá a entrevista com todo o gosto, que é um prazer. E despede-se num abrir e fechar de olhos, sempre apressado. Desço ao bar. Mais amigos. Uns quase de infância, outros de boémias noitadas nos Leões. Pergunta-se pelo paradeiro (incerto) de conhecidos em comum, fala-se de música, festarolas e, sobretudo, Cinema. Chamam-me doido por preferir Truffaut a Godard (um «tu não sabes o que dizes» roda a mesa). Começa uma sessão competitiva de audio - à qual falto -, e aproveito para esticar as pernas. Mais reencontros, mais abraços partilhados, mais parvoíces disparadas para o ar ao desbarato. O Junior, bracarense semanal, telefona-me. Garante-me que chega sem falta amanhã, que ainda apanha os dois últimos grupos de vídeo a competição. Desligo mesmo a tempo: toca a sineta. Vão começar os filmes.

HOTEL AMENITIES (Espanha, 2012), de Julia Guillén Creagh, abre bem a sessão. Dois amantes, ambos casados com outras pessoas, encontram-se pela primeira vez num quarto de hotel. Conheceram-se online e pretendem agora consumar o caso. Só que o Universo é um sacana moralista que parece não os querer deixar concretizar o desejo carnal. Os telemóveis tocam nas piores alturas possíveis; primeiro o dela, depois o dele. São os respectivos cônjuges. Um momento de dúvida para, no final, a porta se fechar com o aviso para não incomodar o par. O resto não se precisa de saber.

Já PELUQUERO FUTEBOLERO (Espanha, 2012), de Juan Manuel Aragon, vive principalmente do seu argumento. Não revelando nada de novo, aproveita, ainda assim, os elementos à disposição para criar uma história divertida pelos seus contornos absurdos. Vale pelas gargalhas e pela (passageira) interrogação se a desorientação do homem que, acabado de trair o clube, vai cortar o cabelo não passará de um conflito interior?

Menos objectivos - até porque não precisam de o ser - são MILK GLASS (Rússia, ?), de Egor Chichkanov, DOUBLE TAKE (Suécia, ?), de J. Tobias Anderson, e DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (Itália, 2011), de Simone Massi. Sobre os dois primeiros, a conversa é rápida: o de  Chichkanov é um videoclipe - bem filmado, é verdade, mas um videoclipe, ainda assim -, a roçar o artsy-fartsy, enquanto que o de Anderson é uma montagem em split-screen de cenas de Intermezzo: A Love Story, de Gregory Ratoff, decompondo campos-contra-campos de Leslie Howard e Ingrid Bergman (acabei por gostar do resultado). Relativamente ao de Massi, sobre o qual já tive a oportunidade de escrever a propósito de um outro evento, confirmei duas suspeitas: primeiro, que o trabalho técnico da animação é, de facto extraordinário - já para não falar da sonorização -; segundo, que falta significado à obra, viajando-se apenas entre camadas.

NEGOTIATING REPRESENTATION IN ISRAEL AND PALESTINE (Israel/Palestina/Reino Unido, ?), de Huw Wahl, parece-me um objecto com mais valor social/humanitário do que cinematográfico. Não fosse o magnífico trabalho de som - de uma riqueza enorme -, pouco havia a espremer, em Cinema, do conjunto de stills de fotojornalistas narrado pelos próprios. Salva-se a mensagem da liberalização da imagem enquanto ferramenta da consciência social (e global). Melhor na combinação da mensagem com a linguagem cinematográfica é ANDERSARTIG (Alemanha, 2011), de Dennis Stein-Schomburg, animação de traço delicado contada pela única sobrevivente de um bombardeamento a um orfanato alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Relato impressionante de uma juventude perdida, suportada pela leveza etérea que lhe dá forma.

Guardou-se o melhor para o fim. DEUS ET MACHINA (Espanha, 2012), de Koldo Almandoz, é uma obra rara no modo como se desenha. Um homem chega a uma fábrica de manhã e põe a funcionar o Mundo - trata-se de um Deus-Maquinista encantado pela Natureza que gere, mas descontente com os homens que O gerem. Se calhar Nietzsche enganou-se e Deus, afinal, não morreu: escolheu foi demitir-se daquele emprego ingrato e deixar as responsabilidades para outro.

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 1: Macau, o frio, o adeus e a dança

Saio do carro a correr. Porra, o primeiro dia e já estou atrasado! Levanto a acreditação de imprensa - e vejo na mesa a do Junior, que só deve chegar lá para sexta -, e olho para o relógio. Com a brincadeira de ficar na faculdade a falar do campeonato do Porto já não vou a tempo da sessão das 15h00. Menos mal que são os vencedores do ano passado (conheço-os quase todos). Aproveito para conhecer o campus da Católica.

Ou assim contava fazer. Mal saio do edifício das Artes esbarro com uma cara conhecida. O Luís continua o mesmo: magro, com barba e sempre apressado. Pergunta-me se vou à sessão de sexta à noite, que não posso faltar. Mas que raio há de tão importante na sexta à noite? Vai apresentar a curta dele, diz-me, que tenho mesmo de ir. Deixo-o descansado: na sexta até o Junior, amigo em comum, vai! Despede-se - tem sempre muito que fazer - e marca um café para um dos dias do festival. Desisto de dar a minha volta de reconhecimento. Vou é procurar um sítio para me sentar e dar uma vista de olhos pelo programa, que isto de cobrir um certame sem saber ao que se vai não tem jeitinho nenhum.

A Católica é agradável nesta altura do ano. Encontro um banco aquecido pelo Sol e ponho-me a folhear o catálogo. Lá está o Luís Costa e o seu FONTELONGA! Foda-se, não lhe pedi uma entrevista para o blog. Enfim, alguma coisa se há-de arranjar. Recebo uma mensagem. É do Xico, outro dos amigos a estudar na área. Promete-me, também ele, um cafezinho, mas só a partir de amanhã: hoje não tem aulas. Olho novamente para o relógio. Está quase na hora da sessão das 17h00. Decido-me a encontrar a sala.

O auditório não é difícil de encontrar. Mas tenho de descer não-sei-quantos lanços de escadas com uma mala pesadíssima. Entro, escolho um lugar, e, para minha surpresa, mais um reencontro. No palco, diante de mim, uma cara conhecida das fitas nos Passos, Meca dos cinéfilos portuenses. Trocamos "olás", separados por filas de cadeiras, que o tempo não permite outras cortesias. Cabe-lhe apresentar a artist talk de Tomé Quadros, prata-da-casa e jurado nesta edição do Black & White. Fala-se de Macau, de macaístas e macaenses, do choque-transformado-em-fusão cultural, dos Dóci Papiaçam di Macau. E passa-se aos filmes, que são o que verdadeiramente importa.

O trabalho dos Dóci Papiaçam di Macau lembrou-me, quase de imediato, duas coisas: uma foi o teatro chinês, super-exagerado e altamente estilizado, de que Guerra da Mata fala em A Última Vez Que Vi Macau, seu e de João Pedro Rodrigues; a outra, a teoria da fixação do teatro, defendida por Manoel de Oliveira. Mas se a primeira é rapidamente comprovada à medida que as fitas - na sua grande maioria falsos-trailers, auto-satíricos na utilização de estereótipos e lugares-comuns - vão passando, a segunda cedo cai por terra. É que aqui o Cinema não terá tanto o objectivo fixar a obra, como de expandir, através da multimédia, a mensagem do grupo: a preservação do Patuá macaense, o crioulo local.

Reduzidos ao chiste mencionado na apresentação, os trabalhos dos Dóci Papiaçam di Macau, não obstante o seu valor na divulgação de uma identidade cultural muito própria, acabam por se reduzir à curiosidade que encerram em si, enquanto paródias assumidas. Mais interessante pareceu-me, contudo, um dos documentários do próprio Tomé Quadros - em antevisão no início da sessão -, CHÁ GORDO, sobre a prática social que reúne à mesa as famílias macaenses. Aguardo com algum entusiasmo a oportunidade de o ver.

Pausa na programação. E novo intervalo alargado. Começo a pensar no formato a dar à cobertura do festival. Que se lixe, vai ser uma crónica! Começo a desenhar, mentalmente, estas linhas. No Bar das Artes tiro da mala o fiel caderninho - companheiro de rascunhos - e escrevo não sei quantos parágrafos que sei necessitarem de séria revisão quando me apanhar no conforto de casa. Reconheço uma outra amiga (mais uma!), esta mais antiga. Não sabia que conhecia tanta a gente a estudar por estes lados. Vem na minha direcção; ainda bem, não me apetecia nada ter de me levantar para fazer o caminho contrário. Pergunta-me o que faço por aqueles lados, que decerto não estudo ali, ou já me teria visto. Mostro-lho a acreditação e falo-lhe do blog, meio orgulhoso do feito. Pá, deixa de ser parvo, a conversa não lhe interessa, penso para mim. Ela senta-se, contudo, à mesa, admiradíssima por eu editar uma página sobre Cinema. Pomos a conversa em dia, até que alguém a chama. Outro café prometido. Decido guardar o caderno e ir esticar as pernas.

Mal passo a porta que dá para o exterior cruzo-me com o Nuno Reis, do Antestreia. Ficamos a fazer horas cá fora até ao início da sessão da noite. Filmes em circuito comercial, críticos de eleição na blogosfera nacional, festivais e eventos a acompanhar, resenhas em atraso nos respectivos espaços, passam-se todos os tópicos da praxe em revista. Já não nos víamos há largos meses - desde o Fantasporto - e assunto não falta. A malta começa a entrar. Os filmes vão começar.

A edição deste ano abre com 89 MM OD EUROPY (Polónia,1993), de Marcel Lozinski, nomeado em meados da década de 90 ao Oscar de Melhor Curta-Metragem Documental. Escolha interessante. Trabalhadores dos caminhos-de-ferro a trocarem as rodas as carruagens enquanto os passageiros os observam (um deles fotografando-os). A primeira associação que vem à cabeça é o Cinema Novo, trazido pelas Novas Vagas, carregado de consciência social. Findo o filme, apresenta-se o festival e o júri deste ano. Batem-se palmas de minuto a minuto. E corta-se para os seis títulos a concurso nesta primeira leva.

WARMTH (Bielorrússia, 2010), de Victor Asliuk, é, apesar do título, um filme frio. Ambientado numa fábrica de botas, oscila entre grandes-planos fechados na cara dos trabalhadores e uma visão mais distante do vapor que preenche o espaço. Aliás, é nesse fumo ubíquo que o melhor do filme se descobre, na visão impessoal - mal contrariada pelas pessoas, próximas de ferramentas - daquele mundo industrial. Igualmente frio pareceu-me NEST (Geórgia, 2011), de Tornike Bziava. Dele destaco a solidão inicial do protagonista, um velho viúvo com um filho divorciado, e um plano extraordinariamente belo: o pai, sentado na cama, aperta a gravata ao filho, num dos gestos mais íntimos possíveis.

Bem mais alegres são THE FEAST (Alemanha, ?), de Boris Seewald, e FROM DAD TO SON (Alemanha, 2011), de Nils Knoblich. O primeiro, experimental, cola várias coreografias num espectáculo visual frenético e, diga-se com toda a justiça, feliz. O segundo, animação paralelepípeda, história de um pai agricultor com o filho preso, conseguiu deixar-me com um sorriso nos lábios, apesar das óbvias limitações técnicas.

O primeiro português a competir, Vasco Mendes, surpreendeu pela positivo. O seu FOR THOSE WHO STAY (Portugal, ?) terá sido, porventura, o melhor do dia. Muito graças aos magníficos planos em contra-luz daquele bar de aeroporto, onde a despedida é para os que não embarcam. Nem o facto de, no final, parecer um anúncio a uma qualquer marca de cerveja o prejudicou: quem filma assim merece o maior dos elogios. No pólo oposto ficou LOOKING FOR SOMETHING (PART ONE: A WINTER VISIT) (Alemanha, ?), de Fjodor Donderer, feito entre imagens granuladas e uma pretensiosa narração filosófica-ambiental. A retórica ficou, no entanto, longe de convencer.

António Tavares de Figueiredo

domingo, 10 de março de 2013

Fantasporto, quando o fim é apenas um princípio

Hoje ainda há filmes no Rivoli - os premiados -, mas o Fantasporto 2013 terminou ontem para os redactores do Matinée Portuense. Entramos, portanto, em fase de balanço final e de tratamento do material recolhido durante o certame. Entre críticas, entrevistas e outras brincadeiras cinéfilas, temos pela frente semanas de publicações. O final do Fantas coloca-nos, assim, uma questão importantíssima: o que fazer - e como tratar - a quantidade absurda de informação à nossa disposição?


Mas antes, a semana. E decidir quem - e quando - veria determinado filme. E andar atrás de convidados a pedir entrevistas. E meter conversa, assim quase como quem não quer a coisa, com aquela instituição da crítica britânica que dá pelo nome de Kim Newman. E ver aquele objecto-Cinema, verdadeiramente impressionante na sua execução, chamado VANISHING WAVES [Kristina Buozyte, 2012]. Se António de Macedo já dizia do Cinema tratar-se de uma «fábrica de sonhos» - a expressão que, provavelmente, mais vezes fomos ouvindo e repetindo ao longo do festival -, o Fantas representa para nós, escribas deste espaço, essa tal dimensão fantástica. Até porque somos gajos do Porto - cairá mal a alguém escrever-se "gajo" por aqui? -, o que torna a ocasião particularmente especial para nós.

Quanto ao material, o entre-sessões foi-nos dando algumas pistas quanto ao seu possível tratamento. Mas ficaram algumas dúvidas. Despachamos os filmes da Orient Express, uma das secções mais interessantes, de uma só vez, ou encaixamo-los noutros blocos temáticos? Que entrevista editar e publicar primeiro? O que fazer com umas quantas fitas que dividiram a nossa opinião? Até agora não temos nenhuma resposta definitiva a essas questões. A única certeza é que tudo começará hoje - no fim - com estas linhas.

Ontem deixamos para trás, pela última vez nesta semana, o Rivoli. Custa dizer adeus ao Fantas, aos amigos - velhos e novos -, ao ritmo intenso com que se vive a cinefilia durante aqueles dias. O discurso de encerramento levantava novamente a interrogação sobre o futuro do Fantasporto. Eu, como portuense e amante do Cinema, quero acreditar que para o ano andaremos outra vez pelos corredores do Rivoli, reencontrando caras conhecidas no 34º Fantas. Até porque haverá convidados novos para perseguir e filmes certamente extraordinários para descobrir naqueles auditórios que nos são tão familiares.

Hoje ainda há filmes no Rivoli, mas nenhum de nós os irá ver. Chegou a altura de colocar mãos ao trabalho e encarar a fera de frente. A todos os que, de alguma maneira, nos facilitaram o Fantas, o nosso mais sincero obrigado. Até para o ano, pessoal. Nós não nos esqueceremos de lá estar.

António Tavares de Figueiredo

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Antes de Hollywood, Hiroshima

Noite de gala em Hollywood. A realeza do Cinema reunida debaixo do mesmo tecto. Passadeira vermelha, vestidos elegantes - e outros que nem tanto - e gente charmosa e bem-parecida. Nada contra, atenção. Até porque no final ainda havia uns quantos prémios - uns tais Oscars - para distribuir. E dois convidados muito especiais, um austríaco, a outra francesa, que se pareciam destacar da multidão anglófona e estrangeiros americanizados. E logo com hipótese de roubarem três dois principais galardões da noite.


Mas antes de Hollywood - ou desta nova Hollywood - já havia Hiroshima. Mais concretamente, HIROSHIMA, MON AMOUR, de Alain Resnais, aquele magnífico filme que muitos colocam - e com razão, diga-se de passagem - no hipocentro da Nouvelle Vague. Um pedaço de Cinema tão delicado quanto contundente, tão directo quanto poético. Em Hiroshima, a décadas das rugas, Emmanuelle Riva testava a possibilidade do amor sobreviver à guerra; cinquenta e três anos depois - mas ainda deslumbrante -, pô-lo-ia à prova na derradeira etapa da vida. Curiosamente, Hiroshima, mon amour também esteve nomeado a um Oscar - Melhor Argumento Original, para Marguerite Duras - que acabou por não ganhar. Seria um presságio?

Por esta altura - e com tudo o que fui escrevendo aqui e ali sobre a corrida aos Oscars -, quem nos acompanha regularmente já terá decerto percebido a preferência da casa por AMOUR dentre os nomeados do ano - ao ponto de o incluirmos na nossa Filmoteca Obrigatória, ainda em construção -, estudo fundamental sobre a resistência do amor à extinção dos seus receptáculos. E se no início da noite ainda cultivávamos alguma (pouca) esperança em relação à sua vitória nas principais categorias em que se incluía, sabendo, no entanto, o quão complicado seria ganhar efectivamente algum desses prémios, cedo fomos percebendo que os membros da Academia dificilmente partilhariam da nossa convicção. Isto não é um lamento. A ocasião não o merece, nem os envolvidos o parecem querer. Apenas uma constatação de que num ano em que a oportunidade se proporcionava como talvez em nenhum outro, a AMPAS preferiu entregar - novamente - o galardão ao candidato mais pró-americano - e Hollywood, vista como uma espécie de refúgio - em detrimento de outros mais merecedores. Nada de novo nesse departamento, portanto.

De resto, os Oscars foram os Oscars que se esperava que fossem. E com espaço para umas quantas surpresas. O anfitrião a espaços politicamente incorrecto, as honras repartidas entre as fitas a concurso - com a de Melhor Edição de Som a ser, literalmente, dividida, ex aequo -, a malta mais favorita a conseguir parecer a mais surpreendida. E Spielberg a levar uma valente tareia do alto das suas - de LINCOLN, leia-se - doze nomeações. A Academia norte-americana favoreceu os seus seus - e Ang Lee, ao que parece -; entende-se, ARGO não é um filme mal feito. Mas alguns dos ignorados mereciam mais atenção.

Sobre a obra de Resnais, fica prometida uma análise num momento futuro, mais oportuno e dado à complexidade da tarefa. Contudo, para fechar estas linhas, um último pensamento: escrever uma cartinha à Academia com sete palavras. Tu n'as rien vu à Riva. Apenas. Acho que bastava.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A grande armadilha

Quem gosta de Cinema e tem por hábito analisá-lo com maior cuidado saberá o perigo que significa ver um filme que abra com um traiçoeiro «baseado em factos reais». E escrevo "perigo" porque o tal aviso induz quase automaticamente a um certo condicionamento analítico do qual até o mais atento dos espectadores tem dificuldade em escapar.


Ao olhar para a lista das estreias em sala durante o primeiro trimestre do ano, podemos identificar facilmente  várias fitas que fazem - ou podem fazer (*) - uso do mecanismo. De LO IMPOSIBLE - de resto, aqui representado pelo fotograma do seu aviso - a HITCHCOCK, passando por LINCOLN e HYDE PARK ON HUDSON, muitos são os filmes que se inspiram concretamente em acontecimentos da vida real. E o problema nem passará por aí - bem como a solução não passará por subtrair completamente a realidade ao Cinema -, mas sim pelos segundos de fundo tipicamente preto que exibem em letrinhas brancas a mensagem de que o que se está prestes a ver não é produto exclusivo da imaginação de alguém.

Outra das questões surge quando se reflecte sobre o valor de verdade vulgarmente atribuído a facto. Será o "facto real/verídico" uma mera redundância, ou esconder-se-á algo mais por detrás do suposto pleonasmo? Outrossim, quanto de verdade haverá sob a égide da realidade ficcional? Os exemplos mais recentes de como desarmar a bomba aparecem dos lugares mais improváveis. Em ARGO, de Ben Affleck, título baseado na extracção (verídica) de membros da embaixada norte-americana em Teerão através de um falso-filme, a dissonância manifestou-se no momento do clímax - a fuga no aeroporto -, que, ao que parece, nunca existiu nos moldes em que apresentado; nesse caso em particular, a realidade revelou-se menos entusiasmante do que a ficção quando tinha tudo para ser exactamente o oposto. Já Kathryn Bigelow foi desarmada por duas vezes em pouco mais de uma década: em K-19: THE WIDOWMAKER (2002) a tripulação do submarino russo, apesar de ter gostado do filme, criticou a hollywoodização dos acontecimentos representados; já com ZERO DARK THIRTY (2012) - sobre a perseguição a Osama bin Laden - foi a vez da CIA desmentir parte do reproduzido. Assoma-se, assim, a dúvida acerca dos limites do verdadeiro num objecto que se assume logo em si como uma mentira, uma encenação mais ou menos precisa da vida.

Escreveu-se tanto apenas para concluir o que há muito já se sabia, que o tal aviso se assume como a grande armadilha do Cinema. E que se a moda não é de agora, tem-se tornado, pelo menos, mais frequente nas últimas décadas. Pede-se à audiência um envolvimento emocional superior - através da confusão das fronteiras entre o real e o ficcionado - mesmo antes da acção começar, apelando-se ao investimento na história pela via mais fácil. Cabe ao cinéfilo mais precavido saber resistir à eficácia daquela simples frase.

Esta crónica foi baseada em factos verídicos.

António Tavares de Figueiredo

-//-

(*) - à data de escrita destas linhas, alguns dos filmes mencionados não tinham ainda sido visualizados; coloca-se apenas - e por agora - a possibilidade da mensagem constar explicitamente da sua forma. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A era da agressão

Recentemente, a propósito da estreia do seu DJANGO UNCHAINED, Quentin Tarantino atribuiu à violência presente nas suas obras um ideal catártico. Uma espécie de retribuição histórica atrasada, o castigo merecido entregue pelos justos; são os heróis transformados em anjos da vingança. Mas a valorização da violência como parte integrante do conteúdo - e não exclusivamente da forma - implica que se pague um preço pela sua utilização. E esse preço surge através da responsabilização.


Explorando essa noção de responsabilidade, Marco Ferreri - realizador meio esquecido, apesar de influente no panorama cinéfilo internacional - criou em 1969 a sua obra-prima, DILLINGER È MORTO, um filme tão inconsequente que só se encaixa no surrealismo. Ou melhor, que se encaixa em muitas correntes sem nunca, no entanto, deixar de pertencer à do inconsciente. Não será por acaso que a obra em questão é das mais complicadas de explicar a quem nunca a viu. Mas lá vai uma tentativa, quase em jeito de sinopse, do que se passa na fita de Ferreri: um designer industrial - Michel Piccoli, magistral como sempre - regressa a casa do trabalho para encontrar a mulher na cama com uma dor de cabeça. O jantar já está frio e o designer, descontente com o que tem pela frente, põe-se a preparar uma nova refeição. Ao vasculhar nas gavetas da cozinha encontra um revólver embrulhado em folhas de jornal; as parangonas referem-se à morte de Dillinger, gangster americano convertido em herói popular.

O que mais nos interessará para o entendimento do fenómeno em evidência - o da responsabilização do cineasta pela violência que exibe nas suas obras - será , no entanto, o anti-clímax de Dillinger è morto. O designer, após seduzir a empregada - e de ser seduzido por ela -, volta ao quarto. Aponta a arma - agora vermelha às pintinhas brancas - à cabeça e, depois de se olhar ao espelho, dispara várias vezes sobre a mulher adormecida. Houve quem relacionasse o uxoricídio com a tentativa do homem em purgar algo (a indolência) de dentro de si ou com a redução de todas as suas possibilidades à inexistência, ao zero-absoluto. Seja qual for o significado dado à cena, é unânime que a morte da esposa se traduz no rompimento dos laços mais íntimos que ligam o designer à sua existência burguesa. A violência surge, portanto, com um propósito identificável.

A mesma catarse é identificável nos filmes de Tarantino. Fará mais espécie, porventura, pela exposição que lhe é dada, pelo detalhe gráfico com que a brutalidade é mostrada ao espectador. E em década de massacres armados, a questão reveste-se de particular importância. A relação entre a violência exibida na tela e a perpetrada fora dela não será tão linear quanto isso, mas revela-se cada vez mais um elemento difícil de ignorar face à multiplicação dos incidentes. Talvez por isso se peça hoje mais do que nunca que os realizadores, argumentistas e produtores se responsabilizem pelos conteúdos que criam e que optem por rejeitar a violência puramente gratuita. São os limites da era da agressão.

António Tavares de Figueiredo

domingo, 6 de janeiro de 2013

A vida em praias

Ao sexto dia, a primeira epifania cinéfila do ano. E logo pelas mãos - ou melhor, pela câmara - de uma velhinha octogenária. De estranhar, não fosse a idosa em questão dar pelo nome de Agnès Varda, uma das derradeiras representantes do Rive Gauche, movimento artístico contemporâneo da Nouvelle Vague. Nas quase duas horas de LES PLAGES D'AGNÈS, realizadas, escritas e narradas por esta Senhora Cinema, sempre viva e bem-disposta, ensina-se muito sobre Arte, e não só, a miúdos e graúdos.


Agnès aborda oitenta anos de vida através das praias que visitou e onde viveu. Da fuga da Bélgica para uma cidade costeira francesa - imortalizada em alguns dos seus filmes -, das areias Californianas às da ilha que pisava frequentemente com o marido Jacques Demy. Dos tempos que viveu em Paris e das fitas que dirigiu na sua rua de lá. Oitenta anos de histórias que recorda com maravilhosa delicadeza e liberdade, recusando, contudo, prender-se ao saudosismo e a nostalgia. Ou não fosse a sua lente uma das mais activas de sempre, pronta a capturar a verdade das coisas e a injustiça escondida na sociedade. Momento particularmente tocante - e excepção à regra que tenta manter durante o filme - é aquele em que recorda os amigos que já partiram - vivos nas muitas fotografias que deles tirou, algumas em exposição -, entristecendo-se ao lembrá-los; ou quando fala dos últimos meses de Jacques Demy, por quem realizou Jacquot de Nantes, baseado na sua infância. Agnès tem muito a ensinar, sobretudo por achar ter ainda mais a aprender.

No Dia de Reis, e através de uma prenda de Natal - como é bom ter gente que sabe do que gostamos -, finalmente percebi que, quando crescer, gostaria de ser como Agnès Varda. Visitar as suas praias, perder-me na sua obra, entregar-me às causas como ela se entregou e ainda entrega. Mas receio que tal me esteja vedado; a mim, ou a qualquer outro que o tente. É que Agnès, como todas as figuras da sua envergadura, é impossível de emular, única nas suas particularidades, virtudes e defeitos. A ela - e a quem me ofereceu o DVD, edição da Midas Filmes - um muito obrigado!

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

2012, ano de chicotadas

Desengane-se o leitor que, ao ler o título da mensagem, pensou que se escreveria aqui da crise em que o país se encontra mergulhado. Escreve-se antes de chicotadas cinéfilas, pequenas constatações mais ou menos óbvias nas quais fomos tropeçando ao longo do ano. Breves ingenuidades que mantínhamos em relação Cinema e que se foram dissipando com o volume de filmes visto.

A primeira - e talvez a mais importante - foi a do absurdo que é escrever sobre Cinema. Ou, aliás, não tanto do absurdo, mas da impossibilidade de o fazer com total objectividade. Cada filme que se vê - seja blockbuster ou de autor, bom ou mau, extraordinário ou comezinho - alimenta-se de um pouco de quem o vê, revelando-se, antes de mais, uma experiência subjectiva. Claro que há guidelines, considerações a ter em conta quando se julga um filme, mas, no fundo, o que importa é a nossa própria - e muito pessoal - experiência sobre o que se assistiu. Quiçá por isso seja importante reiterar que nada do que se publica neste espaço tem carácter categórico ou qualquer pretensão de verdade absoluta, correspondendo apenas à análise individual de vários objectos. Seguem-se as restantes lombas.


O tempo não dá tempo.

Infelizmente é verdade. O tempo prossegue indiferente às vontades de quem o vive, e é quando mais se precisa das horas que mais depressa elas se esgotam. Quem gosta de Cinema - e particularmente quem tem como actividade, mesmo que amadora, escrever sobre ele - conhece a seriedade do problema e as limitações por ele impostas. Se de um lado há a necessidade de ver o maior número de obras possível, do outro sobra a certeza de que a pressa é inimiga da perfeição. Se se visualizam muitos filmes, ainda mais ficam por visualizar. 2012 foi o ano em que a condição se fez sentir com maior gravidade entre os membros da redacção, levando a que algumas obras de renome escapassem ao nosso olhar crítico. Fitas como O GEBO E A SOMBRA, de Manoel de Oliveira, ou DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO, de Joaquim Sapinho, constam dessa lista, entrando e saindo de sala este ano sem que, infelizmente, as tivéssemos visto. E nem consideramos os filmes visualizados por apenas um ou dois de nós, caso contrário o rol não teria fim.

Cobrir um festival é cansativo.

Este foi um falso-tropeção: que cobrir um festival era tarefa cansativa já nós imaginávamos, só não contávamos que fosse tanto. Mas vale a pena. No ano em que o Matinée Portuense realizou a sua primeira cobertura intensiva - ou extensiva, conforme a preferência - de um festival, os seus editores sentiram na pele as mazelas de assistir a três ou quatro filmes por dia. Não que a empresa seja particularmente dramática - e também não será caso para tanto, ou não haveria ninguém, excepto masoquistas, a seguir festivais -, mas deixa algumas marcas. Permite, no entanto, a descoberta de algumas pérolas cinematográficas que, não fosse a sua presença nestes certames, passariam despercebidas ao público nacional. Caso, por exemplo, de EL ARTIFICIO, de Jose Enrique March, merecedor de elogios pela sua invulgar magia e amor à Arte.

A shaky camera raramente resulta de acordo com o pretendido.

Mas parece que há cada vez mais gente a achar o efeito engraçado. Principalmente realizadores com poucas obras no currículo - e uns quantos mais experientes - que se vêem à frente de filmes de acção e/ou terror. E se é verdade que em 2012 funcionou em prol de algumas fitas que dela fizeram uso - CHRONICLE, de Josh Trank e PROJECT X, de Nima Nourizadeh -, também o é que foram mais os casos em que a intenção saiu gorada. Escreve-se, entre outros, de THE HUNGER GAMES, de Gary Ross, de V/H/S, antologia de Terror, ou de RED DAWN, de Dan Bradley, cuja tremedeira incessante prejudicou o acompanhamento da acção. Pedia-se mais estabilidade.

O Cinema Português merece ser visto com olhos de ver.

E em sala, de preferência. Num dos seus melhores anos de sempre, com alguns filmes a receberem prémios e aclamação da crítica estrangeira, o Cinema Português provou a impossibilidade de ser encaixotado como um todo nos estereótipos acerca dele mantidos, muitas vezes pelos próprios portugueses. Acabou-se - ou deveria ter acabado - aquela noção dos filmes muito parados e monótonos, feitos a uma só velocidade; ou a de que os filmes lusos eram só mulheres nuas e homens rudes tentados por elas. Claro que ainda há fitas que se inserem nesses dois tipos, é verdade, mas quem se deu ao trabalho de comprovar encontrou em 2012 muitos - e bons - filmes que fogem à(s) regra(s). Dos vistos, de destacar TABU, de Miguel Gomes, e FLORBELA, de Vicente Alves do Ó; nas co-produções contam-se ainda os muito razoáveis COSMOPOLIS, de David Cronenberg, e BONSÁI, de Cristián Jiménez. Por isso, impõe-se a pergunta: em ano de qualidade acima da média, por que razão foram BALAS & BOLINHOS - O ÚLTIMO CAPÍTULO, de Luis Ismael, e MORANGOS COM AÇÚCAR - O FILME, de Hugo de Sousa - e não colocando em causa o mérito relativo de ambos -, os filmes nacionais com mais espectadores durante 2012? Pedia-se, novamente e como já é hábito, mais.

Filmar sobre Cinema não implica, obrigatoriamente, filmar filmes.

Tudo bem, admito que a epígrafe possa ser confusa. Mas pareceu-me o título adequado para a reflexão em causa e assim ficou. 2012 continuou a tendência manifestada activamente em 2011, a de prestar homenagem ao Cinema através do Cinema. Nada contra a (boa) intenção, mas todos sabemos que delas está o Inferno cheio. Provou-se uma vez mais que a subtileza costuma ser o melhor caminho a seguir. Assim, e sem grande surpresa, filmes como BLANCANIEVES, de Pablo Berger, e HOLY MOTORS, de Leos Carax, encantaram-nos mais do que THE ARTIST, de Michel Hazanavicius, e MY WEEK WITH MARILYN, de Simon Curtis, por exemplo, que esparramaram o seu objectivo por toda a obra.

Quem sabe o que faz nunca esquece como o fazer.

Leos Carax voltou às longas-metragens depois de treze anos de interregno, Manoel de Oliveira, Ridley Scott, Chantal Akerman, Alain Resnais e Michael Haneke mostraram o porquê de serem considerados alguns dos melhores naquilo que fazem. E depois há Abel Ferrara, o mais herético dos católicos, que se esmerou, colocando dois filmes - GO GO TALES e 4:44 LAST DAY ON EARTH - no top anual da Cahiers du Cinéma. Valendo o que vale - até porque um dos títulos data de 2007 -, é razão suficiente para lhe(s) bater palmas.

E por último, e já em jeito de apêndice, a mais óbvia das verdades relembradas:

Nem só de excrementos (e demais fluídos) pode viver um filme.

Não pode, nem deve querer fazê-lo. Porque se a graçola ainda cola durante os primeiros minutos - como em ZOMBIE'S ASS, de Noboru Iguchi -, depressa vai perdendo interesse ao longo do filme. Mas o pior acontece quando uma fita que faz uso desses mecanismos, quer pelas (duvidosas) potencialidades cómicas, quer pelas dramáticas, deseja ser levado a sério. Assobiando para o ar, aponta-se na direcção de THE PAPERBOY, de Lee Daniels, abjecto e frustrado na sua tentativa de chocar, conseguindo apenas provocar certo aborrecimento na audiência. Terá sido, porventura, a chicotada mais desagradável de levar.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Quando os anjos descem à Terra

«Every time a bell rings an angel gets his wings.»

Natal é também sinónimo - como, de resto, quase tudo na vida - de cinefilia. De filmes e estórias, épicos e animações, para adultos e crianças. O Cinema reúne a família. Com a escolha dos filmes a variar de lar para lar, havia que se escolher um, entre muitos - e em jeito quase autista, à procura de consensos impossíveis de alcançar -, para destacar no blogue. A fava calhou-me em sorte, e eu, como não vou à bola com aqueles objectos hughesianos em que se deixava o miúdo sozinho em casa durante as festas, virei-me para algo familiar (e que já revi algumas vezes).


Cá por casa é tradição ver-se o IT'S A WONDERFUL LIFE. Não será o único filme que se vê durante a quadra - também há espaço para a bonecada que todos os anos inunda a programação da TV -, mas a obra de Capra, esse mestre do feel good, é a fita natalícia por excelência. Para quem não a conhece, além da recomendação, fica uma breve revista à estória: George vive a sacrificar-se por aqueles que lhe são próximos. Personificação do altruísmo, não há ninguém na pequena cidade de Bedford Falls que dele não tenha algo agradável a dizer. Ninguém a não ser o malvado Potter, senhorio sem escrúpulos. Quando na Véspera de Natal o seu tio perde o dinheiro reservado ao negócio, George considera o suicídio, levando a que Clarence, um anjo sem asas, seja enviado à Terra para salvar a sua vida.

Assim de repente - e admitindo que não será a melhor das suas obras -, tem-se em It's a Wonderful Life um exemplo cabal dos temas habitualmente desenvolvidos por Capra, bem como do seu engenho como realizador. Ele mesmo um imigrante italiano nos EUA, Capra sempre favoreceu nos seus filmes o homem comum, o everyman, nas suas lutas - tanto diárias, como extraordinárias - contra o Sistema. Estereotipa as personagens, representando-as em pólos completamente opostos: os bons são, geralmente, ingénuos e humildes, enquanto os maus surgem cínicos e genuinamente perversos. A Máquina mastiga o Bem até à exaustão, que, derrotado na individualidade, recorre ao colectivo para vencer a batalha. Se é moralista? É. Mas também é bonito que se farta.

Não é, por isso, de estranhar que se escolha Capra - e esta sua obra - para evidenciar os valores que o Natal veicula, ou que assim o espera fazer. Ou que neste estaminé tanto se aprecie o italo-americano, artífice de sonhos e magia. E que se escrevam coisas tão pirosas a seu respeito, de tanta inocência que nos preenche. Mas é assim que gostamos; e, mais importante, é assim que se quer esta época. Com os seus Georges, Clarences e Marys, que nos ensinam a trilhar os caminhos que levam à felicidade. Sem mais por escrever - e com a vontade de ir festejar com a família -, o Matinée Portuense gostaria de desejar aos seus leitores um bom Natal, com tudo de bom o que esta vida tem. E com muitos filmes, é claro, que isso não pode faltar.

António Tavares de Figueiredo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O filme que viveu duas vezes

Há filmes que pedem que não se escreva rigorosamente nada - ou, na extrema necessidade de o fazer, muito pouco - sobre eles. Não porque tenham pouco para nos dizer - também os haverá desse tipo, mas são contas para outra altura -, mas porque nenhuma consideração tecida a seu respeito, por mais eloquente que seja, lhes fará alguma vez a justiça devida. VERTIGO, de Alfred Hitchcock, é exemplo gritante desse preceito, pedindo, como poucas outras obras, visualização atenta e em completa absorção.


Paradigma categórico de fita pensada do primeiro ao último momento, nada parece falhar na obra-prima de Hitchcock. Das cores à iluminação, dos décors ao figurino, do som à imagem, de Stewart a Novak, todos os elementos funcionam - e, mais importante, conjugam-se - na maior das precisões, fruto da direcção cuidada do britânico. Tem-se em Vertigo uma verdadeira e completa lição de Cinema - assim, com honras de capital e tudo -, exemplo irrepreensível do que mais tarde se tentaria reproduzir várias vezes sob a égide genérica do thriller psicológico. Na verdade, o que se tem aqui é algo muito mais complicado, uma representação intrincada da obsessão e sexualidade levada ao extremo dos sentidos.


Talvez por isso Vertigo tenha a necessidade - e aqui será mesmo caso disso - de se reviver a si mesmo, de se repetir quando entra em cena a cópia da cópia, já depois dela se ter extraído a cópia do original (que nunca se chega a ver com clareza). A vertigem do filme não nasce só das alturas e escadarias - apesar das belas cenas que lá se fazem -, mas também da própria narrativa, objecto raro em quase constante convolução. Não será de estranhar, portanto, que o espectador mais desatento corra o sério risco de se perder durante a viagem e não ser capaz de alcançar o seu destino. Para ele, o meu conselho será de paciência. E que insista uma vez mais, que a obra é merecedora de atenção, quiçá como nenhuma outra no Cinema.

António Tavares de Figueiredo

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VERTIGO, de Alfred Hitchcock, encontra-se em exibição nos cinemas UCI El Corte Inglés, em Lisboa, e UCI Arrábida, no Porto. Oportunidade única para experimentar a vertigem em sala, em cópia digital e versão restaurada, meses após ter sido eleito o melhor filme de sempre pela publicação britânica Sight & Sound.

domingo, 16 de dezembro de 2012

As espadas baptizam-se em batalha

É esta a frase que deixa Bilbo muito desiludido. A espada que recebeu nunca andou em lutas e, por isso, não tem nome. As outras racharam gnomos e degolaram orcs, mas a sua, pouco maior do que um pisa-papéis - palavras de um dos anões da companhia, não minhas - não conhece ainda essas andanças. Mas há-de conhecer. Porque THE HOBBIT é (mais) uma obra de Tolkien, na qual desfilam noções tão basilares do autor como a transformação do homem comum em herói, a contestação do Mal pela Bondade ou a Solidariedade como fórmula de vitória em guerras.

E sabe-se que Bilbo aqui é o herói. Primeiro, porque o filme começa com ele a contar - ou melhor, a escrever - as suas aventuras a Frodo. No mesmo dia em que a acção de THE LORD OF THE RINGS [LOTR] começa e Frodo parte na sua própria jornada. Depois, porque logo a abrir é-nos apresentado um Bilbo muito hobbitiano, confortável no seu quinhão e sem grande vontade de partir em descobertas. É mais uma vez Gandalf - sempre ele, sempre o magnífico Ian McKellen - que convoca o protagonista, incutindo-lhe coragem e nobreza de espírito. E assim se inicia mais uma jornada, esta ainda antes da outra.


Nem a sensação que tarda em nos abandonar que, dez anos depois, calhou-nos os restos da montagem anterior retira o entusiasmo que é regressar à Terra Média. À Fantasia mais descaradamente fantástica, passe o pleonasmo, Mundo povoado por Elfos, Anões, Homens, Orcs e Espíritos. E por Hobbits e Feiticeiros, convém não os esquecer. Os inimigos vão-se sucedendo em carrossel - trolls, gnomos e orcs - e há vários decalques a conceitos explorados em LOTR. A relutância de Gandalf em usar magia, a figura do rei nobre - que aqui é Thorin -, uns quantos planos tirados a papel-químico da outra obra. Ideias (demasiado?) familiares num Universo já conhecido.

Mas o momento verdadeiramente arrepiante, a escolher só um, chega ao voltar a ouvir pela primeira vez o tema que Howard Shore compôs para o Shire sobreposto à tipografia facilmente reconhecível. É aí que se retoma o sonho, que se reavê a aventura que pensávamos ter já deixado para trás. O tom é mais leve, a quest não tem o mesmo sentido de urgência, o destino da Terra Média não se decidirá ali. Essas serão contas para mais logo. Na vertigem do 3D a 48 fps - cuja experiência variará de pessoa para pessoa -, a Fantasia ganha um novo realismo, facilitando a imersão no filme. Depois de um primeiro capítulo competente - já se adivinha nova trilogia - aguça-se a curiosidade para o que resta da viagem. Que venha ela, pois, que nós deste lado já estamos preparados!

António Tavares de Figueiredo

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THE HOBBIT: AN UNEXPECTED JOURNEY, de Peter Jackson, encontra-se em exibição nas salas de cinema portuguesas, com a versão em 3D a 48 fps disponível em locais seleccionados. Óptima oportunidade para rever o Universo de Tolkien e personagens como Frodo, Gandalf, Galadriel, Elrond e Gollum.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O carrossel de Jackson

Foi há já mais de uma década que estreou em sala o primeiro tomo da trilogia THE LORD OF THE RINGS, de Peter Jackson. Os três filmes, que varreram prémios e bilheteiras, são considerados, quase unanimemente, uma das franquias cinematográficas de maior qualidade e sucesso. E o caso não será para menos. Adaptados da obra homónima de J.R.R. Tolkien, a epopeia do hobbit responsável por destruir a expressão do próprio Mal é um dos exemplos mais flagrantes de personalidade e inteligência no cinema comercial recente, aquilo a que alguns usam chamar blockbuster de autor. Dos vários exemplos do referido engenho - e não são tão poucos quanto isso - valerá a pena destacar, de todos, o final da saga.

Escreve-se, pois, de THE RETURN OF THE KING e da sua última meia-hora. Para trás haviam já ficado outros dois filmes - THE FELLOWSHIP OF THE RING e THE TWO TOWERS, cujas torres do título Tolkien confessou, em cartas, não saber discernir - e mais de metade do mapa. A Irmandade separara-se no final do primeiro capítulo e os hobbits seguiam agora com Gollum rumo a Mordor para destruir o Anel-Um. Na retaguarda, os companheiros enfrentam as hordas de Sauron, desconhecendo o seu destino ou, sequer, sobrevivência. Assim, e voltando ao final de The Return of the King,  encontramos Frodo profundamente corrompido pelo Anel, acompanhado por Sam, enquanto o resto da Irmandade trava às portas de Mordor a batalha pelo futuro da Terra Média. Não se deve esquecer que o grosso da estória foi escrito durante a II Guerra Mundial, evocando sentimentos de fraternidade, resistência e sacrifício. Outrossim, retoma-se a ideia muito tolkienista de que o herói não nasce, faz-se. Teria sido mais fácil colocar Aragorn, por exemplo, como o portador da jóia ao invés de dar a responsabilidade a um pequeno hobbit; no entanto, o valor moral da fábula seria possivelmente menor. Mais do que a Fantasia, o importante em The Lord of the Rings é a ideia de gente comum a ultrapassar as adversidades e a fazer frente à Injustiça. E assim se entra no carrossel de emoções idealizado por Tolkien e construído por Jackson que nos guia através do fim daquela jornada.


Nas muralhas enfrenta-se - num autêntico leap of faith motivado por um sentido discurso do Rei que regressou - todo o exército de Sauron, num confronto desnivelado e sem qualquer hipótese de vitória. Gritam «For Frodo!», e partem para a carga, hobbits à frente. Do outro lado da parede, a luta é outra, contra o Anel-Um e o seu poder. Acabam por destruí-lo, mas precipitam o desmoronamento de Mordor e a sua própria obliteração. Lá fora os orcs partem em debandada, desorientados pela extinção do seu senhor. Rios de lava, detritos que voam, o colapso do Olho-Que-Tudo-Vê e um dos mais belos planos picados da última década. Os amigos, seguros do seu destino, discutem o what if, o que poderiam ou não ter feito caso não tivessem sido puxados  para aquela aventura. Um fade to black agridoce dá lugar a breves momentos de escuridão e silêncio. Mas eis que surgem as Águias e a Salvação. Frodo acorda junto aos amigos - o primeiro que vê é Gandalf, visivelmente comovido - e o carrossel volta a fazer das suas: ao não ver Sam entre os presentes julga-o morto por alguns segundos, até que o jardineiro entra no quarto e compõe a imagem. Tudo parece bem de novo.

Aragorn é coroado em Gondor. Assiste-se àquela que será, porventura, a sequência mais emotiva da obra: após todos os outros demonstrarem a sua lealdade perante o rei recém-entronizado, e quando os hobbits se preparavam para também eles o fazerem, é-lhes dita uma frase que, de tão arrepiante, merece uma linha só sua para que possa respirar.

«My friends, you bow to no one.»

Acompanhados da mais etérea das bandas-sonoras e por um subtil, mas maravilhoso, travelling in no rosto de Frodo, mais embaraçado do que orgulhoso, os hobbits encontram junto dos Homens e das outras raças que julgam superiores o merecido reconhecimento que lhes escapa no Shire - e nos seus semelhantes -, que desconhece a sua monumental empresa. Quando voltam a casa meses após terem partido apercebem-se de uma dura verdade: apesar de nada ter mudado, eles estão irremediavelmente diferentes. A ignorância é uma bênção. Frodo e Sam cumprem as promessas que fizeram naquela distante rocha em Mordor. Sam casa-se com Rosie e constitui família; Frodo completa as crónicas de Bilbo. Mas Jackson não estava ainda preparado para terminar e dá uma última volta ao carrossel. As feridas de Frodo, provocadas pela lâmina pestífera da corrupção, não saram. Os hobbits iniciam uma última viagem com Gandalf. Foi concedida a Bilbo a honra de viajar com os últimos Elfos para as Terras Eternas. Na hora da despedida são proferidas as dolorosas palavras que já se anteviam. «Frodo, it is time». Choram baba e ranho, mas sabem que é para o melhor; Frodo é também passageiro daquele barco que nunca regressará. As crónicas são confiadas a Sam, num derradeiro gesto de amizade, para que este preserve a memória do que se passou. E volta-se outra vez a casa, ligeiramente mais feliz mas, simultaneamente, mais triste e vazio. É obra!


Jackson enfia com mestria uma roda-viva de sentimentos em pouco mais de trinta minutos de filme. Os (possíveis) finais sucedem-se sem, no entanto, se concretizarem, mexendo com a audiência. O neozelandês consegue o que quase todos querem como poucos o sabem. Quem chora no final de The Return of the King não o fará, certamente, de tristeza; fá-lo de alegria perante a mestria que acabou de presenciar e porque percebe que uma das mais formidáveis aventuras do Cinema chegou ao fim. Quanto a mim, confesso admirador da obra, escrevo sobre The Lord of the Rings com um carinho que não reservo frequentemente - excepto, talvez, para CASABLANCA, PULP FICTION, e mais um punhado de fitas. A razão é simples, foram estes os filmes que me fizeram apaixonar pela Sétima Arte. E eu, que também chorei da primeira vez que o vi, saio sempre da experiência levemente iluminado. O mal, esse, está já feito e consumado: não mais abandonei a sala escura e a luz do projector que a rasga. É lá que mora a minha Terra Média.

António Tavares de Figueiredo

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THE HOBBIT: AN UNEXPECTED JOURNEY, outra das obras de Tolkien, novamente adaptada ao grande ecrã por Peter Jackson, estreia em Portugal esta quinta-feira, 13 de Dezembro.

sábado, 17 de novembro de 2012

Os cavalos do menino Noé

Reza a história que a personagem do Talhante nasceu na primeira vez que Gaspar Noé pôs os pés em França. Criado na Argentina, o menino visitava o país da mãe, e o pai, por algum motivo que escapa à compreensão (à minha, pelo menos), decidiu dizer-lhe que por aqueles lados se comiam cavalos. Bem, não terá dito exactamente que se tragava o bichedo, mas que se consumia a sua carne. Ora, para o menino Noé aquilo era tudo muito estranho, na terra dele não se comiam cavalos. A cabeça dele pôs-se logo a dar voltas e criou a personagem que o acompanharia em mais filmes até ao momento. Nasceu naquele momento o Talhante sem nome, introspectivo e violento, com queda filosófica para monólogos solipsistas e narrações em voz-off.


A obra de Noé será, de resto, uma ode à agressão - das personagens e dos sentidos - e um produto da progressiva dessensibilização da sociedade em relação à violência. Já em CARNE  (*), a sua primeira aparição, o Talhante (brilhantemente interpretado por Philippe Nahon) surgia como uma espécie de anjo da vingança moralmente ambíguo, atacando quem julgava ter violado a filha autista que também ele desejava. Em SEUL CONTRE TOUS, extensão do filme anterior, voltava a revelar os traços quase niilistas que havia evidenciado na curta-metragem; voltamos a encontrá-lo em IRRÉVERSIBLE, derrotado e colhendo os frutos do que semeou com sangue.

A lição a tirar, se é que chega a haver alguma, é que nunca sabemos quais as consequências do que dizemos aos outros. Não imagino que o pai de Gaspar Noé algum dia pensaria que ao afirmar ao filho que os gauleses comiam cavalos estaria a contribuir para a criação de uma das partes mais importantes da sua obra. A verdade é que através da imaginação - e do kubrickiano 2001: A Space Odyssey, segundo o próprio conta - o menino Noé, agora um homem feito, tornar-se-ia um dos realizadores mais criativos da sua geração, pese embora as temáticas e narrativas controversas que aborda. Tudo graças aos hábitos alimentares de um povo.

António Tavares de Figueiredo

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(*) - Acerca de CARNE e SEUL CONTRE TOUS bastará escrever que são o exemplo perfeito de como condensar e limitar uma história ao essencial sem com isso prejudicar o seu desenvolvimento. O que falta ao primeiro em profundidade é compensado com subtileza, do alto dos seus quarenta minutos. Noé recupera a tradição de que melhor do que mostrar é insinuar e deixar a audiência fazer as contas. Isso, e enojá-la com planos gráficos de matança; o início de Carne não é para estômagos fracos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

«Estão vivos outra vez»

Hoje não se escreve aqui sobre filmes. Ou melhor, não se fala de Cinema, que, por vezes, a vida é um filme bem melhor do que a ficção. Mais interessante ainda é construir a nossa própria banda sonora. Para quem não sabe, os Ornatos Violeta, banda mítica do imaginário rock português, reuniram-se este ano para alguns concertos de celebração. Três concertos - Paredes de Coura e Coliseus - cedo passaram a cinco e depois a nove; isto de esgotar nove palcos em três meses é obra. Vi o concerto em PdC, emocionei-me, e ontem repeti a dose. Hoje há outro espectáculo, transmitido pela Antena 3, e pus-me a ouvir a emissão enquanto escrevo estas linhas. Vamos começar?


«O punk moda funk um dia vai voltar»

Comecemos pelo início, que é sempre mais bonito. Ouvi os Ornatos - eu e os meus colegas de blogue - pela primeira vez quando tinha catorze anos. Ainda puto, descobri aquela que viria a ser a banda que há mais tempo me acompanha nos leitores de música e com a qual mais me identifico. Não os cheguei a apanhar em actividade contínua, mas não me lembro quantas vezes já ouvi os seus álbuns. É algo estranho este saudosismo por algo que morreu há tão pouco tempo e tão perto de nós. Seis anos depois, ainda feito puto, assisti ao seu regresso em PdC, agarrado a alguns dos meus melhores amigos, e chorei feito uma Madalena naquela bela canção que dá pelo nome de Fim da Canção. Ontem foi tudo menos melancólico, as músicas do Cão! dão ar de farra à coisa. Mesmo assim, não consegui conter as lágrimas quando ouvi pela primeira vez o refrão da Deixa Morrer. No entanto, e como em PdC não se tocou (quase) nada do Cão!,  a letra que fazia mais sentido nestes concertos nos Coliseus era o refrão da Punk Moda Funk. Lá, em jeito de profecia, prometia-se que um dia se havia de voltar. Dez anos depois, cumpriu-se o que se prometeu ainda antes do fim.

«Isto é voltar sem dor nem mágoa»

Resumindo ao máximo, os Ornatos partem de um sentimento semelhante a um post-grunge português; a vida é uma merda, mas até que podemos ser felizes se fizermos algo por isso. Há rock (tudo muito alternativo para os parâmetros de hoje, normal para os de há 20 anos), há uma espécie de electrónica - aquela introdução da monolítica Tanque, que inaugurou o concerto no anfiteatro de PdC -, e mete-se funk, psicadélica, blues, jazz e mais umas quantas influências pelo meio. O estilo, esse, é muito sui generis e quase um género independente por mérito próprio, imitado por muitas das bandas portuguesas actuais. Do Cão! para O Monstro Precisa de Amigos (excluindo as raridades/b-sides/ inéditos/seja-o-que-for) nota-se um incremento de melancolia, uma sensação de amor que se perde. Não que o sentimento não estivesse presente no primeiro álbum de estúdio do conjunto, até porque é omnipresente na obra dos Ornatos, mas apontava-se mais para a festa, com ritmos mexidos e uma injecção maior de funk. Se em Cão! tínhamos, e falo no plural porque não consigo deixar de pensar que estas músicas pertencem um pouco a todos nós que as ouvimos, pérolas como um Crime à Minha Porta ou A Dama do Sinal, O Monstro aumentava a parada a nível dessa sensação de perda emocional com objectos desoladores como Chaga ou a própria Tanque. A alegria surge há medida que o álbum segue o seu caminho, mas fica sempre tudo mais próximo da catarse do que da felicidade.
Não será por isso de estranhar que os Ornatos Violeta se tenham separado após doze anos de actividade "oficial" (chamemos-lhe isso, à falta de melhor expressão), corria o ano de 2002. Estavam exaustos, dizem eles agora, e sem qualquer perspectiva de futuro para uma banda que os contivesse a todos. Nos dias que correm, fala-se que faltou editar um terceiro álbum de estúdio, o quase mitológico Monte Élvis, mas é impossível não divagar, e pensar que as músicas d'O Monstro, o último álbum de estúdio lançado durante os seus anos de actividade contínua, batem certo em quase todos os pontos com a história dos próprios Ornatos. Enquanto escrevia esta frase ouvia pela rádio a tal Chaga, uma das minhas preferidas, que dita que a dor lembra que há um fim. De facto, e como todas as grandes bandas que já não o são, os Ornatos Violeta encontram-se rodeados por uma aura profética, que, ouvida à distância, é uma espécie de "eu bem te disse", mesmo que a intenção original no momento da composição nem passasse por aí. Também se pode dar o caso - e certamente se dará para muitas pessoas - que os fãs sintam a necessidade de encontrar uma justificação para o fim do conjunto nas suas canções. De qualquer maneira, os sinais estão lá, é só saber onde, e como, os procurar.


«A cidade está deserta»

Depois da magistral abertura em PdC, com a introdução semi-electrónica correndo largos minutos, deixando o público expectante no limiar de uma quebra emocional, decidiram começar as festas (como eles lhes gostam de chamar) nos Coliseus com o epílogo declamado por Vítor Espadinha no single Ouvi Dizer, levado recentemente ao grande público por um concorrente do programa Ídolos. Ironicamente, enquanto se diz que «A cidade está deserta» a audiência do Coliseu vai ao rubro, aplaude, incentiva, também ela declama aquele poema que lida com o desaparecimento do Amor; se as ruas estivessem vazias suspeito que ninguém daquela(s) plateia(s) se importaria. A banda entra em palco, Manel Cruz solta um «Bute nessa?» que nos causa arrepios e começa uma viagem de três horas pela memória colectiva de quem enche aquele espaço. Uma montanha russa emocional, com agradecimentos - não sei se mais da parte da banda do que da do público - no final de quase cada música, que atinge um dos picos na Deixa Morrer; aquele refrão, presságio do que veio, aquele «E aparece assim, acendeu-se a luz, estão vivos outra vez», leva a que a audiência quase silencie o palco com palmas para que depois se peça, suprimindo qualquer esperança, que deixem o seu Amor morrer. É difícil esconder o que nos vai na cabeça naquele momento e o pranto generaliza-se pela plateia. Os músicos cumprimentam-se em palco, Manel beija Nuno Prata e Peixe, Kinörm chega a chorar se vê alguém mais emocionado, Elísio Donas é todo ele sorrisos. É complicado perceber quem está a gostar mais daquela reunião, se a banda, se o público. Tocam-se pequenos tesouros como Notícias do Fundo, o inédito Gato de Dois Chifres, Coisas ou a adolescente 1 Beijo=1000. A audiência, que em PdC chegou a cantar no final do concerto, já sem a banda, a Punk Moda Funk vai à loucura quando Manel Cruz diz pela primeira vez que quer mijar - já em Débil Mental não negavam a sua natureza vulgar -, levando a que o vocalista se entusiasme com uma música que ele próprio confessou já não suportar. E é já altura dos encores.

«Pára-me agora»

Apesar do que muitos acham, nem os Ornatos são só o Manel Cruz, nem o Manel Cruz é só dos Ornatos. Ambos estão bem estampados um no outro, mas é o próprio Manel o primeiro a elogiar Nuno Prata («O fim dos Ornatos também teve coisas boas, como a explosão artística do Nuno Prata. Eu já o tinha como baixista, mas ele agora multiplicou-se.») ou a escrita de Peixe em músicas como Deixa Morrer, que Manel, num acesso de humildade, confessa ser a sua favorita do certame. Toca-se a Capitão Romance com Peixa na guitarra portuguesa (mas sem Gordon Gano) e as "meninas" Raquel e Marta. Por essa altura já se alcançou a catarse: o público, multidão heterogénea que vai desde pré-adolescentes a quarentões que assistiram ao início dos Ornatos, reconciliado com a sua juventude, pula e grita as letras, a banda, com os problemas entre os seus elementos sanados, perde anos e entusiasma-se com as suas próprias músicas. Quando chega a altura de entoar as mágicas O.M.E.M. ou O Amor É Isto o descontrolo é tal que se berra as letras como se se tratassem de palavras de ordem. Sucedem-se objectos lindos como Homens de Princípios («Aquela mão,  segue a minha mão. Vagueia só, segue a condição. Um dia sem, logo fico com. Mulher é deus, dançar é bom.») e Tempo de Nascer e o tempo passa sem que se faça notar. Já se dizia na 1 Beijo=1000 que a ironia da câmara lenta é não dar tempo para pensar. A cabeça anda a mil, passa tudo demasiado depressa. Manel Cruz e companhia têm dificuldade em controlar as emoções. Também eles estão assoberbados pelo que se encontra à sua frente.
O Humanismo - merece maiúscula - em primeiro plano. Não se projecta nada no fundo do palco, não há vídeos nem ecrãs gigantes. Fazem-se uns simples jogos de luzes e deixa-se que as músicas - e os músicos, já agora - falem por si. Manel, acompanhado pela sua guitarra acústica, canta a "sua" Chuva num dos momentos mais intimistas do espectáculo. Eles são os Ornatos Violeta e sabem que não precisam de artifícios para deixar quem gosta deles satisfeito. Tanto que quando chega a hora da eléctrica Pára-me Agora pedem que se deixe algumas pessoas da audiência subirem ao palco para cantarem em tom de provocação as palavras que dão nome ao tema. Aquele gloriosa confusão de vozes, com a banda abraçada aos fãs, constitui por si só um dos momentos mais intensos - e, por sinal, um dos melhores também - de todo o concerto. Eles desafiam que os parem; nós sabemos que não é possível.


«Chegámos ao fim da canção»

Só que sabemos que aquela celebração há-de chegar a um fim. Podemos atrasar o tempo, mas não o podemos parar. A discografia dos Ornatos perdeu a vertigem característica da sua adolescência e ganhou maturidade. Nunca uma banda portuguesa foi alvo de tamanho culto, ainda para mais já bem depois de ter acabado. Manel Cruz brinca que o ponto alto da vida de um grupo é ter os seus cachecóis da candonga; falando mais a sério, é sinónimo da enorme popularidade gozada pelo conjunto portuense. Falam abertamente de antigos integrantes da banda, produtores que contribuíram para a sua carreira e gente que já não se encontra entre eles (nós?). A honestidade destes Ornatos é desconcertante e, provavelmente, não seria possível há uma década. O choque chega com a Fim da Canção. O primeiro verso anuncia o que irá acontecer: aquela festa está prestes a terminar. Mas ainda há tempo para mais uma música, uma das mais belas do seu repertório. E a audiência canta e rejubila.
À uma e meia da manhã, depois de virar de novo a dor e o amor para dentro, é hora de ir para casa como se não tivéssemos acabado de assistir a um acontecimento marcante. Mas nós sabemos bem aquilo que acabamos de ver. As ruas da cidade - daquele Porto que também é deles - voltam a inundar-se de gente e separa-se a multidão que minutos antes, e durante horas a fio, se juntou para homenagear os Ornatos Violeta. Manel Cruz despede-se com um «até sempre», mas sabemos que será difícil voltar a ouvir aquelas canções ao vivo tocadas por aqueles cinco senhores da música portuguesa. Não caio na tentação de lhes chamar génios, mas pouco falta. Ao todo, ouvi três dos concertos - dois in loco e o último pela Antena 3 - e, escrevendo estas linhas finais ao som da última Fim da Canção, tenho a noção que os Ornatos finalmente tiveram a despedida que mereciam; dez anos depois do devido, mas tiveram. Depois de PdC, depois dos Açores, depois de Lisboa, a festa fez-se no Porto e eu, que também os vi no festival minhoto, não desejava ter dito o meu adeus aos Ornatos em nenhum outro lugar. Entre vénias e abraços, despedem-se do público. Os Ornatos Violeta vieram morrer a casa. Só que como tudo neste Universo, do qual também são filhos, nada é eterno, nem mesmo a morte. Ontem fui eu, hoje foram outros, daqui a uma década pode ser que as gerações vindouras venham a ter a oportunidade de descobrir estas pérolas da música portuguesa. A lição a tirar desta festa é que a esperança é mesmo a última a morrer.

«Se o meu peito diz coragem, volto a partir em paz.»

António Tavares de Figueiredo