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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Filme do Mês #7

Todos os meses, o filme com estreia - comercial - nacional que melhor pontuação recebeu da redacção do Matinée Portuense, e o que por cá se escreveu sobre ele.

Novembro, 2014

Depois do longo intervalo, voltamos a escolher como Filme do Mês uma obra de Richard Linklater. Desta feita, é BOYHOOD a merecer a distinção. A crítica - e as nove câmaras vermelhas - pertence a Tiago Rocha.
 

«Richard Linklater ousa deliciar-nos com 12 anos de vivências sem flashbacks, grandes adornos ou efeitos especiais. Uma década (e mais uns trocos) do progresso das personagens, não só enquanto elementos figurativos extrapolados da criatividade de uma mente brilhante (que é a de Linklater), mas também das personagens enquanto actores, representações reais do mundo objectivo.» (TR)

domingo, 30 de novembro de 2014

Sunday Stills #54: "Before Sunrise"


Na semana de estreia em sala de BOYHOOD, o épico de doze anos de Richard Linklater, recordamos BEFORE SUNRISE, um outro início. E confirmamos a nossa suspeita de que Linklater será mesmo um dos grandes autores contemporâneos (conforme já o tínhamos defendido, aqui).

Boyhood (2014)

Depois de ver BOYHOOD sinto-me completamente esmagado perante a brutalidade com que a pelicula encara  a realidade. Não se trata apenas de mais um coming-of-age. O que vemos são dinâmicas de um quotidiano que, de tão mundano, tão comum, tão vulgar e ao mesmo tempo tão único, se torna, ele mesmo, um buraco negro capaz de sugar o espectador para o próprio ambiente fictício que cria  no invólucro da existência (também  ele, diga-se de passagem, incrivelmente rico, natural e verdadeiro).


O filme é simplesmente avassalador. Avassalador pela  maneira como retrata a vida, e avassalador pela forma como o faz.

Não há intermitências no plano temporal de Boyhood- porque também não as há na vida. O tempo avança implacavel e impiedosamente traçando, em duas horas e meia, o desenvolvimento de  Mason (Ellar Coltrane) de um modo longitudinal. 

Contando com actuações absolutamente excepcionais, a narrativa, linear e coesa, expressa harmonia na proporção de drama, comédia, sentimentos e emoções. O argumento é fluído, não existe um sem-sentido nas falas dos indivíduos que não se encaixe perfeitamente naquilo que é a norma em qualquer discurso. Os planos, simplistas e centralizados, são desprovidos de uma necessidade de grandeza, limitando-se a projectar acontecimentos no ponto de vista de alguém que os esteja a ver de fora- e no entanto, é tão fácil para nós (esse alguém que está de fora) identificar-mo-nos com as personagens. Quer sejamos uma criança de 7 anos que se despede com nostálgica tristeza da cidade onde vive, quer sejamos um miúdo de 13 anos que se tenta inserir numa nova escola. Um pai ausente, que procura restabelecer laços afectivos com os filhos, ou uma mãe que tenta desesperadamente conciliar um trabalho precário com a educação dos mesmos. Não importa quem. Não interessam as circunstâncias. Boyhood é a história de uma vida: a minha, a sua, ou a do seu vizinho. 

Richard Linklater ousa deliciar-nos com 12 anos de vivências sem flashbacks, grandes adornos ou efeitos especiais. Uma década (e mais uns trocos) do progresso das personagens, não só enquanto elementos figurativos extrapolados da criatividade de uma mente brilhante (que é a de Linklater), mas também das personagens enquanto actores, representações reais do mundo objectivo. 

Estamos, portanto, na presença de uma obra de arte sem igual, uma experiência cinematográfica como nunca antes vista e que, seguramente, não o será outra vez tão cedo.


Título Original: Boyhood (EUA, 2014)
Realizador: Richard Linklater
Argumento: Richard Linklater
Intérpretes: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella
Fotografia: Lee Daniel, Shane F. Kelly
Género: Drama
Duração: 165 minutos



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Filme do Mês #6

Todos os meses, o filme com estreia - comercial - nacional que melhor pontuação recebeu da redacção do Matinée Portuense, e o que por cá se escreveu sobre ele.

Junho, 2013

Em Junho, votámos pelo reencontro. Do Amor, do Sol, da maresia. E o de Celine e Jesse connosco (o espectador). BEFORE MIDNIGHT, de Richard Linklater, foi o primeiro filme do ano a conseguir a pontuação perfeita. As dez câmaras vermelhas foram-lhe dadas por António Tavares de Figueiredo.


«Tento resolver a questão central que BEFORE MIDNIGHT coloca: será possível ser-se fiel (ao outro, a nós) sem, no entanto, o ser? Não consigo encontrar a resposta. Sei apenas que, a acabar na Grécia, o mais trágico dos destinos - e, voltando ao tal almoço grego, já lembrava um dos convivas que foram os gregos a inventar a Tragédia -, não podia pedir melhor conclusão para a história de Jesse e Celine. Mas a porta, essa, ficou aberta a um novo reencontro. Por agora...» (ATF)

sábado, 8 de junho de 2013

Before Midnight (2013)

Acabado de sair de BEFORE MIDNIGHT, não deixa de ter a sua certa piada que um jovem casal tenha decidido sentar-se na mesa atrás da qual componho estas linhas. Passe a indelicadeza de escutar conversas alheias, lembro-me imediatamente do almoço grego do filme, "regado" a histórias trocadas entre casais em diferentes fases de relacionamento, quando os ouço falar de amor eterno. Da rapariga que do alto dos seus twenties nega a sua existência - antes que a viúva a cale (a ela, e a todos) com a fugacidade da memória do falecido marido - ao patriarca que afirma que no casamento a paixão é substituída pelo pragmatismo de quem cuida do parceiro.


A aceitar essa visão mais prática -e cínica - do tema, Jesse e Celine guiam-se já pelas regras da conveniência. O entusiasmo do boy meets girl, boy loses girl, boy gets girl back dos primeiros capítulos deu lugar à responsabilidade de uma união com duas filhas, mais um do casamento anterior. Sem a liberdade que a família tira, não ensaiam com tanta frequência o charme juvenil e a sexualidade despreocupada de quem abandonava comboios com desconhecidos e perdia voos de regresso a casa por uma noite com amantes recuperados. As personagens de Hawke e Delpy - que, diga-se, são os papéis das suas carreiras - não são as mesmas desses tempos de juventude; ou, melhor, sendo-as, envelheceram (mas sem, necessariamente, amadurecerem). E ainda bem. O espectador que as acompanhou ao longo destas quase duas décadas - importa realçar o tempo que passou desde a primeira noite em Viena - não continuará, certamente, o mesmo. Confirma-se, pois, aquela que julgo ser a característica mais interessante do Cinema de Richard Linklater, a sua rara capacidade de evoluir com as personagens a que se dedica.

Outrossim, reforça-se algo que não me canso de defender: o cineasta norte-americano é um dos grandes auteurs - e um dos mais multifacetados, também - em actividade. De um lado temos o Linklater das trips ácidas, de Dazed and Confused e A Scanner Darkly; do outro, o de câmara rohmeriana, o contador de estórias e explorador de intimidades que tenta congelar a vida em celulóide. Menos certo parece-me, contudo, decantar esses seus dois lados. Ou se tal, mesmo querendo-o, seria sequer possível.

Essa subtil complexidade do trabalho de Linklater manifesta-se com especial força na passagem dos enquadramentos partilhados - a norma nos anteriores filmes e na primeira parte deste - para o esquema de campo-contra-campo adoptado durante a discussão do casal. Nesses momentos em que tudo quase se desmorona - quase? - revela-se a dolorosa verdade que, apesar de indiciada logo desde o início, o espectador escolheu ignorar: há algo de errado no relacionamento entre Jesse e Celine. Ele, onanista, fantasia nos livros que escreve com a sexualidade de outras aventuras (continua um teen americano, como Celine, às tantas lhe diz). Ela, frustrada com a sua ausência, ressente-se desse seu lado fetichista. Já não há romantismo, só desgaste.

O jovem casal que partilhava o pátio comigo já se foi, deixando-me a sós com estas linhas. Revivo mentalmente - com todas as liberdades que o Cinema me permite - a cena final que tenta, mais do que recompor, redimir aquelas personagens por quem me apaixonei, já lá vão alguns anos. E o magnífico travelling-out - todo o filme goza, aliás, goza de uma direcção de fotografia belíssima - que me "puxou", uma vez mais, das suas vidas. Tento resolver a questão central que Before Midnight coloca: será possível ser-se fiel (ao outro, a nós) sem, no entanto, o ser? Não consigo encontrar a resposta. Sei apenas que, a acabar na Grécia, o mais trágico dos destinos - e, voltando ao tal almoço grego, já lembrava um dos convivas que foram os gregos a inventar a Tragédia -, não podia pedir melhor conclusão para a história de Jesse e Celine. Mas a porta, essa, ficou aberta a um novo reencontro. Por agora...


Título Original: Before Midnight (EUA, 2013)
Realizador: Richard Linklater
Argumento: Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke (baseados nas personagens de Richard Linklater e Kim Krizan)
Intérpretes: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Walter Lassally, Ariane Labed, Yiannis Papadopoulos, Athina Rachel Tsangari, Panos Koronis
Música: Graham Reynolds
Fotografia: Christos Voudouris
Género: Drama
Duração: 108 minutos