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domingo, 30 de novembro de 2014

Boyhood (2014)

Depois de ver BOYHOOD sinto-me completamente esmagado perante a brutalidade com que a pelicula encara  a realidade. Não se trata apenas de mais um coming-of-age. O que vemos são dinâmicas de um quotidiano que, de tão mundano, tão comum, tão vulgar e ao mesmo tempo tão único, se torna, ele mesmo, um buraco negro capaz de sugar o espectador para o próprio ambiente fictício que cria  no invólucro da existência (também  ele, diga-se de passagem, incrivelmente rico, natural e verdadeiro).


O filme é simplesmente avassalador. Avassalador pela  maneira como retrata a vida, e avassalador pela forma como o faz.

Não há intermitências no plano temporal de Boyhood- porque também não as há na vida. O tempo avança implacavel e impiedosamente traçando, em duas horas e meia, o desenvolvimento de  Mason (Ellar Coltrane) de um modo longitudinal. 

Contando com actuações absolutamente excepcionais, a narrativa, linear e coesa, expressa harmonia na proporção de drama, comédia, sentimentos e emoções. O argumento é fluído, não existe um sem-sentido nas falas dos indivíduos que não se encaixe perfeitamente naquilo que é a norma em qualquer discurso. Os planos, simplistas e centralizados, são desprovidos de uma necessidade de grandeza, limitando-se a projectar acontecimentos no ponto de vista de alguém que os esteja a ver de fora- e no entanto, é tão fácil para nós (esse alguém que está de fora) identificar-mo-nos com as personagens. Quer sejamos uma criança de 7 anos que se despede com nostálgica tristeza da cidade onde vive, quer sejamos um miúdo de 13 anos que se tenta inserir numa nova escola. Um pai ausente, que procura restabelecer laços afectivos com os filhos, ou uma mãe que tenta desesperadamente conciliar um trabalho precário com a educação dos mesmos. Não importa quem. Não interessam as circunstâncias. Boyhood é a história de uma vida: a minha, a sua, ou a do seu vizinho. 

Richard Linklater ousa deliciar-nos com 12 anos de vivências sem flashbacks, grandes adornos ou efeitos especiais. Uma década (e mais uns trocos) do progresso das personagens, não só enquanto elementos figurativos extrapolados da criatividade de uma mente brilhante (que é a de Linklater), mas também das personagens enquanto actores, representações reais do mundo objectivo. 

Estamos, portanto, na presença de uma obra de arte sem igual, uma experiência cinematográfica como nunca antes vista e que, seguramente, não o será outra vez tão cedo.


Título Original: Boyhood (EUA, 2014)
Realizador: Richard Linklater
Argumento: Richard Linklater
Intérpretes: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella
Fotografia: Lee Daniel, Shane F. Kelly
Género: Drama
Duração: 165 minutos



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

300: Rise of an Empire (2014)

Do realizador Noam Murro e com a participação de Zack Snyder, nasce a sequela do filme 300 na tentativa de recriar o sucesso entre o público. 300: RISE OF AN EMPIRE retrata a continuação da guerra entre a Grécia e a Persa mas desta feita, pela prespecitva ateniense.


Themistokles (Sullivan Stapleton) é um general ateniense encarregado de unir a Grécia e preparar a defesa contra a ofensiva militar persa liderada por Xerxes (Rodrigo Santoro). A acção vai se desenrolar em paralelo com a do primeiro filme mas desta vez, no mar onde a poderosa frota persa controlada por Artemisia (Eva Green) dominava. Mais uma vez, os gregos são colocados numa situação de uma colossal desvantagem numérica que Themistokles tem que lidar, usando astucia e estratégias militares para impedir o avanço persa.

O filme anterior era apenas sobre guerreiros bem treinados em combate diário com inovadoras cenas de acção que impressionam o espectador e não deixava de transmitir um certo heroísmo pelo sacrifício destes trezentos heróis. Este filme no entanto, trata-se apenas de sangue em 3D. Do início ao fim somos banhados no constante sangue que jorra dos ferimentos dos persas enquanto são trinchados em slow motion aleatório e planos que mais parecem retirados de um jogo gore, onde as personagens deverão decerto ser descendentes de deuses pois de outra forma não sei como seriam capazes de sobreviver certos feitos definitivamente inumanos.

Não sei se a ideia era transmitir o misticismo inerente a mitologia grega mas certos pontos do enredo podem ser consideradas simplesmente treta. A tentativa de ilustrar a transformação de Xerxes em Rei-Deus que tão cedo me deixou céptico em relação ao resto do filme e a estranha cena de sexo são dois bons exemplos disso.

No entanto, a inferioridade de 300: O Início de um Império em comparação com o filme de 2004 não o impediu de receber boas críticas, certamente influenciadas pelo papel de Eva Green como Artemisa, capitã da frota persa que viveu a infância torturada e abusada por captores gregos, sendo afectada por um ódio profundo e uma sede de vingança pela Grécia. A grande actuação da viciosa e implacável Artemisa conseguia sempre prender a atenção, e constitui um ponto positivo do filme.

Para os que apreciaram o filme antecessor, deverão ser capazes de ver este filme com algum interesse. Se não são fãs do sague e violência do primeiro, será um filme a evitar pois é apenas um aumento no gore a juntar a maus efeitos especiais e piores slow motions.


Título Original: 300: Rise of an Empire (EUA, 2014)
Realizador: Noam Murro
Argumento: Zack Snyder, Kurt Johnstad
Intérpretes: Sullivan Stapleton, Eva Green, Lena Headey, Hans Matheson, Callan Mulvey, David Wenham, Rodrigo Santoro
Música: Junkie XL
Fotografia: Simon Duggan
Género: Acção, Fantasia
Duração: 102 minutos


sábado, 22 de novembro de 2014

20,000 Days on Earth (2014)

Durante muito tempo quis acreditar que o Nick Cave-artista não poderia ser o mesmo que o Nick Cave-pessoa. Enfim, que haveria alguma diferença, mesmo que eu não a soubesse ou pudesse identificar, entre os dois. Mantive esse crença desde o momento em que o meu interesse por Nick passou simplesmente das suas músicas para a figura em si (e quem o conhece perceberá perfeitamente o porquê). Depois de 20,000 DAYS ON EARTH tenho já as minhas dúvidas.


[Para contextualizar, devo escrever que, das muitas bandas que fui ouvindo durante a adolescência, Nick Cave & The Bad Seeds foi das únicas que se aguentou persistentemente nos meus leitores de música até aos dias de hoje. Não que esteja tão longe dos meus teens quanto isso, mas acho que essa preferência demonstra bem a minha admiração pela sua obra. Não se espere, portanto, muita isenção da minha parte neste caso.]

Retomando o parágrafo inicial, tenho agora dúvidas sobre a existência de uma fronteira entre as duas formas de Nick. Dúvidas sérias, devo acrescentar. Iain Forsyth e Jane Pollard - que estão já habituadíssimos a trabalhar o material de Nick - abalaram a minha fé profunda de que aquela personagem só existira, só poderia existir, numa dimensão ficcionada. Malditos sejam, por me fazerem desconfiar dos meus dogmas! Mostraram-me que, afinal, o Nick das baladas assassinas, essa criatura verdadeiramente sobrenatural, pode ser real. Não estou a dizer que seja, mas, sendo-o, a barreira que separa o performer do everyday man é vulnerável a transmissões osmóticas em ambos os sentidos. É Nick quem o admite quando fala da sua relação com a mulher: ele canibaliza-a nas letras que escreve, perpetuando, quase prostituindo, momentos íntimos em objectos para o público. Faz parte do pacto entre eles. Será uma prova de amor?

E, caso se trate de uma prova de amor, será de Amor a quê(m), à sua Arte ou à mulher? Novamente, não consigo afirmar com absoluta certeza. Nick ama a mulher, tudo bem. Mas não amará também a audiência que lhe permite a transformação (ou a sua ilusão) de que tanto fala?

Nada é claro no Universo Caveniano. Nick não deixa que seja. No seu Mundo psicanalítico, visceral, brutalmente sexualizado, não há lugar para maniqueísmos, apenas para ambiguidades. Nick não é moralista; essa tarefa reserva aos homens. Não, ele, que aspira à condição de Deus dentro da sua criação, contenta-se com a função de observador e catalisador das acções das suas projecções. Às tantas, surge uma cena de um concerto dos The Bad Seeds: Nick aproxima-se de uma jovem na primeira fila, coloca a mão dela sobre o seu coração e pergunta-lhe se o consegue sentir a bater. Ela diz quem sim, Ele diz que não. Como poderia ela, uma mera mortal, ousar sentir o seu Deus? Simples: não pode. Resta-lhe a catarse oferecida por aquele Deus diabólico, que aparecerá, invariavelmente,  momentos mais tarde ao som de Stagger Lee, com Warren Ellis a tocar violino que nem um desalmado, expiação possível para todos os males deste Mundo e do Outro. A pobre moça pecou (e tanto sabe que pecou que, mal Nick se desprende, baixa logo a cabeça em sinal de contrição), mas Nick é um Deus generoso que lhe perdoa o deslize. Daquele exorcismo colectivo a que preside todos saem com a justa absolvição que procuram.

20,000 Days on Earth é, dessa maneira, um filme enorme. Enorme por se centrar numa personagem já de si enorme, e enorme por ser capaz de encaixar em pouco mais de hora e meia tantas e tantas facetas diferentes - memória e presente, fantasmas e pessoas, (des)construção lírica e processo criativo, drama e documentário - de um dos artistas mais versáteis em actividade. 20 000 dias na Terra - qualquer coisa como 55 anos, menos uns trocos - é muita coisa. E Nick, que soube envelhecer, principalmente por não ter envelhecido, viveu-os a todos. Quem venham outros 20 000, e outros, e outros... From H[im] To Eternity.

«At the end of the 20th century, I ceased to be a human being.»


Título Original: 20,000 Days on Earth (Reino Unido, 2014)
Realizador: Iain Forsyth, Jane Pollard
Argumento: Nick Cave, Iain Forsyth, Jane Pollard
Intérpretes: Nick Cave, Warren Ellis, Ray Winstone, Blixa Bargeld, Kylie Minogue, Susie Bick
Música: Nick Cave, Warren Ellis
Fotografia: Erik Wilson
Género: Documentário, Drama, Música
Duração: 97 minutos


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Noah (2014)

NOAH, de Darren Aronofsky, é um drama adaptado da narrativa da Bíblia referente à Arca de Noé mas com algumas discrepâncias com a introdução de uma época feudal, incluindo até guerras estilo fantasia.


A base da história não é muito diferente da que estamos habituados a ouvir. Noah, (Russel Crowe) descendente de Adão, tenta sobreviver rodeado de homens marcados pela corrupção e pecado que ameaçam a sua vida pacífica. Através dos seus sonhos, prevê a iminente destruição da humanidade pelo Criador, através de um dilúvio capaz de limpar o mal e castigar os pecadores. De forma a poupar os inocentes, Noah é encarregado de construir uma arca capaz de suportar e proteger os animais durante a chuva, para que eles se reproduzam no novo mundo.

Na tentativa de expressar a história por imagens, o esforço de revelar respostas a problemas éticos poderiam impressionar se o desenrolar da acção não fosse tão lento e enfadonho, de quase adormecer, perguntando quanto tempo falta para acabar um filme de duas horas que mais parecem quatro. Podia ter alguém a ler-me a história bíblica, que não ficaria mais aborrecido.

Tenho pena em notar que Russel Crowe continua a baixar os seus parâmetros em relação à sua participação em filmes depois de protagonizações tão marcantes, com este desempenho do elenco, em geral, presos a personagens com pouca evolução e formas de pensar fechadas e contraditórias.

Quanto aos efeitos especiais, há uma combinação do Criacionismo com Darwinismo para explicar o início da Terra e o criador revela a sua existência através de truques de magia, anjos caídos muito pouco realistas e nada impressionantes. Verdade seja dita, esses truques milagrosos conseguem ser tão aborrecidas como a acção.

Para quem não seja assim tão fácil de impressionar, este filme é  mais uma dor de cabeça longa e dolorosa, e cerca de duas horas desperdiçadas.


Título Original: Noah (EUA, 2014)
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Darren Aronofsky, Ari Handel
Intérpretes: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins, Emma Watson, Logan Lerman
Música: Clint Mansell
Fotografia: Matthew Libatique
Género: Acção, Aventura, Drama
Duração: 138 minutos


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Persepolis (2007)

De Marjane Satrapi só conheço, infelizmente, os filmes dirigidos a meias com Vincent Paronnaud. Não posso, pois, compará-los nem com as novelas gráficas que lhes serviram de base, nem com os seus trabalhos posteriores, a solo. Erro crasso, lacuna a suprir urgentemente, eu sei, amigo leitor. Posso, contudo, comparar PERSEPOLIS a Poulet aux prunes, a segunda obra da dupla, e a partir daí (tentar) tirar as minhas conclusões.


Escreva-se que, à primeira vista, a principal diferença entre os dois filmes reside na utilização da cor. A monocromia de Persepolis, com o negro muito acentuado, contrasta com a explosão colorida de Poulet aux prunes. Mais, o negro em Persepolis, de tão cerrado, parece oprimir frequentemente as suas personagens - recorde-se, a propósito, o inspirado plano que fecha o rosto de Marjane nos véus da polícia religiosa; o negro elimina e sobrepõe-se a (quase) tudo o resto. Em Poulet aux prunes não existem esses constrangimentos: é tudo mais aberto, mais feliz, mais despreocupado.

Outra das questões relevantes prende-se com o onirismo e a realidade presentes em ambos os trabalhos, e com o seu peso relativo. Persepolis e Poulet aux prunes constroem-se em torno das memórias familiares de Satrapi. Mas enquanto que no segundo essas recordações se erguem entre sonhos e fantasias, atingindo, a espaços, contornos Jeunetianos, no primeiro elas fundam-se, sobretudo, na realidade, mesmo quando, a certa altura, somos encarados por Deus (e Marx). Persepolis é, dessa maneira, um objecto muito mais denso do que o seu sucessor, talvez pela sua história ser, também ela, mais urgente e próxima à autora.

Mas é exactamente aí que o desconhecimento da obra individual quer de Satrapi, quer de Paronnaud, se faz sentir com maior intensidade: é-me impossível saber ao certo a contribuição de cada um deles para a equação final. Será que a presença de Satrapi se prende mais ao raconto, e a de Paronnaud ao lado estético? Será que Paronnaud limitou-se a ser a porta de entrada de Satrapi numa indústria desconhecida?

Seja como for - e, em última análise, essas interrogações são de somenos importância para o que aqui pretendemos -, Persepolis não tem medo de se assumir como a obra imensa que é. Marjane acaba uma estrangeira tanto no seu Irão como no Ocidente. Ali, pela liberdade que lhe roubam, asfixiando-a; aqui, por não se identificar com um estilo de vida para o qual não foi educada. Resistindo ao niilismo, resta-lhe apenas permanecer fiel à sua identidade cultural e às promessas feitas.

Será Persepolis o filme culturalmente mais relevante da última década? Ao misturar Arte e entretenimento, História e estória, Política e Religião, apelando, simultaneamente, a audiências ocidentais e iranianas, merece, pelo menos, alguma consideração nesse sentido. Por os regimes ainda se sucederem e as guerras continuarem a existir, urge (re)descobrir este monumento sociopolítico. E ouvir muito atentamente aquilo que Marjane tem para nos dizer.

[Persepolis é hoje exibido na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, às 21h00, integrado no QUÓRUM: Ciclo Cinema & Política. Oportunidade de ouro para ver, ou rever, uma das obras mais actuais do Cinema contemporâneo.]


Título Original: Persepolis (EUA/França, 2007)
Realizador: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud
Argumento: Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud
Intérpretes: Chiara Mastroianni, Danielle Darrieux, Catherine Deneuve, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes Benites 
Música: Olivier Bernet
Género: Animação, Biografia, Drama
Duração: 96 minutos



sábado, 15 de novembro de 2014

The Deep (2012)

Contos de sobrevivência sempre me intrigaram - apelativos ao público maioritário, no entanto moralmente dúbios e fracos em conteúdo. Histórias verídicas, desde aventuras tresloucadas a simples acidentes de trabalho, deixam os seus protagonistas mundanos nas situações mais adversas, levando o(s) nosso(s) herói(s) a testar os seus próprios limites, tudo em prol da sobrevivência. THE DEEP, de Baltasar Kormákur, não foge à regra e apesar de se revelar uma verdadeira conquista cinematográfica, não desencadeia uma chama suficientemente forte para aquecer esta desventura gélida.


Seguimos, portanto, Gulli (Ólafur Darri Ólafsson), um simples pescador a quem o destino reserva dificuldades capazes de gelar os ossos. único sobrevivente dum naufrágio em alto mar no oceano atlântico, perto da costa sul da Islândia, Num ambiente onde o comum dos mortais vacila numa questão de poucos minutos, Gulli escapa graças a nada mais que um milagre e a sua boa camada de "gordura de foca", suficiente para suportar a baixa temperatura durante horas e uma planície de rocha vulcânica, descalço.

The Deep, ironicamente, não é tão profundo quanto ambiciona. Parece-me talento desperdiçado. actores surpreendentemente bons, um trabalho exemplar por parte de Baltasar Kormákur, deitado a perder por um enredo pouco envolvente. Talvez apenas 45 minutos bastassem, toda a inutilidade do aftermath acaba por pesar demais. Não que ver a vida miserável do pobre coitado (ainda pior depois de tudo) seja intolerável, apenas desnecessário e chato, para algo já inicialmente pouco cativante.

No fundo, é apenas mais uma tragédia individualista sem verdadeira paixão nem razão de ser. O facto que nada desta provação despolete qualquer tipo de resposta emocional da minha parte, é o suficiente para adormecer nos primeiros 5 minutos. Embora irrelevante, não me refiro apenas ao quão pouco sentido me fez, mas o quão pouco sentido fará para o restante público. Apenas uma questão resta - infortúnios aleatórios a pessoas aleatórias serão sempre inspiradoras?


Título Original: Djúpið (Islândia, 2012)
Realizador: Baltasar Kormákur
Argumento: Jón Atli Jónasson, Baltasar Kormákur
Intérpretes: Ólafur Darri Ólafsson, Jóhann G. Jóhannsson, Stefán Hallur Stefánsson, Bjorn Thors, Þröstur Leó Gunnarsson
Música: Daniel Bjarnason, Ben Frost
Fotografia: Bergsteinn Björgúlfsson
Género: Drama
Duração: 95 minutos


domingo, 9 de novembro de 2014

Only Lovers Left Alive (2013)

À primeira cena de ONLY LOVERS LEFT ALIVE fica logo muito claro aquilo a que se está prestes a assistir: as estrelas rodopiam, Tilda Swinton rodopia, Tom Hiddleston rodopia, um disco rodopia, com a câmara a aproximar-se a cada corte, num picado (quase) absoluto, fechando nos rostos das personagens que despertam. Estamos perante almas-gémeas separadas, dois seres empurrados para diferentes cantos do globo, mas que, ainda assim, conseguem sentir a presença um do outros.


O movimento inicial repetir-se-á mais à frente no filme, quando os dois amantes estiverem já reunidos. Quem sabe, o movimento inicial poderá, também ele, ser uma repetição de um outro anterior. Mas nada disso parece importar. Adam e Eve (tão bíblico) estão, de novo, juntos. Ela, muito alva; ele, muito negro. Imortais numa cidade morta - toda a gente parece ter fugido de Detroit -, deambulam pelas ruas à noite, sem fim programado.

Quatro coisas saltam à vista neste Only Lovers Left Alive: 1) a magnífica fotografia de Yorick Le Saux, entre a nitidez dos pretos e brancos e a fluorescência dos néons destingidos; 2) o gosto pelo antigo dos vampiros de Jim Jarmusch, demonstrado na escolha dos carros, das roupas, da música e dos objectos com que se rodeiam; 3) a ideia de que o Cinema de Jarmusch se continua a fazer mais pela viagem do que pelo destino propriamente dito; e 4) a importância que se atribui ao toque (e ao analógico) num mundo cada vez mais digital.

Assim, nestes vampiros perdidos algures entre o patetismo dos de Neil Jordan e o vício dos de Abel Ferrara, encontramos a ironia da questão: quem já viveu demasiadas vidas conta o tempo com um interesse maior do que quem só viveu uma. Daí se explica o culto por tudo o que é vintage, pelo antiquado, pelo descontinuado. Quando já nem o sangue (ou a água, como às tantas se diz) é puro, será que ainda vale a pena existir?

 No final, é a câmara que desmente o próprio título. Os vampiros, já sem nada, precipitam-se sobre um casal de namorados. Corte para preto. Se nem os amantes sobrevivem nesta impureza, que razão sobrará para que se continue a Amar?

[Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch, é exibido hoje pelo Cineclube de Vila do Conde no Teatro Municipal de Vila do Conde, às 21h45.]


Título Original: Only Lovers Left Alive (Alemanha/Grécia/Reino Unido, 2013)
Realizador: Jim Jarmusch
Argumento: Jim Jarmusch
Intérpretes: Tilda Swinton, Tom Hiddleston, Anton Yelchin, Mia Wasikowska, John Hurt, Jeffrey Wright
Música: SQÜRL, Jozef van Wissem
Fotografia: Yorick Le Saux
Género: Drama, Romance, Terror
Duração: 123 minutos


sábado, 8 de novembro de 2014

Interstellar (2014)

«Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente.»

Christopher Nolan teve a sorte e o azar de ter começado a carreira perto da viragem do século. A sorte, porque tal lhe permitiu dispor já dos meios tecnológicos e da filmografia de base - Stanley Kubrick, Andrei Tarkovsky e Terrence Malick, citando apenas os mais importantes - que tornaram possível a criação de INTERSTELLAR. O azar, porque o advento da Era da Informação o deixou mais vulnerável às falhas (e ainda são algumas) que lhe apontam enquanto realizador. A verdade, contudo, é que, a cada filme que passa (e vamos no nono), Nolan continua a entregar obras capazes de homogeneizar a opinião de grande parte da crítica e, sobretudo, do público.


Uma equipa de astronautas, face ao esgotamento dos recursos da Terra, é enviada para o espaço em busca de um novo planeta que sirva de lar à Humanidade. É essa a premissa de Interstellar, o mais evidente à superfície, ainda que o seu verdadeiro escopo seja imenso, demasiado para que caiba numa sinopse tão simples.

Nolan volta a brincar às sinédoques e aos duplicados - o todo pela parte, a parte pelo todo -, como já o havia feito em The Prestige, trocando a humanidade das suas personagens pela Humanidade em geral. Vejamos, o pathos do indivíduo - e os filmes do inglês sempre viveram muito desse sentimento de dor e angústia - passa aqui a pathos de toda uma espécie que enfrenta a extinção, ao mesmo tempo que todo o seu destino se encontra depositado sobre os ombros de um só homem. E Cooper, o [h]omem (um Matthew McConaughey acabadinho de sair da sua consagração), honra o peso da responsabilidade que carrega com as suas decisões, confundindo-se, outrossim, com todos os seus semelhantes - a certa altura uma das personagens repara que o Brand de Michael Caine hipotecou a sua humanidade em prol da Outra -, conservando a [H]umanidade.

Tal como Malick em The Tree of Life, Nolan pergunta, afinal, o que é ser humano. A resposta que encontra vai para além da mera sobrevivência: trata-se de conservar a compaixão, o altruísmo e, às tantas percebe-se, o Amor. É essa a mensagem enfiada nas quase três horas de filme.

E pese embora Nolan nem sempre se revela à altura das suas influências - falta-lhe, por exemplo, o génio analítico de Kubrick, a poesia de Malick, ou a veia filosófica de Tarkovsky -, é de lhe admirar o desejo de criar um épico à sua imagem, o exercício de cinefilia a que tão profundamente se entrega. Quer isto dizer que Nolan, mesmo não se tratando de um exímio tarefeiro - será, sobretudo,  um cineasta de público -, consegue, ainda assim, uma obra merecedora das que lhe antecederam, uma vénia muito digna aos Mestres do passado.

Talvez se venha a escrever sobre Interstellar, daqui a vinte, trinta, quarenta anos, com o mesmo carinho com que hoje se escreve sobre 2001: A Space Odyssey ou  Solyaris (filmes superiores, daqueles que nos assombram muito após os termos deixado). Ou talvez se perca entre a restante filmografia de Nolan - à semelhança do que aconteceu com Insomnia e The Prestige, ofuscados pela maior dimensão mediática de obras menores - como uma nota de rodapé do que foi o Cinema de início deste século. Aconteça o que acontecer, Interstellar deverá ser relembrado como o filme que devolveu Nolan à sua melhor forma. E isso, quanto a mim, já lhe justifica o elogio rasgado, rasgadíssimo, que hoje lhe faço.


Título Original: Interstellar (EUA/Reino Unido, 2014)
Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Intérpretes: Matthew McConaughey, Mackenzie Foy, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Matt Damon
Música: Hans Zimmer
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Género: Comédia, Drama
Duração: 169 minutos


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Aimer, boire et chanter (2014)

Coube a Scott Foundas, crítico da Variety, uma das melhores descrições de Alain Resnais (e do seu Cinema): «If Resnais had gone into the culinary arts instead of the cinematic ones, then surely he would have emerged as a molecular gastronomist avant la lettre (...)». A frase parece-me especialmente feliz se vista à luz da última fase da carreira do cineasta francês - ou seja, a partir de meados da década de oitenta -, quando Cinema e Teatro se passaram a confundir mais frequentemente. AIMER, BOIRE ET CHANTER, a última obra de Resnais (entre nós, póstuma), segue essa tendência.


Não é invulgar que a última obra de um cineasta - e mais ainda, caso se trate de um grande cineasta como Resnais - cheire já um pouco a túmulo. E que se tente fazer dela a súmula de toda uma vida, um resumo de tudo o quanto ficou para trás. Escreva-se, em boa verdade, que Resnais não escapou à maldição; aliás, não creio sequer que lhe tenha querido escapar. Antes, soube jogar com ela, acolhendo-a, como já o tinha feito com Vous n'avez encore rien vu.

Fazendo um breve exercício de inversão cronológica entre os seus últimos dois filmes, fica a dúvida se Resnais sabia que Vous n'avez encore rien vu não seria o seu derradeiro projecto, que sobraria tempo para mais um. Passo a explicar: apesar de em ambas as obras a morte ser um tema recorrente, em Aimer ela é ainda iminente, algo por acontecer, ao passo que em Vous n'avez encore rien vu ela permeia grande parte da acção, servindo-lhe de mote (basta lembrar a personagem de Mathieu Amalric).

O ponto a reter será, talvez, que Resnais não tentou fugir ao seu destino (ao dele e, eventualmente, ao de todos nós). Em Aimer - e não será George Riley, o ausente-presente, o próprio Resnais? - empurra-o um pouco para a periferia, é certo, mas não o ignora; sabemos, desde o princípio, que só há maneira de fechar o filme: com um funeral. É esse o último plano que nos fica do Mestre francês, o de uma fotografia da Morte colocada sobre um caixão (o seu?) por uma jovem (a mesma de Vous n'avez encore rien vu?). É essa imagem que encerra o(s) capítulo(s) que Resnais inscreveu na História do Cinema - ele, a quem pertencem alguns dos momentos mais belos e importantes da Sétima Arte -, um aceno à sua mortalidade imediata.

Resnais, que provou a existência de diferenças basais entre ser um mero filmmaker ou um verdadeiro cineasta, soube acompanhar-se de gente leal e muito capaz nestas suas últimas viagens. Dos actores que marcam a sua obra, filmados em planos ora muito abertos, ora muito fechados, à cenografia e sonoplastia, houve a vontade de dar continuidade à qualidade que tão singularmente pautou o seu trabalho.

É em casos como este que o pró-forma de pontuar filmes (e, particularmente, este filme em concreto) se revela, além de absurdo, ingrato: desde logo, porque Resnais merece mais câmaras vermelhas do que as que eu lhe posso dar; depois, porque Aimer não é, nem de perto, nem de longe, um filme brilhante, muito menos um dos melhores do seu autor. Contas feitas, o Cinema ficou mais pobre sem Resnais; mas infinitamente mais rico por ter podido contar, durante décadas, com a visão deste grande - grande? enorme, E-NOR-ME! - artista.

[Alain Resnais morreu no passado dia 1 de Março, em Paris. Foi-se o cineasta, ficou a obra, esqueleto - e, sobretudo, alma - do que foi um dos obreiros mais incansáveis e interessantes da História do Cinema.]


Título Original: Aimer, boire et chanter (França, 2014)
Realizador: Alain Resnais
Argumento: Laurent Herbiet, Alain Resnais, Jean-Marie Besset (adaptado da peça de Alan Ayckbourn)
Intérpretes: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihot, Michel Vuillermoz, Sandrine Kiberlain, André Dussollier
Música: Mark Snow
Fotografia: Dominique Bouilleret
Género: Comédia, Drama
Duração: 108 minutos


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Horns (2014)

HORNS, de Alexandre Aja, promete surpreender com humor e verdadeiros momentos alucinantes, não  fosse a falta de organização e coerência este seria o filme do ano. O filme, adaptado do romance de Joe Hill King com o mesmo nome, com duas horas, prolonga-se demasiado mesmo não tendo tempo suficiente para tudo.


Quando a sua namorada, Merrin (Juno Temple), é violada e assassinada, Ig Perrish (Daniel Radcliffe) é defrontado com acusações de toda a comunidade. Sem provas para determinar o que realmente aconteceu, apenas existem especulações e Ig é forçado a viver atormentado. Após uma das suas piores noites, Ig cresce um par de cornos. Um par de cornos que fazem com que todos sucumbam aos seus desejos mais íntimos e confessem os seus maiores segredos. Ig apercebe-se do poder que possui e parte a procura do verdadeiro culpado pela morte de Merrin, mesmo que pelo caminho cause algum caos.

Daniel Radcliffe volta em grande com mais um desempenho interessante, no papel de Ig Perrish consegue dar dinâmica a uma personagem com muita inconsistência. Juntamente com Alexandre Aja, Horns estaria bem encaminhado para se tornar num favorito, uma boa mistura de comédia negra com a quantidade certa de drama trágico. Infelizmente não há coerência suficiente no enredo e o desenvolvimento é muito  indeciso. As personagens giram a volta de um tornado confuso de emoções, que nem o talento dos actores consegue apaziguar e ficamos com alguns momentos pouco convincentes e estranhos. Um argumento com uma das tentativas mais fracas a causar algum tipo mistério, o que imediatamente cortou muito do interesse. Felizmente, Radcliffe e Juno Temple surpreendem pela positiva ao criar alguma química como casal com o pouco que lhes é dado, colocados entre a espada e a parede (neste caso o argumento confuso e as personagens instáveis), conseguem dar algum sentido a muita da desorganização. 

Talvez o melhor aspecto desta visão fantasiosa sejam os seus ocasionais momentos de loucura e prazeres caóticos, Alexandre Aja apenas triunfa na execução destes, deixando muito a desejar no resto do filme. Quando não somos entretidos pelos devaneios, somos aborrecidos pelos momentos mais melodramáticos que nem convencem nem comovem. Este vaivém entorpecido acaba por se tornar cansativo até ao momento que decide esquecer o seu rumo e despenhar-se. Apenas resta o sentimento de que falta mais qualquer coisa e no entanto parece ter coisas a mais.

Horns acaba por agradar ou enfastiar em intervalos, talvez o suficiente para dividir muitas opiniões. O desempenho do elenco e o esforço na realização são os botes salva-vidas, sem os quais esta fantasia diabólica seria mais um trágico naufrágio. 


Título Original: Horns (EUA/Canadá, 2014)
Realizador: Alexandre Aja
Argumento: Keith Bunin, Joe Hill (romance)
Intérpretes: Daniel Radcliffe, Max Minghella, Joe Anderson, Juno Temple, James Remar, David Morse, Heather Graham
Música: Robin Coudert
Fotografia: Frederick Elmes
Género: Drama, Fantasia
Duração: 120 minutos


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

The Babadook (2014)


Andávamos todos distraídos com o que nos ia chegando do lado de lá do Atlântico - principalmente com Annabelle, de John R. Leonetti, mas já lá iremos -, quando nos apercebemos, quase de súbito, que o melhor Terror do ano provavelmente viria dos antípodas. E THE BABADOOK, de Jennifer Kent, que ia sorrateiramente conquistando crítica e público à sua passagem, cumpre exactamente essa promessa: é, simultaneamente, um dos filmes mais assustadores e belos do ano.


Ultrapassada a confusão inicial que um filme de Terror australiano e dirigido no feminino possa causar, cedo se percebe que só uma mulher (e, especialmente, uma como Kent) poderia realizar este The Babadook. Primeiro, porque Kent mostra uma sensibilidade rara no género (e nos homens do género); segundo, porque toda a obra é pensada numa perspectiva feminina. A prova está, precisamente, no confronto entre The BabadookAnnabelle: apesar dos pontos em comum que ambos partilham, Kent superioriza-se - a si, e ao seu filme - a Leonetti na destreza do seu desenho; onde Leonetti é, todo ele, mão pesada, Kent é elegante e ágil. Não deixa de ser irónico que tenha sido ela, e não Leonetti, discípulo mais directo, a interiorizar melhor os ensinamentos do mestre Wan.

Kent insere-se, assim, e mesmo que tardiamente, numa geração de cineastas que tentam devolver o Terror às suas origens - e, a esse respeito, não se terá afirmado também ela como uma das exegetas do género? -, prestando a devida homenagem a nomes como Mario Bava e Stanley Kubrick. Ao representar o seu bicho-papão como algo que poderia facilmente ter saído do Expressionismo germânico (e Babadook apresenta profundas semelhanças com Nosferatu), ensaia um regresso do género aos seus primórdios, depurando-o das impurezas resultantes da passagem do tempo. The Babadook é, dessa forma, um filme muito puro, muito limpo.

Outrossim, Kent explora um outro elemento recorrente nos trabalhos da nova vaga do Terror: o seu Mal (ou, antes, a sua personificação do Mal), além de precisar de um ancoradouro físico que lhe permita manifestar-se, é intrínseco às próprias personagens. Note-se que a verdadeira opressão não será tanto ao nível da presença da criatura (e aqui torna-se complicado descobrir quem veio primeiro, se a criatura, se o criador), mas na relação entre mãe e filho (dela, pela morte do marido; dele, pela ausência de Amor genuíno) e na luta pelo estabelecimento de fronteiras e controlo sobre a outra parte. O primeiro acto do filme é particularmente eficaz na demonstração dessa dinâmica familiar conturbada, antecipando, ainda antes do Medo, a agressão iminente. Os monstros podem, afinal, ser muito mais reais do que aquilo que se pensa.

Numa só palavra, a grande vitória deste The Babadook - e o que o eleva a Cinema de excepção - pode ser resumida na sua simplicidade. A simplicidade com que Kent tão bem explana o seu argumento e os motivos que esconde, movendo-se habilmente entre referências, das mais claras (os filmes que passam na televisão) às menos explícitas (a inversão genérica, mesmo que parcial, que opera em relação a The Shining, por exemplo). E se elogio as bases sólidas sobre as quais a nova geração do Terror norte-americano, com Wan e West à cabeça, constrói as suas obras, não poderia deixar de o fazer, igualmente, para esta australiana que agora se estreia nas longas-metragens. O futuro afigura-se risonho para Jennifer Kent.


Título Original: The Babadook (Austrália, 2014)
Realizador: Jennifer Kent
Argumento: Jennifer Kent
Intérpretes: Essie Davis, Daniel Henshall, Tim Purcell
Música: Jed Kurzel
Fotografia: Radek Ladczuk
Género: Drama, Terror, Thriller
Duração: 93 minutos



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Berberian Sound Studio (2012)

 
Se pretendem descobrir a beleza da produção de filmes europeus, então, para os menos entendidos, BERBERIAN SOUND STUDIO tem a mostrar algo de genial no que toca a criação dos filmes de terror que estamos habituados a ver há tanto tempo.
 

Gilderoy, um tímido engenheiro de som cinematográfico, é convidado a trabalhar num filme em Itália. Assim se começa a moldar a história de um premiado filme de terror psicológico.

O actor principal (Toby Jones) rapidamente se apercebe que o trabalho que aceitou não era o filme sobre cavalos que pensava, mas sim um filme de terror, ou, como o produtor insistia em lhe chamar, “a Santini movie”. Apesar de inexperiente nesse género de filmes, a brilhante habilidade de Gilderoy agarra a atenção do público ao revelar-nos as diversas técnicas de produção dos efeitos sonoros nestes tipos de filme que tantas vezes nos dão a ilusão de uma aterradora realidade. Sejam as melancias trinchadas ou o azeite na frigideira, a fruta e as técnicas de culinária desempenham um papel tão importante ao criar o som do filme “Santini” que mesmo Gilderoy começa a ter dificuldades em distinguir a realidade da macabra ficção criada pela sua arte, adicionada ao crescente ambiente hostil dentro do estúdio.

Vale a pena destacar este filme, que sem dúvida impressiona ao demonstrar o poder do som no cinema de terror que há tantos anos aterroriza os sonhos de alguns, ainda que os gritos estridentes, as cabeças despedaçadas e os corpos desmembrados se revelem uma agressão maioritariamente à garganta e à área da botânica. Tudo isto para demonstrar de uma forma impressionante como a mente humana consegue criar imagens mentais do terror descritas apenas pelo som e a excelente fotografia do filme, apesar de nunca nos serem reveladas quaisquer imagens do realizado dentro daquele assustador estúdio italiano.
 
 
Título Original: Berberian Sound Studio (Reino Unido, 2012)
Realizador: Peter Strickland
Argumento: Peter Strickland
Intérpretes: Toby Jones, Antonio Mancino, Guido Adorni, Chiara D'Anna, Tonia Sotiropoulou
Música: Broadcast
Fotografia: Nicholas D. Knowland
Género: Drama, Terror, Thriller
Duração: 92 minutos
 
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Black Swan (2010)

 
Nomeado para Melhor filme dos Oscars 2010, e no contexto do Halloween (embora de forma pouco ortodoxa), surge-nos o thriller psicológico BLACK SWAN. Este filme conta a história de uma bailarina de uma prestigiada companhia de ballet, Nina Sayers (Natalie Portman) e o seu papel na ilustre produção de Swan Lake, na qual foi nomeada a protagonizar, tendo de personificar dois opostos morais: o cisne branco e seu gémeo identico, o cisne negro.
 
 
O problema surge nesse mesmo ponto, pois Nina, frágil, inocente, controlada adequa-se perfeitamente ao cisne branco, mas não ao outro. E a palavra "perfeitamente" não foi usado ao acaso, o problema da personagem em não conseguir dar vida ao cisne negro é esse mesmo, ela deseja ser demasiado perfeita, é demasiado controlada, o cisne negro necessita de alguém "solto", relaxado, sexy sem receio. É aqui que entra Lily (Mila Kunis), perfeita repreentação do cisne negro na vida real. E é nessa oposição de personalidades que realmente começa a intriga. (e algumas cenas que muitos gostaram certamente de ver).

A pressão do papel começa a afectar Nina, aliada à sua já existente faceta auto destrutiva e à própria condição de um dia-a-dia de uma bailarina, repleto de sacrifícios físicos e psicológicos, assim como a pressão do manipulador director da produção Thomas Leroy (Vincent Cassel) e ao ambiente abafado e controlado que vive em casa à mercê de sua mãe.

Todos este factores levam-nos numa viagem visualmente deslumbrante de nos prender ao lugar, onde é por vezes difícil distinguir o que é verdade do que é ilusão graças ao trabalho do grande realizador Darren Aronofsky e do brilhante argumento. O final do filme vai de encontro à própria história do Swan Lake, sendo que, após Nina demonstrar que também tem realmente um lado negro dentro de si que a possibilita de encarnar o cisne negro na perfeição, acaba por morrer por sua própria mão, mostrando que a sua determinação por ser perfeita é superior à própria vontade de viver. Com uma brilhante actuação de Natalie Portman e repleto de cenas capazes de "brincar" com a interpretação do espectador, assim como deixá-lo a reflectir sobre o que acabou de testemunhar, é fácil perceber toda a atenção que este filme recebeu no ano em que estreou.


Título Original: Black Swan (EUA, 2010)
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin
Intérpretes: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder
Música: Clint Mansell
Fotografia: Matthew Libatique
Género: Drama, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 108 minutos


Antichrist (2009)


ANTICHRIST é  primeira entrada na Depression Trilogy de Lars von Trier. Ele retrata o angustiante luto de uma casal que vive a morte de um filho de uma forma luciférica e pseudo-depravada, procurando a convalescença da sua sanidade mental ao mesmo tempo que curam o seu coração despedaçado e concertam uma relação praticamente desfeita.


Após o funeral da criança, Ela (Charlotte Gainsbourg) torna-se incapacitada pelo sofrimento, dando início a todo um tratamento psicoterapêutico por Ele (o seu marido, interpretado por Willem Dafoe) exercido. Após um período nada produtivo de reabilitação em casa, durante o qual Ela se tenta libertar da dor causada pela perda, bem como da dependência que viria a criar em fármacos psiquiátricos, Ele decide experimentar terapia de exposição (também conhecido como Flooding) numa cabana isolada na floresta à qual deram o nome de "Eden".

A trama segrega-se em três momentos fundamentais (mágoa, dor e desespero) que apelam à sensibilidade humana de quem os experiencia, indagando materializar a emotividade expressiva de cada uma das partes procedendo segundo uma evolução antitética.

Antichrist foge, um-tanto-ou-quanto, da convencionalidade do género, manifestando-se como uma forma de arte gótica assente num simbolismo teológico cristão, uma pintura arrepiante da psique humana que promete 108 minutos de reflexão crítica acerca de algumas das mais controversas temáticas que horrorizam a humanidade.


Título Original: Antichrist (Alemanha/Dinamarca/França/Itália/Polónia/Suécia, 2009)
Realizador: Lars von Trier
Argumento: Lars von Trier
Intérpretes: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Música: Kristian Eidnes Andersen
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Género: Drama, Terror
Duração: 108 minutos


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Thirst (2009)


Para os que se sentem cansados dos pálidos vampiros que continuam a invadir a nossa televisão nos dias que correm, a Coreia do Sul envia-nos o antídoto na forma de THIRST, um drama e uma dolorosa história de amor.


Sang-hyeon (Kang-ho Song) um padre católico e altruísta que se voluntaria para encontrar uma vacina para um vírus que assolava a área, acaba por contrair a doença, forçando-o a beber sangue para regredir os sintomas da enfermidade que ameaçava mata-lo. Obcecado pela religião, Sang-hyeon enfrenta um dilema ético sobre se deve ou não matar para sobreviver. Mesmo decidindo beber sangue apenas dos que já não o necessitam, o vampirismo causa uma evolução dos sentidos e da forma física e aquando do reencontro com os amigos de infância, Tae-ju (Ok-bin Kim) causa no padre uma nova sensação, a tentação da qual nenhum dos seus exercícios de autodisciplina o pode livrar.

São esses os pontos essenciais em que toca Thirst: tentação, culpa e pecado, num filme recheado de gore e cenas sexuais explicitas (e talvez demasiado longas) que levam este filme para o género da pornografia. Aconselho a ver este filme, pois contém um enredo interessante e atractivo com uma boa faixa sonora e cenas que nos fazem perguntar o que foi que acabamos de ver da maneira que só a Ásia tem para nos oferecer, lembrando-nos ainda do Terror que vampiros podem fazer surgir nas suas vítimas que pouco ou nada podem fazer contra estas criaturas nocturnas tão bem armadas para predar humanos, e com uma sede de poder e prazer infinitas.


Título Original: Bakjwi (Coreia do Sul, 2009)
Realizador: Chan-wook Park
Argumento: Chan-wook Park, Seo-Gyeong Jeong (baseado no livro Thérèse Raquin, de Émile Zola)
Intérpretes: Kang-ho Song, Ok-bin KimIn-hwan Park
Música: Yeong-wook Jo
Fotografia: Chung-hoon Chung
Género: Drama, Terror, Thriller
Duração: 133 minutos