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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Star Wars: The Light

"a long time ago in a galaxy far, far away..."

Em 1977, George Lucas deu vida ao que é hoje um dos maiores e mais influentes franchises no mundo do cinema, Star Wars. Um épico de fantasia e ficção cientifica, segue as aventuras de Luke Skywalker, Leia Skywalker, Han Solo e Chewbacca, acompanhados por dois droides, C-3PO e o seu companheiro arteiro R2-D2, juntos ajudam os Rebeldes na luta contra a opressão do Império Galáctico e os temiveis Sith, Darth Vader e o Imperador Darth Sidious. Uma história que já não precisa de apresentações, tão bem arraiada na nossa cultura que dificilmente haverá alguém que não a conheça. As personagens icónicas, os conceitos fantasiosos e as músicas inesquecíveis já parecem estar presentes diariamente. Quando é que Star Wars se tornou um nome tão familiar?


A influência de Star Wars no mundo cinematográfico é indiscutível, impulsionou o uso regular de efeitos especiais em grandes produções. Uma mistura perfeita de ficção cientifica e fantasia segura pelas costuras por uma banda sonora inconfundível, composta por John Williams, provavelmente, o ponto mais alto da experiência que os filmes proporcionam. A música nunca mal direccionada, acentuando o contraste sempre presente na historia e criando tensão ou alivio sempre que necessário. Uma sinfonia e efeitos visuais e sonoros impressionantes dão vida à verdadeira essência desta epopeia, tão bem concebida que quebrou o estigma das sequelas e ajudou criar o modelo da trilogia cinematográfica que nos é tão familiar hoje em dia. Mostrando ser possível a produção de um franchise com qualidade gradualmente superior e lucros incríveis, ainda mais com o merchandise associado, brinquedos, roupa, até loiça para nomear alguns. 


Se falo de Star Wars não falo apenas do que foi, mas do que é e tem sido desde o inicio, um universo em constante desenvolvimento. O que temos depois dos filmes é uma visão mais pormenorizada da galáxia, através dos olhos de muitos outros artistas e entusiastas que contribuíram para a expansão do universo que George Lucas imaginou, com bandas desenhadas (Dark Horse; Marvel), séries de TV (Star Wars: Clone Wars: Star Wars Rebels, etc) e video jogos (Knights of the Old Republic; Star Wars: The Old Republic) com mais histórias, personagens e aventuras que ainda hoje nos entretêm. Talvez aqui esteja o forte deste franchise, na sua escala astronómica, nunca estamos presos a um conjunto finito de possibilidades, personagens, tudo com um inevitável fim - não. Há toda uma galáxia de planetas, diferentes raças e aventuras ao longo de milhares de anos, com uma história que facilmente se estende para lá da nossa esperança de vida, e para mim será sempre esse o fascínio.


Certamente, Star Wars não são apenas os filmes, mas sim tudo o que deles foi gerado e apenas uma coisa acaba por dar origem aos meios para que tudo isto seja possível, a grande conquista, o legado de Star Wars são, fundamentalmente, os fãs. Com uma lealdade voraz, acho que não haverá uma base de fãs tão numerosa e impaciente para produtos de ficção, e graças a esta incrível demanda e a aquisição da Lucasfilm por parte da Walt Disney, no final de 2012, Star Wars regressa ao grande ecrã dia 17. Será o inicio de uma nova trilogia e um possível conjunto de spin-offs, resta saber se haverá redenção pela trilogia dos anos 2000 ou se nos esperam dias negros. No entanto, uma coisa é certa, as salas vão encher. 

sábado, 30 de março de 2013

Quando as marcas se sabem vender #4

A dupla Wes Anderson-Roman Coppola continua a provar-se uma das mais criativas do momento. Depois de filmes como THE DARJEELING LIMITEDMOONRISE KINGDOM - e com o próximo, THE GRAND BUDAPEST HOTEL, anunciado para o próximo ano -, viraram-se desta feita para a publicidade. O anúncio realizado para a Prada - com o sempre idiossincrático estilo de Anderson - é verdadeiramente delicioso.


domingo, 24 de março de 2013

"Carrie" em espanhol e modo-vampiro?

Já tem dois anos, mas ao recordá-lo recentemente reparei nalguns paralelos entre o teledisco da música La Chica Vampira, dos Papa Topo - cujos videoclipes são sempre, aliás, pequenos tesourinhos -, e CARRIE, de Brian De Palma. Estarei certo, ou será que fui mordido pela pop-punk estival da canção?


terça-feira, 19 de março de 2013

Dia do Pai

A ver um só filme no Dia do Pai - e pretendendo seguir o tema da data -, a nossa escolha recai sobre um dos mais impactantes de Jim Sheridan.

IN THE NAME OF THE FATHER (1993), de Jim Sheridan

quinta-feira, 14 de março de 2013

Conversa de travesseiro #1

Jean Gabin e Michèle Morgan protagonizaram em 1938 uma das cenas mais memoráveis do Cinema clássico francês. Em LE QUAI DES BRUMES, de Marcel Carné, a câmara encontra a dupla na cama, abraçados, numa demonstração de sexualidade completamente impensável para o Cinema norte-americano - leia-se, Hollywood - da altura.


LE QUAI DES BRUMES (1938), de Marcel Carné

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Fantas em números

A Matemática nunca foi o nosso forte. Ainda assim, decidimos abraçar o desafio de tentar explicar por números a nossa cobertura desta edição do Fantas.

  • 39 longas-metragens (31 inéditos + 8 clássicos)
  • 81% das longas-metragens inéditas visualizadas
  • 77% notas positivas (entre as longas-metragens inéditas)
  • 19% notas negativas (entre as longas-metragens inéditas)
  • 2 filmes inclassificados
  • 31% notas ≥ 7/10 (entre as longas metragens inéditas)
  • 6 entrevistas
  • 78 horas dedicadas ao festival (em filmes) durante 9 dias (8,5 horas por dia)

Digam lá se não é motivo de sobra para sair do Rivoli cansado.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um Oscar para Oscar

O Senhor Oscar - e Denis Lavant, por inerência - merecia uma estatueta dourada. Aliás, não sei como é que ninguém se lembrou do óbvio trocadilho entre os dois nomes.









HOLY MOTORS (2012), de Leos Carax

É desta que nos calamos de vez - pelo menos por alguns meses - com os Oscars. Palavra de escuteiro.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quando as marcas se sabem vender #3

Com a estreia de SIN CITY: A DAME TO KILL FOR planeada para este ano, Frank Miller, o criador da novela gráfica homónima, dirigiu dois anúncios publicitários para a Gucci. A estética, essa, é simplesmente inconfundível.





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Nazis numa América distópica

Recentemente, ao ver DEATH RACE 2000, de Paul Bartel, reparei num pormenor engraçado. Na sequência de abertura pós-créditos, surge ao som de uma versão desafinada do hino norte-americano um individuo envergando uma bandeira Nazi. O gesto, que imagino polémico à data de estreia do filme - se ainda hoje o será -  despertou-me curiosidade.


E se o resto da resposta de Roger Corman ao sucesso de ROLLERBALL - muitíssimo superior - se faz em sequências ridículas de corrida e diálogos inanes, é curioso relembrar a mensagem distópica que se tenta veicular na obra. Há um partido omnipresente, um jogo sangrento que serve de ópio para as massas e um Senhor Presidente que insiste em culpar os estrangeiros de tudo. O filme até pode ser fraquinho - ou, em abono da verdade, nem a isso chegar -, mas a intenção, essa, pelo menos está lá.

António Tavares de Figueiredo

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O chuveiro em storyboard

Com HITCHCOCK, de Sacha Gervasi, a chegar esta semana às salas nacionais, nada melhor do que recordar uma das suas featurettes promocionais. O making-of da famosa cena do chuveiro de PSYCHO em formato storyboard/flipbook.




E porque não recordar também os storyboards de Saul Bass - um dos artistas gráficos mais influentes do século passado - para a cena original?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quando as marcas se sabem vender #2

O Super Bowl tem-se revelado cada vez mais um espaço privilegiado para a publicidade norte-americana. Os spots transmitidos durante os intervalos - pagos a peso de ouro - contam-se frequentemente entre os melhores do ano.

Dos transmitidos ontem à noite, a nossa preferência vai para o do Taco Bell, ao som de uma versão espanhola de We Are Young, dos Fun. A direcção, essa, ficou a cargo de Noam Murro.




Se quiserem ver mais publicidade original - e de grande qualidade - nada melhor do que passar pelo Keyzer Soze's Place e dar uma vista de olhos à sua selecção. Por cá, há quem ainda lamente a derrota dos 49ers.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Vocalistas que nos fazem lembrar Tetsuo

Quarta-feira foi dia de concerto grande no Porto. Os Radio Moscow, senhores da psicadélica contemporânea, passaram pelo Hard Club e animaram noite adentro a malta que lá os foi ver. Mas o acontecimento, per se, seria irrelevante para a temática do blogue.

E, provavelmente, nem por cá seria mencionado - pese embora a presença da redacção no acontecimento - não fosse a insistência do vocalista da banda de abertura em apontar para a genitália. Assim, e graças à colaboração acidental do líder dos ALTO - que, brincadeiras à parte, mostraram muito energia em embalagem semi-punk -, saiu-se do primeiro concerto do ano com TETSUO II: BODY HAMMER, de Shin'ya Tsukamoto, na cabeça.


E, pronto, assim já sabem por onde andou toda a gente do estaminé na quarta à noite.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Entre Djangos

De Corbucci a Tarantino, de Nero a Foxx, muitas são as diferenças entre os Djangos. Uma delas - porventura das mais insignificantes - resume-se à cor dos capuzes usados pelos acólitos do vilão.



Stills de DJANGO (1966), de Sergio Corbucci, e de DJANGO UNCHAINED (2012), de Quentin Tarantino - com crítica já publicada neste espaço, pela pena do Wladimir Jr. Ribeiro -, respectivamente.

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Ou então vai-se buscar uma imagem a THE BIRTH OF A NATION, de D.W. Griffith, origem - revelada através de uma entrevista em que Tarantino afirmou odiar John Ford pela sua opção de encarnar um dos cavaleiros brancos no filme de Griffith - da tal cena de DJANGO UNCHAINED acima ilustrada. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Matinée Portuense @ Tumblr

Para os mais distraídos, o Matinée Portuense já marca presença no Tumblr. A conta - Matinée Portuense @ Tumblr - será uma extensão da plataforma original e terá como principal objectivo contactar com um tipo de público diferente, maioritariamente através da imagem e de textos curtos.


Se já Godard dizia que estilo e conteúdo não se podiam separar, o espaço seguirá as mesmas idiossincrasias da casa-mãe, guiando-se pela mesma linha editorial e preferências cinéfilas.

O Matinée Portuense tem igualmente conta no Facebook e no Twitter. Não deixem de nos seguir nas redes sociais.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Quando as marcas se sabem vender #1

Quem gosta da NBA já estará habituado à sua campanha BIG. Os spots televisivos, em diferentes séries, vão surgindo periodicamente, focando-se em várias facetas do jogo. E quem conhece Spike Lee, nova-iorquino de gema e adepto dos Knicks - é comum encontrá-lo na fila da frente do Madison Square Garden quando a equipa joga em casa -, também não estranhará que tenha realizado dois anúncios para a campanha, UNBELIEVABLE IS BIG e ROYALTY IS BIG.

É o desporto convertido em marca.




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

It's The End Of The World As We Know It And I Feel Fine...

Chegou o dia profetizado pelos Maias e felizmente ainda aqui estamos, por isso, aqui no Matinée gostaríamos de desejar a todos os leitores uma boa passagem de Fim do Mundo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Porque hoje é Thanksgiving

A quarta quinta-feira de Novembro é sinónimo de Dia de Acção de Graças nos EUA. Para celebrar a data - e porque sim - fica o trailer falso que Eli Roth realizou para GRINDHOUSE, o double-feature de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, um slasher sazonal que dá pelo nome de... THANKSGIVING.





Bom Dia de Acção de Graças, e que façam bom-proveito do peru!

sábado, 17 de novembro de 2012

Os cavalos do menino Noé

Reza a história que a personagem do Talhante nasceu na primeira vez que Gaspar Noé pôs os pés em França. Criado na Argentina, o menino visitava o país da mãe, e o pai, por algum motivo que escapa à compreensão (à minha, pelo menos), decidiu dizer-lhe que por aqueles lados se comiam cavalos. Bem, não terá dito exactamente que se tragava o bichedo, mas que se consumia a sua carne. Ora, para o menino Noé aquilo era tudo muito estranho, na terra dele não se comiam cavalos. A cabeça dele pôs-se logo a dar voltas e criou a personagem que o acompanharia em mais filmes até ao momento. Nasceu naquele momento o Talhante sem nome, introspectivo e violento, com queda filosófica para monólogos solipsistas e narrações em voz-off.


A obra de Noé será, de resto, uma ode à agressão - das personagens e dos sentidos - e um produto da progressiva dessensibilização da sociedade em relação à violência. Já em CARNE  (*), a sua primeira aparição, o Talhante (brilhantemente interpretado por Philippe Nahon) surgia como uma espécie de anjo da vingança moralmente ambíguo, atacando quem julgava ter violado a filha autista que também ele desejava. Em SEUL CONTRE TOUS, extensão do filme anterior, voltava a revelar os traços quase niilistas que havia evidenciado na curta-metragem; voltamos a encontrá-lo em IRRÉVERSIBLE, derrotado e colhendo os frutos do que semeou com sangue.

A lição a tirar, se é que chega a haver alguma, é que nunca sabemos quais as consequências do que dizemos aos outros. Não imagino que o pai de Gaspar Noé algum dia pensaria que ao afirmar ao filho que os gauleses comiam cavalos estaria a contribuir para a criação de uma das partes mais importantes da sua obra. A verdade é que através da imaginação - e do kubrickiano 2001: A Space Odyssey, segundo o próprio conta - o menino Noé, agora um homem feito, tornar-se-ia um dos realizadores mais criativos da sua geração, pese embora as temáticas e narrativas controversas que aborda. Tudo graças aos hábitos alimentares de um povo.

António Tavares de Figueiredo

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(*) - Acerca de CARNE e SEUL CONTRE TOUS bastará escrever que são o exemplo perfeito de como condensar e limitar uma história ao essencial sem com isso prejudicar o seu desenvolvimento. O que falta ao primeiro em profundidade é compensado com subtileza, do alto dos seus quarenta minutos. Noé recupera a tradição de que melhor do que mostrar é insinuar e deixar a audiência fazer as contas. Isso, e enojá-la com planos gráficos de matança; o início de Carne não é para estômagos fracos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

«Estão vivos outra vez»

Hoje não se escreve aqui sobre filmes. Ou melhor, não se fala de Cinema, que, por vezes, a vida é um filme bem melhor do que a ficção. Mais interessante ainda é construir a nossa própria banda sonora. Para quem não sabe, os Ornatos Violeta, banda mítica do imaginário rock português, reuniram-se este ano para alguns concertos de celebração. Três concertos - Paredes de Coura e Coliseus - cedo passaram a cinco e depois a nove; isto de esgotar nove palcos em três meses é obra. Vi o concerto em PdC, emocionei-me, e ontem repeti a dose. Hoje há outro espectáculo, transmitido pela Antena 3, e pus-me a ouvir a emissão enquanto escrevo estas linhas. Vamos começar?


«O punk moda funk um dia vai voltar»

Comecemos pelo início, que é sempre mais bonito. Ouvi os Ornatos - eu e os meus colegas de blogue - pela primeira vez quando tinha catorze anos. Ainda puto, descobri aquela que viria a ser a banda que há mais tempo me acompanha nos leitores de música e com a qual mais me identifico. Não os cheguei a apanhar em actividade contínua, mas não me lembro quantas vezes já ouvi os seus álbuns. É algo estranho este saudosismo por algo que morreu há tão pouco tempo e tão perto de nós. Seis anos depois, ainda feito puto, assisti ao seu regresso em PdC, agarrado a alguns dos meus melhores amigos, e chorei feito uma Madalena naquela bela canção que dá pelo nome de Fim da Canção. Ontem foi tudo menos melancólico, as músicas do Cão! dão ar de farra à coisa. Mesmo assim, não consegui conter as lágrimas quando ouvi pela primeira vez o refrão da Deixa Morrer. No entanto, e como em PdC não se tocou (quase) nada do Cão!,  a letra que fazia mais sentido nestes concertos nos Coliseus era o refrão da Punk Moda Funk. Lá, em jeito de profecia, prometia-se que um dia se havia de voltar. Dez anos depois, cumpriu-se o que se prometeu ainda antes do fim.

«Isto é voltar sem dor nem mágoa»

Resumindo ao máximo, os Ornatos partem de um sentimento semelhante a um post-grunge português; a vida é uma merda, mas até que podemos ser felizes se fizermos algo por isso. Há rock (tudo muito alternativo para os parâmetros de hoje, normal para os de há 20 anos), há uma espécie de electrónica - aquela introdução da monolítica Tanque, que inaugurou o concerto no anfiteatro de PdC -, e mete-se funk, psicadélica, blues, jazz e mais umas quantas influências pelo meio. O estilo, esse, é muito sui generis e quase um género independente por mérito próprio, imitado por muitas das bandas portuguesas actuais. Do Cão! para O Monstro Precisa de Amigos (excluindo as raridades/b-sides/ inéditos/seja-o-que-for) nota-se um incremento de melancolia, uma sensação de amor que se perde. Não que o sentimento não estivesse presente no primeiro álbum de estúdio do conjunto, até porque é omnipresente na obra dos Ornatos, mas apontava-se mais para a festa, com ritmos mexidos e uma injecção maior de funk. Se em Cão! tínhamos, e falo no plural porque não consigo deixar de pensar que estas músicas pertencem um pouco a todos nós que as ouvimos, pérolas como um Crime à Minha Porta ou A Dama do Sinal, O Monstro aumentava a parada a nível dessa sensação de perda emocional com objectos desoladores como Chaga ou a própria Tanque. A alegria surge há medida que o álbum segue o seu caminho, mas fica sempre tudo mais próximo da catarse do que da felicidade.
Não será por isso de estranhar que os Ornatos Violeta se tenham separado após doze anos de actividade "oficial" (chamemos-lhe isso, à falta de melhor expressão), corria o ano de 2002. Estavam exaustos, dizem eles agora, e sem qualquer perspectiva de futuro para uma banda que os contivesse a todos. Nos dias que correm, fala-se que faltou editar um terceiro álbum de estúdio, o quase mitológico Monte Élvis, mas é impossível não divagar, e pensar que as músicas d'O Monstro, o último álbum de estúdio lançado durante os seus anos de actividade contínua, batem certo em quase todos os pontos com a história dos próprios Ornatos. Enquanto escrevia esta frase ouvia pela rádio a tal Chaga, uma das minhas preferidas, que dita que a dor lembra que há um fim. De facto, e como todas as grandes bandas que já não o são, os Ornatos Violeta encontram-se rodeados por uma aura profética, que, ouvida à distância, é uma espécie de "eu bem te disse", mesmo que a intenção original no momento da composição nem passasse por aí. Também se pode dar o caso - e certamente se dará para muitas pessoas - que os fãs sintam a necessidade de encontrar uma justificação para o fim do conjunto nas suas canções. De qualquer maneira, os sinais estão lá, é só saber onde, e como, os procurar.


«A cidade está deserta»

Depois da magistral abertura em PdC, com a introdução semi-electrónica correndo largos minutos, deixando o público expectante no limiar de uma quebra emocional, decidiram começar as festas (como eles lhes gostam de chamar) nos Coliseus com o epílogo declamado por Vítor Espadinha no single Ouvi Dizer, levado recentemente ao grande público por um concorrente do programa Ídolos. Ironicamente, enquanto se diz que «A cidade está deserta» a audiência do Coliseu vai ao rubro, aplaude, incentiva, também ela declama aquele poema que lida com o desaparecimento do Amor; se as ruas estivessem vazias suspeito que ninguém daquela(s) plateia(s) se importaria. A banda entra em palco, Manel Cruz solta um «Bute nessa?» que nos causa arrepios e começa uma viagem de três horas pela memória colectiva de quem enche aquele espaço. Uma montanha russa emocional, com agradecimentos - não sei se mais da parte da banda do que da do público - no final de quase cada música, que atinge um dos picos na Deixa Morrer; aquele refrão, presságio do que veio, aquele «E aparece assim, acendeu-se a luz, estão vivos outra vez», leva a que a audiência quase silencie o palco com palmas para que depois se peça, suprimindo qualquer esperança, que deixem o seu Amor morrer. É difícil esconder o que nos vai na cabeça naquele momento e o pranto generaliza-se pela plateia. Os músicos cumprimentam-se em palco, Manel beija Nuno Prata e Peixe, Kinörm chega a chorar se vê alguém mais emocionado, Elísio Donas é todo ele sorrisos. É complicado perceber quem está a gostar mais daquela reunião, se a banda, se o público. Tocam-se pequenos tesouros como Notícias do Fundo, o inédito Gato de Dois Chifres, Coisas ou a adolescente 1 Beijo=1000. A audiência, que em PdC chegou a cantar no final do concerto, já sem a banda, a Punk Moda Funk vai à loucura quando Manel Cruz diz pela primeira vez que quer mijar - já em Débil Mental não negavam a sua natureza vulgar -, levando a que o vocalista se entusiasme com uma música que ele próprio confessou já não suportar. E é já altura dos encores.

«Pára-me agora»

Apesar do que muitos acham, nem os Ornatos são só o Manel Cruz, nem o Manel Cruz é só dos Ornatos. Ambos estão bem estampados um no outro, mas é o próprio Manel o primeiro a elogiar Nuno Prata («O fim dos Ornatos também teve coisas boas, como a explosão artística do Nuno Prata. Eu já o tinha como baixista, mas ele agora multiplicou-se.») ou a escrita de Peixe em músicas como Deixa Morrer, que Manel, num acesso de humildade, confessa ser a sua favorita do certame. Toca-se a Capitão Romance com Peixa na guitarra portuguesa (mas sem Gordon Gano) e as "meninas" Raquel e Marta. Por essa altura já se alcançou a catarse: o público, multidão heterogénea que vai desde pré-adolescentes a quarentões que assistiram ao início dos Ornatos, reconciliado com a sua juventude, pula e grita as letras, a banda, com os problemas entre os seus elementos sanados, perde anos e entusiasma-se com as suas próprias músicas. Quando chega a altura de entoar as mágicas O.M.E.M. ou O Amor É Isto o descontrolo é tal que se berra as letras como se se tratassem de palavras de ordem. Sucedem-se objectos lindos como Homens de Princípios («Aquela mão,  segue a minha mão. Vagueia só, segue a condição. Um dia sem, logo fico com. Mulher é deus, dançar é bom.») e Tempo de Nascer e o tempo passa sem que se faça notar. Já se dizia na 1 Beijo=1000 que a ironia da câmara lenta é não dar tempo para pensar. A cabeça anda a mil, passa tudo demasiado depressa. Manel Cruz e companhia têm dificuldade em controlar as emoções. Também eles estão assoberbados pelo que se encontra à sua frente.
O Humanismo - merece maiúscula - em primeiro plano. Não se projecta nada no fundo do palco, não há vídeos nem ecrãs gigantes. Fazem-se uns simples jogos de luzes e deixa-se que as músicas - e os músicos, já agora - falem por si. Manel, acompanhado pela sua guitarra acústica, canta a "sua" Chuva num dos momentos mais intimistas do espectáculo. Eles são os Ornatos Violeta e sabem que não precisam de artifícios para deixar quem gosta deles satisfeito. Tanto que quando chega a hora da eléctrica Pára-me Agora pedem que se deixe algumas pessoas da audiência subirem ao palco para cantarem em tom de provocação as palavras que dão nome ao tema. Aquele gloriosa confusão de vozes, com a banda abraçada aos fãs, constitui por si só um dos momentos mais intensos - e, por sinal, um dos melhores também - de todo o concerto. Eles desafiam que os parem; nós sabemos que não é possível.


«Chegámos ao fim da canção»

Só que sabemos que aquela celebração há-de chegar a um fim. Podemos atrasar o tempo, mas não o podemos parar. A discografia dos Ornatos perdeu a vertigem característica da sua adolescência e ganhou maturidade. Nunca uma banda portuguesa foi alvo de tamanho culto, ainda para mais já bem depois de ter acabado. Manel Cruz brinca que o ponto alto da vida de um grupo é ter os seus cachecóis da candonga; falando mais a sério, é sinónimo da enorme popularidade gozada pelo conjunto portuense. Falam abertamente de antigos integrantes da banda, produtores que contribuíram para a sua carreira e gente que já não se encontra entre eles (nós?). A honestidade destes Ornatos é desconcertante e, provavelmente, não seria possível há uma década. O choque chega com a Fim da Canção. O primeiro verso anuncia o que irá acontecer: aquela festa está prestes a terminar. Mas ainda há tempo para mais uma música, uma das mais belas do seu repertório. E a audiência canta e rejubila.
À uma e meia da manhã, depois de virar de novo a dor e o amor para dentro, é hora de ir para casa como se não tivéssemos acabado de assistir a um acontecimento marcante. Mas nós sabemos bem aquilo que acabamos de ver. As ruas da cidade - daquele Porto que também é deles - voltam a inundar-se de gente e separa-se a multidão que minutos antes, e durante horas a fio, se juntou para homenagear os Ornatos Violeta. Manel Cruz despede-se com um «até sempre», mas sabemos que será difícil voltar a ouvir aquelas canções ao vivo tocadas por aqueles cinco senhores da música portuguesa. Não caio na tentação de lhes chamar génios, mas pouco falta. Ao todo, ouvi três dos concertos - dois in loco e o último pela Antena 3 - e, escrevendo estas linhas finais ao som da última Fim da Canção, tenho a noção que os Ornatos finalmente tiveram a despedida que mereciam; dez anos depois do devido, mas tiveram. Depois de PdC, depois dos Açores, depois de Lisboa, a festa fez-se no Porto e eu, que também os vi no festival minhoto, não desejava ter dito o meu adeus aos Ornatos em nenhum outro lugar. Entre vénias e abraços, despedem-se do público. Os Ornatos Violeta vieram morrer a casa. Só que como tudo neste Universo, do qual também são filhos, nada é eterno, nem mesmo a morte. Ontem fui eu, hoje foram outros, daqui a uma década pode ser que as gerações vindouras venham a ter a oportunidade de descobrir estas pérolas da música portuguesa. A lição a tirar desta festa é que a esperança é mesmo a última a morrer.

«Se o meu peito diz coragem, volto a partir em paz.»

António Tavares de Figueiredo

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

7 Dias!

O Halloween já está a bater à porta e os piores pesadelos estão prestes a voltar para assombrar os mais desprevenidos. Aqui no Matinée, estamos prontos para o que der e vier, por isso durante os próximos 7 dias iremos dedicar-nos a trazer-vos as mais recentes notícias do cinema de terror, assim como umas lembranças que marcaram o género no passado. Todos os dias, até 31 de Outubro, estarão em destaque no blog os filmes de terror que realmente fazem estremecer a espinha, ou que simplesmente mereceram um lugar no pódio do terror memorável.

Está na hora de sair à rua e atrair os maus espíritos, esculpir abóboras e contar histórias assustadoras à volta da fogueira. Preparem-se que eles estão a chegar.