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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fui ao Porto/Post/Doc revisitar fantasmas

Aproveitei o feriado para fazer o que costumo fazer nos dias úteis: meter-me numa sala a ver filmes. Mas, calma lá, que não foram uns filmes quaisquer, nem numa sala qualquer. Aproveitei o feriado para me enfiar no Rivoli, que acolhe por estes dias o Porto/Post/Doc, o novo festival da cidade, a ver documentários. A ocasião, de resto, pareceu-me propícia: desde logo, porque o tempo não dá tempo, que é como quem diz, há que aproveitar os momentos de ócio que o calendário nos oferece para frequentar eventos destes; depois, porque há qualquer coisa na expressão "Imaculada Conceição" que me lembra Manuel Mozos e João Bénard da Costa, o prato forte do dia.

Aproveitei também a ocasião - esta rebarbada e episódica cobertura ao festival, longe da prisão dos passes de imprensa - para revisitar fantasmas de outros tempos. Das sessões no Pequeno Auditório do Rivoli, dos corredores e cadeiras que já me acolheram mil sonhos, do cheiro do foyer onde travei outras tantas amizades. Contas de outros rosário (festival?), portanto.

Voltemos, no entanto, ao Porto/Post/Doc, que é uma maneira bem mais simpática de dizer "ao que interessa". E que aqui o que nos interessa - e se interessa! - são os filmes. Até 13 de Dezembro, o Rivoli (bem como o Maus Hábitos e o Passos Manuel) recebe esta bela iniciativa, ainda com aroma a novidade, com base (quase) exclusivamente documental, e que dobra como o evento mais interessante a decorrer na cidade pelos dias que correm - a malta da patinagem no gelo aqui ao lado que me perdoe a sinceridade. Vamos lá, então.


WAITING FOR AUGUST, de Teodora Ana Mihai (Bélgica/Roménia, 2014):

Os anglo-saxónicos têm uma palavra, simultâneamente bela e desoladora, que descreve na perfeição o primeiro plano de WAITING FOR AUGUST, de Teodora Ana Mihai: bleak. Não duvido que haja na nossa língua um sinónimo oportuno, mas aquelas cinco letras enquadram-se naquela estrada destingida pela neve e pelo asfalto, ocasionalmente pontuada pelos amarelos das luzes e pelos vermelhos dos sinais. Após esse intróito, pouca esperança se afigura para o que sobra do filme.

Todos os anos, milhares de pais romenos abandonam o país em busca de trabalho, deixando os filhos para trás. Atenção: abandonam o país, não os filhos, que esses não se podem abandonar. Pelo menos, é isso que Mihai nos quer mostrar. Na verdade, sabemos que há pais que abandonam os filhos; mas sabemos, igualmente, que esta mãe não abandonou os seus. A prova está no título, basta esperar por Agosto para que regresse. Mas se esperamos pelo regresso em Agosto, esperamos também pela nova partida no final do mês, pela repetição do ciclo anual. É essa uma das verdades inexoráveis de Waiting for August: qualquer retorno é temporário.

Daí que as crianças de Liliana sejam deixadas durante o ano ao cuidado da irmã mais velha, que só tem quinze anos. A uma espécie de parenting by proxy - quer da irmã-mãe, quer da televisão, que insiste em passar telenovelas espanholas - numa casa governada por quem ainda não tem (ou não devia ter) idade para a governar. E se, a espaços, nos podemos facilmente esquecer que Georgiana é. também ela, uma criança, cedo nos recordamos que sofre dos mesmos dramas que os nossos teens, das mesmas angústias próprias da idade. E é essa a outra verdade inexorável de Waiting for August, a de que, para os irmãos terem infância, Georgiana teve de hipotecar a sua.

Assim, e de verdade em verdade, de verdade para verdade, a obra de Mihai consegue o que poucas outras conseguem: um retrato da vida de uma família através de uma intromissão em grande parte invisível (e alguém reparava, à saída do filme, que quando as pessoas quebravam a tela não era para olhar para as câmaras, era para olhar para as pessoas por detrás delas). O bleak transformado em algo belo, como só o Cinema é capaz de transformar.


JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS COISAS QUE EU AMEI, de Manuel Mozos (Portugal, 2014):

Sala composta, compostíssma, para JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI. Tão cheia, que me vi no meio de um cortejo fúnebre (ou assim julgava, antes da sessão) escadaria abaixo. Por dois motivos - que, afinal, seriam só um -: 1) a oportunidade rara de "apanhar" um Mozos em sala; e 2) a vontade de (re)ver Bénard da Costa, uma espécie de paizinho (e "paizinho", aqui, no sentido mais carinhoso possível) cinéfilo.

Outros amarão as Coisas que eu amei é um filme imenso, tão imenso que quase não cabe na tela. Tão imenso, que precisa de se socorrer de outros filmes, igualmente imensos, para que possa existir. Do mais belo Lubitsch, do mais completo Ray, do mais musical Minnelli, do mais poético Dreyer, dos excertos de Oliveira e Ruiz. E através dessas Coisas todas, que, no fundo, são apenas uma, o Amor de Bénard da Costa - e de Mozos - contagia quem o ouve. E infecta o íntimo, como um vírus que se alastra, sem cura nem salvação. Porque o Cinema só existe em quem o sente, em quem sobre ele fala, em quem sobre ele escreve.

E Ray, Lubitsch e Mankiewicz, mesmo depois de levados pelo Tempo, pelo «homem da ampulheta». continuam, entre nós, tão presentes como quando, em carne, o estavam. E, como nessa luminosa cena de Gigi, é a memória que os faz, e que faz deles deuses, que os perpetua além-túmulo. A letra mata, o espírito vivifica - e não será o celulóide, também, ele letra, e o espectador espírito?

Do milagre da memória, de que já falava Luís Costa no seu Fontelonga, poucos saberão tanto como Bénard da Costa, o homem que viu Johnny Guitar mais de sessenta vezes (sessenta e oito antes do final dos anos oitenta, se a memória não me falha), mas que sobre ele só conseguia falar «delirando». E é, outrossim, sobre a memória que outros dos filmes seleccionados, The Ghost and Mrs. Muir, versa, nesse solilóquio do Capitão Daniel Gregg reproduzido, que, como diria Régio, «é um vendaval que se soltou,/ É uma onda que se alevantou,/ É um átomo a mais que se animou...». Aliás. é sobre a memória, sobre o acto de rememorar, que Mozos constrói o seu Bénard da Costa, a sua carta de amor ao Homem que tudo nos deu sem nunca nos exigir nada em troca, nada senão o desejo de viver com ele o que ele vivia tão profundamente.

Acredite, amigo leitor, que tentei evitar ao máximo o patetismo do que aqui derramo. Tentei, mas tentei em vão. Porque o Cinema não vive só, nem sobretudo, do objectivo, do que está lá e do que deixa de estar, mas também do subjectivo, do que dele levamos quando abandonamos a penumbra e os fantasmas. E se arrisco o absolutismo de afirmar Outros amarão as Coisas que eu amei - e nenhum outro filme foi capaz de me fazer deixar a sala tão contente, tão desfeito, tão abalado nas minhas convicções, tão sem saber o que fazer - como sendo o mais belo filme de sempre, faço-o porque acredito que o seu objecto é, por sua vez, também ele o mais belo. Bénard da Costa, João, quis que outros amassem o que ele amou. Hoje, digo com toda a certeza que amamos. Talvez não o amemos tão intensamente, com tanta disponibilidade. Mas amamos. E isso já ninguém nos tira. Nem o Tempo...

«Quem não percebe, não percebe também a dimensão do que não percebe.»

[JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI repete esta quinta-feira, 11 de Dezembro, no Pequeno Auditório do Rivoli, às 18h00.]

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Entrevista com Luís Costa: «Há coisas que não precisam de explicação»

Não é raro ficar-se amigo de um entrevistado, ultrapassadas as formalidades do questionário. Mais raro é, no entanto, ter a oportunidade de entrevistar um amigo à partida, alguém com quem já partilhamos experiências em comum. A propósito da estreia de FONTELONGA - obra belíssima sobre uma aldeia portuguesa - no Black & White 2013, lançamos o repto ao Luís Costa: falar-nos do seu filme como se não nos conhecesse. Acompanhado por Simon de Sousa, um dos produtores - e a poucas horas de subir ao palco do Auditório Ilídio Pinho para receber o Prémio do Público para a Secção de Vídeo do festival -, Luís aceitou o convite. Fica o resultado da conversa naquela esplanada ventosa, onde se relembraram caminhadas de regresso ao Porto "alimentadas" por Bergman e Malick, o Cinema e, acima de tudo, esse «milagre da memória» que se traduz na sua fita de estreia.

Como é que vão parar a Fontelonga? Sei que na apresentação da obra disseste que é a aldeia dos teus avós maternos, mas donde é que surge a ideia de ir lá filmar?

Luís Costa: Olha, engraçado que perguntes isso. Estávamos a acabar um trabalho - um ensaio sobre o tempo - para uma das cadeiras da universidade, e estávamos a caminho das bombas para comprar tabaco, não sei se te lembras...

Simon de Sousa: Tu disseste-me isso quando estávamos naquele café à beira da praia.

LC: Mas ali estávamos a comprar tabaco na BP, e estávamos a falar do meu avô e de não-sei-que-mais, e pensei "vou fazer um filme sobre o meu avô". Ele [o Simon] disse-me para primeiro pensar naquele, mas lá fiquei com o bichinho do FONTELONGA. Ainda não tinha acabado o ano, e já estava a equipa convidada para fazer o filme.

Começas a tua carreira com um documentário. É um registo no qual gostarias de continuar?

LC: Quero realizar mais documentários, mas não sei se é o formato no qual quero ficar definitivamente.

Mas mais sobre Fontelonga?

LC: Não, isso não. Já chega. Encerrei o capítulo sobre Fontelonga; e bem, creio.

Na apresentação do filme falaste de outra ideia muito interessante, o «milagre da memória». Que floreamos momentos da nossa infância, fazemos dos nossos avós heróis e guardamos uma ideia do passado que pode não corresponder exactamente ao que realmente se passou. De que forma sentes, ao filmar um lugar que te viu crescer, esse peso?

LC: Naturalmente, como muitos sabem, Fontelonga já foi uma terra cheia de vida. E eu, quando era miúdo, vinha com o carro cheio de fruta, cheio de tudo: era azeite, batatas... A transição para um aldeia deserta foi muito rápida - é essa a noção que tenho desde novo. E parece-me que foi desde que o meu avô morreu que a aldeia também começou a morrer. E com a aldeia a ficar deserta a minha preocupação era redimi-la uma última vez. Uma aldeia que era grande e que nunca mais ninguém vai dizer que conseguiu ser grande, percebes? Foi tentar, pelas palavras da Maria José, dizer que aquilo já teve vida, e tentar lembrar a aldeia num último momento, lembrá-la no discurso dela - no presente - aquilo que já foi.

Sentes o teu filme como uma espécie de elegia à aldeia, um canto-de-cisne da ruralidade portuguesa, ou mais como uma tentativa de usar a própria memória para a fixar?

LC: Acho que é uma mistura dos dois. Acho que é uma mistura perfeita dos dois. É tentar fazer jus à aldeia. Aliás, quando começamos, eu pensei "se calhar, isto vai ser muito centrado no meu avô", mas passou a ser um filme sobre a morte das aldeias de Portugal. E passou a ser um filme de Fontelonga. E depois passou a ser, digo eu, uma coisa universal.

FONTELONGA acaba no cemitério, num plano magnífico. É uma metáfora para a morte da própria aldeia?

LC: Curioso que perguntes isso. Não sei se te posso responder à pergunta. O filme, numa primeira versão, não terminava assim. Nem tenho bem a certeza onde é que o tal plano encaixava. Mas depois de o vermos ficámos com a sensação que precisava de um ponto final. Fomos mexendo, e...

SdS: E nada.

LC: Exacto, e nada. Há coisas que não precisam de explicação.

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ecos de Cannes

A cada grande festival que passa o Cinema português vai ganhando novos premiados. Este ano, em Cannes, foi a vez de João Nicolau, com o seu GAMBOZINOS (Quinzena dos Realizadores). A Palma d'Ouro, essa, foi para LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche.



Seguem-se os vencedores em todas as categorias:

SELECÇÃO OFICIAL

Palma d'Ouro - Longa-Metragem:
LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche

Grande Prémio:
INSIDE LLEWIN DAVIS, de Joel e Ethan Coen

 Melhor Realizador:
Amat Escalante, por HELI

Prémio do Júri:
LIKE FAHTER, LIKE SON, de Hirokazu Koreeda

Melhor Argumento:
Jia Zhangke, por A TOUCH OF SIN

Melhor Actriz:
Bérénice Bejo, por LE PASSÉ

Melhor Actor:
Bruce Dern, por NEBRASKA

Palma d'Ouro - Curta-Metragem:
SAFE, de Byoung-gon Moon

Prémio Vulcain do Artista:
GRIGRIS, de Mahamat-Saleh Haroun

Menções Especiais - Curtas-Metragens:
HVALFJORDUR, de Gudmundur Arnar Gudmundsson
37°4 S, de Adriano Valerio

UN CERTAIN REGARD

Prémio Un Certain Regard:
L'IMAGE MANQUANTE, de Rithy Panh

Prémio do Júri:
OMAR, de Hany Abu-Assad

Melhor Realizador:
Alain Guiraudie, por L'INCONNU DU LAC

A Certain Talent:
Diego Quemada-Diez, por LA JAULA DE ORO

Avenir Prize:
FRUITVALE STATION, de Ryan Coogler

JÚRI ECUMÉNICO

Melhor Filme:
LE PASSÉ, Asghar Farhadi

Menções Honrosas:
MIELE, de Valeria Golino
LIKE FATHER, LIKE SON, Hirokazu Koreeda

QUINZENA DOS REALIZADORES

Prémio Art Cinema
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene

Prémio SACD:
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene

Menção Especial:
TIP TOP, de Serge Bozon

Prémio Illy de Curta-Metragem:
GAMBOZINOS, de João Nicolau

Menção Especial de Curta-Metragem:
POUCO MAIS DE UM MÊS, de André Novais Oliveira

Prémio Label Europa Cinemas:
THE SELFISH GIANT, de Clio Barnard

SEMANA DA CRÍTICA

Grande Prémio:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Menção Especial:
LOS DUEÑOS, de Ezequiel Radusky e Agustin Toscano

Prémio Revelação France 4:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Prémio SACD:
LE DÉMANTÈLEMENT, de Sébastien Pilote

Prémio Canal+ - Curta-Metragem:
PLEASURE, de Ninja Thyberg

Prémio Descoberta - Curta-Metragem:
COME AND PLAY, de Daria Belova

Black & White 2013: os vencedores

PRÉMIOS DO JÚRI

Grande Prémio (Vídeo):
THE FINAL BELL, de Lionel Michaud

Melhor Vídeo - Ficção:
1949, de Paul Florian Muller

Melhor Vídeo - Documentário:
WARMTH, de Victor Asliuk

Melhor Vídeo - Experimental:
HERMENEUTICS, de Alexei Dmitriev

Melhor Vídeo - Animação:
ANDERSARTIG, de Dennis Stein-Schomburg

Melhor Áudio:
BLACK ON WHITE, de Emma Bowen

Melhor Fotografia:
AWAKE, de Fábio Roque

PRÉMIOS DO PÚBLICO

Melhor Vídeo:
FONTELONGA, de Luís Costa

Melhor Áudio:
VESSEL, de João Almeida

Melhor Fotografia:
HISTÓRIAS PASSADAS, de Margarida Sá Marques

MENÇÕES HONROSAS

Video - Ficção:
TIN & TINA, de Rubin Stein
HOTEL AMENITIES, de Julia Guillén Creagh

Vídeo - Animação:
NON-CITIZENS, de Aliona Gloukhova

Fotografia:
VACÍOS EN ESPERA, de Bruno Bresani

4:40 (Associação de Estudantes da UCP)

EM LINHA, EM CÍRCULO, de Afonso Gonçalves, Filipa Figueiredo, Mariana Mesquita e Rafaela Guimarães

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 2: o Deus-Maquinista no comando do moralismo universal

Encontro-me com o João, um dos amigos locais, numa cervejaria de esquina, pouco visível ao transeunte mais distraído. Fico com o benefício de escolher a mesa. Que seja uma cabine nos fundos, então. Ainda os finos não encontraram o caminho da mesa e já se fala dos planos dos mestres, de Bergman, Tarkovsky e Reis. Gajo culto, este João. A conversa lembra-me algo que Edgar Pêra escreveu sobre Paulo Rocha: numa das aulas, o último rumava em direcção à tela, de joelhos, oferecendo um braço em troca do olho de Dreyer para tirar planos. O João que, confessa-me, também não acha nada mal o negócio faustiano sugerido por Rocha, despede-se com o resto do seu fino e a certeza de que nestas terras lusitanas ninguém fotografa Cinema tão bem como o Rui Poças. Concordo. E ponho-me a ouvir discussões alheias.

Ao balcão fala-se do Porto. Do clube, claro está! Nota mental: guardar um dia destes para escrever sobre o Porto - a cidade, claro está! - lá no blog. Resisto à tentação de dar uma vista de olhos ao catálogo. Quero manter o desafio de seguir o festival em modo guerrilha, deixar-me guiar pelos deuses do celulóide. Estar na sala às horas marcadas e abrir os olhos, só e apenas. Ao balcão ainda se berra sobre o Porto. O caderno, esse, fica na mala; prefiro escutar o ambiente que me rodeia, saborear o momento. A vida trata-me bem. Merda, tenho de pedir ao Luís a tal entrevista! A ver se o encontro na Católica.

O Sol já se põe quando regresso ao campus. O telemóvel vibra-me no bolso. Nem de propósito, uma mensagem do Luís. O gajo deve ser bruxo! Vou ter com ele. Diz que nos dá a entrevista com todo o gosto, que é um prazer. E despede-se num abrir e fechar de olhos, sempre apressado. Desço ao bar. Mais amigos. Uns quase de infância, outros de boémias noitadas nos Leões. Pergunta-se pelo paradeiro (incerto) de conhecidos em comum, fala-se de música, festarolas e, sobretudo, Cinema. Chamam-me doido por preferir Truffaut a Godard (um «tu não sabes o que dizes» roda a mesa). Começa uma sessão competitiva de audio - à qual falto -, e aproveito para esticar as pernas. Mais reencontros, mais abraços partilhados, mais parvoíces disparadas para o ar ao desbarato. O Junior, bracarense semanal, telefona-me. Garante-me que chega sem falta amanhã, que ainda apanha os dois últimos grupos de vídeo a competição. Desligo mesmo a tempo: toca a sineta. Vão começar os filmes.

HOTEL AMENITIES (Espanha, 2012), de Julia Guillén Creagh, abre bem a sessão. Dois amantes, ambos casados com outras pessoas, encontram-se pela primeira vez num quarto de hotel. Conheceram-se online e pretendem agora consumar o caso. Só que o Universo é um sacana moralista que parece não os querer deixar concretizar o desejo carnal. Os telemóveis tocam nas piores alturas possíveis; primeiro o dela, depois o dele. São os respectivos cônjuges. Um momento de dúvida para, no final, a porta se fechar com o aviso para não incomodar o par. O resto não se precisa de saber.

Já PELUQUERO FUTEBOLERO (Espanha, 2012), de Juan Manuel Aragon, vive principalmente do seu argumento. Não revelando nada de novo, aproveita, ainda assim, os elementos à disposição para criar uma história divertida pelos seus contornos absurdos. Vale pelas gargalhas e pela (passageira) interrogação se a desorientação do homem que, acabado de trair o clube, vai cortar o cabelo não passará de um conflito interior?

Menos objectivos - até porque não precisam de o ser - são MILK GLASS (Rússia, ?), de Egor Chichkanov, DOUBLE TAKE (Suécia, ?), de J. Tobias Anderson, e DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (Itália, 2011), de Simone Massi. Sobre os dois primeiros, a conversa é rápida: o de  Chichkanov é um videoclipe - bem filmado, é verdade, mas um videoclipe, ainda assim -, a roçar o artsy-fartsy, enquanto que o de Anderson é uma montagem em split-screen de cenas de Intermezzo: A Love Story, de Gregory Ratoff, decompondo campos-contra-campos de Leslie Howard e Ingrid Bergman (acabei por gostar do resultado). Relativamente ao de Massi, sobre o qual já tive a oportunidade de escrever a propósito de um outro evento, confirmei duas suspeitas: primeiro, que o trabalho técnico da animação é, de facto extraordinário - já para não falar da sonorização -; segundo, que falta significado à obra, viajando-se apenas entre camadas.

NEGOTIATING REPRESENTATION IN ISRAEL AND PALESTINE (Israel/Palestina/Reino Unido, ?), de Huw Wahl, parece-me um objecto com mais valor social/humanitário do que cinematográfico. Não fosse o magnífico trabalho de som - de uma riqueza enorme -, pouco havia a espremer, em Cinema, do conjunto de stills de fotojornalistas narrado pelos próprios. Salva-se a mensagem da liberalização da imagem enquanto ferramenta da consciência social (e global). Melhor na combinação da mensagem com a linguagem cinematográfica é ANDERSARTIG (Alemanha, 2011), de Dennis Stein-Schomburg, animação de traço delicado contada pela única sobrevivente de um bombardeamento a um orfanato alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Relato impressionante de uma juventude perdida, suportada pela leveza etérea que lhe dá forma.

Guardou-se o melhor para o fim. DEUS ET MACHINA (Espanha, 2012), de Koldo Almandoz, é uma obra rara no modo como se desenha. Um homem chega a uma fábrica de manhã e põe a funcionar o Mundo - trata-se de um Deus-Maquinista encantado pela Natureza que gere, mas descontente com os homens que O gerem. Se calhar Nietzsche enganou-se e Deus, afinal, não morreu: escolheu foi demitir-se daquele emprego ingrato e deixar as responsabilidades para outro.

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 1: Macau, o frio, o adeus e a dança

Saio do carro a correr. Porra, o primeiro dia e já estou atrasado! Levanto a acreditação de imprensa - e vejo na mesa a do Junior, que só deve chegar lá para sexta -, e olho para o relógio. Com a brincadeira de ficar na faculdade a falar do campeonato do Porto já não vou a tempo da sessão das 15h00. Menos mal que são os vencedores do ano passado (conheço-os quase todos). Aproveito para conhecer o campus da Católica.

Ou assim contava fazer. Mal saio do edifício das Artes esbarro com uma cara conhecida. O Luís continua o mesmo: magro, com barba e sempre apressado. Pergunta-me se vou à sessão de sexta à noite, que não posso faltar. Mas que raio há de tão importante na sexta à noite? Vai apresentar a curta dele, diz-me, que tenho mesmo de ir. Deixo-o descansado: na sexta até o Junior, amigo em comum, vai! Despede-se - tem sempre muito que fazer - e marca um café para um dos dias do festival. Desisto de dar a minha volta de reconhecimento. Vou é procurar um sítio para me sentar e dar uma vista de olhos pelo programa, que isto de cobrir um certame sem saber ao que se vai não tem jeitinho nenhum.

A Católica é agradável nesta altura do ano. Encontro um banco aquecido pelo Sol e ponho-me a folhear o catálogo. Lá está o Luís Costa e o seu FONTELONGA! Foda-se, não lhe pedi uma entrevista para o blog. Enfim, alguma coisa se há-de arranjar. Recebo uma mensagem. É do Xico, outro dos amigos a estudar na área. Promete-me, também ele, um cafezinho, mas só a partir de amanhã: hoje não tem aulas. Olho novamente para o relógio. Está quase na hora da sessão das 17h00. Decido-me a encontrar a sala.

O auditório não é difícil de encontrar. Mas tenho de descer não-sei-quantos lanços de escadas com uma mala pesadíssima. Entro, escolho um lugar, e, para minha surpresa, mais um reencontro. No palco, diante de mim, uma cara conhecida das fitas nos Passos, Meca dos cinéfilos portuenses. Trocamos "olás", separados por filas de cadeiras, que o tempo não permite outras cortesias. Cabe-lhe apresentar a artist talk de Tomé Quadros, prata-da-casa e jurado nesta edição do Black & White. Fala-se de Macau, de macaístas e macaenses, do choque-transformado-em-fusão cultural, dos Dóci Papiaçam di Macau. E passa-se aos filmes, que são o que verdadeiramente importa.

O trabalho dos Dóci Papiaçam di Macau lembrou-me, quase de imediato, duas coisas: uma foi o teatro chinês, super-exagerado e altamente estilizado, de que Guerra da Mata fala em A Última Vez Que Vi Macau, seu e de João Pedro Rodrigues; a outra, a teoria da fixação do teatro, defendida por Manoel de Oliveira. Mas se a primeira é rapidamente comprovada à medida que as fitas - na sua grande maioria falsos-trailers, auto-satíricos na utilização de estereótipos e lugares-comuns - vão passando, a segunda cedo cai por terra. É que aqui o Cinema não terá tanto o objectivo fixar a obra, como de expandir, através da multimédia, a mensagem do grupo: a preservação do Patuá macaense, o crioulo local.

Reduzidos ao chiste mencionado na apresentação, os trabalhos dos Dóci Papiaçam di Macau, não obstante o seu valor na divulgação de uma identidade cultural muito própria, acabam por se reduzir à curiosidade que encerram em si, enquanto paródias assumidas. Mais interessante pareceu-me, contudo, um dos documentários do próprio Tomé Quadros - em antevisão no início da sessão -, CHÁ GORDO, sobre a prática social que reúne à mesa as famílias macaenses. Aguardo com algum entusiasmo a oportunidade de o ver.

Pausa na programação. E novo intervalo alargado. Começo a pensar no formato a dar à cobertura do festival. Que se lixe, vai ser uma crónica! Começo a desenhar, mentalmente, estas linhas. No Bar das Artes tiro da mala o fiel caderninho - companheiro de rascunhos - e escrevo não sei quantos parágrafos que sei necessitarem de séria revisão quando me apanhar no conforto de casa. Reconheço uma outra amiga (mais uma!), esta mais antiga. Não sabia que conhecia tanta a gente a estudar por estes lados. Vem na minha direcção; ainda bem, não me apetecia nada ter de me levantar para fazer o caminho contrário. Pergunta-me o que faço por aqueles lados, que decerto não estudo ali, ou já me teria visto. Mostro-lho a acreditação e falo-lhe do blog, meio orgulhoso do feito. Pá, deixa de ser parvo, a conversa não lhe interessa, penso para mim. Ela senta-se, contudo, à mesa, admiradíssima por eu editar uma página sobre Cinema. Pomos a conversa em dia, até que alguém a chama. Outro café prometido. Decido guardar o caderno e ir esticar as pernas.

Mal passo a porta que dá para o exterior cruzo-me com o Nuno Reis, do Antestreia. Ficamos a fazer horas cá fora até ao início da sessão da noite. Filmes em circuito comercial, críticos de eleição na blogosfera nacional, festivais e eventos a acompanhar, resenhas em atraso nos respectivos espaços, passam-se todos os tópicos da praxe em revista. Já não nos víamos há largos meses - desde o Fantasporto - e assunto não falta. A malta começa a entrar. Os filmes vão começar.

A edição deste ano abre com 89 MM OD EUROPY (Polónia,1993), de Marcel Lozinski, nomeado em meados da década de 90 ao Oscar de Melhor Curta-Metragem Documental. Escolha interessante. Trabalhadores dos caminhos-de-ferro a trocarem as rodas as carruagens enquanto os passageiros os observam (um deles fotografando-os). A primeira associação que vem à cabeça é o Cinema Novo, trazido pelas Novas Vagas, carregado de consciência social. Findo o filme, apresenta-se o festival e o júri deste ano. Batem-se palmas de minuto a minuto. E corta-se para os seis títulos a concurso nesta primeira leva.

WARMTH (Bielorrússia, 2010), de Victor Asliuk, é, apesar do título, um filme frio. Ambientado numa fábrica de botas, oscila entre grandes-planos fechados na cara dos trabalhadores e uma visão mais distante do vapor que preenche o espaço. Aliás, é nesse fumo ubíquo que o melhor do filme se descobre, na visão impessoal - mal contrariada pelas pessoas, próximas de ferramentas - daquele mundo industrial. Igualmente frio pareceu-me NEST (Geórgia, 2011), de Tornike Bziava. Dele destaco a solidão inicial do protagonista, um velho viúvo com um filho divorciado, e um plano extraordinariamente belo: o pai, sentado na cama, aperta a gravata ao filho, num dos gestos mais íntimos possíveis.

Bem mais alegres são THE FEAST (Alemanha, ?), de Boris Seewald, e FROM DAD TO SON (Alemanha, 2011), de Nils Knoblich. O primeiro, experimental, cola várias coreografias num espectáculo visual frenético e, diga-se com toda a justiça, feliz. O segundo, animação paralelepípeda, história de um pai agricultor com o filho preso, conseguiu deixar-me com um sorriso nos lábios, apesar das óbvias limitações técnicas.

O primeiro português a competir, Vasco Mendes, surpreendeu pela positivo. O seu FOR THOSE WHO STAY (Portugal, ?) terá sido, porventura, o melhor do dia. Muito graças aos magníficos planos em contra-luz daquele bar de aeroporto, onde a despedida é para os que não embarcam. Nem o facto de, no final, parecer um anúncio a uma qualquer marca de cerveja o prejudicou: quem filma assim merece o maior dos elogios. No pólo oposto ficou LOOKING FOR SOMETHING (PART ONE: A WINTER VISIT) (Alemanha, ?), de Fjodor Donderer, feito entre imagens granuladas e uma pretensiosa narração filosófica-ambiental. A retórica ficou, no entanto, longe de convencer.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 29 de abril de 2013

8 ½ Festa do Cinema Italiano 2013: depois do aperitivo, os amuse-bouches?

Continuando o tema gastronómico, se os primeiros filmes de um festival podem ser considerados o seu aperitivo, as curtas-metragens serão amuse-bouches. Fitas para ver de um só trago e ir digerindo à medida que vão surgindo. Mas, como na culinária, também no Cinema a mão que mexe a panela tem a sua importância no resultado final. E se pudemos provar uma ou outra pérola gourmet - confeccionadas com os melhores ingredientes e a técnica mais apurada - entre os pratos seleccionados pelo 8 ½ Festa do Cinema Italiano, encontrou-se, igualmente, na ementa uns quantos menos comestíveis, faltos do cuidado exigido à cozinha deste calibre. Outro houve, ainda, que se revelou simplesmente estranho, inesperada iguaria, recomendável para gastrónomos de palato treinado e espírito aberto.

Perdoe-nos, o caro leitor, o anacronismo na habitual ordem da refeição - sobre isso, só podemos acrescentar que a ocasião faz o ladrão -, e desfrute do banquete preparado. Para ler - e comer - numa só dentada.

O bom.

Sempre me disseram que devia reservar no prato o melhor para o fim da refeição. Não fosse, no entanto, o apetite - o meu e o do leitor - perder-se nas espinhas encravadas na garganta, é exactamente por aí que me proponho começar. E logo com CARGO (2012), de Carlo Sironi, filme sobre as redes de tráfico de mulheres que operam na Europa. Ou, melhor, sobre uma dessas mulheres traficadas - a carga -, forçada a prostituir-se numa autoestrada. Se a temática tem sido recorrente nas vagas mais recentes do realismo social, Sironi surpreende, no entanto, pela forma como a filma, afastando-se do acto em si para se concentrar noutros problemas relacionados. Por isso não me admiro que o melhor do filme se encontre num momento de rara cumplicidade entre a prostituta grávida e o chulo/moço-de-recados que julga ser o pai da criança - e que belas interpretações de Lidiya Liberman e Flavius Gordea -, no qual ela lhe confessa que momentos antes lhe chamara stronzo em ucraniano. O melhor da selecção.

Não é difícil imaginar TERRA (2012), de Piero Messina, a ter sucesso em festivais. Pelo menos foi essa a sensação com que fiquei após o ver. O que pode indicar uma de duas coisas - e porque não um pouco de ambas? -: ou é, de facto, um filme muito bem feito, com valores de produção sólidos, ou deixa-se cair num pretensiosismo tal, que às tantas já ninguém percebe o que por lá se passa. Mesmo admitindo que Terra possa sucumbir ao peso da sua própria ambiguidade, é de louvar a inteligência de Messina na construção deste purgatório marítimo e a direcção de fotografia de Diana G. Palombaro, absolutamente deslumbrante. E esperar que a próxima obra do realizador se concretize em algo mais inteligível.

Menos conseguido do que os filmes anteriores - até pela maneira como foi filmado -, mas igualmente interessante, é LA COLPA (2011), de Francesco Prisco. Partindo da ideia de discriminação - com dois polícias a quererem revistar a mala de um indivíduo árabe - para a de preconceito inconsciente, com o advogado que defendeu o árabe a ser também ele levado por comportamentos semelhantes, Prisco explora de forma eficaz o medo irracional associado aos traumas de uma sociedade pós-9/11. Falha, contudo, na construção coerente da sua mensagem, ora negando a utilidade da estereotipagem, ora validando-a. Ultrapassando a condescendência - que tenta esconder sem sucesso -, revela-se uma obra curiosa, embora nem por isso mais necessária. Para mim, um bom menos, daqueles quase a passar para a negativa.

O mau.

CUSUTU ‘N CODDU (2012), de Giovanni La Parola, lembrou-me, pela paleta de cores de que dispõe, os acid westerns de Jodorowsky. Sirva a comparação como uma espécie de elogio - o único possível -, com as cores a dançarem nos limites do contraste e saturação. Pouco sobra desse exercício estético, propositado ou não, resumindo-se o filme a um chorrilho de disparates incapaz de o sustentar. O pior da sessão, e um dos mais indigestos do festival.

TRAINING AUTO GENO (2011), de Astutillo Smeriglia, peca, sobretudo, pelo seu humor brejeiro. Fora isso, funciona como uma engraçada abordagem à questão homens versus mulheres, embora nem por isso mais correcta - as mulheres querem todas casar-se, os homens só pensam em sexo -, tentando colocar em evidência algumas das diferenças entre os géneros. Não sendo bem sucedido no seu objectivo, essa ligeireza que assume logo à partida permite-lhe, pelo menos, parecer menos mau do que Cusutu 'n coddu.

O estranho.

Resistindo à tentação de incluir Terra nesta secção, não consegui o mesmo em relação a DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (2011), de Simone Massi. Não que o filme seja péssimo, mas a imagética que manipula torna-o um exercício, no mínimo, bizarro e algo confuso. Personagens que se transformam noutras personagens, saindo do seu corpo, existindo nas suas sombras, espaços que são cães, travellings por camadas de estória - do mais desorientador que já experimentei em animação -, tudo na obra contribui para a formação de um objecto surreal, penetrante e intenso. O que me faz desconfiar que, provida de um significado concreto, a obra poderia ser ainda melhor; não o tendo, é apenas esquisita.

António Tavares de Figueiredo

terça-feira, 23 de abril de 2013

8 ½ Festa do Cinema Italiano 2013: a família-Estado e a Máfia-negócio, no aperitivo para o fim-de-semana

Admito que é tentador comparar os primeiros dias de um festival de Cinema ao aperitivo de uma refeição. Ainda para mais, sendo o festival dedicado ao Cinema italiano - como é este 8 ½ Festa do Cinema Italiano -, país dado a estas aventuras gastro-cinematográficas. E com comensais habituados a comer tão bem - com os olhos, é claro -, a fasquia só poderia ser elevada.

Sirva-se, portanto, È STATO IL FIGLIO e L’INTERVALLO, obras de estreia a solo de Daniele Ciprì e Leonardo di Costanzo, respectivamente, aperitivos à altura para uma manjar satisfatório. Uma, a estória - ou será história? - de uma família tornada Estado, adepta de tornar desgraças em ganhos, a outra, prisão de dois adolescentes rechonchudos num prédio devoluto, cortesia da Máfia local. Sem indigestões - guardadas para ocasiões futuras -, está aberto o apetite!

È STATO IL FIGLIO, de Daniele Ciprì (Itália, 2012)

Creio, não querendo ser injusto para com o autor, que o grande problema de È STATO IL FIGLIO reside no excesso de ambição cultivado por Daniele Ciprì na sua estreia a solo em longas-metragens. Não que a ambição, principalmente quando bem gerida, seja má (e já lá voltaremos), mas a sensação com que fiquei no final no filme foi a de um passo que, por ser claramente maior do que a perna, saiu em falso. E que, exactamente por não ter onde se apoiar, resulta num trambolhão.

Louve-se, no entanto, o tema escolhido por Ciprì - que acumula a direcção de fotografia com a cadeira de realizador -, bem como alguns dos mecanismos encontrados para o desenvolver. Principalmente o contador-de-desgraças, sentado numa repartição das Finanças, que conta a quem o queira ouvir a história de uma família de classe baixa seduzida pela promessa de dinheiro. A alegoria pensada, ao transformar a família num falso-Estado - que se endivida para saldar outras dívidas e "hipoteca" os próprios filhos a troco do bem-estar económico - perde-se, infelizmente, na impaciência de Ciprì em explorar, redundando em planos frequentemente inconsequentes e ângulos estrambólicos que não encontram justificação em qualquer opção estética coerente. È stato il figlio vale, ainda assim, pelo clímax - filmado com rara clarividência -, momento ímpar de intensidade dentro da obra. Pena que o resto se quede tantos furos abaixo. (ATF)





L’INTERVALLO, de Leonardo di Costanzo (Alemanha/Itália/Suíça, 2012)

Mas se há momentos escrevi que o excesso de ambição prejudicou a estreia a solo de Ciprì, o mesmo não posso dizer da de Leonardo di Costanzo, que a soube dosear melhor. O que faz com que L’INTERVALLO - talvez por ser anti-climático, e, por isso, não viver apenas para um momento - pareça um filme bastante mais equilibrado do que È stato il figlio, fazendo maravilhas de um espaço, à partida, limitador.

Influenciado pela estética neorrealista - e, já agora, pelo cinéma vérité, na câmara que, pela proximidade, provoca os sujeitos -, di Costanzo prende dois adolescentes num prédio abandonado e desprovido de qualquer personalidade. E que, de tão vazio, os obriga, enquanto ocupantes forçados daquele espaço, a interagir com ele, quebrando as suas limitações. Às tantas, imaginam que estão num reality show e levam flores a um fantasma que se julga vaguear pelos corredores quando anoitece. Há qualquer coisa de muito inteligente na obra de di Costanzo, na ideia de não querer ficar agarrado a convenções que não lhe servem. A Máfia aqui também não é a de outros filmes - a de Gomorra, por exemplo, de Matteo Garrone, um monumento do Cinema moderno à sua maneira, é um visão quase-hollywoodesca, com as personagens a citarem Tony Montana -, longe da violência que lhe é habitualmente associada, mais interessada em negociar os termos da libertação da rapariga (o rapaz só lá está para a guardar).

E já que estamos em maré de comparações - e voltando às linhas iniciais -, percebe-se que, em comunidades governadas pelo crime organizado, se consegue mais com menos. No Cinema, o caso é semelhante. E L'intervallo, não sendo perfeito, prova-o bem, especialmente quando comparado a filmes como È stato il figlio. No fim, sobram as decisões tomadas. (ATF)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Black & White 2013: os seleccionados (Vídeo)

Já foram anunciados as obras seleccionadas para a competição deste ano do Black & White.

De 22 a 25 de Maio de 2013, a Escola das Artes da Universidade Católica no Porto volta a abrir portas à estética a duas cores. A 10ª edição do Festival Audiovisual Black & White, que recebe vídeos, áudio e fotografias a preto e branco, levará a competição obras provenientes dos 4 cantos do mundo.

Com características únicas a nível mundial, a iniciativa nasceu da necessidade de responder a uma crescente sensibilidade do público para a especificidade do preto e branco, abandonando o preconceito que relaciona esta estética com obras dos primórdios do cinema.

Além da aposta em vídeos e fotografias a duas cores, o festival estimula igualmente a criação de ambientes sonoros que remetam para o "preto e branco".

Ao longo de quatro dias, para além das competições, serão levadas a cabo diversas actividades ligadas ao mundo audiovisual, desde artist talks, screenings, até extensões de outros festivais internacionais. As noites serão também animadas com um programa cultural paralelo.

Foram escolhidas para a secção de Vídeo do certame:

  • 1949, de Paul Florian Muller (Alemanha, ficção – 17:00)
  • 20 HZ, de Ruth Jarman e Joe Gerhardt (Reino Unido, experimental – 5:00)
  • ANDERSARTIG, de Dennis Stein-Schomburg (Alemanha, animação – 4:30)
  • DELL' AMMAZZARE IL MAIALE, de Simone Massi (Itália, animação – 6:00)
  • DEUS ET MACHINA, de Koldo Almandoz (Espanha, ficção – 8:35)
  • DOUBLE TAKE, de J. Tobias Anderson (Suécia, animação – 1:41)
  • FONTELONGA, de Luís Costa (Portugal, documentário – 14:00)
  • FOR THOSE WHO STAY, de Vasco Mendes (Portugal, experimental – 3:26)
  • FROM DAD TO SON, de Nils Knoblich (Alemanha, animação – 5:16)
  • HAMAIKETAKOA, de Telmo Esnal (Espanha, ficção – 4:00)
  • HERMENEUTICS, de Alexei Dmitriev (Rússia, Experimental – 3:15)
  • HOOJI, de Marcello Quintella e Boynard (Brasil, ficção – 17:50)
  • HOTEL AMENITIES, de Julia Guillén Creagh (Espanha, ficção – 14:00)
  • LET EVERYONE CREATE THEIR OWN TITLE, de Jason Wen (Reino Unido, documentário – 8:00)
  • LOOKING FOR SOMETHING (PART ONE: A WINTER VISIT), de Fjodor Donderer (Alemanha, experimental – 12:30)
  • MILK GLASS, de Egor Chichkanov (Rússia, video musical – 5:10)
  • NEGOTIATING REPRESENTATION IN ISRAEL AND PALESTINE, de Huw Wahl. (Israel/Palestina/Reino Unido, documentário – 14:23)
  • NEST, de Tornike Bziava (Geórgia, ficção – 19:00)
  • NON-CITIZENS, de Aliona Gloukhova (Bielorrússia, animação – 12:28)
  • PELUQUERO FUTEBOLERO, de Juan Manuel Aragon (Espanha, ficção – 12:55)
  • SOB / UNDER, de Nuno Prudêncio (Portugal, ficção – 15:00)
  • THE BUTTON, de Ieva Miskinyte (Lituânia, animação – 5:48)
  • THE FEAST, de Boris Seewald (Alemanha, ficção – 3:24)
  • THE FINAL BELL, de Lionel Michaud (França, ficção – 18:51)
  • TIN & TINA, de Rubin Stein (Espanha, ficção – 12:00)
  • WARMTH, de Victor Asliuk (Bielorrússia, documentário – 20:00)

A 10ª edição do Festival Black & White decorrerá entre 22 e 25 de Maio, na Escola das Artes da Universidade Católica no Porto.

sábado, 6 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 3

Nunca imaginei acabar uma Páscoa a ver filmes de surf. O Porto Surf Film Festival trocou-me as voltas e proporcionou-me a inesperada oportunidade. Testemunho passado - e que bem passado - pelo Wladimir Jr. Ribeiro, calhou-me assistir às duas últimas sessões do festival. E não saí desiludido do auditório da Biblioteca Almeida Garrett.

A BROKEDOWN MELODY, de Chris Malloy (EUA, 2004)

Antologia de histórias e vivências ligadas ao surf enquanto filosofia - e, na sua maioria, afastadas da sua vertente competitiva -, A BROKEDOWN MELODY mantém grande parte das características geralmente associadas ao subgénero. Assumir-se-á, assim, como um híbrido entre documentário e fita de desporto, misturando narrações em voz-off com planos de gente a praticar a modalidade em vários pontos do globo.

Mas filmar da Jamaica ao Peru, envolvendo tantas localizações e pessoas diferentes, poderá ter-se revelado um projecto demasiado ambicioso. Nasce dessa multiplicidade de situações a sensação de uma fita algo desconjuntada, falta de um fio condutor claro e capaz de ligar todos os seus componentes. Ficam, contudo, a magnífica fotografia de David Homcy, Sonny Miller e Scott Soens - há momentos em que as cores quase extravasam os limites do contraste -, a banda sonora interessantíssima, com músicas de Eddie Vedder, Jack Johnson e Kings of Convenience, e a ideia de que A Brokedown Melody consegue, mesmo que apenas a espaços, ser um obra elegante e de rara beleza. (ATF)


SURFING WITH THE ENEMY, de Scott Braman e Adam Preskill (Cuba/EUA, 2011)

Dois cineastas norte-americanos a rodarem em Cuba; a ideia já daria, por si só, pano para mangas. Mas o que Scott Braman e Adam Preskill descobriram no seio da comunidade surfista cubana é algo de verdadeiramente incrível. O título, SURFING WITH THE ENEMY, apropria-se ao resultado. Resta é descobrir quem é o inimigo no meio disto tudo. Passem-se algumas linhais gerais do filme em revista, não se fosse despejar no leitor informação sem especial sentido: em Cuba, surfar, se não proibido, é visto com maus olhos pelas autoridades. O perigo de alguém se escapulir da ilha com a ajuda de uma prancha é grande - a distância para outros países, o Haiti, a Jamaica, ou até mesmo os EUA, não é enorme -, e desagrada os responsáveis de Havana. O medo é tanto, aliás, que não se pode, sequer, estar perto da praia à noite. Outrossim, as associações e organizações privadas não são permitidas. A comunidade surfista é, portanto, semi-clandestina, para além de pouco desenvolvida.

O que torna ainda mais caricato que a meio surjam uns quantos oficiais do governo - produtores de TV, historiadores e funcionários de ministérios - a gabarem o espírito empreendedor dos surfistas, apoiando a prática da modalidade. Percebe-se também daí o lado activista da obra - e o envolvimento de Lance Henriksen enquanto narrador -, expondo a paranóia de um regime, dirigida neste caso em particular contra um grupo relativamente restrito de pessoas. No final, explica-se o porquê de tanta rigidez: um membro do governo confessa que os surfistas pertencem à vanguarda da sociedade, associada à rebeldia e ao desejo de maior abertura. O medo deixa de ser que eles surfem para os EUA, para passar a que eles mudem Cuba a partir de dentro. Fechou-se com chave de ouro. (ATF)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 2

A primeira edição de Porto Surf Film Festival continua pelo seu segundo dia. A proximidade à Páscoa não ajuda na adesão do público, mas ainda se preenchem algumas cadeira. E se o primeiro dia foi uma surpresa, no segundo esperava uma qualidade semelhante. Assim o foi.

Começou o dia com um filme bastante peculiar, SINGLEFIN: YELLOW, e acabamos com umas viagens às águas mais frias dos países nórdicos, com SEA FEVER.

SINGLEFIN: YELLOW, de Jason Baffa (EUA, 2005)

Neste pequeno filme de uma hora, seguimos os caminho de uma prancha de surf amarela especial enquanto é passada de mão em mão por diversos surfistas, usada nas mais diversas condições aquáticas. Funcionando quase como algo simbólico, esta prancha amarela aguarda eternamente pelo próximo fanático de surf para a levar a um lugar diferente.

Um filme bem feito que transmite bem a sua mensagem, que há muitas coisas que todos os surfistas partilham e não são só as pranchas. Com umas imagens bonitas com um ambiente relaxado que acaba por transmitir tudo o que realmente importa neste desporto. SINGLEFIN: YELLOW é, definitivamente, um que vale a pena ver, não só pelos amantes do surf. (WJR)


THICKER THAN WATER, de Jack Johnson, Chris Malloy, Emmett Malloy (EUA, 2000)

Este documentário é bastante agradável de se ver, é um conceito simples, imagens de um grupo de pessoas a praticar surf nos mais variados lugares, ao som de musica boazinha. Talvez a simplicidade da coisa e o efeito relaxante da música sejam o que torna este pequeno filme diferente, talvez o rumo indefinido de toda o filme e as gravações amadoras sejam o que impeça o publico de gostar. A divergência de opiniões em relação a THICKER THAN WATER é capaz de ser consideravelmente grande, mas por cá nem se achou mau de todo.

Thicker Than Water não passa de uma tentativa satisfatória a algo consistente, não tem muito para dar, mas o que dá ainda é bastante sólido e por isso não penso que seja uma completa perda de tempo, embora não valha mais que a primeira visualização. (WJR)

SEA FEVER, de Ken O'Sullivan (Irlanda, 2009)

SEA FEVER é um documentário mais focada num só local, Irlanda, e explora toda a história do surf de alguns indivíduos e do país, assim como uma das maiores ondas que lá reside. Certamente, é um filme bastante direto ao assunto e é competente no que transmite, conhece-mos famílias ligadas ao surf, alguns dos melhores locais e muita ligação entre gerações através deste desporto.

Temos também a oportunidade de ver algumas das condições mais desconfortáveis para a prática do surf, sendo um país nórdico é muito complicada encontrar céu limpo e pouco vento à beira mar. Algumas das imagens que provêm destas condições são muito bem conseguidas e atrairão o mais atento dos observadores. (WJR)

Nero em dose dupla

Hoje, filmes com Franco Nero em Coimbra e no Porto. Cortesia do 8 ½ Festa do Cinema Italiano.

KEOMA (1976), de Enzo G. Castellari

Às 16h30, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.

DJANGO (1966), de Sergio Corbucci

Às 19h30, no Cinema Passos Manuel, no Porto.

domingo, 31 de março de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 1


Começou dia 30, o Porto Surf Film Festival, e a redacção teve o prazer de marcar presença nesta sua primeira edição. Este pequeno festival traz-nos uma diversificada compilação de filmes e documentários sobre o surf, um tema que pode parecer, inicialmente, focado num certo público alvo mas poderá surpreender muitos que arrisquem comparecer.

Neste primeiro dia foram exibidos ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin, e THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown. Acredito que as primeiras exibições foram um bom presságio para o que estava para vir nos próximos dias.

ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin (EUA, 2006)

A história de Sarah Gerhardt e tudo o que levou à sua conquista de uma das maiores ondas do mundo, a onda de Mavericks. Este documentário biográfico da primeira mulher a surfar uma onda desta magnitude acaba por se tornar em algo bastante sentimental e inspirador, não só pelo desafio como pelas diversas dificuldades que teve que ultrapassar ao longo da vida e que levaram aos seus grandes feitos, sejam eles académicos ou no desporto.

O que torna mais dificil a sua visualização será o excesso de granulado nas imagens, uma escolha talvez pouco pensada, visto que muitas dessas imagens seriam bastante deslumbrantes sem esse aspecto. No entanto, é um filme bem construído, com um desenvolvimento apropriado para o tempo de filme que tem. (WJR)

THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown (EUA, 1994)
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Bruce Brown volta quase 30 anos depois com a sequela de um dos seus grandes trabalhos. Este traz-nos uma hora e meia de imagens simplesmente magnificas, a ocasional piadinha, um pouco de cultura e muito surf.

Aqui seguimos a viagem à volta do globo de dois fanáticos do surf pelos melhores locais para se praticar o desporto. Embora pelo caminho as desventuras sejam muitas, o destino é alcançado e são acompanhados por diversas caras familiares do primeiro filme. As duas personagens pouco importam para o cenário, a única coisa a saber é que um é o completo oposto do outro e passam o Verão a surfar nos sítios mais fantásticos.

O filme garante a qualquer público um tempo bem passado, sempre com um sorriso na boca, e nunca cansa referir que as imagens em altura de surf são espectaculares, definitivamente uma grande melhoria do primeiro em muitos aspectos. (WJR)