Desafiado pela Sofia Santos, do blog girl on film, a escolher uma mulher do Cinema e sobre ela escrever o que me aprouvesse, tirei a pena do descanso e pus-me ao trabalho. Para ler o resultado do esforço - e conhecer a minha preferência cinéfila no que ao sexo feminino diz respeito - é só passar por aqui. Convém é ler também os outros textos da iniciativa, que valem bem a pena.
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Ecos de Cannes
A cada grande festival que passa o Cinema português vai ganhando novos premiados. Este ano, em Cannes, foi a vez de João Nicolau, com o seu GAMBOZINOS (Quinzena dos Realizadores). A Palma d'Ouro, essa, foi para LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche.
Seguem-se os vencedores em todas as categorias:
SELECÇÃO OFICIAL
Palma d'Ouro - Longa-Metragem:
LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche
Grande Prémio:
INSIDE LLEWIN DAVIS, de Joel e Ethan Coen
Melhor Realizador:
Amat Escalante, por HELI
Prémio do Júri:
LIKE FAHTER, LIKE SON, de Hirokazu Koreeda
Melhor Argumento:
Jia Zhangke, por A TOUCH OF SIN
Melhor Actriz:
Bérénice Bejo, por LE PASSÉ
Melhor Actor:
Bruce Dern, por NEBRASKA
Palma d'Ouro - Curta-Metragem:
SAFE, de Byoung-gon Moon
Prémio Vulcain do Artista:
GRIGRIS, de Mahamat-Saleh Haroun
Menções Especiais - Curtas-Metragens:
HVALFJORDUR, de Gudmundur Arnar Gudmundsson
37°4 S, de Adriano Valerio
UN CERTAIN REGARD
Prémio Un Certain Regard:
L'IMAGE MANQUANTE, de Rithy Panh
Prémio do Júri:
OMAR, de Hany Abu-Assad
Melhor Realizador:
Alain Guiraudie, por L'INCONNU DU LAC
A Certain Talent:
Diego Quemada-Diez, por LA JAULA DE ORO
Avenir Prize:
FRUITVALE STATION, de Ryan Coogler
JÚRI ECUMÉNICO
Melhor Filme:
LE PASSÉ, Asghar Farhadi
Menções Honrosas:
MIELE, de Valeria Golino
LIKE FATHER, LIKE SON, Hirokazu Koreeda
QUINZENA DOS REALIZADORES
Prémio Art Cinema
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene
Prémio SACD:
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene
Menção Especial:
TIP TOP, de Serge Bozon
Prémio Illy de Curta-Metragem:
GAMBOZINOS, de João Nicolau
Menção Especial de Curta-Metragem:
POUCO MAIS DE UM MÊS, de André Novais Oliveira
Prémio Label Europa Cinemas:
THE SELFISH GIANT, de Clio Barnard
SEMANA DA CRÍTICA
Grande Prémio:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Menção Especial:
LOS DUEÑOS, de Ezequiel Radusky e Agustin Toscano
Prémio Revelação France 4:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Prémio SACD:
LE DÉMANTÈLEMENT, de Sébastien Pilote
Prémio Canal+ - Curta-Metragem:
PLEASURE, de Ninja Thyberg
Prémio Descoberta - Curta-Metragem:
COME AND PLAY, de Daria Belova
Black & White 2013: os vencedores
PRÉMIOS DO JÚRI
Grande Prémio (Vídeo):
THE FINAL BELL, de Lionel Michaud
Melhor Vídeo - Ficção:
1949, de Paul Florian Muller
Melhor Vídeo - Documentário:
WARMTH, de Victor Asliuk
Melhor Vídeo - Experimental:
HERMENEUTICS, de Alexei Dmitriev
Melhor Vídeo - Animação:
ANDERSARTIG, de Dennis Stein-Schomburg
Melhor Áudio:
BLACK ON WHITE, de Emma Bowen
Melhor Fotografia:
AWAKE, de Fábio Roque
PRÉMIOS DO PÚBLICO
Melhor Vídeo:
FONTELONGA, de Luís Costa
Melhor Áudio:
VESSEL, de João Almeida
Melhor Fotografia:
HISTÓRIAS PASSADAS, de Margarida Sá Marques
MENÇÕES HONROSAS
Video - Ficção:
TIN & TINA, de Rubin Stein
HOTEL AMENITIES, de Julia Guillén Creagh
Vídeo - Animação:
NON-CITIZENS, de Aliona Gloukhova
Fotografia:
VACÍOS EN ESPERA, de Bruno Bresani
4:40 (Associação de Estudantes da UCP)
EM LINHA, EM CÍRCULO, de Afonso Gonçalves, Filipa Figueiredo, Mariana Mesquita e Rafaela Guimarães
domingo, 26 de maio de 2013
Sunday Stills #38: "La dolce vita"
A propósito da 10ª edição do Black & White a da estética monocromática que caracteriza o festival, relembramos esta semana LA DOLCE VITA, de Federico Fellini. Poucos filmes - e realizadores - conseguiram enraizar-se de forma tão profunda no preto-e-branco como este deambular de Marcello pelas ruas de Roma. La Dolce Vita e Fellini provam a capacidade do Cinema de se elevar à vida.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Black & White 2013, Dia 2: o Deus-Maquinista no comando do moralismo universal
Encontro-me com o João, um dos amigos locais, numa cervejaria de esquina, pouco visível ao transeunte mais distraído. Fico com o benefício de escolher a mesa. Que seja uma cabine nos fundos, então. Ainda os finos não encontraram o caminho da mesa e já se fala dos planos dos mestres, de Bergman, Tarkovsky e Reis. Gajo culto, este João. A conversa lembra-me algo que Edgar Pêra escreveu sobre Paulo Rocha: numa das aulas, o último rumava em direcção à tela, de joelhos, oferecendo um braço em troca do olho de Dreyer para tirar planos. O João que, confessa-me, também não acha nada mal o negócio faustiano sugerido por Rocha, despede-se com o resto do seu fino e a certeza de que nestas terras lusitanas ninguém fotografa Cinema tão bem como o Rui Poças. Concordo. E ponho-me a ouvir discussões alheias.
Ao balcão fala-se do Porto. Do clube, claro está! Nota mental: guardar um dia destes para escrever sobre o Porto - a cidade, claro está! - lá no blog. Resisto à tentação de dar uma vista de olhos ao catálogo. Quero manter o desafio de seguir o festival em modo guerrilha, deixar-me guiar pelos deuses do celulóide. Estar na sala às horas marcadas e abrir os olhos, só e apenas. Ao balcão ainda se berra sobre o Porto. O caderno, esse, fica na mala; prefiro escutar o ambiente que me rodeia, saborear o momento. A vida trata-me bem. Merda, tenho de pedir ao Luís a tal entrevista! A ver se o encontro na Católica.
O Sol já se põe quando regresso ao campus. O telemóvel vibra-me no bolso. Nem de propósito, uma mensagem do Luís. O gajo deve ser bruxo! Vou ter com ele. Diz que nos dá a entrevista com todo o gosto, que é um prazer. E despede-se num abrir e fechar de olhos, sempre apressado. Desço ao bar. Mais amigos. Uns quase de infância, outros de boémias noitadas nos Leões. Pergunta-se pelo paradeiro (incerto) de conhecidos em comum, fala-se de música, festarolas e, sobretudo, Cinema. Chamam-me doido por preferir Truffaut a Godard (um «tu não sabes o que dizes» roda a mesa). Começa uma sessão competitiva de audio - à qual falto -, e aproveito para esticar as pernas. Mais reencontros, mais abraços partilhados, mais parvoíces disparadas para o ar ao desbarato. O Junior, bracarense semanal, telefona-me. Garante-me que chega sem falta amanhã, que ainda apanha os dois últimos grupos de vídeo a competição. Desligo mesmo a tempo: toca a sineta. Vão começar os filmes.
HOTEL AMENITIES (Espanha, 2012), de Julia Guillén Creagh, abre bem a sessão. Dois amantes, ambos casados com outras pessoas, encontram-se pela primeira vez num quarto de hotel. Conheceram-se online e pretendem agora consumar o caso. Só que o Universo é um sacana moralista que parece não os querer deixar concretizar o desejo carnal. Os telemóveis tocam nas piores alturas possíveis; primeiro o dela, depois o dele. São os respectivos cônjuges. Um momento de dúvida para, no final, a porta se fechar com o aviso para não incomodar o par. O resto não se precisa de saber.
Já PELUQUERO FUTEBOLERO (Espanha, 2012), de Juan Manuel Aragon, vive principalmente do seu argumento. Não revelando nada de novo, aproveita, ainda assim, os elementos à disposição para criar uma história divertida pelos seus contornos absurdos. Vale pelas gargalhas e pela (passageira) interrogação se a desorientação do homem que, acabado de trair o clube, vai cortar o cabelo não passará de um conflito interior?
Menos objectivos - até porque não precisam de o ser - são MILK GLASS (Rússia, ?), de Egor Chichkanov, DOUBLE TAKE (Suécia, ?), de J. Tobias Anderson, e DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (Itália, 2011), de Simone Massi. Sobre os dois primeiros, a conversa é rápida: o de Chichkanov é um videoclipe - bem filmado, é verdade, mas um videoclipe, ainda assim -, a roçar o artsy-fartsy, enquanto que o de Anderson é uma montagem em split-screen de cenas de Intermezzo: A Love Story, de Gregory Ratoff, decompondo campos-contra-campos de Leslie Howard e Ingrid Bergman (acabei por gostar do resultado). Relativamente ao de Massi, sobre o qual já tive a oportunidade de escrever a propósito de um outro evento, confirmei duas suspeitas: primeiro, que o trabalho técnico da animação é, de facto extraordinário - já para não falar da sonorização -; segundo, que falta significado à obra, viajando-se apenas entre camadas.
NEGOTIATING REPRESENTATION IN ISRAEL AND PALESTINE (Israel/Palestina/Reino Unido, ?), de Huw Wahl, parece-me um objecto com mais valor social/humanitário do que cinematográfico. Não fosse o magnífico trabalho de som - de uma riqueza enorme -, pouco havia a espremer, em Cinema, do conjunto de stills de fotojornalistas narrado pelos próprios. Salva-se a mensagem da liberalização da imagem enquanto ferramenta da consciência social (e global). Melhor na combinação da mensagem com a linguagem cinematográfica é ANDERSARTIG (Alemanha, 2011), de Dennis Stein-Schomburg, animação de traço delicado contada pela única sobrevivente de um bombardeamento a um orfanato alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Relato impressionante de uma juventude perdida, suportada pela leveza etérea que lhe dá forma.
Guardou-se o melhor para o fim. DEUS ET MACHINA (Espanha, 2012), de Koldo Almandoz, é uma obra rara no modo como se desenha. Um homem chega a uma fábrica de manhã e põe a funcionar o Mundo - trata-se de um Deus-Maquinista encantado pela Natureza que gere, mas descontente com os homens que O gerem. Se calhar Nietzsche enganou-se e Deus, afinal, não morreu: escolheu foi demitir-se daquele emprego ingrato e deixar as responsabilidades para outro.
António Tavares de Figueiredo
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