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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Virados do Avesso (2014)

Pelo trailer - dos spots publicitários mais bizarros do Cinema Português recente -, e conhecendo o background de Edgar Pêra, já se adivinhava que VIRADOS DO AVESSO seria das duas uma: ou um filme tão experimental, mas tão experimental, que ninguém perceberia que o era, ou um objecto tão vulgar nos seus modos que, paradoxalmente, seria entendido como absolutamente experimental. Sem o benefício da digestão (até porque não creio que o seu principal problema seja o de ser particularmente indigesto, mas já lá iremos), não me consigo decidir em qual das hipóteses se encaixa melhor.


Uma coisa, contudo, é certa: Virados do Avesso será dos maiores manguitos lançados ao público português, porventura maior até do que o João César Monteiro lançou com Branca de Neve (mas menos satisfatório). Vejamos, correndo o risco de arrastar, em massa, espectadores às salas - e não é de todo descabido julga-lo capaz de rivalizar com os números de Balas & Bolinhos, Morangos com Açúcar - O Filme ou 7 Pecados Rurais -, será dos primeiros casos, se não mesmo o primeiro, em que um autor tão vincado é capaz de o fazer entre-fronteiras. E a malta que não conhece Pêra (a grande maioria, arrisco-me a avançar) nem desconfiará que está perante um dos grandes realizadores experimentais da actualidade.

A questão aqui, portanto, não se prenderá tanto com a inteligência, ou a falta dela, da premissa como com a tentativa de compreender o motivo que levou Pêra a descer tão baixo. Será que a velha dicotomia do Cinema Português - comercial versus de autor - não teria sido, ainda assim, uma vez mais reacendida caso o filme em questão não fosse tão mau (e, pior, assumidamente mau)? Porque Pêra, ao contrário do seu protagonista, não se esqueceu do experimentalismo da noite para o dia. A prova está na montagem, presa entre o slow e o fast motion, das mais excêntricas na filmografia nacional. E se se ri ao apresentar um produto tão abaixo da sua bitola, já nem o faz genericamente (como se diz, às tantas, no filme), mas claramente às custas de quem pagou para o ver.

O problema está na vacuidade extrema (dos estereótipos ocos ao humor brejeiro) a que Pêra se entrega para mostrar - ou denunciar, conforme se tenha maior ou menor vontade em compreender a sua intenção - o dilema do autor que se prostitui ao comercial. Na verborreia, quer literal, quer visual, que tudo domina, enche planos com Diogo Morgado - o Jesus tornado pecador e convertido em straight -, abusa da artificialidade das luzes e da trama, e utiliza um sem número de gags que, de outra maneira, não se lembraria nunca de utilizar. Mais, tenta enfiar em cada cena um novo gimmick de câmara, a ver se alguém dá por isso. É nesse tasteless - e haverá tasteless maior neste cantinho à beira-mar plantado do que colocar Anselmo Ralph a cantar as suas músicas em frente a uma câmara? -, cópia inferior ao reproduzido por Harmony Korine em Spring Breakers, até pelo ridículo a que se sujeita, que Virados do Avesso perde o fio à meada e se deixa afundar.

Pêra, à semelhança de Nick Cave, deixou de ser, a certa altura, um ser humano. Encarnou a personagem de Homem-Kâmara, filmou-se no quotidiano, filmou os outros, meteu-se no meio de Godard e Greenaway, brincou com o 3D e realizou um filme tão estranho - O Barão - que ninguém na RTP 2 reparou que estavam a exibir uma esverdeada versão inacabada antes de surgirem as queixas. Mas ninguém gosta de ver a sua inteligência insultada, mesmo que quem a insulte o faça de forma (aparentemente) inteligente. E, após ver Virados do Avesso, não deixo de me sentir assim. Pêra dançou no varão do Cinema comercial. Esperemos é que não repita a gracinha tão cedo.


Título Original: Virados do Avesso (Portugal, 2014)
Realizador: Edgar Pêra
Argumento: Henrique Cardoso Dias, Roberto Pereira, Frederico Pombares
Intérpretes: Diogo Morgado, Jorge Corrula, Marina Albuquerque, Nuno Melo, Philippe Leroux, Miguel Partidário
Música: José Joaquim de Castro
Fotografia: Miguel Sales Lopes
Género: Comédia
Duração: 96 minutos


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sunday Stills #40: "Rosa de Areia"



Um dia depois do habitual - o 10 de Junho assim o pediu - fomos buscar o fotograma desta semana (ou, melhor, da última) a uma das grandes obras do Cinema português. Referimo-nos a ROSA DE AREIA (1989), de António Reis e Margarida Cordeiro, mais poesia do que filme. Se tivermos em atenção que o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é assinalado na morte de um artista - em detrimento, por exemplo, da independência do território -, não me parece, de todo, descabido que se celebre a ocasião com Arte. Até porque o trabalho de Reis (com ou sem Margarida Correio a seu lado) espelha uma outra faceta do que é ser português, do que é sentir Portugal.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Entrevista com Luís Costa: «Há coisas que não precisam de explicação»

Não é raro ficar-se amigo de um entrevistado, ultrapassadas as formalidades do questionário. Mais raro é, no entanto, ter a oportunidade de entrevistar um amigo à partida, alguém com quem já partilhamos experiências em comum. A propósito da estreia de FONTELONGA - obra belíssima sobre uma aldeia portuguesa - no Black & White 2013, lançamos o repto ao Luís Costa: falar-nos do seu filme como se não nos conhecesse. Acompanhado por Simon de Sousa, um dos produtores - e a poucas horas de subir ao palco do Auditório Ilídio Pinho para receber o Prémio do Público para a Secção de Vídeo do festival -, Luís aceitou o convite. Fica o resultado da conversa naquela esplanada ventosa, onde se relembraram caminhadas de regresso ao Porto "alimentadas" por Bergman e Malick, o Cinema e, acima de tudo, esse «milagre da memória» que se traduz na sua fita de estreia.

Como é que vão parar a Fontelonga? Sei que na apresentação da obra disseste que é a aldeia dos teus avós maternos, mas donde é que surge a ideia de ir lá filmar?

Luís Costa: Olha, engraçado que perguntes isso. Estávamos a acabar um trabalho - um ensaio sobre o tempo - para uma das cadeiras da universidade, e estávamos a caminho das bombas para comprar tabaco, não sei se te lembras...

Simon de Sousa: Tu disseste-me isso quando estávamos naquele café à beira da praia.

LC: Mas ali estávamos a comprar tabaco na BP, e estávamos a falar do meu avô e de não-sei-que-mais, e pensei "vou fazer um filme sobre o meu avô". Ele [o Simon] disse-me para primeiro pensar naquele, mas lá fiquei com o bichinho do FONTELONGA. Ainda não tinha acabado o ano, e já estava a equipa convidada para fazer o filme.

Começas a tua carreira com um documentário. É um registo no qual gostarias de continuar?

LC: Quero realizar mais documentários, mas não sei se é o formato no qual quero ficar definitivamente.

Mas mais sobre Fontelonga?

LC: Não, isso não. Já chega. Encerrei o capítulo sobre Fontelonga; e bem, creio.

Na apresentação do filme falaste de outra ideia muito interessante, o «milagre da memória». Que floreamos momentos da nossa infância, fazemos dos nossos avós heróis e guardamos uma ideia do passado que pode não corresponder exactamente ao que realmente se passou. De que forma sentes, ao filmar um lugar que te viu crescer, esse peso?

LC: Naturalmente, como muitos sabem, Fontelonga já foi uma terra cheia de vida. E eu, quando era miúdo, vinha com o carro cheio de fruta, cheio de tudo: era azeite, batatas... A transição para um aldeia deserta foi muito rápida - é essa a noção que tenho desde novo. E parece-me que foi desde que o meu avô morreu que a aldeia também começou a morrer. E com a aldeia a ficar deserta a minha preocupação era redimi-la uma última vez. Uma aldeia que era grande e que nunca mais ninguém vai dizer que conseguiu ser grande, percebes? Foi tentar, pelas palavras da Maria José, dizer que aquilo já teve vida, e tentar lembrar a aldeia num último momento, lembrá-la no discurso dela - no presente - aquilo que já foi.

Sentes o teu filme como uma espécie de elegia à aldeia, um canto-de-cisne da ruralidade portuguesa, ou mais como uma tentativa de usar a própria memória para a fixar?

LC: Acho que é uma mistura dos dois. Acho que é uma mistura perfeita dos dois. É tentar fazer jus à aldeia. Aliás, quando começamos, eu pensei "se calhar, isto vai ser muito centrado no meu avô", mas passou a ser um filme sobre a morte das aldeias de Portugal. E passou a ser um filme de Fontelonga. E depois passou a ser, digo eu, uma coisa universal.

FONTELONGA acaba no cemitério, num plano magnífico. É uma metáfora para a morte da própria aldeia?

LC: Curioso que perguntes isso. Não sei se te posso responder à pergunta. O filme, numa primeira versão, não terminava assim. Nem tenho bem a certeza onde é que o tal plano encaixava. Mas depois de o vermos ficámos com a sensação que precisava de um ponto final. Fomos mexendo, e...

SdS: E nada.

LC: Exacto, e nada. Há coisas que não precisam de explicação.

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ecos de Cannes

A cada grande festival que passa o Cinema português vai ganhando novos premiados. Este ano, em Cannes, foi a vez de João Nicolau, com o seu GAMBOZINOS (Quinzena dos Realizadores). A Palma d'Ouro, essa, foi para LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche.



Seguem-se os vencedores em todas as categorias:

SELECÇÃO OFICIAL

Palma d'Ouro - Longa-Metragem:
LA VIE D'ADÈLE, de Abdellatif Kechiche

Grande Prémio:
INSIDE LLEWIN DAVIS, de Joel e Ethan Coen

 Melhor Realizador:
Amat Escalante, por HELI

Prémio do Júri:
LIKE FAHTER, LIKE SON, de Hirokazu Koreeda

Melhor Argumento:
Jia Zhangke, por A TOUCH OF SIN

Melhor Actriz:
Bérénice Bejo, por LE PASSÉ

Melhor Actor:
Bruce Dern, por NEBRASKA

Palma d'Ouro - Curta-Metragem:
SAFE, de Byoung-gon Moon

Prémio Vulcain do Artista:
GRIGRIS, de Mahamat-Saleh Haroun

Menções Especiais - Curtas-Metragens:
HVALFJORDUR, de Gudmundur Arnar Gudmundsson
37°4 S, de Adriano Valerio

UN CERTAIN REGARD

Prémio Un Certain Regard:
L'IMAGE MANQUANTE, de Rithy Panh

Prémio do Júri:
OMAR, de Hany Abu-Assad

Melhor Realizador:
Alain Guiraudie, por L'INCONNU DU LAC

A Certain Talent:
Diego Quemada-Diez, por LA JAULA DE ORO

Avenir Prize:
FRUITVALE STATION, de Ryan Coogler

JÚRI ECUMÉNICO

Melhor Filme:
LE PASSÉ, Asghar Farhadi

Menções Honrosas:
MIELE, de Valeria Golino
LIKE FATHER, LIKE SON, Hirokazu Koreeda

QUINZENA DOS REALIZADORES

Prémio Art Cinema
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene

Prémio SACD:
LES GARÇONS ET GUILLAUME, À TABLE!, de Guillaume Galliene

Menção Especial:
TIP TOP, de Serge Bozon

Prémio Illy de Curta-Metragem:
GAMBOZINOS, de João Nicolau

Menção Especial de Curta-Metragem:
POUCO MAIS DE UM MÊS, de André Novais Oliveira

Prémio Label Europa Cinemas:
THE SELFISH GIANT, de Clio Barnard

SEMANA DA CRÍTICA

Grande Prémio:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Menção Especial:
LOS DUEÑOS, de Ezequiel Radusky e Agustin Toscano

Prémio Revelação France 4:
SALVO, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Prémio SACD:
LE DÉMANTÈLEMENT, de Sébastien Pilote

Prémio Canal+ - Curta-Metragem:
PLEASURE, de Ninja Thyberg

Prémio Descoberta - Curta-Metragem:
COME AND PLAY, de Daria Belova

Black & White 2013: os vencedores

PRÉMIOS DO JÚRI

Grande Prémio (Vídeo):
THE FINAL BELL, de Lionel Michaud

Melhor Vídeo - Ficção:
1949, de Paul Florian Muller

Melhor Vídeo - Documentário:
WARMTH, de Victor Asliuk

Melhor Vídeo - Experimental:
HERMENEUTICS, de Alexei Dmitriev

Melhor Vídeo - Animação:
ANDERSARTIG, de Dennis Stein-Schomburg

Melhor Áudio:
BLACK ON WHITE, de Emma Bowen

Melhor Fotografia:
AWAKE, de Fábio Roque

PRÉMIOS DO PÚBLICO

Melhor Vídeo:
FONTELONGA, de Luís Costa

Melhor Áudio:
VESSEL, de João Almeida

Melhor Fotografia:
HISTÓRIAS PASSADAS, de Margarida Sá Marques

MENÇÕES HONROSAS

Video - Ficção:
TIN & TINA, de Rubin Stein
HOTEL AMENITIES, de Julia Guillén Creagh

Vídeo - Animação:
NON-CITIZENS, de Aliona Gloukhova

Fotografia:
VACÍOS EN ESPERA, de Bruno Bresani

4:40 (Associação de Estudantes da UCP)

EM LINHA, EM CÍRCULO, de Afonso Gonçalves, Filipa Figueiredo, Mariana Mesquita e Rafaela Guimarães

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Photo (2012)

Creio que Carlos Saboga não podia ter escolhido melhor altura para se lançar na realização. Aos 76 anos, e depois de escrever para nomes como Jorge Paixão da Costa, Fernando Lopes, António-Pedro Vasconcelos, Mário Barroso - que aqui lhe devolve o "favor", fotografando-lhe a estreia - e Raoul Ruiz, experiência não lhe falta para saber o que deve, e quando, arriscar. Não se estranha, portanto, que se verifique em PHOTO a mesma atenção ao detalhe e às personagens secundárias que marcou - ainda marcará? - os seus argumentos para outros autores.


Abre o filme em Paris, e logo uma morte. Um corpo num quarto muito escuro, iluminado por uma esfera luminosa. Quando a filha aparece, uma outra mulher - a empregada? a amante? - diz-lhe que a mãe pediu para que se queimem todos os papéis e fotografias deixados. Lá vai a rapariga explorar o espólio, nova esfera iluminada no fundo, e eis que encontra umas fotografias de um grupo de rapazes portugueses, datadas de 1970-e-troca-o-passo. E um postal de um desses exilados demonstrado à francesa a vontade de assistir ao parto da filha. Corte para o velório, com o quarto ainda mais escuro - e a mesma esfera luminosa -, e um homem mais velho, o agora pai adoptivo, a colocar paternalmente a mão no ombro da filha. A descrição não lhe faz a justiça devida, mas a primeira vinheta demonstra que Saboga - auxiliado pela extraordinária direcção de fotografia de Barroso - percebe o que faz. O mosaico que constrói, introduzindo personagens - algumas desnecessárias, diga-se de passagem -, revela o que de melhor continua a haver no trabalho de Saboga: o argumento cuidado.

As peças parecem encaixar exactamente no sítio certo, sem nunca fugirem ao lugar que lhes é reservado. E a câmara corta as cidades em travelling, enquanto se ouve, em voz-off, um italiano pedinchão que quer Elisa de volta a Roma. Não cede, e chegada ao destino - um tal jardim à beira-mal plantado -, põe-se à procura do pai biológico que a mãe lhe tentou esconder.

Mas, no fundo, não passa tudo de um pretexto de Elisa para fugir ao namorado italiano que a pediu em casamento. O whodunnit parental, que depressa dá lugar - e o pai adoptivo bem diz à filha não ter qualquer interesse em entrar no «melodrama grotesco (...) do falso-pai, suposto pai e pai substituto» - ao criminal, e que a traz a Portugal poderia muito bem tê-la levada a um outro país qualquer. Ou mesmo ficar-se por Paris, nas margens do Sena. O espaço geográfico torna-se, assim, irrelevante - salvo o contexto sócio-político salazarista, é claro - a partir do momento em que se percebe que há ali alguém a evadir-se do presente. E que para isso está disposta a viver «entre fantasmas» - quase ao ponto de se tornar ela própria num - de um passado assombrado.

De resto, saltam à vista algumas semelhanças - temáticas, espaciais e temporais - entre Photo e Night Train to Lisbon, de Bille August. Não deixa de ser curioso que após anos a empurrar a questão para o canto, estreiem em sala separados por menos de dois meses dois filmes - sem considerar para o efeito Operação Outono, de Bruno de Almeida, de finais do ano passado - que abordam de forma mais ou menos aberta as atrocidades cometidas durante o Estado Novo. E que sejam dois estrangeiros - Elisa e Raimund, respectivamente - a colocar o dedo na ferida. Nas mãos e no espírito partido de antigos prisioneiros, na culpa provocada pelas denúncias forçadas, em inspectores desajustados da realidade actual - Rui Morrison, a melhor personagem da estória? - que choram ao encontrar os seus "filhos" massacrados. Tanto num como no outro caso, mesmo admitindo que em Night Train to Lisbon a representação dos efeitos causados pelos encontros com a PIDE é mais explícita, o passado não-tão-distante que se projecta na tela custa a digerir.

No fim, restam apenas fragmentos: do tempo, da verdade, da mentira, das próprias fotografias que dão o título ao filme. Saboga estilhaça a memória dos intervenientes, confunde factos e versões, mistura traições com o amor. E fá-lo com tamanha leveza que quase se perdem as subtilezas no subtexto. Veja-se, por exemplo, a magnífica mise-en-abyme que coloca Elisa a ver-se grávida de si mesma num auto-retrato da mãe.

Para terminar, que estas linhas já vão longas, três breves notas: 1) aos 76 anos, Carlos Saboga soube contrariar a ansiedade característica de uma primeira direcção, evitando o atropelo de ideias; 2) igualmente impressionante é a sensualidade que consegue imprimir, a espaços, num filme pontuado pela morte; e 3) por uma questão de justiça para com o filme de August acima mencionado - já por cá pontuado -, Photo leva também da minha parte oito câmaras, ainda que o tenha achado ligeiramente superior (mas não o suficiente para lhe subir a classificação). A primeira fita de Saboga fica, desde já, a pedir uma segunda. E nós agradecemos.


Título Original: Photo (França/Portugal, 2012)
Realizador: Carlos Saboga
Argumento: Carlos Saboga
Intérpretes: Anna Mouglalis, Simão Cayatte, Johan Leysen, Marisa Paredes, Rui Morrison, Didier Sandre
Fotografia: Mário Barroso
Género: Drama
Duração: 85 minutos




sábado, 27 de abril de 2013

É o Amor (2013)

Inicialmente uma encomenda do Curtas Vila do Conde, É O AMOR marca um afastamento de João Canijo em relação aos bairros sociais que se habituou a filmar. Talvez por isso pareça, à partida, mais alegre e luminoso do que essas obras passadas, objectos pesadíssimos - até pelas técnicas utilizadas para retratar a confusão desses espaços - e representativos de certa degradação.


Também por ser um documentário assumido se faz no sentido contrário ao do anterior Sangue do Meu Sangue, ficção com aproximação ao documental. Aqui é Anabela Moreira, a actriz - e logo uma das melhores da sua geração -, que se imiscui entre as "pessoas reais", na construção de uma personagem para um filme que não existe. Essa vontade de ensaiar um movimento diametralmente oposto ao que se lhe era esperado - mais na linha de Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, um making-of documental com a ficção [a necessidade de entranhar as personagens nos actores] como ponto de partida - será, porventura, o que de mais curioso se encontra em É o Amor.

Não se estranha, portanto, o à vontade com que Canijo documenta, filmando casamentos e momentos mais íntimos, quase como se nem estivesse ali - lá está a sua abordagem observacional a vir ao de cima, o seu lado mais fly on the wall -, deixando as emoções transparecerem sem recurso a artifícios de maior. Ou a sua capacidade de guiar o filme através da música, dando-lhe vida. Menos conseguidas são, contudo, as entradas de Anabela no seu video-diário, em contraste com o tom alegre do resto da fita, virtualmente desnecessárias do ponto de vista emocional, exactamente por estarem já bem definidas noutros trechos da obra. Veja-se, a título de exemplo, aquele magnífico zoom-out perto do fim - e que quase justifica, per se, as mais de duas horas de filme -, com Anabela a chorar no banco de trás da carrinha ao som de Zezé Di Camargo; ou ainda um outro, mais próximo do início, que a coloca isolada na lota. São esses momentos que, demonstrando a rara habilidade de Canijo em captar com a câmara momentos extraordinariamente fortes, melhor ilustram as diferenças entre a actriz citadina e as mestras que acompanha.

Houve alguém que, no final da sessão - que contou com a presença do realizador e do elenco -, comparou a obra a Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira. E não sem a sua razão, acrescente-se. Mas é precisamente na diferença entre as duas obras - que é como quem diz, na recusa de Canijo em abdicar completamente de uma dimensão artificial - que É o Amor falha. É quando se subtrai às Caxinas e se coloca  a câmara na mão de Anabela que mais se sentem os defeitos da visão planeada e se duvida da qualidade do que se tem pela frente. É preciso voltar às mestras, com Sónia Nunes à cabeça, a alma do filme, para se recuperar o encanto, por momentos perdido, do Amor sobre o qual tanto falam.

O que me leva a uma última conclusão: acho que, à semelhança da Anabela, ainda não compreendi totalmente o que isto do Amor. Mas, porra, até eu o acho lindo!


Título Original: É o Amor (Portugal, 2013)
Realizador: João Canijo
Argumento: João Canijo, Anabela Moreira
Intérpretes: Anabela Moreira, Sónia Nunes, Cassilda Pontes, Paula Saraiva
Género: Documentário
Duração: 135 minutos





segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cura para a sensaboria

Bendito o dia em que, durante uma maratona de brincadeiras cinéfilas, descobri a THE COFFEE SHOP SERIES. A série de webisodes, criada e protagonizada por Luísa Fidalgo, apresenta em vinhetas acontecimentos insólitos, capazes de quebrar com a rigidez e monotonia das narrativas convencionais.

THE COFFEE SHOP SERIES estreou dia 7 de Janeiro na SIC Radical. Podem ainda encontrar os episódios - e mais informações - no site oficial do projecto. Está descoberta a cura para a sensaboria.

[Fonte da imagem: THE COFFEE SHOP SERIES]

quarta-feira, 27 de março de 2013

A Última Vez Que Vi Macau (2012)

Nunca fui a Macau.

O filme começa e surge logo, quase a matar, Cindy Scrash - a Irene de Morrer Como Um Homem - a cantar You Kill Me para a câmara. A câmara, leia-se, o público. Andam uns tigres pelo fundo, enjaulados, e percebe-se que a cena tem qualquer coisa de cabaret. Uns planos depois, um jogo de paintball - uma guerra fictícia -, em que um dos participantes acaba morto. E põe-se Guerra da Mata a caminho de Macau, sem perceber muito bem o porquê da coisa. Agora pergunta o caro leitor que esquisitice em forma de filme será esta. E pergunta muito bem, que o caso não é para menos. Trata-se, afinal, de A ÚLTIMA VEZ QUE VI MACAU, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, fita fabulosa e incrivelmente singular na sua construção.


Continuando onde ficamos, mete-se Guerra da Mata em Macau, a pedido de Cindy - que aqui é Candy, a piscar o olho à do Andy Warhol -, que teme pela sua vida. A moça envolveu-se com os homens errados e viu-se numa alhada. E não é que Guerra da Mata é o único em quem ela confia para a salvar? O gostinho a film noir - o whiskey, as sombras, a própria donzela em apuros - que fica desses momentos iniciais permanecerá durante o resto do filme. Esta Macau - a que Guerra da Mata ao princípio não reconhece e que Rodrigues nunca visitara antes - é, na sua essência, um cemitério de filmes e estrelas, uma terra com o espírito intimamente ligado ao Cinema. Não se estranhem, por isso, as meias de Jane Russell - que morreu enquanto se filmava A Última Vez Que Vi Macau - a flutuar à entrada da gruta dos piratas, ou a música - retirada de Macao, de Josef von Sternberg - com que Candy abre a estória.

É também através dessas referências cinematográficas, sempre criteriosas - não fosse João Pedro Rodrigues o realizador que disse, numa entrevista, não gostar de filmes de citações -, que se desmonta a obsessão de conhecer a cara aos protagonistas. Não chega a haver uma materialização, no sentido convencional, do sujeito: vêem-se mãos e pés, ouvem-se vozes incorpóreas que narram, reflectem, planeiam e explicam. Da mesma forma, não se assiste às mortes das personagens, nem às suas metamorfoses. Essa ideia de construir uma casa com paredes e telhado - as convenções, os cânones do(s) género(s) -, mas não lhe dar recheio - as caras, as mortes - será, porventura, o mais desconcertante para o espectador em A Última Vez Que Vi Macau. Porque se quem vê caras não vê corações, quem não as vê tem, normalmente, ainda mais dificuldade em os perceber.

O documentário que não o é - mas que poderia tê-lo sido, olhando para a curta Alvorada Vermelha - e o noir sem enchimento: João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata manejam habilmente as regras e expectativas, filmando uma terra que, existindo, não passa de uma ilusão. E que, exactamente por ser uma miragem - com os néons, os casinos, os fogos-de-artificio, o exotismo de uma figura que dá pelo nome de Madame Lobo e as gaiolas douradas -, custa ainda mais a abandonar. O que se consegue em A Última Vez Que Vi Macau, com os seus mistérios por desvendar e caminhos por percorrer, é realmente algo de único.

Nunca fui a Macau. Minto, já lá estive. E gostei imenso do que vi.


Título original: A Última Vez Que Vi Macau (França/Macau/Portugal, 2012)
Realizador: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Argumento: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Intérpretes: João Rui Guerra da Mata, Cindy Scrash, João Pedro Rodrigues
Género: Crime, Documentário, Drama, Fantasia, Mistério
Duração: 85 minutos




quarta-feira, 20 de março de 2013

Fantasporto 2013: de Monte Maior às fontes de Gerénia em doze badaladas

No meio do frenesim provocado pela presença de Manoel de Oliveira no Rivoli - muito a propósito dos setenta anos do seu ANIKI BÓBÓ -, não seria difícil ignorar que ao fundo das escadas se celebrava outro realizador português. E logo um dos mais influentes da sua geração. Quatro obras de António de Macedo foram exibidas durante o Fantasporto 2013, recordando aquele que foi o primeiro português a concurso em Cannes e um pioneiro técnico, tecnológico e temático no Cinema Português. Presença forte do Fantástico em Portugal, os quatro trabalhos de Macedo projectados no certame - datados de 1975 a 1993 - proporcionaram uma viagem maravilhosa a quem teve o prazer de os visualizar. Nós não fomos excepção: marcamos presença em três das sessões - escapou-nos a de O PRINCÍPIO DA SABEDORIA -, imersos naquele Universo fantástico tão nosso.

OS ABISMOS DA MEIA-NOITE, de António de Macedo (Portugal, 1984)

Escrever que OS ABISMOS DA MEIA-NOITE marcou a entrada de António de Macedo no domínio do esotérico, apesar de verdadeiro, poderá assumir-se como algo redutor. Até porque ficara para trás, quase há uma década, O Princípio da Sabedoria,  um filme que deve igualmente muito ao Fantástico. Mas simplificando a questão ao essencial, e voltando à afirmação inicial, há claramente algo de místico em Os Abismos da Meia-Noite. Mesmo que não se consiga explicar a sua natureza.

Nesse aspecto em particular, Ricardo e Irene (Rui Mendes e Helena Isabel, respectivamente) fazem, dentro da fita, as vezes do público. Puxados para um  mundo que lhes é estranho, são interrogados por uma personagem estranha, de vestes brilhantes, que tenta também ela perceber o que os levou àquele lugar. A recriação dos acontecimentos, através da memória dos dois intrusos, encontra paralelo no próprio Cinema enquanto objecto - não estará também o Magíster a ver um filme? -, um mecanismo que se tornaria frequente no trabalho de Macedo.

Essa posição bastante peculiar em relação ao Cinema, aliada a uma extraordinária compreensão do som - para a qual a música do filho, António de Sousa Dias, muito terá contribuído durante as suas colaborações - como dimensão própria, faz de Os Abismos da Meia-Noite um filme particularmente curioso - mesmo que, a espaços, pareça que se prolonga muito para lá do necessário - dentro da filmografia de António de Macedo.

Em Monte Maior há uma porta que se abre durante as doze badaladas da véspera de Natal. Cabe, no entanto, a cada espectador decidir se a recompensa justifica o risco de a ultrapassar. Quanto a mim, recomendo a aventura. (ATF)

OS EMISSÁRIOS DE KHALOM, de António de Macedo (Portugal, 1988)

Por vezes há que dar crédito ao produto nacional, que, embora não seja muito difundido e pouca gente lhe dê o mérito merecido - o bom Cinema português, de facto, existe - é, definitivamente, inovador e de qualidade. Uma das devidas homenagens vai para António de Macedo, realizador de diversos títulos da filmografia portuguesa, um verdadeiro pioneiro que introduziu no nosso país o Cinema Fantástico.

OS EMISSARIOS DE KHALOM é um exemplo desses trabalhos, onde o Fantástico é o principal tema, incluindo não só elementos históricos como também um tema diferente e ao Cinema português do século XX. Embora os elementos mais teatrais do filme possam afastar o mais comum dos espectadores, não deixa de ter o seu encanto, nem que seja pela novidade, tendo em conta o país e o ano de produção. (WJR)

CHÁ FORTE COM LIMÃO, de António de Macedo (França/Portugal, 1993)

Diga-se, logo a abrir, que CHÁ FORTE COM LIMÃO é um filme de Terror soalheiro e iluminado. Isso mesmo, caro leitor, bem diurno, à moda mediterrânica, com fantasmas trágicos e filósofos. E um casarão assombrado, com toda a espécie de convidados. E um jovem fatalista metido em duelos com rivais amorosos, uma moça impressionável e mais segredos e intrigas do que uma tarde no Parlamento.

Esse Fantástico bem nosso - e que nunca abandonou a obra do cineasta - transforma a última longa-metragem ficcional de António de Macedo num objecto de raro interesse. Há toda uma construção positiva por detrás da narrativa - manifestada igualmente pela luz que inunda a tela e pelos fades a branco - que teima em contrariar as convenções do género. E a fotografia de Manuel Costa e Silva - das melhores do Cinema Português, arrisco-me a avançar - muito terá ajudado nesse sentido.

Escreva-se, aliás, que todo o filme é um prodígio técnico, da música à direcção artística. Não deixa, contudo, de ser algo irónico que uma carreira como a de António de Macedo - tão ligada ao progresso e à inovação - encontre o seu término num drama de época. Mas quando o resultado prima pela excelência, pormenores desses podem dar-se ao luxo de ser ignorados. E Chá Forte com Limão é mesmo um dos grandes filmes portugueses dos anos 90. (ATF)

terça-feira, 12 de março de 2013

Nem pareceram 70 anos

Não é todos os dias que um filme celebra 70 anos. Melhor, não é todos os anos que um filme como ANIKI BÓBÓ celebra a data. Para assinalar a efeméride, o Fantasporto exibiu a obra no Grande Auditório do Rivoli - em horário privilegiado -, numa sessão que contou com a presença de Manoel de Oliveira e Fernanda Matos.


Sobre a enchente de jornalistas e a selvajaria que teve lugar no átrio do Rivoli não se escreverá aqui - até porque o Nuno Reis, do Antestreia, já o fez, e muito bem, diga-se de passagem -, merecendo o nosso destaque o filme em si. Nunca me tinha apercebido, até o ver projectado em grande ecrã, do quão bem envelheceu Aniki Bóbó. Do tema - a hipocrisia na sociedade - ao trabalho técnico, a estreia de Oliveira nas longas ficcionais mantém-se, ainda hoje, uma obra actual e necessária de ser (re)descoberta.

O filme que antecipou o neorrealismo italiano num ano - OSSESSIONE, de Luchino Visconti, obra que alguns críticos colocam na origem do movimento, só estrearia em 1943 - revelaria logo no início da sua carreira a preocupação de Manoel de Oliveira com a sociedade e os seus problemas. E o amor pelo Porto - que aqui filma como só ele sabe, em belos planos da Ribeira -, a sua cidade (que é também nossa). Em tempos de «um micro-país chamado Lisboa», é sempre bom recordar que há mais Portugal. E vê-lo tão bem representado. Pelo que fez - e pelo que ainda lhe falta fazer -, a Manoel de Oliveira, Decano dos realizadores, o nosso mais sincero obrigado.

«Aniki-bébé, Aniki-bóbó, Passarinho Tótó, Berimbau, Cavaquinho, Salomão, Sacristão, Tu és Polícia, Tu és Ladrão.»

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ecos de Berlim

Com a edição deste ano do Berlinale a encerrar, uma menção honrosa para João Viana pelo seu A BATALHA DE TABATÔ - que forma díptico com a curta-metragem TABATÔ, exibida igualmente no certame - na categoria de Melhor Primeira Longa-Metragem do festival. O cinema português continua assim a dar cartas - e a recebê-las - no estrangeiro.


O Urso de Ouro foi para o romeno POZITIA COPILULUI [CHILD'S POSE], de Călin Peter Netzer, enquanto David Gordon Green recebeu o Urso de Prata de Melhor Realizador por PRINCE AVALANCHE.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tabu (2012)

Tem-se em TABU, de Miguel Gomes, um dos objectos mais singulares da cinematografia recente portuguesa. Não só pela época que revisita ou sequer pela opção de fotografar a preto-e-branco - O Barão, de Edgar Pêra, por exemplo, também se situa nesse espectro -, mas sobretudo no talento envolvido na repescagem e utilização de todo um leque de técnicas e mecanismos que há muito se julgavam caídos em desuso e que aqui conferem ao filme uma dimensão indescritivelmente mágica. A entrada de Miguel Gomes na lista dos grandes cineastas da nossa praça - depois do surpreendente Aquele Querido Mês de Agosto - faz-se através de uma ligação Lisboa-África desmultiplicada em memórias e relatos.


Começando pelo magnífico prólogo, com ares de documentário, somos introduzidos, enquanto público, aos resquícios do Império e do Colonialismo. A um passado que já não existe e àquela paisagem luxuriante a que chamam África. A narração - que durante o filme vai revelando, sempre a seu tempo, todos os detalhes necessários à compreensão da narrativa - deixa logo claro que à vontade do coração não se podem sobrepor as de Reis ou Deus. A lembrança e o sonho são apresentados como elementos poderosos e capazes de guiar a experiência. De um lado temos aqueles que, não querendo recordar, vivem por eles atormentados; do outro, aqueles que têm como tarefa impedir que o que foi mas já não é morra no esquecimento. O que equivalerá a escrever que Aurora e Pilar - Laura Soveral e Teresa Madruga, respectivamente, fenomenais - são faces opostas de uma mesma moeda, atraindo-se até ao fim anunciado e que não tarda muito em chegar. Tudo para se perceber que o sufixo - Perdido - que cai de uma epígrafe para a outra foi, afinal, ganho através do tempo.

Do elenco à pós-produção, verifica-se em Tabu uma obra superior, colocada bem acima da média - quer nacional, quer internacional - e pautada por uma faculdade absolutamente assombrosa. Vê-lo é permitir que em nós penetre uma imagética forte, envolvida por uma musicalidade transcendente - apanágio da obra de Gomes -, que perdurará na nossa memória e não mais nos abandonará. Obrigatório.


Título Original: Tabu (Alemanha/Brasil/França/Portugal, 2012)
Realizador: Miguel Gomes
Argumento: Miguel Gomes, Mariana Ricardo
Intérpretes: Teresa Madruga, Laura Soveral, Henrique Espírito Santo, Isabel Muñoz Cardoso, Ana Moreira, Carloto Cotta, Manuel Mesquita, Ivo Müller
Fotografia: Rui Poças
Género: Drama, Romance
Duração: 118 minutos



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

As dores da alma custam mais do que as do corpo

Andava eu a fazer zapping a semana passada quando, ao passar pelos canais portugueses, apanhei na programação da RTP1 um telefilme. Questão de puxar o horário atrás - cortesia das novas caixas -, vi ENTRE AS MULHERES, de Henrique Oliveira e escrito por José Luís Peixoto, primeiro capítulo da série 4 - PORTUGAL HOJE.

Se ao início a acção parecia-me bizarra e sem propósito - planos de um grupo coral feminino entrecortavam os de mulheres a lavar campas -, depressa fui desarmado por uma candura e honestidade impressionantes em relação ao que se filmou. Numa aldeia do Alentejo, aparentemente já sem homens, as mulheres fazem a vida entre si. Vitória, uma das viúvas, descobriu há pouco que o seu marido a traía e que a contagiou com VIH. O retrato aberto da doença - e dos mexericos que circulam numa pequena povoação - surge como uma refrescante alternativa à habitual grelha semanal do canal, merecendo, por isso, destaque.


4 - PORTUGAL HOJE, minissérie de quatro telefilmes sobre a sociedade portuguesa contemporânea, é transmitida às quintas-feiras na RTP1. Esta semana, dia 13, será exibido às 22h15 o segundo episódio, BLOQUEIO, escrito por Pedro Mexia e realizado por Henrique Oliveira.
 
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(fonte da imagem: http://www.rtp.pt/)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Curtas: "O Barbeiro"

O BARBEIRO (2010), de Paolo Marinou-Blanco.





Parte de uma antologia dedicada a curtas-metragens tematicamente ligadas ao Fantástico e ao Terror - O DEZ, transmitido em 2010 pela RTP dividido em dois blocos de cinco segmentos cada -, O BARBEIRO evoca, ainda antes de SINISTER, o conceito da película como fonte intrínseca do Mal. Uma estudante de cinema quer visualizar um filme de Cottineli Telmo, um actor português desaparecido. Ao invés disso encontra um filme misterioso que esconde mais do que aparenta. Bem a avisaram que a morte não é para todos. Escrito por André Braz e Paolo Marinou-Blanco.

sábado, 24 de novembro de 2012

Florbela (2012)

Bastam poucos minutos de filme para perceber que FLORBELA é mais sobre uma mulher que vive a romper com as convenções do seu tempo - e que, no contexto da fita, podia muito bem ser uma anónima - do que sobre a poetisa que dela partilha o nome. A escolha de Vicente Alves do Ó de adaptar para o cinema um período da sua vida em que a inspiração não lhe chegava não terá sido inocente, tentando separar-se a pessoa da obra, apenas para que no final se conclua que a relação entre as duas é mais próxima do que inicialmente se poderia julgar (ou, neste caso, do que Alves do Ó julgaria). Florbela acaba, desse modo, por ser um filme paradoxal, feito de noções que se contrariam.

O argumento - sobretudo nos diálogos - parece acompanhar inconscientemente essa tendência dicotómica geral. Empestado de um lirismo pouco natural, presente em quase tudo o que as personagens dizem, força a experiência ao espectador e dificulta-lhe a imersão na história. Às tantas, foram já utilizados todos os chavões do sentimentalismo e falsa sabedoria, tão poéticos quanto vazios, coisas absurdas como «a felicidade não está ao virar da esquina», «pior do que não ter o que se quer é não fazer nada para que se o tenha» ou «o amor não morre com a outra pessoa». Assiste-se a uma racionalização excessiva do que é dito - e que foi escrito - que se transmite às metáforas visuais que são empregues.

Dalila Carmo, Albano Jerónimo e Ivo Canelas entregam, contudo, interpretações muito consistentes, sempre dentro dos limites que o guião lhes permite. Para a primeira, protagonista epónima, tal significa liberdade quase total para expandir a sua personagem; para os homens a restrição é mais apertada, verificando-se um défice no desenvolvimento de Mário e Apeles. A formação desse triângulo (amoroso) é acompanhada por um enorme cuidado a nível técnico - que, aliás, já havia sido evidenciado na anterior obra do realizador - através da bela fotografia de Luís Branquinho, da direcção artística de Silvia Grabowski e da montagem de João Braz.

Oitenta anos depois de Florbela, a poetisa, Os Lacraus cantariam «são os mortos que riem, são os vivos que choram», nota semelhante àquela que termina Florbela, o filme. Alves do Ó segue a indecisão da sua protagonista, dividida entre o casamento, o remorso e uma outra noção (superior) de liberdade, com uma câmara trémula e deambulante que, mesmo hesitando em captar a acção ao longe, consegue sempre manter um certo distanciamento em relação aos sujeitos que filma. Engolfado por uma banda sonora omnipresente que, de certa maneira, substitui a poesia que se esperava ouvir, o biopic que não o quer ser é fechado com outro - mais um - paradoxo: é um razoável filme que serve de óptima montra para o seu autor. Não será, portanto, de estranhar que a moldura pareça melhor do que o interior. Na memória, para além de imensos fotogramas de uma beleza incomensurável, ficam aquela sequência que serve de créditos iniciais, e que transmuta brilhantemente prazer em abuso, e as três palavras que tardam em abandonar a audiência. Florbela, obra e tristeza. O resto, que o leve o mar.


Título Original: Florbela (Portugal, 2012)
Realizador: Vicente Alves do Ó
Argumento: Vicente Alves do Ó
Intérpretes: Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo, António Fonseca, Carmen Santos, Rita Loureiro, Marques D'Arede, Anabela Teixeira
Música: Guga Bernardo
Fotografia: Luís Branquinho
Género: Biografia, Drama
Duração: 119 minutos


quarta-feira, 23 de março de 2011

Duas Mulheres (2009): "The L Word is back, baby!"

Pensando bem, já há imensos filmes nacionais que se tornaram ícones da cultura cinematográfica portuguesa, como, por exemplo, O Crime Do Padre Amaro, Call Girl, O Contrato, entre outros, que não foram reconhecidos pela sua realização de qualidade nem pela actuação dos actores intervenientes, mas sim pelo seu ousado conteúdo (nudez). A nova adição a esta colecção é Duas Mulheres, realizado por João Grilo, que se pode dizer mais ou menos semelhante a Call Girl (aliás até conta com uma participação do senhor Nicolau Breyner), mas versão lésbica.

Não se trata dum filme muito difícil de seguir, já que o seu argumento não é muito complexo - embora a atenção do espectador possa ser desviada devido ao surgimento de alguns pares de glândulas mamárias durante longos períodos de tempo, o que poderá dificultar a capacidade de interiorizar certas e determinadas cenas do filme. Mas avançando, trata-se da história duma mulher casada (Beatriz Batarda) (dando ênfase a "casada"), a atravessar uma óbvia crise de meia-idade, que se envolve com uma prostituta de luxo (Débora Monteiro) (pelo menos, é o que ela afirma ser), embora não se saiba bem como, nem o porquê desta relação se iniciar... Paralelamente a este relacionamento extra-conjugal, observa-se também a vida do 'corno' do marido (Virgílio Castelo), que tenta manter a sua posição numa grande empresa e a sua imagem pública, coisa que não corre muito bem já que a sua mulher anda a 'dar umas voltinhas' por fora. Ao descobrir este facto, e na confusão de não saber o que fazer, aparece o mordomo, Joaquim (José Pinto), que se oferece para 'acabar' com o problema. E com o estilo e grandiosidade de um hitman português, Joaquim consegue tirar a prostituta 'da moldura', preservando assim a imagem importante do seu chefe e deixando a mulher com sérios traumas psicológicos.

No geral, e apesar de contar com um elenco bem conhecido do público português, Duas Mulheres está longe de poder ser considerado um bom filme com 'B' maiúsculo, embora não seja algo completamente descartável, sendo, até, de fácil visualização, especialmente numa televisão HD, não vá algum pormenor das estruturas corporais das duas personagens principais escapar a quem o está a ver. A sua visualização pode tornar-se engraçada quando feita com um grupo de amigos - caso contrário, corre o sério risco de adormecer a meio.


IMDb: 5.3/10