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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Virados do Avesso (2014)

Pelo trailer - dos spots publicitários mais bizarros do Cinema Português recente -, e conhecendo o background de Edgar Pêra, já se adivinhava que VIRADOS DO AVESSO seria das duas uma: ou um filme tão experimental, mas tão experimental, que ninguém perceberia que o era, ou um objecto tão vulgar nos seus modos que, paradoxalmente, seria entendido como absolutamente experimental. Sem o benefício da digestão (até porque não creio que o seu principal problema seja o de ser particularmente indigesto, mas já lá iremos), não me consigo decidir em qual das hipóteses se encaixa melhor.


Uma coisa, contudo, é certa: Virados do Avesso será dos maiores manguitos lançados ao público português, porventura maior até do que o João César Monteiro lançou com Branca de Neve (mas menos satisfatório). Vejamos, correndo o risco de arrastar, em massa, espectadores às salas - e não é de todo descabido julga-lo capaz de rivalizar com os números de Balas & Bolinhos, Morangos com Açúcar - O Filme ou 7 Pecados Rurais -, será dos primeiros casos, se não mesmo o primeiro, em que um autor tão vincado é capaz de o fazer entre-fronteiras. E a malta que não conhece Pêra (a grande maioria, arrisco-me a avançar) nem desconfiará que está perante um dos grandes realizadores experimentais da actualidade.

A questão aqui, portanto, não se prenderá tanto com a inteligência, ou a falta dela, da premissa como com a tentativa de compreender o motivo que levou Pêra a descer tão baixo. Será que a velha dicotomia do Cinema Português - comercial versus de autor - não teria sido, ainda assim, uma vez mais reacendida caso o filme em questão não fosse tão mau (e, pior, assumidamente mau)? Porque Pêra, ao contrário do seu protagonista, não se esqueceu do experimentalismo da noite para o dia. A prova está na montagem, presa entre o slow e o fast motion, das mais excêntricas na filmografia nacional. E se se ri ao apresentar um produto tão abaixo da sua bitola, já nem o faz genericamente (como se diz, às tantas, no filme), mas claramente às custas de quem pagou para o ver.

O problema está na vacuidade extrema (dos estereótipos ocos ao humor brejeiro) a que Pêra se entrega para mostrar - ou denunciar, conforme se tenha maior ou menor vontade em compreender a sua intenção - o dilema do autor que se prostitui ao comercial. Na verborreia, quer literal, quer visual, que tudo domina, enche planos com Diogo Morgado - o Jesus tornado pecador e convertido em straight -, abusa da artificialidade das luzes e da trama, e utiliza um sem número de gags que, de outra maneira, não se lembraria nunca de utilizar. Mais, tenta enfiar em cada cena um novo gimmick de câmara, a ver se alguém dá por isso. É nesse tasteless - e haverá tasteless maior neste cantinho à beira-mar plantado do que colocar Anselmo Ralph a cantar as suas músicas em frente a uma câmara? -, cópia inferior ao reproduzido por Harmony Korine em Spring Breakers, até pelo ridículo a que se sujeita, que Virados do Avesso perde o fio à meada e se deixa afundar.

Pêra, à semelhança de Nick Cave, deixou de ser, a certa altura, um ser humano. Encarnou a personagem de Homem-Kâmara, filmou-se no quotidiano, filmou os outros, meteu-se no meio de Godard e Greenaway, brincou com o 3D e realizou um filme tão estranho - O Barão - que ninguém na RTP 2 reparou que estavam a exibir uma esverdeada versão inacabada antes de surgirem as queixas. Mas ninguém gosta de ver a sua inteligência insultada, mesmo que quem a insulte o faça de forma (aparentemente) inteligente. E, após ver Virados do Avesso, não deixo de me sentir assim. Pêra dançou no varão do Cinema comercial. Esperemos é que não repita a gracinha tão cedo.


Título Original: Virados do Avesso (Portugal, 2014)
Realizador: Edgar Pêra
Argumento: Henrique Cardoso Dias, Roberto Pereira, Frederico Pombares
Intérpretes: Diogo Morgado, Jorge Corrula, Marina Albuquerque, Nuno Melo, Philippe Leroux, Miguel Partidário
Música: José Joaquim de Castro
Fotografia: Miguel Sales Lopes
Género: Comédia
Duração: 96 minutos


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

The Wolf of Wall Street (2013)

THE WOLF OF WALL STREET (2013), baseado numa “história verídica”, é uma comédia premiada realizada por um grande realizador da actualidade, Martin Scorsese, e nomeada para cinco Óscares da Academia.


A acção do filme desenrola-se em redor de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um ambicioso corretor de bolsa que após a sua empresa falir, por consequência da “Black Monday”, encontra a possibilidade de ganhar dinheiro por comissão em acções de baixo valor usando as suas técnicas de venda agressivas e persuasivas. Ao aperceber-se da facilidade com que podia explorar o dinheiro das suas vítimas, devido ao facto de estas estarem viciadas, Jordan entra no Mundo dos milionários onde tudo tem um preço e usufrui dos prazeres dessa vida: materialismo; festa; sexo e muita, muita droga. Sem se aperceber, vicia-se na droga mais potente de todas, o dinheiro, e abraça a sua ganância pois mesmo as pessoas que o julgariam como antiético e destructivo teriam dificuldades em afirmar que o crime não compensa.

Como pontos negativos a este filme tenho apenas a apontar os longos 180 minutos e a falta de desenvolvimento das personagens, ao longo dos anos que o filme retrata, pouco ou nada mudou a forma de pensar e agir de todas as personagens, talvez nunca tenhamos de mudar quando podemos comprar tudo que nos venha à cabeça.

Trata-se de uma comédia que conta com brilhantes actuações dignas da nomeação para os Óscares de actor principal e secundário, destacando-se a performance emotiva e irrepreensível de Leonardo DiCaprio que é sem dúvida um dos principais responsáveis pela qualidade do filme.

Apesar de haver alguma disputa entre os críticos sobre filme por falta de aprovação das acções de Jordan, em quem esta biografia é baseada, considero-o bom para se ver em casa, quando precisarem de soltar umas boas gargalhadas com algumas das cenas mais hilariantes de 2013.


Título Original: The Wolf of Wall Street (EUA, 2013)
Realizador: Martin Scorsese
Argumento: Terence Winter 
Intérpretes: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Mathew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal 
Fotografia: Rodrigo Prieto
Género: Biografia, Comédia
Duração: 180 minutos



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Aimer, boire et chanter (2014)

Coube a Scott Foundas, crítico da Variety, uma das melhores descrições de Alain Resnais (e do seu Cinema): «If Resnais had gone into the culinary arts instead of the cinematic ones, then surely he would have emerged as a molecular gastronomist avant la lettre (...)». A frase parece-me especialmente feliz se vista à luz da última fase da carreira do cineasta francês - ou seja, a partir de meados da década de oitenta -, quando Cinema e Teatro se passaram a confundir mais frequentemente. AIMER, BOIRE ET CHANTER, a última obra de Resnais (entre nós, póstuma), segue essa tendência.


Não é invulgar que a última obra de um cineasta - e mais ainda, caso se trate de um grande cineasta como Resnais - cheire já um pouco a túmulo. E que se tente fazer dela a súmula de toda uma vida, um resumo de tudo o quanto ficou para trás. Escreva-se, em boa verdade, que Resnais não escapou à maldição; aliás, não creio sequer que lhe tenha querido escapar. Antes, soube jogar com ela, acolhendo-a, como já o tinha feito com Vous n'avez encore rien vu.

Fazendo um breve exercício de inversão cronológica entre os seus últimos dois filmes, fica a dúvida se Resnais sabia que Vous n'avez encore rien vu não seria o seu derradeiro projecto, que sobraria tempo para mais um. Passo a explicar: apesar de em ambas as obras a morte ser um tema recorrente, em Aimer ela é ainda iminente, algo por acontecer, ao passo que em Vous n'avez encore rien vu ela permeia grande parte da acção, servindo-lhe de mote (basta lembrar a personagem de Mathieu Amalric).

O ponto a reter será, talvez, que Resnais não tentou fugir ao seu destino (ao dele e, eventualmente, ao de todos nós). Em Aimer - e não será George Riley, o ausente-presente, o próprio Resnais? - empurra-o um pouco para a periferia, é certo, mas não o ignora; sabemos, desde o princípio, que só há maneira de fechar o filme: com um funeral. É esse o último plano que nos fica do Mestre francês, o de uma fotografia da Morte colocada sobre um caixão (o seu?) por uma jovem (a mesma de Vous n'avez encore rien vu?). É essa imagem que encerra o(s) capítulo(s) que Resnais inscreveu na História do Cinema - ele, a quem pertencem alguns dos momentos mais belos e importantes da Sétima Arte -, um aceno à sua mortalidade imediata.

Resnais, que provou a existência de diferenças basais entre ser um mero filmmaker ou um verdadeiro cineasta, soube acompanhar-se de gente leal e muito capaz nestas suas últimas viagens. Dos actores que marcam a sua obra, filmados em planos ora muito abertos, ora muito fechados, à cenografia e sonoplastia, houve a vontade de dar continuidade à qualidade que tão singularmente pautou o seu trabalho.

É em casos como este que o pró-forma de pontuar filmes (e, particularmente, este filme em concreto) se revela, além de absurdo, ingrato: desde logo, porque Resnais merece mais câmaras vermelhas do que as que eu lhe posso dar; depois, porque Aimer não é, nem de perto, nem de longe, um filme brilhante, muito menos um dos melhores do seu autor. Contas feitas, o Cinema ficou mais pobre sem Resnais; mas infinitamente mais rico por ter podido contar, durante décadas, com a visão deste grande - grande? enorme, E-NOR-ME! - artista.

[Alain Resnais morreu no passado dia 1 de Março, em Paris. Foi-se o cineasta, ficou a obra, esqueleto - e, sobretudo, alma - do que foi um dos obreiros mais incansáveis e interessantes da História do Cinema.]


Título Original: Aimer, boire et chanter (França, 2014)
Realizador: Alain Resnais
Argumento: Laurent Herbiet, Alain Resnais, Jean-Marie Besset (adaptado da peça de Alan Ayckbourn)
Intérpretes: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihot, Michel Vuillermoz, Sandrine Kiberlain, André Dussollier
Música: Mark Snow
Fotografia: Dominique Bouilleret
Género: Comédia, Drama
Duração: 108 minutos


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Teenage Mutant Ninja Turtles (2014)

TEENAGE MUTANT NINJA TURTLES trata-se do que se havia de esperar de mais um filme de Michael Bay: completa destruição; pânico geral; um desprezo total pelas leis da física; muitas, muitas explosões que enchem os olhos até a exaustão; e, ainda, Megan Fox.


No que é mais uma tentativa de espremer o dinheiro de uma franchise o produtor entrega-nos um filme que estaria melhor colocado na secção de crianças com um enredo completamente batido e em algumas situações plenamente absurdas e ainda um conjunto de actuações que pouco importam mencionar. De um modo geral, pouco vale o dinheiro que pretendem que paguemos para assistir a este filme.

No entanto, mesmo sendo um filme reconhecivelmente mau, devo admitir que gostei de ver as tartarugas mutantes especialmente quando comparado a Transformers: Age of Extinction que conta também com a participação de Michael Bay (como realizador). Talvez pelos efeitos especiais que agora nos possibilitam ver estes heróis ao nível tecnológico que esta década nos permite e constituem um dos pontos altos do filme, talvez porque para os fãs das tartarugas pode trazer a dose necessária de diversão que associamos à colecção de banda desenhada. No final creio que podemos ponderar se um filme mau pode ser compensado apenas pelo entretenimento que transmite.

Para os interessados em ver quatro tartarugas mutantes, adolescentes e ainda ninjas a fazer as piadas tradicionais, a lutar vilões, a salvar uma cidade de perigos e uma personagem principal que vende mais o aspecto que o talento, assistam a este filme pois poderão ficar com uma ideia de um filme divertido ao contrário das pessoas que o pretendam ver com algum tipo de seriedade em mente.


Título Original: Teenage Mutant Ninja Turtles (EUA, 2014)
Realizador: Jonathan Liebesman
Argumento: Josh Appelbaum, André Nemec, Evan Daugherty (baseado nas personagens de Peter Laird e Kevin Eastman)
Intérpretes: Megan Fox, Will Arnett, William Fichtner, Alan Ritchson, Noel Fisher, Johnny Knoxville, Jeremy Howard, Tohoru Masamune
Música: Brian Tyler
Fotografia: Lula Carvalho
Género: Acção, Aventura, Comédia
Duração: 101 minutos
 
 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 2: o Deus-Maquinista no comando do moralismo universal

Encontro-me com o João, um dos amigos locais, numa cervejaria de esquina, pouco visível ao transeunte mais distraído. Fico com o benefício de escolher a mesa. Que seja uma cabine nos fundos, então. Ainda os finos não encontraram o caminho da mesa e já se fala dos planos dos mestres, de Bergman, Tarkovsky e Reis. Gajo culto, este João. A conversa lembra-me algo que Edgar Pêra escreveu sobre Paulo Rocha: numa das aulas, o último rumava em direcção à tela, de joelhos, oferecendo um braço em troca do olho de Dreyer para tirar planos. O João que, confessa-me, também não acha nada mal o negócio faustiano sugerido por Rocha, despede-se com o resto do seu fino e a certeza de que nestas terras lusitanas ninguém fotografa Cinema tão bem como o Rui Poças. Concordo. E ponho-me a ouvir discussões alheias.

Ao balcão fala-se do Porto. Do clube, claro está! Nota mental: guardar um dia destes para escrever sobre o Porto - a cidade, claro está! - lá no blog. Resisto à tentação de dar uma vista de olhos ao catálogo. Quero manter o desafio de seguir o festival em modo guerrilha, deixar-me guiar pelos deuses do celulóide. Estar na sala às horas marcadas e abrir os olhos, só e apenas. Ao balcão ainda se berra sobre o Porto. O caderno, esse, fica na mala; prefiro escutar o ambiente que me rodeia, saborear o momento. A vida trata-me bem. Merda, tenho de pedir ao Luís a tal entrevista! A ver se o encontro na Católica.

O Sol já se põe quando regresso ao campus. O telemóvel vibra-me no bolso. Nem de propósito, uma mensagem do Luís. O gajo deve ser bruxo! Vou ter com ele. Diz que nos dá a entrevista com todo o gosto, que é um prazer. E despede-se num abrir e fechar de olhos, sempre apressado. Desço ao bar. Mais amigos. Uns quase de infância, outros de boémias noitadas nos Leões. Pergunta-se pelo paradeiro (incerto) de conhecidos em comum, fala-se de música, festarolas e, sobretudo, Cinema. Chamam-me doido por preferir Truffaut a Godard (um «tu não sabes o que dizes» roda a mesa). Começa uma sessão competitiva de audio - à qual falto -, e aproveito para esticar as pernas. Mais reencontros, mais abraços partilhados, mais parvoíces disparadas para o ar ao desbarato. O Junior, bracarense semanal, telefona-me. Garante-me que chega sem falta amanhã, que ainda apanha os dois últimos grupos de vídeo a competição. Desligo mesmo a tempo: toca a sineta. Vão começar os filmes.

HOTEL AMENITIES (Espanha, 2012), de Julia Guillén Creagh, abre bem a sessão. Dois amantes, ambos casados com outras pessoas, encontram-se pela primeira vez num quarto de hotel. Conheceram-se online e pretendem agora consumar o caso. Só que o Universo é um sacana moralista que parece não os querer deixar concretizar o desejo carnal. Os telemóveis tocam nas piores alturas possíveis; primeiro o dela, depois o dele. São os respectivos cônjuges. Um momento de dúvida para, no final, a porta se fechar com o aviso para não incomodar o par. O resto não se precisa de saber.

Já PELUQUERO FUTEBOLERO (Espanha, 2012), de Juan Manuel Aragon, vive principalmente do seu argumento. Não revelando nada de novo, aproveita, ainda assim, os elementos à disposição para criar uma história divertida pelos seus contornos absurdos. Vale pelas gargalhas e pela (passageira) interrogação se a desorientação do homem que, acabado de trair o clube, vai cortar o cabelo não passará de um conflito interior?

Menos objectivos - até porque não precisam de o ser - são MILK GLASS (Rússia, ?), de Egor Chichkanov, DOUBLE TAKE (Suécia, ?), de J. Tobias Anderson, e DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (Itália, 2011), de Simone Massi. Sobre os dois primeiros, a conversa é rápida: o de  Chichkanov é um videoclipe - bem filmado, é verdade, mas um videoclipe, ainda assim -, a roçar o artsy-fartsy, enquanto que o de Anderson é uma montagem em split-screen de cenas de Intermezzo: A Love Story, de Gregory Ratoff, decompondo campos-contra-campos de Leslie Howard e Ingrid Bergman (acabei por gostar do resultado). Relativamente ao de Massi, sobre o qual já tive a oportunidade de escrever a propósito de um outro evento, confirmei duas suspeitas: primeiro, que o trabalho técnico da animação é, de facto extraordinário - já para não falar da sonorização -; segundo, que falta significado à obra, viajando-se apenas entre camadas.

NEGOTIATING REPRESENTATION IN ISRAEL AND PALESTINE (Israel/Palestina/Reino Unido, ?), de Huw Wahl, parece-me um objecto com mais valor social/humanitário do que cinematográfico. Não fosse o magnífico trabalho de som - de uma riqueza enorme -, pouco havia a espremer, em Cinema, do conjunto de stills de fotojornalistas narrado pelos próprios. Salva-se a mensagem da liberalização da imagem enquanto ferramenta da consciência social (e global). Melhor na combinação da mensagem com a linguagem cinematográfica é ANDERSARTIG (Alemanha, 2011), de Dennis Stein-Schomburg, animação de traço delicado contada pela única sobrevivente de um bombardeamento a um orfanato alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Relato impressionante de uma juventude perdida, suportada pela leveza etérea que lhe dá forma.

Guardou-se o melhor para o fim. DEUS ET MACHINA (Espanha, 2012), de Koldo Almandoz, é uma obra rara no modo como se desenha. Um homem chega a uma fábrica de manhã e põe a funcionar o Mundo - trata-se de um Deus-Maquinista encantado pela Natureza que gere, mas descontente com os homens que O gerem. Se calhar Nietzsche enganou-se e Deus, afinal, não morreu: escolheu foi demitir-se daquele emprego ingrato e deixar as responsabilidades para outro.

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 1: Macau, o frio, o adeus e a dança

Saio do carro a correr. Porra, o primeiro dia e já estou atrasado! Levanto a acreditação de imprensa - e vejo na mesa a do Junior, que só deve chegar lá para sexta -, e olho para o relógio. Com a brincadeira de ficar na faculdade a falar do campeonato do Porto já não vou a tempo da sessão das 15h00. Menos mal que são os vencedores do ano passado (conheço-os quase todos). Aproveito para conhecer o campus da Católica.

Ou assim contava fazer. Mal saio do edifício das Artes esbarro com uma cara conhecida. O Luís continua o mesmo: magro, com barba e sempre apressado. Pergunta-me se vou à sessão de sexta à noite, que não posso faltar. Mas que raio há de tão importante na sexta à noite? Vai apresentar a curta dele, diz-me, que tenho mesmo de ir. Deixo-o descansado: na sexta até o Junior, amigo em comum, vai! Despede-se - tem sempre muito que fazer - e marca um café para um dos dias do festival. Desisto de dar a minha volta de reconhecimento. Vou é procurar um sítio para me sentar e dar uma vista de olhos pelo programa, que isto de cobrir um certame sem saber ao que se vai não tem jeitinho nenhum.

A Católica é agradável nesta altura do ano. Encontro um banco aquecido pelo Sol e ponho-me a folhear o catálogo. Lá está o Luís Costa e o seu FONTELONGA! Foda-se, não lhe pedi uma entrevista para o blog. Enfim, alguma coisa se há-de arranjar. Recebo uma mensagem. É do Xico, outro dos amigos a estudar na área. Promete-me, também ele, um cafezinho, mas só a partir de amanhã: hoje não tem aulas. Olho novamente para o relógio. Está quase na hora da sessão das 17h00. Decido-me a encontrar a sala.

O auditório não é difícil de encontrar. Mas tenho de descer não-sei-quantos lanços de escadas com uma mala pesadíssima. Entro, escolho um lugar, e, para minha surpresa, mais um reencontro. No palco, diante de mim, uma cara conhecida das fitas nos Passos, Meca dos cinéfilos portuenses. Trocamos "olás", separados por filas de cadeiras, que o tempo não permite outras cortesias. Cabe-lhe apresentar a artist talk de Tomé Quadros, prata-da-casa e jurado nesta edição do Black & White. Fala-se de Macau, de macaístas e macaenses, do choque-transformado-em-fusão cultural, dos Dóci Papiaçam di Macau. E passa-se aos filmes, que são o que verdadeiramente importa.

O trabalho dos Dóci Papiaçam di Macau lembrou-me, quase de imediato, duas coisas: uma foi o teatro chinês, super-exagerado e altamente estilizado, de que Guerra da Mata fala em A Última Vez Que Vi Macau, seu e de João Pedro Rodrigues; a outra, a teoria da fixação do teatro, defendida por Manoel de Oliveira. Mas se a primeira é rapidamente comprovada à medida que as fitas - na sua grande maioria falsos-trailers, auto-satíricos na utilização de estereótipos e lugares-comuns - vão passando, a segunda cedo cai por terra. É que aqui o Cinema não terá tanto o objectivo fixar a obra, como de expandir, através da multimédia, a mensagem do grupo: a preservação do Patuá macaense, o crioulo local.

Reduzidos ao chiste mencionado na apresentação, os trabalhos dos Dóci Papiaçam di Macau, não obstante o seu valor na divulgação de uma identidade cultural muito própria, acabam por se reduzir à curiosidade que encerram em si, enquanto paródias assumidas. Mais interessante pareceu-me, contudo, um dos documentários do próprio Tomé Quadros - em antevisão no início da sessão -, CHÁ GORDO, sobre a prática social que reúne à mesa as famílias macaenses. Aguardo com algum entusiasmo a oportunidade de o ver.

Pausa na programação. E novo intervalo alargado. Começo a pensar no formato a dar à cobertura do festival. Que se lixe, vai ser uma crónica! Começo a desenhar, mentalmente, estas linhas. No Bar das Artes tiro da mala o fiel caderninho - companheiro de rascunhos - e escrevo não sei quantos parágrafos que sei necessitarem de séria revisão quando me apanhar no conforto de casa. Reconheço uma outra amiga (mais uma!), esta mais antiga. Não sabia que conhecia tanta a gente a estudar por estes lados. Vem na minha direcção; ainda bem, não me apetecia nada ter de me levantar para fazer o caminho contrário. Pergunta-me o que faço por aqueles lados, que decerto não estudo ali, ou já me teria visto. Mostro-lho a acreditação e falo-lhe do blog, meio orgulhoso do feito. Pá, deixa de ser parvo, a conversa não lhe interessa, penso para mim. Ela senta-se, contudo, à mesa, admiradíssima por eu editar uma página sobre Cinema. Pomos a conversa em dia, até que alguém a chama. Outro café prometido. Decido guardar o caderno e ir esticar as pernas.

Mal passo a porta que dá para o exterior cruzo-me com o Nuno Reis, do Antestreia. Ficamos a fazer horas cá fora até ao início da sessão da noite. Filmes em circuito comercial, críticos de eleição na blogosfera nacional, festivais e eventos a acompanhar, resenhas em atraso nos respectivos espaços, passam-se todos os tópicos da praxe em revista. Já não nos víamos há largos meses - desde o Fantasporto - e assunto não falta. A malta começa a entrar. Os filmes vão começar.

A edição deste ano abre com 89 MM OD EUROPY (Polónia,1993), de Marcel Lozinski, nomeado em meados da década de 90 ao Oscar de Melhor Curta-Metragem Documental. Escolha interessante. Trabalhadores dos caminhos-de-ferro a trocarem as rodas as carruagens enquanto os passageiros os observam (um deles fotografando-os). A primeira associação que vem à cabeça é o Cinema Novo, trazido pelas Novas Vagas, carregado de consciência social. Findo o filme, apresenta-se o festival e o júri deste ano. Batem-se palmas de minuto a minuto. E corta-se para os seis títulos a concurso nesta primeira leva.

WARMTH (Bielorrússia, 2010), de Victor Asliuk, é, apesar do título, um filme frio. Ambientado numa fábrica de botas, oscila entre grandes-planos fechados na cara dos trabalhadores e uma visão mais distante do vapor que preenche o espaço. Aliás, é nesse fumo ubíquo que o melhor do filme se descobre, na visão impessoal - mal contrariada pelas pessoas, próximas de ferramentas - daquele mundo industrial. Igualmente frio pareceu-me NEST (Geórgia, 2011), de Tornike Bziava. Dele destaco a solidão inicial do protagonista, um velho viúvo com um filho divorciado, e um plano extraordinariamente belo: o pai, sentado na cama, aperta a gravata ao filho, num dos gestos mais íntimos possíveis.

Bem mais alegres são THE FEAST (Alemanha, ?), de Boris Seewald, e FROM DAD TO SON (Alemanha, 2011), de Nils Knoblich. O primeiro, experimental, cola várias coreografias num espectáculo visual frenético e, diga-se com toda a justiça, feliz. O segundo, animação paralelepípeda, história de um pai agricultor com o filho preso, conseguiu deixar-me com um sorriso nos lábios, apesar das óbvias limitações técnicas.

O primeiro português a competir, Vasco Mendes, surpreendeu pela positivo. O seu FOR THOSE WHO STAY (Portugal, ?) terá sido, porventura, o melhor do dia. Muito graças aos magníficos planos em contra-luz daquele bar de aeroporto, onde a despedida é para os que não embarcam. Nem o facto de, no final, parecer um anúncio a uma qualquer marca de cerveja o prejudicou: quem filma assim merece o maior dos elogios. No pólo oposto ficou LOOKING FOR SOMETHING (PART ONE: A WINTER VISIT) (Alemanha, ?), de Fjodor Donderer, feito entre imagens granuladas e uma pretensiosa narração filosófica-ambiental. A retórica ficou, no entanto, longe de convencer.

António Tavares de Figueiredo

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Spring Breakers (2012)

Às tantas, há em SPRING BREAKERS um momento de rara inspiração: Alien - o rapper gangster/piroso de James Franco - ensaia ao piano, iluminado por um pôr-de-sol rosa, uma balada de Britney Spears. Corta-se das raparigas a dançarem alegremente, de armas na mão e encapuçadas, para uma série de assaltos realizados pelo bando, sempre ao som daquela música angelical - «This song is by a little-known pop singer by the name of Britney Spears, An angel on this earth if there ever was one.» -, escolhida para mostrar às franguinhas o lado mais sentimental do durão. A iconoclastia pop de Harmony Korine encontra nessa sequência o seu expoente máximo, fruto da sobreposição de realidades inicialmente díspares que se encontram num estado quase-onírico.


Uma atmosfera de sonho, semelhante a uma realidade virtual, mantida pelas próprias personagens, dessensibilizadas do que se passa à sua volta. Uma das raparigas diz às outras para pensarem num assalto que estão prestes a cometer como se de um videojogo se tratasse. O crime é visto, em plano-sequência, da perspectiva da condutora, à distância e através das janelas do restaurante. Esse tratamento das acções, às quais quase se extraem os agentes, volta a resultar muito bem na cena do tribunal - que marca também a passagem entre a euforia inicial e os primeiros indícios da ressaca -, quando as raparigas dizem muito inocentemente ao juiz que não têm dinheiro para pagar a fiança.

Essa visão muito peculiar da narrativa, cultivada por Korine desde os seus primeiros trabalhos, misturando formatos e composições, continua presente apesar da (falsa) aproximação ao Cinema convencional. Spring Breakers é, contudo, fundamentalmente um exercício de (des)montagem. Dos planos, das personagens, da imagem das princesas Disney, da cultura voltada para o seu próprio umbigo e, sobretudo, das próprias convenções do género - o policial, o drama, a comédia -, baralhadas e desconstruídas ao ponto do estranhamento.

Mas, principalmente, Korine destrói a lógica videoclipe que tem vindo a surgir no Cinema contemporâneo. E fá-lo pelo propositado mau-gosto com que filma, a espaços prolongado por longuíssimos ralentis - a sequência de abertura, por exemplo, ao som de Skrillex, ao qual se voltará no final, novamente ao piano -, iluminando a tela em tons de arco-íris-choque.

O mau-gosto, no entanto, não é de agora. Faz até lembrar o dos seus argumentos para Larry Clark - Kids (1995) e Ken Park (2002) -, outros teenage wastelands. Nesse sentido, faço minhas as palavras da Rita Morais de Carvalho - « (...) de relembrar do hábito de Korine levar à exaustão a análise dos seus personagens, tal como acontece novamente em Spring Breakers - daí se aconselhar a ver o filme depois de já conhecer alguma coisa do realizador e a não levar, certamente, tudo à letra» -, num pertinente aviso à navegação. para que não se faça do estilo visual de Spring Breakers algo simplesmente literal. Também daí o vazio do argumento, preenchido por repetições ad nauseam de imagens e ideias fragmentadas, quererá dizer mais acerca da inanidade do explorado do que o que realmente mostra. Por não se poder esconder a vacuidade dos comportamentos - porque, efectivamente, não há ali nada senão o hedonismo histriónico de umas spring breaks alimentadas a alucinogénicos -, tenta-se atribuir-lhes um sentido qualquer, metralhando máximas pseudo-filosóficas que, a cada reprodução, se vão esvaziando do seu significado.

Se há mais de uma década, numa outra série sobre quatro amigas cosmopolitas, já havia quem dissesse «My friends think I'm shallow. Sometimes I think they're right. Other times I think, "Hey, I'm fucking a model."», já não estranho que o gangster de Franco se saia com tão abjecto monólogo - o do «This is the fuckin' American dream. This is my fuckin' dream, y'all.» - sobre o seu sonho americano. Um sonho que, de tão desmedido - as festas, as drogas, o sexo, o dinheiro, o poder -, dinamita quem por ele é seduzido. E, matando o sonho, já não resta sequer um pesadelo que nos sirva de salva-vidas: sobra apenas o psicadelismo do miasma fluorescente que inunda o campo, do tasteless a que Korine parece tão dedicado. E isso, quer se goste, quer não, merece o maior dos elogios. Se serve de retrato definitivo de uma - a minha? - geração? Deixo a resposta para quem, achando-se de direito, se sinta habilitado a dá-la. Para já, e para mim, um dos sérios candidatos a melhor do ano.


Título Original: Spring Breakers (EUA, 2012)
Realizador: Harmony Korine
Argumento: Harmony Korine
Intérpretes: James Franco, Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benson, Rachel Korine, Gucci Mane
Música: Cliff Martinez, Skrillex
Fotografia: Benoît Debie
Género: Comédia, Crime, Drama
Duração: 94 minutos



segunda-feira, 29 de abril de 2013

8 ½ Festa do Cinema Italiano 2013: depois do aperitivo, os amuse-bouches?

Continuando o tema gastronómico, se os primeiros filmes de um festival podem ser considerados o seu aperitivo, as curtas-metragens serão amuse-bouches. Fitas para ver de um só trago e ir digerindo à medida que vão surgindo. Mas, como na culinária, também no Cinema a mão que mexe a panela tem a sua importância no resultado final. E se pudemos provar uma ou outra pérola gourmet - confeccionadas com os melhores ingredientes e a técnica mais apurada - entre os pratos seleccionados pelo 8 ½ Festa do Cinema Italiano, encontrou-se, igualmente, na ementa uns quantos menos comestíveis, faltos do cuidado exigido à cozinha deste calibre. Outro houve, ainda, que se revelou simplesmente estranho, inesperada iguaria, recomendável para gastrónomos de palato treinado e espírito aberto.

Perdoe-nos, o caro leitor, o anacronismo na habitual ordem da refeição - sobre isso, só podemos acrescentar que a ocasião faz o ladrão -, e desfrute do banquete preparado. Para ler - e comer - numa só dentada.

O bom.

Sempre me disseram que devia reservar no prato o melhor para o fim da refeição. Não fosse, no entanto, o apetite - o meu e o do leitor - perder-se nas espinhas encravadas na garganta, é exactamente por aí que me proponho começar. E logo com CARGO (2012), de Carlo Sironi, filme sobre as redes de tráfico de mulheres que operam na Europa. Ou, melhor, sobre uma dessas mulheres traficadas - a carga -, forçada a prostituir-se numa autoestrada. Se a temática tem sido recorrente nas vagas mais recentes do realismo social, Sironi surpreende, no entanto, pela forma como a filma, afastando-se do acto em si para se concentrar noutros problemas relacionados. Por isso não me admiro que o melhor do filme se encontre num momento de rara cumplicidade entre a prostituta grávida e o chulo/moço-de-recados que julga ser o pai da criança - e que belas interpretações de Lidiya Liberman e Flavius Gordea -, no qual ela lhe confessa que momentos antes lhe chamara stronzo em ucraniano. O melhor da selecção.

Não é difícil imaginar TERRA (2012), de Piero Messina, a ter sucesso em festivais. Pelo menos foi essa a sensação com que fiquei após o ver. O que pode indicar uma de duas coisas - e porque não um pouco de ambas? -: ou é, de facto, um filme muito bem feito, com valores de produção sólidos, ou deixa-se cair num pretensiosismo tal, que às tantas já ninguém percebe o que por lá se passa. Mesmo admitindo que Terra possa sucumbir ao peso da sua própria ambiguidade, é de louvar a inteligência de Messina na construção deste purgatório marítimo e a direcção de fotografia de Diana G. Palombaro, absolutamente deslumbrante. E esperar que a próxima obra do realizador se concretize em algo mais inteligível.

Menos conseguido do que os filmes anteriores - até pela maneira como foi filmado -, mas igualmente interessante, é LA COLPA (2011), de Francesco Prisco. Partindo da ideia de discriminação - com dois polícias a quererem revistar a mala de um indivíduo árabe - para a de preconceito inconsciente, com o advogado que defendeu o árabe a ser também ele levado por comportamentos semelhantes, Prisco explora de forma eficaz o medo irracional associado aos traumas de uma sociedade pós-9/11. Falha, contudo, na construção coerente da sua mensagem, ora negando a utilidade da estereotipagem, ora validando-a. Ultrapassando a condescendência - que tenta esconder sem sucesso -, revela-se uma obra curiosa, embora nem por isso mais necessária. Para mim, um bom menos, daqueles quase a passar para a negativa.

O mau.

CUSUTU ‘N CODDU (2012), de Giovanni La Parola, lembrou-me, pela paleta de cores de que dispõe, os acid westerns de Jodorowsky. Sirva a comparação como uma espécie de elogio - o único possível -, com as cores a dançarem nos limites do contraste e saturação. Pouco sobra desse exercício estético, propositado ou não, resumindo-se o filme a um chorrilho de disparates incapaz de o sustentar. O pior da sessão, e um dos mais indigestos do festival.

TRAINING AUTO GENO (2011), de Astutillo Smeriglia, peca, sobretudo, pelo seu humor brejeiro. Fora isso, funciona como uma engraçada abordagem à questão homens versus mulheres, embora nem por isso mais correcta - as mulheres querem todas casar-se, os homens só pensam em sexo -, tentando colocar em evidência algumas das diferenças entre os géneros. Não sendo bem sucedido no seu objectivo, essa ligeireza que assume logo à partida permite-lhe, pelo menos, parecer menos mau do que Cusutu 'n coddu.

O estranho.

Resistindo à tentação de incluir Terra nesta secção, não consegui o mesmo em relação a DELL' AMMAZZARE IL MAIALE (2011), de Simone Massi. Não que o filme seja péssimo, mas a imagética que manipula torna-o um exercício, no mínimo, bizarro e algo confuso. Personagens que se transformam noutras personagens, saindo do seu corpo, existindo nas suas sombras, espaços que são cães, travellings por camadas de estória - do mais desorientador que já experimentei em animação -, tudo na obra contribui para a formação de um objecto surreal, penetrante e intenso. O que me faz desconfiar que, provida de um significado concreto, a obra poderia ser ainda melhor; não o tendo, é apenas esquisita.

António Tavares de Figueiredo

terça-feira, 23 de abril de 2013

8 ½ Festa do Cinema Italiano 2013: a família-Estado e a Máfia-negócio, no aperitivo para o fim-de-semana

Admito que é tentador comparar os primeiros dias de um festival de Cinema ao aperitivo de uma refeição. Ainda para mais, sendo o festival dedicado ao Cinema italiano - como é este 8 ½ Festa do Cinema Italiano -, país dado a estas aventuras gastro-cinematográficas. E com comensais habituados a comer tão bem - com os olhos, é claro -, a fasquia só poderia ser elevada.

Sirva-se, portanto, È STATO IL FIGLIO e L’INTERVALLO, obras de estreia a solo de Daniele Ciprì e Leonardo di Costanzo, respectivamente, aperitivos à altura para uma manjar satisfatório. Uma, a estória - ou será história? - de uma família tornada Estado, adepta de tornar desgraças em ganhos, a outra, prisão de dois adolescentes rechonchudos num prédio devoluto, cortesia da Máfia local. Sem indigestões - guardadas para ocasiões futuras -, está aberto o apetite!

È STATO IL FIGLIO, de Daniele Ciprì (Itália, 2012)

Creio, não querendo ser injusto para com o autor, que o grande problema de È STATO IL FIGLIO reside no excesso de ambição cultivado por Daniele Ciprì na sua estreia a solo em longas-metragens. Não que a ambição, principalmente quando bem gerida, seja má (e já lá voltaremos), mas a sensação com que fiquei no final no filme foi a de um passo que, por ser claramente maior do que a perna, saiu em falso. E que, exactamente por não ter onde se apoiar, resulta num trambolhão.

Louve-se, no entanto, o tema escolhido por Ciprì - que acumula a direcção de fotografia com a cadeira de realizador -, bem como alguns dos mecanismos encontrados para o desenvolver. Principalmente o contador-de-desgraças, sentado numa repartição das Finanças, que conta a quem o queira ouvir a história de uma família de classe baixa seduzida pela promessa de dinheiro. A alegoria pensada, ao transformar a família num falso-Estado - que se endivida para saldar outras dívidas e "hipoteca" os próprios filhos a troco do bem-estar económico - perde-se, infelizmente, na impaciência de Ciprì em explorar, redundando em planos frequentemente inconsequentes e ângulos estrambólicos que não encontram justificação em qualquer opção estética coerente. È stato il figlio vale, ainda assim, pelo clímax - filmado com rara clarividência -, momento ímpar de intensidade dentro da obra. Pena que o resto se quede tantos furos abaixo. (ATF)





L’INTERVALLO, de Leonardo di Costanzo (Alemanha/Itália/Suíça, 2012)

Mas se há momentos escrevi que o excesso de ambição prejudicou a estreia a solo de Ciprì, o mesmo não posso dizer da de Leonardo di Costanzo, que a soube dosear melhor. O que faz com que L’INTERVALLO - talvez por ser anti-climático, e, por isso, não viver apenas para um momento - pareça um filme bastante mais equilibrado do que È stato il figlio, fazendo maravilhas de um espaço, à partida, limitador.

Influenciado pela estética neorrealista - e, já agora, pelo cinéma vérité, na câmara que, pela proximidade, provoca os sujeitos -, di Costanzo prende dois adolescentes num prédio abandonado e desprovido de qualquer personalidade. E que, de tão vazio, os obriga, enquanto ocupantes forçados daquele espaço, a interagir com ele, quebrando as suas limitações. Às tantas, imaginam que estão num reality show e levam flores a um fantasma que se julga vaguear pelos corredores quando anoitece. Há qualquer coisa de muito inteligente na obra de di Costanzo, na ideia de não querer ficar agarrado a convenções que não lhe servem. A Máfia aqui também não é a de outros filmes - a de Gomorra, por exemplo, de Matteo Garrone, um monumento do Cinema moderno à sua maneira, é um visão quase-hollywoodesca, com as personagens a citarem Tony Montana -, longe da violência que lhe é habitualmente associada, mais interessada em negociar os termos da libertação da rapariga (o rapaz só lá está para a guardar).

E já que estamos em maré de comparações - e voltando às linhas iniciais -, percebe-se que, em comunidades governadas pelo crime organizado, se consegue mais com menos. No Cinema, o caso é semelhante. E L'intervallo, não sendo perfeito, prova-o bem, especialmente quando comparado a filmes como È stato il figlio. No fim, sobram as decisões tomadas. (ATF)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Los amantes pasajeros (2013)

Não me lembro de alguma vez ter começado uma resenha neste espaço - ou noutro qualquer, verdade seja dita - pelos próprios títulos. Que é como quem diz, pelo início em si. Também por aí se verá a rara habilidade de Pedro Almodóvar, do qual sou confesso admirador, enquanto autor, avançando logo com uns néons coloridos - e quase epilépticos - ao som de um Für Elise latino. É nesse tom alegre que abre, e se prolonga, LOS AMANTES PASAJEROS, vaudeville aeronáutico de uma tripulação que voa, literalmente, em círculos.


E voa-se em círculos porque não se pode aterrar. Ou porque, aterrando, não haveria filme. Assim, temos um grupo de pessoas, passageiros da primeira classe, hospedeiros e pilotos, presos num mesmo espaço; e, já agora, a um mesmo destino. E enquanto se procura uma solução para o problema, vão-se entregando ao deboche algo kitsch urdido por Almodóvar - apenas ele conseguiria imaginar algo assim -, cenas tão insólitas que, encaixadas, só poderiam fazer sentido. E que, isoladas, não fariam nenhum. Vejam-se, por exemplo, as primeiras cenas na cabina: a torrente de disparates disparados por um dos hospedeiros, amante do piloto, que, incapaz de mentir, admite toda a trapalhada aos passageiros que irromperam por ali adentro. Segue-se uma outra confissão do co-piloto - todos muito honestos -, pretenso heterossexual, que tentou uma felação ao piloto, sem sucesso. Parecendo que não - e admito que, sem o ver, ainda menos sentido fará a sequência conforme descrita -, as peças funcionam em conjunto.

De resto, as principais características do Cinema almodovariano mantêm-se: a cor rica e vibrante, as personagens extravagantes - e há-as para todos os gostos, da vidente virgem aos hospedeiros gays, passando pela dominatrix veterana e paranóica -, a exploração sexual, simultâneamente saudável e viciada. E viciante, que, às tantas, já ninguém quer parar. E confunde-se tudo numa orgia, entre gente acordada e adormecida - fabuloso paralelismo entre os casais, que invertem a posse da consciência na relação -, gente sóbria e intoxicada. Com o som a rebentar nos limites do volume, envolvendo tudo e todos naquele avião possivelmente condenado.

Depois dos labirintos hitchcockianos de uma outra Toledo - e, nem de propósito, o avião sobrevoa a mesma cidade quando se conhece o imbróglio -, uma comédia a romper com os dramalhões aos quais se havia colado. Obra menor ou não - e haverá sempre quem sinta a necessidade de a catalogar com tão injusto rótulo -, é refrescante dar de caras com um filme tão descaradamente vivo e alegre, com momentos tão burlescos como três hospedeiros efeminados a interpretarem um número de cabaret de I'm So Excited, das Pointer Sisters, em pleno corredor da primeira classe. Ou o próprio final, uma nova orgia, desta feita de espuma, que congela o último plano, um chapéu de piloto lançado para o ar. Los amantes pasajeros abraça, em toda a sua despreocupação, a pulsão idiossincrática de Almodóvar, a vontade de transgredir convenções sociais ultrapassadas. Existissem mais filmes assim, tão dados ao nonsense do Cinema em si, e o Mundo seria um lugar melhor. Se não, pelo menos um mais feliz.


Título Original: Los amantes pasajeros (Espanha, 2013)
Realizador: Pedro Almodóvar
Argumento: Pedro Almodóvar
Intérpretes: Javier Cámara, Carlos Areces, Raúl Arévalo, Lola Dueñas, Cecilia Roth, Antonio de la Torre, Hugo Silva, José Luis Torrijo, José María Yazpik, Guillermo Toledo, Blanca Suárez, Antonio Banderas, Penélope Cruz
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Género: Comédia
Duração: 90 minutos


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Paulette (2012)

Comédia aparentemente soft, PAULETTE revela-se, numa análise posterior, um filme bem menos naif do que inicialmente se julga. Não sendo extraordinário - não exageremos nos elogios -, a dimensão social que esconde debaixo dos gags imediatos - e nem sempre bem trabalhados - confere-lhe todo um novo valor. Um valor que, podendo facilmente passar despercebido, acrescenta qualidade ao trabalho apresentado.


Numa Europa arrasada pela crise, filmar uma velhinha, molesta e racista, que vende droga para sobreviver parece mais acertado do que nunca. A reforma não lhe chega, o marido, entretanto falecido, perdeu o restaurante para - e por culpa dos, segundo Paulette - os chineses e a filha causou-se com um polícia negro. O tráfico de droga, que se assume como o negócio preferencial do bairro onde vive, é a solução para os seus problemas, permitindo-lhe algumas das comodidades que se viu obrigada a abandonar. As temáticas de exclusão abordadas por Jérôme Enrico permitem firmar a obra num plano mais sério - ainda que nunca se abandone a tal comédia ligeira ou os gags -, dando-lhe fundo de crítica social. Igualmente interessante é a opção de retratar a velhice nestes moldes, tão distantes dos de gravíssimos monólitos como Amour, de Michael Haneke, e Away from Her, de Sarah Polley.

Há ainda um conceito, mais ou menos óbvio, de reabilitação por detrás de Paulette. Se a personagem - interpretada por Bernadette Lafont, absolutamente carismática - começa o filme a dizer ao neto que não gosta dele por ser preto, depressa muda de atitude perante o miúdo. O mesmo se aplica ao próprio negócio da droga, e à relutância em vender a crianças da primária. São esses pequenos pormenores que fazem com que a obra de Enrico descole do actual marasmo cómico, amiúde vazio de conteúdo. Vale, pela perspicácia demonstrada na reprodução de algumas situações, o preço do bilhete.


Título Original: Paulette (França, 2012)
Realizador: Jérôme Enrico
Argumento: Laurie Aubanel, Jérôme Enrico, Bianca Olsen, Cyril Rambour
Intérpretes: Bernadette Lafont, Carmen Maura, Dominique Lavanant, Françoise Bertin, André Penvern, Ismaël Dramé, Jean-Baptiste Anoumon, Axelle Laffont, Paco Boublard
Música: Michel Ochowiak
Fotografia: Bruno Privat
Género: Comédia, Crime, Drama
Duração: 87 minutos


sábado, 16 de fevereiro de 2013

This Is 40 (2012)

Depois de um conjunto de comédias refrescantes, Judd Apatow traz-nos THIS IS 40, um spin-off de Knocked Up. Com um elenco facilmente associável a filmes anteriores de Apatow, um argumento que infelizmente deixa muito a desejar e uma certa atmosfera que embora familiar não consegue cativar o suficiente.

Para quem conhece os filmes de Apatow este filme não trará nada de novo, é simplesmente mais uma daquelas comédias de domingo à tarde que se costuma apanhar na SIC ou na TVI. No entanto, parece que Apatow não se empenhou tanto neste projecto como em projectos anteriores ou então ficou sem ideias. Esta comédia sobre as chatices de envelhecer, do matrimónio e da prole, tem tantos buracos no enredo que nem dá para perceber como chega a ter mais de duas horas de filme. Há um foco tão grande em tentar enfiar todas as piadas que acho que se esqueceram de atar todas as pontas soltas, e assim, chegando perto do final ficamos com a sensação de que falta alguma coisa, aliás, muita coisa e não são uma ou outra piada boa que conseguem afastar este sentimento. O filme tenta envolver imensas dificuldades das vidas de pessoas de meia idade, velhice, filhos, problemas financeiros, pais ausentes, etc, e em certas alturas esquece-se completamente de onde quer chegar e fica tudo extremamente confuso. Existe também uma disfunção temporal algures e é difícil perceber a linha temporal do filme que deveria ter apenas algumas semanas e no entanto parece ter meses.

Não tem muito que se lhe diga, muitas das piadas provocam gargalhadas e até tem momentos em que se torna divertido de ver, mas com tanta incoerência uma pessoa até se esquece que está a ver um filme que deveria ter enredo, chega a parecer apenas várias sequências de acontecimentos colocados aleatoriamente sem qualquer sentido. E depois temos uma das personagens que não só leva todas as outras à loucura como também o público, Debbie (Leslie Mann), acho que nunca odiei tanto uma personagem fictícia, no entanto de todas foi a única que despertou algum tipo de sentimento em mim, embora negativo. Em geral, é uma comédia mediocre que dá para rir um bocado mas que poderá não agradar a todos. 


Título Original: This Is 40 (EUA, 2012)
Realizador: Judd Apatow
Argumento: Judd Apatow
Intérpretes: Paul Rudd; Leslie Mann; Maude Apatow; Iris Apatow: Jason Segel; John Lithgow; Albert Brooks
Música: Jon Brion
Fotografia: Phedon Papamichael
Género: Comédia
Duração: 134 minutos



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

The Haunted World of El Superbeasto (2009)

Tenho para mim, desde que vi pela primeira vez o videoclip da Dragula, que o Rob Zombie é a personagem carnavalesca perfeita. Um homem de maquilhagem putrefacta e longas barbas, que assina um vídeos em que aparecem os mais diversos monstros. Mas se com o passar dos anos Zombie se foi desmultiplicando em cada vez menos máscaras, em THE HAUNTED WORLD OF EL SUPERBEASTO recupera-as. Começando logo pelo protagonista.


Até porque nem é a primeira vez que uma personagem de um dos filmes de Zombie fica conhecida por nunca mostrar a face. Se em Halloween, o assassino era quem escondia a cara - acentuando o tal carácter de monstro -, aqui é o (anti-)herói que anda mascarado. El Superbeasto, mistura de pornógrafo javardo com caçador de monstros, torna-se assim uma espécie de reflexo distorcido do próprio Zombie - a tal máscara, de filme de terror em filme de terror -, dividindo-se em ocupações e talentos.

Ou pode ser que se esteja a complicar demasiado a coisa , e que The Haunted World of El Superbeasto não passe de um esforço de divertir através da sua rudimentar animação pensada para adultos e carregadinha de exploitation do primeiro ao último minuto. Curiosamente - ou talvez nem tanto, analisando o que ficou para trás -, pouco mais de uma hora de bonecada profana e algo reprovável revela-se o melhor que Zombie já realizou. E como é Carnaval, ninguém levará a mal.


Título Original: The Haunted World of El Superbeasto (EUA, 2009)
Realizador: Rob Zombie
Argumento: Rob Zombie, Tom Papa (baseado na banda-desenhada de Rob Zombie)
Intérpretes: Tom Papa, Sheri Moon Zombie, Paul Giamatti, Geoffrey Lewis, Rosario Dawson, Danny Trejo, Bill Moseley, Sid Haig
Música: Tyler Bates
Género: Acção, Animação, Aventura, Comédia, Fantasia, Terror
Duração: 77 minutos