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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Black & White 2013, Dia 1: Macau, o frio, o adeus e a dança

Saio do carro a correr. Porra, o primeiro dia e já estou atrasado! Levanto a acreditação de imprensa - e vejo na mesa a do Junior, que só deve chegar lá para sexta -, e olho para o relógio. Com a brincadeira de ficar na faculdade a falar do campeonato do Porto já não vou a tempo da sessão das 15h00. Menos mal que são os vencedores do ano passado (conheço-os quase todos). Aproveito para conhecer o campus da Católica.

Ou assim contava fazer. Mal saio do edifício das Artes esbarro com uma cara conhecida. O Luís continua o mesmo: magro, com barba e sempre apressado. Pergunta-me se vou à sessão de sexta à noite, que não posso faltar. Mas que raio há de tão importante na sexta à noite? Vai apresentar a curta dele, diz-me, que tenho mesmo de ir. Deixo-o descansado: na sexta até o Junior, amigo em comum, vai! Despede-se - tem sempre muito que fazer - e marca um café para um dos dias do festival. Desisto de dar a minha volta de reconhecimento. Vou é procurar um sítio para me sentar e dar uma vista de olhos pelo programa, que isto de cobrir um certame sem saber ao que se vai não tem jeitinho nenhum.

A Católica é agradável nesta altura do ano. Encontro um banco aquecido pelo Sol e ponho-me a folhear o catálogo. Lá está o Luís Costa e o seu FONTELONGA! Foda-se, não lhe pedi uma entrevista para o blog. Enfim, alguma coisa se há-de arranjar. Recebo uma mensagem. É do Xico, outro dos amigos a estudar na área. Promete-me, também ele, um cafezinho, mas só a partir de amanhã: hoje não tem aulas. Olho novamente para o relógio. Está quase na hora da sessão das 17h00. Decido-me a encontrar a sala.

O auditório não é difícil de encontrar. Mas tenho de descer não-sei-quantos lanços de escadas com uma mala pesadíssima. Entro, escolho um lugar, e, para minha surpresa, mais um reencontro. No palco, diante de mim, uma cara conhecida das fitas nos Passos, Meca dos cinéfilos portuenses. Trocamos "olás", separados por filas de cadeiras, que o tempo não permite outras cortesias. Cabe-lhe apresentar a artist talk de Tomé Quadros, prata-da-casa e jurado nesta edição do Black & White. Fala-se de Macau, de macaístas e macaenses, do choque-transformado-em-fusão cultural, dos Dóci Papiaçam di Macau. E passa-se aos filmes, que são o que verdadeiramente importa.

O trabalho dos Dóci Papiaçam di Macau lembrou-me, quase de imediato, duas coisas: uma foi o teatro chinês, super-exagerado e altamente estilizado, de que Guerra da Mata fala em A Última Vez Que Vi Macau, seu e de João Pedro Rodrigues; a outra, a teoria da fixação do teatro, defendida por Manoel de Oliveira. Mas se a primeira é rapidamente comprovada à medida que as fitas - na sua grande maioria falsos-trailers, auto-satíricos na utilização de estereótipos e lugares-comuns - vão passando, a segunda cedo cai por terra. É que aqui o Cinema não terá tanto o objectivo fixar a obra, como de expandir, através da multimédia, a mensagem do grupo: a preservação do Patuá macaense, o crioulo local.

Reduzidos ao chiste mencionado na apresentação, os trabalhos dos Dóci Papiaçam di Macau, não obstante o seu valor na divulgação de uma identidade cultural muito própria, acabam por se reduzir à curiosidade que encerram em si, enquanto paródias assumidas. Mais interessante pareceu-me, contudo, um dos documentários do próprio Tomé Quadros - em antevisão no início da sessão -, CHÁ GORDO, sobre a prática social que reúne à mesa as famílias macaenses. Aguardo com algum entusiasmo a oportunidade de o ver.

Pausa na programação. E novo intervalo alargado. Começo a pensar no formato a dar à cobertura do festival. Que se lixe, vai ser uma crónica! Começo a desenhar, mentalmente, estas linhas. No Bar das Artes tiro da mala o fiel caderninho - companheiro de rascunhos - e escrevo não sei quantos parágrafos que sei necessitarem de séria revisão quando me apanhar no conforto de casa. Reconheço uma outra amiga (mais uma!), esta mais antiga. Não sabia que conhecia tanta a gente a estudar por estes lados. Vem na minha direcção; ainda bem, não me apetecia nada ter de me levantar para fazer o caminho contrário. Pergunta-me o que faço por aqueles lados, que decerto não estudo ali, ou já me teria visto. Mostro-lho a acreditação e falo-lhe do blog, meio orgulhoso do feito. Pá, deixa de ser parvo, a conversa não lhe interessa, penso para mim. Ela senta-se, contudo, à mesa, admiradíssima por eu editar uma página sobre Cinema. Pomos a conversa em dia, até que alguém a chama. Outro café prometido. Decido guardar o caderno e ir esticar as pernas.

Mal passo a porta que dá para o exterior cruzo-me com o Nuno Reis, do Antestreia. Ficamos a fazer horas cá fora até ao início da sessão da noite. Filmes em circuito comercial, críticos de eleição na blogosfera nacional, festivais e eventos a acompanhar, resenhas em atraso nos respectivos espaços, passam-se todos os tópicos da praxe em revista. Já não nos víamos há largos meses - desde o Fantasporto - e assunto não falta. A malta começa a entrar. Os filmes vão começar.

A edição deste ano abre com 89 MM OD EUROPY (Polónia,1993), de Marcel Lozinski, nomeado em meados da década de 90 ao Oscar de Melhor Curta-Metragem Documental. Escolha interessante. Trabalhadores dos caminhos-de-ferro a trocarem as rodas as carruagens enquanto os passageiros os observam (um deles fotografando-os). A primeira associação que vem à cabeça é o Cinema Novo, trazido pelas Novas Vagas, carregado de consciência social. Findo o filme, apresenta-se o festival e o júri deste ano. Batem-se palmas de minuto a minuto. E corta-se para os seis títulos a concurso nesta primeira leva.

WARMTH (Bielorrússia, 2010), de Victor Asliuk, é, apesar do título, um filme frio. Ambientado numa fábrica de botas, oscila entre grandes-planos fechados na cara dos trabalhadores e uma visão mais distante do vapor que preenche o espaço. Aliás, é nesse fumo ubíquo que o melhor do filme se descobre, na visão impessoal - mal contrariada pelas pessoas, próximas de ferramentas - daquele mundo industrial. Igualmente frio pareceu-me NEST (Geórgia, 2011), de Tornike Bziava. Dele destaco a solidão inicial do protagonista, um velho viúvo com um filho divorciado, e um plano extraordinariamente belo: o pai, sentado na cama, aperta a gravata ao filho, num dos gestos mais íntimos possíveis.

Bem mais alegres são THE FEAST (Alemanha, ?), de Boris Seewald, e FROM DAD TO SON (Alemanha, 2011), de Nils Knoblich. O primeiro, experimental, cola várias coreografias num espectáculo visual frenético e, diga-se com toda a justiça, feliz. O segundo, animação paralelepípeda, história de um pai agricultor com o filho preso, conseguiu deixar-me com um sorriso nos lábios, apesar das óbvias limitações técnicas.

O primeiro português a competir, Vasco Mendes, surpreendeu pela positivo. O seu FOR THOSE WHO STAY (Portugal, ?) terá sido, porventura, o melhor do dia. Muito graças aos magníficos planos em contra-luz daquele bar de aeroporto, onde a despedida é para os que não embarcam. Nem o facto de, no final, parecer um anúncio a uma qualquer marca de cerveja o prejudicou: quem filma assim merece o maior dos elogios. No pólo oposto ficou LOOKING FOR SOMETHING (PART ONE: A WINTER VISIT) (Alemanha, ?), de Fjodor Donderer, feito entre imagens granuladas e uma pretensiosa narração filosófica-ambiental. A retórica ficou, no entanto, longe de convencer.

António Tavares de Figueiredo

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

The Devil's Carnival (2012)

O ressurgimento do musical como género cinematográfico, através da sua vertente jukebox - da qual Moulin Rouge!, de Baz Luhrmann, se assume ainda hoje um dos expoentes máximos -, deu a Terrance Zdunich a oportunidade de concretizar os seus projectos em filmes. Depois de Repo! The Genetic Opera - aquela distopia em que as empresas podiam recuperar os órgãos que financiavam em caso de incumprimento -, THE DEVIL'S CARNIVAL encaixa-se novamente na linha obscura que marcava o seu antecessor, sofrendo de muitos dos mesmos defeitos.


Não que não haja um cuidado visível a nível visual - caracterização, figurino e direcção artística resultam muito bem em relação ao ambiente geral da história -, mas a realização de Darren Lynn Bousman - que repete a cadeira ocupada no tal Repo! The Genetic Opera - deixa-se dominar pela lógica videoclip. A vontade de filmar as canções como singles, e que leva à repetição exaustiva da fórmula plano dos intérpretes-plano da narrativa, mancha o filme, reduzindo-o a um objecto de curiosidade fugaz.

Zdunich e Bousman aprenderam, no entanto, a limitar a duração das suas fitas, dividindo-as em supostos capítulos. No fim sobra a certeza de que os poucos momentos de inesperada originalidade - e aquele em que uma das personagens diz, em jeito de queixume, «a rebel in Hell, how original» é particularmente engraçado - não chegam, infelizmente, para compensar o resto de The Devil's Carnival. E se alguns temas ficam no ouvido - o que já acontecia no filme anterior -, a simples lembrança do seu lugar na narrativa basta para nos fazer sentir culpados por os querer cantar.


Título Original: The Devil's Carnival (EUA, 2012)
Realizador: Darren Lynn Bousman
Argumento: Terrance Zdunich
Intérpretes: Emilie Autumn, Dayton Callie, Briana Evigan, Sean Patrick Flanery, Jessica Lowndes, Bill Moseley, Paul Sorvino, Alexa Vega, Terrance Zdunich
Música: Saar Hendelman, Terrance Zdunich
Fotografia: Joseph White
Género: Fantasia, Musical, Terror
Duração: 56 minutos


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Les Misérables (2012)

Adaptar uma adaptação musical, e passe a redundância, de um romance intemporal assumia-se, já de si e sem mais complicações, uma empresa de proporções desmedidas. Ao contrário do outro - o de Bille August, datado de 1998 - o LES MISÉRABLES de Tom Hooper é baseado na peça da Broadway originada pela obra homónima de Victor Hugo. São Jean Valjean, Javert e companhia cantantes - ao vivo, ou melhor, durante a rodagem, um dos mecanismos mais interessantes introduzidos na fita -, melodramáticos  e percorridos por um sentimentalismo amiúde exagerado.


À primeira vista - e logo durante a primeira meia-hora de filme - é fácil perceber que toda a gente ali se sente intimidada com alguma coisa: as personagens com outras personagens, a câmara com a dimensão da história e os actores com a câmara que insiste em segui-los sem descanso. Mas, no fundo, tudo se resume à falta de unhas de Tom Hooper para esta guitarra. A incapacidade em enquadrar - que se manifesta, entre outras coisas, pela tal câmara que raramente pára - traduz-se numa direcção hiperactiva que, mesmo sem o querer, ofusca os actores. Só quando Hooper acalma os seus ânimos e filma de forma mais ou menos estática é que o melhor da fita vem à superfície, caso da absolutamente arrepiante - e um dos seus melhores momentos - I Dreamed A Dream cantada por Anne Hathaway na mais pura das intimidades.

Esses breves sintomas de qualidade provam a força do romance de Victor Hugo e o potencial que ficou por aproveitar - sobretudo com tão generoso orçamento - nesta sua transposição para o grande ecrã. É nos planos dos indigentes e dos estudantes revolucionários nas ruas de Paris que acaba por se encontrar o melhor de Les Misérables, precisamente - e pasme-se - na sua representação da miséria. E quando se tem à disposição tamanho talento nos departamentos - figurino, fotografia e direcção artística superiorizam-se - e no elenco reunido, já para não falar do material que lhe serve de origem, a obrigação é sempre de fazer melhor. Infelizmente, e não obstante os raros mas belos momentos que cria, Tom Hooper sucumbiu ao peso dessa obrigação, atrapalhando-se no (des)equilíbrio criativo que tenta manter.

No final, os miseráveis continuam miseráveis, mas redimidos. A luz brilha no Paraíso - as barricadas, agora enormes e assomadas de gente - e canta-se a música dos que viverão de novo em liberdade; sinal da quebra com o Destino fatalista ao qual se submetiam em vida. E apesar de sobrar a consciência da mediania de Les Misérables como filme - e haverá, como sempre e ainda bem, quem discorde desta análise -, sai-se da sala a assobiar os temas que lhe dão vida e profundamente emocionado pelo que se acabou de ver. É o enlevo da canção que se faz ouvir - capaz de toldar o julgamento em toda a sua beleza e paixão -, manchado pela constante necessidade da realização de provar o seu valor.


Título Original: Les Misérables (Reino Unido, 2012)
Realizador: Tom Hooper
Argumento: William Nicholson, James Fenton (baseado no musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, baseado no romance de Victor Hugo)
Intérpretes: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Daniel Huttlestone, Aaron Tveit, Isabelle Allen, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter
Fotografia: Danny Cohen
Género: Drama, Musical, Romance
Duração: 157 minutos