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domingo, 9 de novembro de 2014

Only Lovers Left Alive (2013)

À primeira cena de ONLY LOVERS LEFT ALIVE fica logo muito claro aquilo a que se está prestes a assistir: as estrelas rodopiam, Tilda Swinton rodopia, Tom Hiddleston rodopia, um disco rodopia, com a câmara a aproximar-se a cada corte, num picado (quase) absoluto, fechando nos rostos das personagens que despertam. Estamos perante almas-gémeas separadas, dois seres empurrados para diferentes cantos do globo, mas que, ainda assim, conseguem sentir a presença um do outros.


O movimento inicial repetir-se-á mais à frente no filme, quando os dois amantes estiverem já reunidos. Quem sabe, o movimento inicial poderá, também ele, ser uma repetição de um outro anterior. Mas nada disso parece importar. Adam e Eve (tão bíblico) estão, de novo, juntos. Ela, muito alva; ele, muito negro. Imortais numa cidade morta - toda a gente parece ter fugido de Detroit -, deambulam pelas ruas à noite, sem fim programado.

Quatro coisas saltam à vista neste Only Lovers Left Alive: 1) a magnífica fotografia de Yorick Le Saux, entre a nitidez dos pretos e brancos e a fluorescência dos néons destingidos; 2) o gosto pelo antigo dos vampiros de Jim Jarmusch, demonstrado na escolha dos carros, das roupas, da música e dos objectos com que se rodeiam; 3) a ideia de que o Cinema de Jarmusch se continua a fazer mais pela viagem do que pelo destino propriamente dito; e 4) a importância que se atribui ao toque (e ao analógico) num mundo cada vez mais digital.

Assim, nestes vampiros perdidos algures entre o patetismo dos de Neil Jordan e o vício dos de Abel Ferrara, encontramos a ironia da questão: quem já viveu demasiadas vidas conta o tempo com um interesse maior do que quem só viveu uma. Daí se explica o culto por tudo o que é vintage, pelo antiquado, pelo descontinuado. Quando já nem o sangue (ou a água, como às tantas se diz) é puro, será que ainda vale a pena existir?

 No final, é a câmara que desmente o próprio título. Os vampiros, já sem nada, precipitam-se sobre um casal de namorados. Corte para preto. Se nem os amantes sobrevivem nesta impureza, que razão sobrará para que se continue a Amar?

[Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch, é exibido hoje pelo Cineclube de Vila do Conde no Teatro Municipal de Vila do Conde, às 21h45.]


Título Original: Only Lovers Left Alive (Alemanha/Grécia/Reino Unido, 2013)
Realizador: Jim Jarmusch
Argumento: Jim Jarmusch
Intérpretes: Tilda Swinton, Tom Hiddleston, Anton Yelchin, Mia Wasikowska, John Hurt, Jeffrey Wright
Música: SQÜRL, Jozef van Wissem
Fotografia: Yorick Le Saux
Género: Drama, Romance, Terror
Duração: 123 minutos


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Let The Right One In (2008)


 
LET THE RIGHT ONE IN (2008), de Tomas Alfredson, adaptado do romance com o mesmo nome, de John Ajvide Lindqvist, surpreende pela incrível história, óptima realização e duas actuações de topo por parte dos protagonistas. Uma abordagem sombria e, ao mesmo tempo, calorosa às romance de vampiros que promete derreter corações e gelar o sangue. 

Oskar (Kåre Hedebrant) é um rapaz solitário que vive atormentado pelos colegas de turma e pais despreocupados. Eli é um(a) vampiro(a) sedento(a) de sangue e com a eterna aparência de uma rapariga de 12 anos. Ambos encontram conforto um no outro e começam uma relação amorosa que leva Oskar a enfrentar os seus medos e a superar a angústia do dia-a-dia.


Tomas Alfredson brilha com o seu trabalho neste filme, uma realização sincronizada, com todos os elementos cruciais, O ambiente, as personagens a historia, tudo parece funcionar em harmonia. Será mesmo um filme terror? Talvez um romance mais deformado que o habitual, com a necessária violência inerente. Onde o diálogo é escasso e as imagens são mais importantes que palavras, e aprofundam o que nunca se chega a ouvir.

A imagem é cinzenta e gélida, a transmitir o sentimento de pobreza e solidão, contrabalançada apenas pelo calor dos laços criados pelos protagonistas, num contraste de cores e emoções, As próprias protagonistas são completos opostos, atraídos apenas pela angustia e sofrimento que partilham e que acabam por se complementar. Tanto Kåre Hedebrant e Lina Leandersson, com desempenhos exemplares nos papeis de Oskar e Eli, cativam logo desde o inicio, com uma grande complexidade e boa química. No entanto, não é tudo beijinhos e abraços, pois estamos perante um filme de vampiros e Let the Right One In encara-os com a seriedade que um monstro realmente merece. Somos abençoados com o terror que um verdadeiro vampiro deve causar. Sangue não falta e há cenas suficientemente assustadoras e doentias para nos manter atentos ao que possa estar ao virar da esquina.

Em geral, Let the Right One In tem tudo o que se possa querer num bom filme de terror, fascinante, original e arrepiante, com o seu toque especial que culmina numa das experiências mais satisfatórias dos últimos 10 anos no cinema de terror, daquelas que tão cedo não abandonam a nossa memória.


Título Original: Låt Den Rätte Komma In (Suécia, 2008)
Realizador: Tomas Alfredson
Argumento: John Ajvide Lindqvist
Intérpretes: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, 
Música: Johan Söderqvist
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Género: Drama, Romance, Terror
Duração: 115 minutos


terça-feira, 21 de maio de 2013

The Great Gatsby (2013)

Diz uma publicação recente num espaço online português dedicado ao Cinema: «Mas atenção, não gosto de me deslumbrar com isso [efeitos especiais], nem tão pouco prestigiar um filme por essa vertente, embora claro que possa constatar o bom trabalho realizado nesse campo. Normalmente neste tipo de discussão faço um esforço e prefiro, numa perspectiva, avaliar a história e a sua adaptação, noutra, o aspecto inovador da realização. O resto é puramente acessório na maioria dos casos.». A reflexão serve de excelente ponto de partida para a análise a THE GREAT GATSBY, de Baz Luhrmann. E não é preciso muito para perceber o motivo. Ou não fosse Luhrmann um dos grandes cineastas do deslumbramento, das elaboradas encenações visuais, do bigger than life cinematográfico. E não descrevesse, também, o romance de F. Scott Fitzgerald a opulência de uma sociedade, pouco preocupada com gastos e excessos.


(Sobre a publicação, um aparte. Se é verdade que concordo com o que se escreveu no Caminho Largo - sítio de destaque na blogosfera portuguesa, editado pelos irmãos Teixeira -, também o será que reservo na minha abordagem ao Cinema um lugar mais do que «puramente acessório» para os efeitos especiais. Mesmo que os considere por vezes, exagerados e algo descabidos no contexto da história.)

Mas comecemos pela câmara de Luhrmann. Nem de propósito, escrevi há poucas semanas sobre Spring Breakers, de Harmony Korine. E nem de propósito porquê? Passo a explicar: a lógica videoclipe que Korine explode no seu girls gone wild é a mesma que serve de base ao estilo visual de Luhrmann. Claro que podemos discutir que o australiano a utiliza melhor, mais consistentemente ou de forma mais refinada - e parece-me que sim, a todas as alíneas -, mas a ideia que a sustenta não deixa de ser a mesma. A música omnipresente, os ralentis ad nauseam, a montagem, a trechos, histérica, tudo se conjuga na visão super-excitada saída (e mantida pelas) das novas MTVs.

Olhando para trás, não surpreende que Luhrmann (ainda) faça uso desses mecanismos. Primeiro, porque resultaram em filmes como Romeo + Juliet e Moulin Rouge! - Australia salta à vista como o "patinho feio" do conjunto -, naquele onanismo pop que tão bem caracteriza a sua obra; depois, porque, olhando ao que se escreveu em The Great Gatsby, seria expectável que os recursos se adaptassem à situação em causa. Mas do papel à prática a distância é, por vezes, grande demais. O romance de Fitzgerald é, já de si, tão exagerado - com as festas, as personagens, os sonhos - que, somando-lhe os artifícios deste Cinema, se torna simplesmente desmedido.

É esse exagero que esvazia a história. A exuberância histriónica dos décors, da banda-sonora anacrónica, da fotografia que se impulsiona no 3D - e lá está, de novo, o exagero - e no caleidoscópio colorido provoca um entusiasmo inebriante que distrai do argumento, tirado quase à letra do original. Não que haja nele alguma qualidade de maior - mesmo considerando a fidelidade à fonte -, mas o pouco valor possível de ser encontrado vai-se perdendo na folia. O que me leva a perguntar: será que, hoje em dia, interessa mais deslumbrar a audiência com um espectáculo visual megalómano do que com um texto inteligente e cuidadosamente pensado? Pelo que tenho visto ultimamente, começo a duvidar da resposta. Gostaria, ainda assim, de pensar que não se insulta o espectador de forma tão grave.

(Novo parêntese, agora sobre o argumento e a sua relação com o romance de Fitzgerald. Por muito que goste de The Great Gatsby - e gosto mesmo muito, ao ponto de o considerar o grande romance americano por excelência -, gosto ainda mais dos últimos capítulos, no filme resumidos em poucos minutos. Parece-me claro que não se soube muito bem o que fazer com o material à disposição. Só à luz dessa evidência se explica igualmente a necessidade de inventar um Carraway-narrador, a recuperar do alcoolismo através do reconto catártico da sua relação com Gatsby.)

Há, contudo, aspectos positivos a elogiar. A habilidade de Luhrmann chega-lhe para cobrir alguns dos defeitos da sua própria visão, imaginando algumas sequências - lembro-me, por exemplo, da within/outside de Carraway - razoavelmente inspiradas. Nenhuma, no entanto, superior ao grande plano fechado no brinde de Gatsby ao espectador, diante de um luxurioso fogo-de-artifício. Esse momento apenas, sintetizando o mundo de aparências no qual as personagens - e Leonardo DiCaprio divide-se particularmente bem entre sorrisos forçados e uma aparência de desconforto engolido - se movem, quase justifica o resto do filme.

Não se perdendo completamente, a adaptação de Luhrmann de The Great Gatsby sucumbe à obrigação de justificar o seu investimento. Naquela Nova Iorque pré-Crash, naquelas mansões separadas por uma baía, vivem-se falsas-vidas. «All New York, packed up in automobiles, went in the weekend - the all weekend - to that house». É precisamente nessas máscaras que a ideia de Luhrmann encontra maior correspondência no romance de Fitzgerald - contrastando com o simbolismo oco no qual frequentemente se deixa cair -, na solidão que Gatsby projecta mesmo entre as multidões. Numa sociedade coberta por máscaras, a de Gatsby calha apenas de ser a mais vistosa.


Título Original: The Great Gatsby (Austrália/EUA, 2013)
Realizador: Baz Luhrmann
Argumento: Baz Luhrmann, Craig Pearce (baseado no romance de F. Scott Fitzgerald)
Intérpretes: Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan, Tobey Maguire, Joel Edgerton, Elizabeth Debicki, Isla Fisher, Jason Clarke
Música: Craig Armstrong
Fotografia: Simon Duggan
Género: Drama, Romance
Duração: 142 minutos


quinta-feira, 21 de março de 2013

Night Train to Lisbon (2013)

Parece-me que NIGHT TRAIN TO LISBON nunca será um filme consensual. Onde muitos verão monotonia, outros tantos descobrirão belos momentos de Cinema - e escreva-se logo a abrir que a fotografia é deslumbrante - plenos de significado. Aliás, o próprio filme, girando em torno de coincidências e da Filosofia - os protagonistas são um professor da disciplina e um médico dado a reflexões existenciais -, permite essa dualidade de opiniões.


Um homem salva uma rapariga que se quer matar. Ela foge, deixando-lhe um casaco vermelho - cor importantíssima durante o filme - e um livro em português. O homem, impressionado pelo que lê, e descobrindo um bilhete de comboio no interior do livro, parte imediatamente rumo a Lisboa. Quer conhecer o autor da obra, mas ele já morreu. Dedica-se, pois, a desvendar o mistério da sua vida.

Night Train to Lisbon faz-se entre o road movie e o filme de mistério - não chegando, no entanto, a pertencer inteiramente a nenhum dos géneros -, um exercício de calma na maneira como Bille August filma o passado, mas, sobretudo, o presente. Capaz de, mais uma vez, aliciar um elenco internacional de qualidade comprovada - a Jeremy Irons e Mélanie Laurent juntam-se nomes como os de August Diehl, Martina Gedeck, Bruno Ganz, Charlotte Rampling Lena Olin, Christopher Lee, Beatriz Batarda, Marco D'Almeida e José Wallenstein -, o dinamarquês debruça-se sobre uma das épocas mais negras da História portuguesa. E se o retrato dos anos de ditadura nem sempre sai exacto - evita-se abordar a dimensão social em toda a sua plenitude -, o esforço será, pelo menos, de louvar, ainda para mais num país que insiste em esquecer - e bem se diz a meio que «quando a ditadura é um facto, a revolução é um dever» - as suas décadas mais obscuras.

Apesar de algumas decisões criativas mais duvidosas - a questão linguística, com as personagens a falarem todas automaticamente em inglês, ou a visão algo turística com que August filma Lisboa -, Night Train to Lisbon revela-se um filme interessante. A mim, pelo menos - e admitindo que para muitos nunca passará de um mero pastel dramático e pseudo-filosófico -, proporcionou uma das mais belas viagens cinematográficas dos últimos anos.


Título original: Night Train to Lisbon (Alemanha/Portugal/Suiça, 2013)
Realizador: Bille August
Argumento: Greg Latter, Ulrich Herrmann (baseado no romance de Pascal Mercier)
Intérpretes: Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Lena Olin, Charlotte Rampling, Marco D'Almeida, Christopher Lee, Adriano Luz
Música: Annette Focks
Fotografia: Filip Zumbrunn
Género: Aventura, Mistério, Romance, Thriller
Duração: 111 minutos


sábado, 16 de fevereiro de 2013

This Is 40 (2012)

Depois de um conjunto de comédias refrescantes, Judd Apatow traz-nos THIS IS 40, um spin-off de Knocked Up. Com um elenco facilmente associável a filmes anteriores de Apatow, um argumento que infelizmente deixa muito a desejar e uma certa atmosfera que embora familiar não consegue cativar o suficiente.

Para quem conhece os filmes de Apatow este filme não trará nada de novo, é simplesmente mais uma daquelas comédias de domingo à tarde que se costuma apanhar na SIC ou na TVI. No entanto, parece que Apatow não se empenhou tanto neste projecto como em projectos anteriores ou então ficou sem ideias. Esta comédia sobre as chatices de envelhecer, do matrimónio e da prole, tem tantos buracos no enredo que nem dá para perceber como chega a ter mais de duas horas de filme. Há um foco tão grande em tentar enfiar todas as piadas que acho que se esqueceram de atar todas as pontas soltas, e assim, chegando perto do final ficamos com a sensação de que falta alguma coisa, aliás, muita coisa e não são uma ou outra piada boa que conseguem afastar este sentimento. O filme tenta envolver imensas dificuldades das vidas de pessoas de meia idade, velhice, filhos, problemas financeiros, pais ausentes, etc, e em certas alturas esquece-se completamente de onde quer chegar e fica tudo extremamente confuso. Existe também uma disfunção temporal algures e é difícil perceber a linha temporal do filme que deveria ter apenas algumas semanas e no entanto parece ter meses.

Não tem muito que se lhe diga, muitas das piadas provocam gargalhadas e até tem momentos em que se torna divertido de ver, mas com tanta incoerência uma pessoa até se esquece que está a ver um filme que deveria ter enredo, chega a parecer apenas várias sequências de acontecimentos colocados aleatoriamente sem qualquer sentido. E depois temos uma das personagens que não só leva todas as outras à loucura como também o público, Debbie (Leslie Mann), acho que nunca odiei tanto uma personagem fictícia, no entanto de todas foi a única que despertou algum tipo de sentimento em mim, embora negativo. Em geral, é uma comédia mediocre que dá para rir um bocado mas que poderá não agradar a todos. 


Título Original: This Is 40 (EUA, 2012)
Realizador: Judd Apatow
Argumento: Judd Apatow
Intérpretes: Paul Rudd; Leslie Mann; Maude Apatow; Iris Apatow: Jason Segel; John Lithgow; Albert Brooks
Música: Jon Brion
Fotografia: Phedon Papamichael
Género: Comédia
Duração: 134 minutos



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Warm Bodies (2013)

Rom-com-zom.

Andámos nós décadas a fio a enfiar, literalmente, coisas na cabeça dos zombies para agora descobrirmos que bastava amá-los. Afinal, os humanos são todos uns malvados e exterminam tudo o que lhes aparece pela frente. É essa a noção-base de WARM BODIES, de Jonathan Levine, uma espécie de crítica social - muito tímida, é certo, mas que marca presença - através da comédia romântica.


Esqueceram-se, talvez, é que o mesmo - ou, pelo menos, algo muito semelhante - já havia sido feito com Fido (2006), de Andrew Currie - objecto ainda mais esquisito ambientado numa América similar à da década de 50, e que colocava um morto-vivo domesticado apaixonado pela sua dona -, que, de resto, resultava bem melhor no capítulo da crítica. A matança dos zombies é comparada a um genocídio - ou à segregação racial, no caso de Fido -, um acto que demonstra a brutalidade dos vivos para com os mortos. E, enfim, uma história de amor, por pouco original que seja, acaba por ser o mecanismo perfeito para unir as espécies, quase como uma reconciliação com o passado - a queda de um muro, metafórico e literal - e as atrocidades cometidas. Aqui será entre R, um zombie com consciência, e Julie, a filha do líder da resistência. Esse reciclar de lugares-comuns, das convenções da comédia romântica - o atrair dos opostos, por exemplo -, limita o potencial do filme, reduzindo o alcance da mensagem.

O sacrifício do conteúdo pela forma leva Levine a apostar num conjunto de tiques característicos do género e do público-alvo a que aponta. A tendência de fechar, lentamente, os planos na cara dos protagonistas ou de preencher quase todos os segundos da fita com música revela a imaturidade de Warm Bodies enquanto filme. Aos bons momentos sucedem-se outros mais comezinhos, num esforço gritante de reduzir a complexidade da narrativa. No fim, sai-se da sala com a sensação de que alguma coisa poderia ter corrido melhor. Não sendo um mau filme, deixa algo a desejar.


Título Original: Warm Bodies (EUA, 2013)
Realizador: Jonathan Levine
Argumento: Jonathan Levine (baseado no romance de Isaac Marion)
Intérpretes: Nicholas Hoult, Teresa Palmer, Analeigh Tipton, Rob Corddry, Dave Franco, John Malkovich
Música: Marco Beltrami, Buck Sanders
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Género: Comédia, Romance, Terror
Duração: 98 minutos



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Take This Waltz (2011)

Dos vários momentos em que poderíamos pegar para iniciar uma análise a TAKE THIS WALTZ, de Sarah Polley, talvez o mais interessante seja aquele que se faz entre a piscina pública e o bar. A sequência é, de resto, paradigmática do melhor que parece capaz de sair da câmara de Polley, um misto de erotismo contido - e o diálogo no bar é excelente nesse sentido - e divertimento leve. Pena que, fruto da duração, se misturem esses rasgos de refrescante habilidade com outros menos brilhantes.


Mas nem por isso se deverá menosprezar o segundo filme de Sarah Polley enquanto realizadora. A canadiana aparece cheia de boas ideias que, embora nem sempre saiba concretizar da melhor maneira, dão vida à história. Take This Waltz não é mais do que uma ligeira subversão do clássico boy meets girl - melhor, aqui será de um girl meets boy -, génese de tantos romances cinematográficos. Apesar do jogo com as convenções do género - com aquele travelling circular em que finalmente se liberta toda a sensualidade acumulada ao som da canção que dá título à fita a ser um bom exemplo da brincadeira -, a fórmula é facilmente reconhecível e o destino da narrativa rapidamente traçado. A moça, inconstante nos sentimentos - e resisto a escrever bipolar, não vá um dos meus colegas de redacção, a cursar Psicologia, corrigir-me o atrevimento - há-de acabar com a sua paixão dê por onde der; e os outros que se arranjem e aceitem a situação que mais não têm a - ou podem, para todos os efeitos - fazer.

Sarah Polley volta a filmar o Amor. E logo o Amor sob ameaça. Se em Away from Her - superior, parece-me - o foco estava apontado ao Alzheimer, desta feita voltou a sua atenção para o estrangulamento que a rotina provoca no casamento e na paixão. Se um casal parece feliz visto de fora, significa que o será entre paredes? A resposta dada por Michelle Williams e Seth Rogen - e, principalmente, a forma como é explorada pelo argumento - é satisfatória, marcada por boas interpretações - às quais se juntam as de Luke Kirby e de Sarah Silverman, desbocada como de costume -, muito sentidas e, sobretudo, reais. É na inquietude emocional da sua protagonista que se encontra a luminosa melancolia que guia o filme, tornando-o, a espaços, um objecto de improvável beleza.

Voltando ao início da crítica e à escolha daquelas três ou quatro cenas em particular, será justo admitir que tão ou mais facilmente se podia ter seleccionado um outro pedaço de filme, sem prejuízo para a ideia que se pretendia demonstrar, para se começar a escrever sobre Take This Waltz. A alternância entre altos e baixos, entre momentos extraordinários e mais vulgares, permite que se julgue a mais recente obra de Polley, no mínimo, como muito razoável. Sobra, no entanto, bastante potencial por aproveitar e uma certa sensação de redundância nos processos utilizados. No fim - e nisso, quanto mais não seja, concordo com Sarah Polley -, fica claro que a relação acaba quando se utiliza a casa-de-banho em simultâneo. A privacidade e o mistério são sempre bem-vindos numa vida em comum.


Título Original: Take This Waltz (Canadá/Espanha/Japão, 2011)
Realizador: Sarah Polley
Argumento: Sarah Polley
Intérpretes: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman, Jennifer Podemski, Vanessa Coelho
Música: Jonathan Goldsmith
Fotografia: Luc Montpellier
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 116 minutos



domingo, 27 de janeiro de 2013

Django Unchained (2012)

A mais recente obra-prima de Quentin Tarantino não deixa nada por contar, não tem limites e deixa qualquer um preso à cadeira do inicio ao fim. DJANGO UNCHAINED possui tudo que se podia esperar de um filme do Tarantino, violência extrema, personagens caóticas, uma visão obscura e realista de um tema taboo e um estilo de realização e originalidade que apenas Tarantino nos pode proporcionar. A espera foi grande e o resultado compensa e satisfaz todos os desejos depravados dos fãs de Tarantino enquanto nos injecta com uma lição moralista e bastante directa.


Pessoalmente já aguardava esta estreia com imensa ansiedade e dela esperava grandes coisas, felizmente não me desiludiu e até ultrapassou as expectativas. A caracterização das personagens e o desempenho dos actores são óptimas, a destacar Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, cujas personalidades se contrabalançam na perfeição, um caçador de prémios que despreza a escravidão, é calmo e inteligente, e o dono de uma grande plantação que ganha a vida com lutas entre escravos, que por sua vez é mentalmente instável e narcisista. Depois temos Jamie Foxx que mostra do que é capaz e dá vida ao protagonista vingativo e determinado, Django, com um desempenho ao qual se deve dar grande mérito, num papel que muitos teriam grandes dificuldades em desempenhar, Foxx vai para além do que seria de esperar.

Django (Jamie Foxx) é comprado, à força, por Dr. King Schultz (Christoph Waltz) que acaba por lhe oferecer a liberdade. Esta dupla junta-se para apanhar e matar criminosos durante o inverno após o qual partem para salvar a mulher de Django, Broomhilda (Kerry Washington), das mãos de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um magnata das lutas de mandigos que dificilmente dá o braço a torcer.

Django Unchained é divertido de ver, facilmente nos apercebemos que muitos dos actores também se divertem nos papeis que desempenham, uma junção de comédia sem consideração por quem possa ofender, acção sangrenta e destrutiva e uma pitada de romance e heroísmo. Nem todos poderão apreciar o filme pelo que ele realmente é, uma crítica assertiva a uma das épocas mais cinzentas dos Estados Unidos, e poderão ficar ligeiramente ofendidos. Isto é uma das coisas que temos que admirar em Tarantino, a sua capacidade inigualável de não ter qualquer tipo de preocupação pelo que possam vir a achar do seu projecto e o faz como quer e bem lhe apetece, apenas quer transmitir a sua mensagem à sua maneira. E como seria de esperar, Tarantino dá o ar da sua graça com uma aparição breve no filme e ainda que não acrescente nada à narrativa, continua a ser uma adição engraçada aos seus filmes.

Posso garantidamente afirmar que é um grande começo de ano para o cinema. Já com algumas nomeações para os Oscares, aqui no Matinée temos os dedos cruzados para que algum vá para Django Unchained, pois é merecido. Escusado será dizer que se trata de um filme a não perder, teve estreia nacional na passada quinta-feira, e este é um filme que irão querer ver numa sala de cinema pelo menos uma vez. 


Título Original: Django Unchained (EUA, 2012)
Realizador: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Intérpretes: Jamie Foxx; Christoph Waltz; Leonardo DiCaprio; Kerry Washington; Samuel L. Jackson; James Remar
Fotografia: Robert Richardson
Género: Aventura, Acção, Drama, Western
Duração: 165 minutos




sábado, 12 de janeiro de 2013

Manolete (2008)

Volta e meia há quem tente vender Adrien Brody como algo que ele não é. Já o fizeram passar por herói de acção, protagonista de giallo - em fita homónima do mestre do subgénero, um Dario Argento já longe do auge - e até mesmo comediante de meia-tigela; a meio da década passada foi escolhido para toureiro. MANOLETE, de Menno Meyjes, chega agora às salas portuguesas. E, não sendo um grande filme - nem para lá perto caminhar -, traz consigo algumas considerações interessantes.

Rodado em 2005, com Penélope Cruz ainda por oscarizar, a estreia de Manolete foi sofrendo sucessivos atrasos. O orçamento foi aumentando e surgiram complicações na distribuição. As associações anti-tourada não ajudaram à situação com os seus boicotes ao filme, que, apesar de filmado sem recurso a touros, consideravam um insulto aos direitos dos animais. De biopic de elevados valores de produção rapidamente passou a produto tóxico no qual ninguém parecia interessado a pegar. Mas lá foi encontrando, lentamente, o caminho de alguns mercados. Já a década era outra - os novos anos dez - quando estreia finalmente em França, Itália e Espanha e vai directamente para DVD nos EUA e no Japão; em Portugal demorou-se um bocadinho mais.

Mas se o atraso se deveu, em grande parte, à temática controversa, depressa se justificou com o filme em si. Adrien Brody - que ainda se vai safando como a vedeta complexada - e Penélope Cruz andam meios perdidos como casal durante grande parte do filme e acabam por ter os seus melhores momentos durante a faena, precisamente quando não têm de trabalhar diálogos pouco inspirados. Confirma-se, pois, o deslumbramento de Menno Meyjes - que já no início da carreira como realizador havia assinado dois pastéis biográficos sensaborões - pela produção que tem a seu cargo e a incapacidade do holandês em a guiar adequadamente. Atente-se, por exemplo, ao absurdo de entrecortar cenas dentro de outras já entrecortadas ou àquele plano muito piroso e várias vezes repetido de Brody com as duas pombas brancas nas mãos. E se as cores e o espectáculo da tourada constituem o melhor de Manolete - bela fotografia de Robert D. Yeoman -, em Blancanieves - curiosamente a preto-e-branco - são filmados com maior paixão e engenho. Agora percebe-se a demora na chegada.


Título Original: Manolete (Alemanha/Espanha/EUA/França/Reino Unido, 2008)
Realizador: Menno Meyjes
Argumento: Menno Meyjes
Intérpretes: Adrien Brody, Penélope Cruz, Nacho Aldeguer, Santiago Segura, Juan Echanove, Ann Mitchell
Música: Dan Jones, Gabriel Yared
Fotografia: Robert D. Yeoman
Género: Biografia, Drama, Romance
Duração: 92 minutos


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Silver Linings Playbook (2012)

A certa altura diz-se em SILVER LININGS PLAYBOOK que a vida é já complicada o suficiente para se andar por aí a tropeçar em livros com finais tristes. Diz-se isto e lança-se Hemingway janela fora, como quem não quer a coisa, amaldiçoando-se o desfecho do seu Adeus às Armas. A lição também se pode aplicar aos filmes: se a tristeza é necessária - e, atenção, que ninguém aqui afirma o contrário -, também o será a felicidade, o tal contorno prateado. Todos os anos os grandes filmes - ou, pelo menos, aqueles que mais galardões varrem - são os dramas sérios e muito graves; gerou-se tamanho complexo em relação à comédia, à alegria, que já poucos acreditam em quem é capaz de rir. Com o livro voador bate-se o pé à tradição.


David O. Russell - que, quer-me parecer, tem já os seus filmes bem tipificados, evitando sempre fugir muito ao seu modelo aprovado - regressa à disfunção social. Troca a família de The Fighter, obcecada por boxe, por um subúrbio de Filadélfia completamente focado no football. Há o antigo professor de História recém-libertado do hospital psiquiátrico, a miúda desbocada lá do bairro, o pai obsessivo-compulsivo, corretor de apostas supersticioso, e os amigos neuróticos e ligeiramente desequilibrados. Do conjunto das peças estragadas - e a história gira toda em redor das pequenas obsessões de cada personagem -, do messed up, resulta uma fita surpreendentemente agradável - apesar de, e lá está a tipificação, algo previsível - e fresca. É o quebrar dos limites da comédia romântica, a criação tanto dentro como fora das convenções que geralmente contêm o género. Continua tudo muito fofinho e simpático, mas arrepia-se caminho da lamechice em que habitualmente se comete o erro de cair.

Chegado às salas, Silver Linings Playbook justifica a atenção e o burburinho de que tem vindo a ser alvo na corrida aos prémios. Não que seja brilhante - ou que chegue sequer lá perto -, mas assume-se como um tónico eficaz contra a depressão e a apatia. Invulgarmente motivador - e que sorte tive eu em vê-lo durante uma época de exames -, permite que dele se saia com um sorriso nos lábios e satisfeito com a experiência proporcionada. E se Russell, que não sendo um realizador particularmente talentoso - teima em encaixar músicas em tudo o que é cena e meter-se em planos francamente pirosos -, assina ainda assim uma direcção segura muito o deverá ao elenco, excepcional e no seu melhor estado. É bom ter uma estratégia; ainda melhor é conseguir segui-la com êxito.


Título Original: Silver Linings Playbook (EUA, 2012)
Realizador: David O. Russell
Argumento: David O. Russell (baseado no romance de Matthew Quick)
Intérpretes: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles
Música: Danny Elfman
Fotografia: Masanobu Takayanagi
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 122 minutos


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Les Misérables (2012)

Adaptar uma adaptação musical, e passe a redundância, de um romance intemporal assumia-se, já de si e sem mais complicações, uma empresa de proporções desmedidas. Ao contrário do outro - o de Bille August, datado de 1998 - o LES MISÉRABLES de Tom Hooper é baseado na peça da Broadway originada pela obra homónima de Victor Hugo. São Jean Valjean, Javert e companhia cantantes - ao vivo, ou melhor, durante a rodagem, um dos mecanismos mais interessantes introduzidos na fita -, melodramáticos  e percorridos por um sentimentalismo amiúde exagerado.


À primeira vista - e logo durante a primeira meia-hora de filme - é fácil perceber que toda a gente ali se sente intimidada com alguma coisa: as personagens com outras personagens, a câmara com a dimensão da história e os actores com a câmara que insiste em segui-los sem descanso. Mas, no fundo, tudo se resume à falta de unhas de Tom Hooper para esta guitarra. A incapacidade em enquadrar - que se manifesta, entre outras coisas, pela tal câmara que raramente pára - traduz-se numa direcção hiperactiva que, mesmo sem o querer, ofusca os actores. Só quando Hooper acalma os seus ânimos e filma de forma mais ou menos estática é que o melhor da fita vem à superfície, caso da absolutamente arrepiante - e um dos seus melhores momentos - I Dreamed A Dream cantada por Anne Hathaway na mais pura das intimidades.

Esses breves sintomas de qualidade provam a força do romance de Victor Hugo e o potencial que ficou por aproveitar - sobretudo com tão generoso orçamento - nesta sua transposição para o grande ecrã. É nos planos dos indigentes e dos estudantes revolucionários nas ruas de Paris que acaba por se encontrar o melhor de Les Misérables, precisamente - e pasme-se - na sua representação da miséria. E quando se tem à disposição tamanho talento nos departamentos - figurino, fotografia e direcção artística superiorizam-se - e no elenco reunido, já para não falar do material que lhe serve de origem, a obrigação é sempre de fazer melhor. Infelizmente, e não obstante os raros mas belos momentos que cria, Tom Hooper sucumbiu ao peso dessa obrigação, atrapalhando-se no (des)equilíbrio criativo que tenta manter.

No final, os miseráveis continuam miseráveis, mas redimidos. A luz brilha no Paraíso - as barricadas, agora enormes e assomadas de gente - e canta-se a música dos que viverão de novo em liberdade; sinal da quebra com o Destino fatalista ao qual se submetiam em vida. E apesar de sobrar a consciência da mediania de Les Misérables como filme - e haverá, como sempre e ainda bem, quem discorde desta análise -, sai-se da sala a assobiar os temas que lhe dão vida e profundamente emocionado pelo que se acabou de ver. É o enlevo da canção que se faz ouvir - capaz de toldar o julgamento em toda a sua beleza e paixão -, manchado pela constante necessidade da realização de provar o seu valor.


Título Original: Les Misérables (Reino Unido, 2012)
Realizador: Tom Hooper
Argumento: William Nicholson, James Fenton (baseado no musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, baseado no romance de Victor Hugo)
Intérpretes: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Daniel Huttlestone, Aaron Tveit, Isabelle Allen, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter
Fotografia: Danny Cohen
Género: Drama, Musical, Romance
Duração: 157 minutos


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Safety Not Guaranteed (2012)

«This is the moment you live for.»

SAFETY NOT GUARANTEED, uma pérola do cinema independente, vem mais uma vez provar que um orçamento de milhões não compra a qualidade e o encanto de um filme. Com um argumento fantástico, personagens fabulosas e um desenvolvimento tão surpreendente que no fim nos deixa com um sorriso na cara.

Quando publicam anonimamente ,num jornal, um anuncio dizendo que procuram um companheiro para viajar no tempo, um escritor de uma revista, Jeff (Jake Johnson), e dois estagiários  Darius (Aubrey Plaza) e Arnau (Karan Soni), dessa mesma revista, partem numa viagem para descobrir o autor do anuncio e escrever um artigo sobre o mesmo. Eventualmente encontram Kenneth, o viajante do tempo, que acaba por aceitar Darius como sua aprendiz, isto enquanto Jeff se reencontra com uma ex-namorada e mostra a Arnau como se divertir. À medida que Darius e Kenneth se preparam para a tal viajem no tempo mais complicada se torna a sua relação e mais dificilmente se sabe se o que Kenneth diz é verdade ou se ele não passa de um maluco.

O filme consegue manter-nos constantemente na dúvida de forma consistente, deixando o público sempre com alguma questão em mente e embora acabe por não responder a todas, surpreende-nos ao virar de cada esquina. As personagens não poderiam ser mais adequadas e a forma como complementam o enredo e todo tema envolvido é genial, no final de contas isto não se trata apenas de viagens no tempo, mas sim de erros, fracassos e amores não correspondidos. Aubrey Plaza é quem mais brilha, desempenhando o papel de uma rapariga estranha, irónica e impassível que acaba por ceder emocionalmente ao único homem que é igualmente, se não mais, estranho. Rapidamente nos afeiçoamos às personagens e à história, o que torna mais fácil esquecer algumas falhas no enredo, que também acabam por ajudar para que tudo fique mais aberto a interpretação pessoal. A relação desenvolvida entre Darius e Kenneth é também contraposta pela solidão e amargura de Jeff, o que acentua muito mais toda a emoção que o filme transmite. Todas estas personagens sofrem um desenvolvimento intra e inter pessoal enorme e bastante significativo e é tudo desempenhado tão engenhosamente que é simplesmente brilhante.  

Chegando o final do filme apenas se deseja mais. Se Kenneth realmente viaja no tempo é questão deixada mesmo para o último minuto e para quem está a ver o filme pela primeira vez é o minuto mais longo de todos, mas vale a pena. Tudo culmina num final que para uns poderá ser considerado um escape fácil de todas as questões colocadas, mas para outros será um final apropriado para um filme extraordinário. 


Título Original: Safety Not Guaranteed (EUA, 2012)
Realizador: Colin Trevorrow
Argumento: Derek Connolly
Interpretes: Aubrey Plaza; Jake Johnson; Karan Soni; Mark Duplass; Mary Lynn Rajskub
Música: Ryan Miller
Fotografia: Benjamin Kasulke
Género: Comédia, Romance, Ficção-Científica
Duração: 86 minutos



Moonrise Kingdom (2012)

Elogio à (sua) infância, MOONRISE KINGDOM poderá muito bem ser um dos melhores filmes de Wes Anderson, se não mesmo o melhor. História proto-romântica de dois pré-adolescentes que, julgando-se apaixonados, fogem de casa num Verão, revela o talento do cineasta norte-americano em se imprimir em cada fotograma das suas obras. Assiste-se a um perfeccionismo já raro - exibido igualmente a nível dos departamentos, com o merecido destaque a ir para as fabulosas direcções de arte e de fotografia -, demonstração exemplar de um estilo visual característico que, estendido aos limites, se mostra capaz de suportar a fita.


Wes Anderson e Roman Coppola voltam a funcionar bem como dupla após The Darjeeling Limited. Criam uma narrativa doce e inocente, capaz de ultrapassar as falhas que apresenta  - quebra acentuada entre as suas metades; cansaço acumulado pela imagética forte com que Anderson teima em injectar cada segundo da fita - e de conquistar o espectador. Da junção daquelas crianças rejeitadas - incompreendidas pelas diferenças que exibem - resulta uma espécie de conto-de-fadas, uma demonstração de afecto por toda uma época e fase da vida.

Narrado por uma personagem que na aparência faz lembrar Steve Zissou - o biólogo marinho de outras andanças -, Moonrise Kingdom assume-se como uma viagem pela lembrança, marcada por uma nostalgia simpática. Na direcção de um elenco na sua maioria seu conhecido - são muitos os regressos de obras anteriores -, Anderson destaca-se pelo virtuosismo com que conduz esta sua incursão pela Nova Inglaterra dos anos 60. Falha, contudo, em controlar a veia criativa, exagerando na manifestação da sua visão bastante peculiar. Não é perfeito, mas também quem disse que a magia tinha de o ser?


Título Original: Moonrise Kingdom (EUA, 2012)
Realizador: Wes Anderson
Argumento: Wes Anderson, Roman Coppola
Intérpretes: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Bob Balaban
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Robert D. Yeoman
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 94 minutos


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tabu (2012)

Tem-se em TABU, de Miguel Gomes, um dos objectos mais singulares da cinematografia recente portuguesa. Não só pela época que revisita ou sequer pela opção de fotografar a preto-e-branco - O Barão, de Edgar Pêra, por exemplo, também se situa nesse espectro -, mas sobretudo no talento envolvido na repescagem e utilização de todo um leque de técnicas e mecanismos que há muito se julgavam caídos em desuso e que aqui conferem ao filme uma dimensão indescritivelmente mágica. A entrada de Miguel Gomes na lista dos grandes cineastas da nossa praça - depois do surpreendente Aquele Querido Mês de Agosto - faz-se através de uma ligação Lisboa-África desmultiplicada em memórias e relatos.


Começando pelo magnífico prólogo, com ares de documentário, somos introduzidos, enquanto público, aos resquícios do Império e do Colonialismo. A um passado que já não existe e àquela paisagem luxuriante a que chamam África. A narração - que durante o filme vai revelando, sempre a seu tempo, todos os detalhes necessários à compreensão da narrativa - deixa logo claro que à vontade do coração não se podem sobrepor as de Reis ou Deus. A lembrança e o sonho são apresentados como elementos poderosos e capazes de guiar a experiência. De um lado temos aqueles que, não querendo recordar, vivem por eles atormentados; do outro, aqueles que têm como tarefa impedir que o que foi mas já não é morra no esquecimento. O que equivalerá a escrever que Aurora e Pilar - Laura Soveral e Teresa Madruga, respectivamente, fenomenais - são faces opostas de uma mesma moeda, atraindo-se até ao fim anunciado e que não tarda muito em chegar. Tudo para se perceber que o sufixo - Perdido - que cai de uma epígrafe para a outra foi, afinal, ganho através do tempo.

Do elenco à pós-produção, verifica-se em Tabu uma obra superior, colocada bem acima da média - quer nacional, quer internacional - e pautada por uma faculdade absolutamente assombrosa. Vê-lo é permitir que em nós penetre uma imagética forte, envolvida por uma musicalidade transcendente - apanágio da obra de Gomes -, que perdurará na nossa memória e não mais nos abandonará. Obrigatório.


Título Original: Tabu (Alemanha/Brasil/França/Portugal, 2012)
Realizador: Miguel Gomes
Argumento: Miguel Gomes, Mariana Ricardo
Intérpretes: Teresa Madruga, Laura Soveral, Henrique Espírito Santo, Isabel Muñoz Cardoso, Ana Moreira, Carloto Cotta, Manuel Mesquita, Ivo Müller
Fotografia: Rui Poças
Género: Drama, Romance
Duração: 118 minutos



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

The Perks Of Being A Wallflower (2012)

Uma visão extremista da vida de um adolescente, a isso se resume THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER, de Stephen Chbosky, autor do romance com o mesmo nome. Chbosky mostra que mesmo com capacidades realização medianas se consegue atingir algo bastante acima da média, apoiado por um elenco de topo.

Charlie (Logan Lerman) é um jovem de 15 anos, socialmente desajustado e tímido. Numa tentativa de fazer amizades nos seus primeiros dias do secundário, conhece Sam (Emma Watson) e Patrick (Ezra Miller), que o integram no seu grupo de desajustados que o guiam e apresentam a uma visão diferente da vida.

O que mais brilha neste filme é o desempenho dos actores, todos transmitem eficientemente as características emocionais das personagens e prendem-nos desde o inicio. Facilmente nos apercebemos que a emoção retratada é principalmente a angústia, também bastante notória no ambiente geral do filme, assim como a solidão e a dificuldade de conviver com algo fora da norma estabelecida pela sociedade. É dirigido para aqueles que são, realmente, diferentes e que de certeza se identificam com algumas das personagens, daí a importância de desempenhos superiores por parte do elenco, o que se verifica e dá alma ao filme. O mesmo não direi da realização de Chbosky, que embora não seja má, não se encontra ao nível necessário para estar a par do trabalho dos actores, e ainda se encontra em fase de amador com potencial para progredir.

Nunca li o livro, por isso não sei até que ponto foram representados os acontecimentos no filme, mas diria que alguns pontos importantes não foram claramente esclarecidos, apenas nos deixam com indicações superficiais, abatendo um pouco a tensão criada em certas partes. No entanto, as diversas referências à cultura alternativa são muito bem vindas, desde uma banda sonora facilmente reconhecível ao shadow cast de Rocky Horror Picture Show, interpretado pelas personagens. Definitivamente um filme que deverá agradar o público geral, excepto aqueles que não o entenderem e o interpretarem de forma literal.


Título Original: The Perks Of Being A Wallflower (EUA, 2012)
Realizador: Stephen Chbosky
Argumento: Stephen Chbosky
Intérpretes: Logan Lerman; Dylan McDermott; Kate Walsh; Ezra Miller; Emma Watson; Mae Whitman; Erin Wilhelm; Reece Thompson
Música: Michael Brook
Fotografia: Andrew Dunn
Género: Drama
Duração: 102 minutos



sábado, 17 de novembro de 2012

The Artist (2011)

2011 foi um ano fértil em homenagens ao Cinema e à sua História. Entre títulos como Hugo ou My Week with Marilyn, THE ARTIST foi um dos que mais se destacou, roubando, inclusive, os Oscars de Melhor Filme e Realizador à peça de Scorsese. É, no entanto, curioso como um dos filmes mais falados do ano passado é, essencialmente, mudo.

Aquele romance da Hollywood Clássica entre uma estrela acabada e outra em ascensão acaba por narrar singelamente a crónica que foi a passagem do cinema mudo para o falado. Não será de estranhar, portanto, que se reveja na figura de George Valentin a de Douglas Fairbanks, também ele um ídolo das matinés caído no esquecimento quando as fitas passaram a contar com som. É no seu overacting - perdão, no de Jean Dujardin e Bérénice Bejo - que se faz grande parte deste The Artist; quando não se pode falar (ou, antes, fazer-se ouvir) há que compensar na expressão facial e corporal. Essa necessidade constante do exagero quase faz cair a obra por várias vezes no melodrama, salvando-se apenas através da realização competente de Michel Hazanavicius.

O realizador - conhecido pelas colaborações com Dujardin nas paródias francesas a 007 e aos filmes de espionagem -, de resto, transforma a modesta história num filme razoável, capaz de conquistar o coração a uma fatia grande do público e da crítica. Manipulando uma série de mecanismos típicos do cinema mudo, alguns melhor do que outros - aquele falso ecrã dividido na cena do restaurante consegue ser dos mais interessantes -, Hazanavicius consegue fazer algumas referências inteligentes àquela Era da Sétima Arte.

É engraçado como a primeira palavra ouvida em The Artist é "corta", e a última "acção". A sequência demonstra perfeitamente a possibilidade daquelas quase duas horas de filme se conterem a si mesmas e, sobretudo, na tela. Fica a certeza de que, quando numa sala escura iluminada por um projector, a vida consegue ser mais bonita.


Título Original: The Artist (Bélgica/EUA/França, 2011)
Realizador: Michel Hazanavicius
Argumento: Michel Hazanavicius
Intérpretes: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller
Música: Ludovic Bource
Fotografia: Guillaume Schiffman
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 100 minutos



domingo, 21 de outubro de 2012

To Rome with Love (2012)

Depois de Paris à meia-noite, chegou a vez de Roma receber um filme de Woody Allen. O cineasta nova-iorquino aceitou uma proposta de um grupo de distribuidores romanos e assim nasceu TO ROME WITH LOVE. O título final, que Allen afirmou odiar, surgiu como recurso a Bop Decameron e Nero Fiddles, referências que ninguém parecia compreender. Quatro estórias apenas relacionadas entre si pelo espaço onde se passam - Roma - sobre o amor, a moralidade, a família e o culto da celebridade. São várias as caras conhecidas que dão vida às personagens criadas por Allen (algumas criadas também por quem as interpreta, veja-se o caso do Leopoldo de Roberto Benigni, homólogo europeu do nova-iorquino) que, melhor ou pior, vão fazendo o filme ao seu ritmo. Os vários episódios entrecortam-se, por vezes emoldurados por uma bela peça musical tão caracteristicamente italiana (ou assim a associamos), por vezes sem aviso aparente que não  as personagens em si. Jesse Eisenberg encontra Alec Baldwin, que perde o corpo e se torna em consciência, Penélope Cruz faz de prostituta, Alison Pill é uma turista americana que encontra o amor junto de um advogado italiano e Woody Allen, no seu regresso à representação, surge como um reflexo dele próprio, sujeito nervosinho e neurótico vaiado pela crítica enquanto maestro. Nenhum deles se destaca, mas são todos agradáveis caricaturas do próprio cineasta, que insiste em se reproduzir a cada filme que faz. A fórmula não é nova, mas ainda não é desta que se torna cansativa.

To Rome with Love funciona como um conjunto de gags leve e descomprometido, mas nem por isso vazio de significado. Criticam-se os famosos por serem famosos e a sociedade que os cria e cultiva. Aponta igualmente baterias aos pseudo-intelectuais - sendo a Monica de Ellen Page a síntese do arquétipo, tal como já o era a Mary de Diane Keaton em Manhattan -, pretensiosos dispostos a largar linhas únicas e noções genéricas sobre arte e cultura e desejosos de provar ao mundo que percebem de tudo o que é assunto. Também eles seduzem quem os rodeia, centrando atenções em si (veja-se o que a personagem de Page faz com o namorado da melhor amiga). Woody Allen volta às comédias puras, reciclando chavões e truques já por ele usados. Mostra-se Roma do ponto de vista de um turista, com todos os estereótipos e marcos que se espera encontrar, tudo muito direitinho e iluminado, fotografada por Darius Khondji. Não é original, mas a sua leveza faz com que não seja difícil de ver. Como Baldwin diz a Eisenberg, em jeito de resumo, «com o tempo vem a exaustão».


Título Original: To Rome with Love (Espanha/EUA/Itália, 2012)
Realizador: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Judy Davis, Flavio Parenti, Roberto Benigni, Alison Pill, Alessandro Tiberi, Alessandra Mastronardi, Alec Baldwin, Riccardo Scamarcio, Woody Allen, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig, Penélope Cruz, Ellen Page
Fotografia: Darius Khondji
Género: Comédia, Romance
Duração: 112 minutos


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

The Tourist (2010)

Um homem de cara desconhecida é perseguido pela máfia russa e pela polícia internacional. A sua amante embarca num comboio rumo a Veneza. Pelo meio, apanha um turista americano de estrutura facial semelhante à da figura misteriosa. No final, vai tudo parar a Itália, num jogo do rato e do gato entre canais, monumentos e demasiada gente à mistura. Pode parecer esquisito, quase esquizofrénico, mas são estas as linhas gerais pelas quais THE TOURIST se guia. Remake de um filme francês - Anthony Zimmer (2005) - perde-se no excesso de talento e acção.

Florian Henckel von Donnersmarck, cineasta alemão de nome complicado, vinha embalado de um brilhante filme com The Live of Others (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007). Pequena pérola do cinema europeu, era previsível que desse o salto para produções maiores e que fosse capaz de atrair algumas estrelas internacionais para o seu próximo projecto. Infelizmente, entre The Live of Others e The Tourist não foi capaz de repetir virtudes, transformando os pontos fortes de um nos defeitos do outro. Incapaz de controlar a história, von Donnersmarck pauta a sua obra mais recente com ritmo inconstante, dando-lhe rumo errático e um final, no mínimo, previsível. Nem os momentos de suspense se elevam neste thriller, marcado por fugas e lutas sem adrenalina. Mas, então, o que fica para se salvar?

A mise en scène é bela e a fotografia mostra-se capaz de a acompanhar. A banda sonora equilibra as contas e o duo de protagonistas, ainda que distantes do seu auge, mostra-se carismático o suficiente para aguentar o espectador. Desperdiça-se talento - faltam bons momentos a Bettany, Sewell e Dalton - é verdade, mas The Tourist não é um filme de todo desagradável. Insosso e demasiado neutro, talvez. O melhor resume-se bem pela cena em que as personagens de Jolie e Depp se encontram pela primeira vez no comboio. O resto queda-se abaixo.


Título Original: The Tourist (EUA/França, 2010)
Realização: Florian Henckel von Donnersmarck
Argumento: Florian Henckel von Donnersmarck, Christopher McQuarrie, Julian Fellowes (baseado no filme original de Jérôme Salle)
Intérpretes: Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany, Steven Berkoff, Timothy Dalton, Rufus Sewell
Música: James Newton Howard
Fotografia: John Seale
Género: Acção, Romance, Thriller
Duração: 103 minutos


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Midnight in Paris (2011)

«Ninotchka, it's midnight. One half of Paris is making love to the other half.» - Mentiria se por aqui escrevesse que esta mítica tirada, de Melvyn Douglas a Greta Garbo em Ninotchka, não é uma das minhas preferidas de toda a história do Cinema. Simultâneamente, descreve bem o ambiente de Paris, algo entre o romantismo e a beleza mística de outros tempos e gerações. MIDNIGHT IN PARIS, de Woody Allen, vive muito dessa aura. À meia-noite, na Paris de Allen, param carros que nos levam de bom-grado a festas de outros tempos. Confesso, não seria uma cidade em que não me agradasse viver.

Não é segredo que o principal amor de Allen, a par da música e da sua mulher, é Nova Iorque. Tanto, que a cidade é cenário e personagem de grande parte da sua obra. Paris já tinha merecido também o seu olhar atento, assim como Veneza. Seguiu-se Barcelona há coisa de dois ou três anos, e em 2012 será a vez de Roma. Mas voltemos a Paris. Depois de Everyone Says I Love You a lente de Allen voltou-se de novo para a Cidade das Luzes. Gil, um americano com ambição de ser escritor, está em Paris de férias com a família da sua noiva. Como ele próprio diz, já lá esteve antes, mas escolheu não ficar. Caricatura do próprio realizador (ou será antes um alter-ego?), é distraído e neurótico ao estilo do seu criador. É fácil deixarmo-nos levar por este argumentista que abomina as os seus próprios argumentos e sonha com outra era, repleta de gente mais interessante do que a com quem convive. Owen Wilson surge refrescante, longe do seu habitual papel de adorável idiota. E depois há Rachel McAdams que, mesmo tapada por Marion Cotillard (a francesa é de outro nível), aparece em bom nível no papel de noiva insuportável, mimada pelos pais e inconsciente nas consequências das suas acções. Os três à frente de ilustre gente como Michael Sheen (quase irreconhecível), Corey Stoll, Alison Pill, Tom Hiddleston, Kathy Bates e Adrien Brody. E até Carla Bruni, primeira-dama francesa à data da rodagem, tem direito a papel neste elenco de luxo.

Midnight in Paris tem alguns momentos deliciosos de cinema. O encontro de Gil com o grupo surrealista liderado por um Dalí obcecado por rinocerontes é um deles. As psicoses e inexplicáveis surtos de loucura de Hemingway também são de destacar. Mas, no fim, ficará para sempre ligada à obra a possibilidade que ela nos oferece de visitar o nosso imaginário. Todos nós temos períodos preferidos, plenos de ídolos e personalidades que, de uma forma ou de outra, nos marcaram - a nossa Época Dourada. O que nos esquecemos é que quem por lá viveu também terá tido a sua, e por aí adiante. É mais fácil criticar o presente, admirando em retrospectiva o passado, do que o tentar mudar. Não será a melhor obra de Woody Allen,  mas, discutivelmente, é uma das mais próximas na última década ao seu estilo. E uma das que mais prazer dá - pelo menos a mim deu - ver. Este ano haverá mais, se tudo correr como o esperado. A cidade é que será outra.


Título Original: Midnight in Paris (Espanha/EUA, 2011)
Realizador: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Intérpretes: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Kathy Bates, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Carla Bruni, Alison Pill, Yves Heck, Corey Stoll, Tom Hiddleston, Léa Seydoux, Adrien Brody
Fotografia: Darius Khondji
Género: Comédia, Fantasia, Romance
Duração: 94 minutos