Mostrar mensagens com a etiqueta Desporto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desporto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

sábado, 6 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 3

Nunca imaginei acabar uma Páscoa a ver filmes de surf. O Porto Surf Film Festival trocou-me as voltas e proporcionou-me a inesperada oportunidade. Testemunho passado - e que bem passado - pelo Wladimir Jr. Ribeiro, calhou-me assistir às duas últimas sessões do festival. E não saí desiludido do auditório da Biblioteca Almeida Garrett.

A BROKEDOWN MELODY, de Chris Malloy (EUA, 2004)

Antologia de histórias e vivências ligadas ao surf enquanto filosofia - e, na sua maioria, afastadas da sua vertente competitiva -, A BROKEDOWN MELODY mantém grande parte das características geralmente associadas ao subgénero. Assumir-se-á, assim, como um híbrido entre documentário e fita de desporto, misturando narrações em voz-off com planos de gente a praticar a modalidade em vários pontos do globo.

Mas filmar da Jamaica ao Peru, envolvendo tantas localizações e pessoas diferentes, poderá ter-se revelado um projecto demasiado ambicioso. Nasce dessa multiplicidade de situações a sensação de uma fita algo desconjuntada, falta de um fio condutor claro e capaz de ligar todos os seus componentes. Ficam, contudo, a magnífica fotografia de David Homcy, Sonny Miller e Scott Soens - há momentos em que as cores quase extravasam os limites do contraste -, a banda sonora interessantíssima, com músicas de Eddie Vedder, Jack Johnson e Kings of Convenience, e a ideia de que A Brokedown Melody consegue, mesmo que apenas a espaços, ser um obra elegante e de rara beleza. (ATF)


SURFING WITH THE ENEMY, de Scott Braman e Adam Preskill (Cuba/EUA, 2011)

Dois cineastas norte-americanos a rodarem em Cuba; a ideia já daria, por si só, pano para mangas. Mas o que Scott Braman e Adam Preskill descobriram no seio da comunidade surfista cubana é algo de verdadeiramente incrível. O título, SURFING WITH THE ENEMY, apropria-se ao resultado. Resta é descobrir quem é o inimigo no meio disto tudo. Passem-se algumas linhais gerais do filme em revista, não se fosse despejar no leitor informação sem especial sentido: em Cuba, surfar, se não proibido, é visto com maus olhos pelas autoridades. O perigo de alguém se escapulir da ilha com a ajuda de uma prancha é grande - a distância para outros países, o Haiti, a Jamaica, ou até mesmo os EUA, não é enorme -, e desagrada os responsáveis de Havana. O medo é tanto, aliás, que não se pode, sequer, estar perto da praia à noite. Outrossim, as associações e organizações privadas não são permitidas. A comunidade surfista é, portanto, semi-clandestina, para além de pouco desenvolvida.

O que torna ainda mais caricato que a meio surjam uns quantos oficiais do governo - produtores de TV, historiadores e funcionários de ministérios - a gabarem o espírito empreendedor dos surfistas, apoiando a prática da modalidade. Percebe-se também daí o lado activista da obra - e o envolvimento de Lance Henriksen enquanto narrador -, expondo a paranóia de um regime, dirigida neste caso em particular contra um grupo relativamente restrito de pessoas. No final, explica-se o porquê de tanta rigidez: um membro do governo confessa que os surfistas pertencem à vanguarda da sociedade, associada à rebeldia e ao desejo de maior abertura. O medo deixa de ser que eles surfem para os EUA, para passar a que eles mudem Cuba a partir de dentro. Fechou-se com chave de ouro. (ATF)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 2

A primeira edição de Porto Surf Film Festival continua pelo seu segundo dia. A proximidade à Páscoa não ajuda na adesão do público, mas ainda se preenchem algumas cadeira. E se o primeiro dia foi uma surpresa, no segundo esperava uma qualidade semelhante. Assim o foi.

Começou o dia com um filme bastante peculiar, SINGLEFIN: YELLOW, e acabamos com umas viagens às águas mais frias dos países nórdicos, com SEA FEVER.

SINGLEFIN: YELLOW, de Jason Baffa (EUA, 2005)

Neste pequeno filme de uma hora, seguimos os caminho de uma prancha de surf amarela especial enquanto é passada de mão em mão por diversos surfistas, usada nas mais diversas condições aquáticas. Funcionando quase como algo simbólico, esta prancha amarela aguarda eternamente pelo próximo fanático de surf para a levar a um lugar diferente.

Um filme bem feito que transmite bem a sua mensagem, que há muitas coisas que todos os surfistas partilham e não são só as pranchas. Com umas imagens bonitas com um ambiente relaxado que acaba por transmitir tudo o que realmente importa neste desporto. SINGLEFIN: YELLOW é, definitivamente, um que vale a pena ver, não só pelos amantes do surf. (WJR)


THICKER THAN WATER, de Jack Johnson, Chris Malloy, Emmett Malloy (EUA, 2000)

Este documentário é bastante agradável de se ver, é um conceito simples, imagens de um grupo de pessoas a praticar surf nos mais variados lugares, ao som de musica boazinha. Talvez a simplicidade da coisa e o efeito relaxante da música sejam o que torna este pequeno filme diferente, talvez o rumo indefinido de toda o filme e as gravações amadoras sejam o que impeça o publico de gostar. A divergência de opiniões em relação a THICKER THAN WATER é capaz de ser consideravelmente grande, mas por cá nem se achou mau de todo.

Thicker Than Water não passa de uma tentativa satisfatória a algo consistente, não tem muito para dar, mas o que dá ainda é bastante sólido e por isso não penso que seja uma completa perda de tempo, embora não valha mais que a primeira visualização. (WJR)

SEA FEVER, de Ken O'Sullivan (Irlanda, 2009)

SEA FEVER é um documentário mais focada num só local, Irlanda, e explora toda a história do surf de alguns indivíduos e do país, assim como uma das maiores ondas que lá reside. Certamente, é um filme bastante direto ao assunto e é competente no que transmite, conhece-mos famílias ligadas ao surf, alguns dos melhores locais e muita ligação entre gerações através deste desporto.

Temos também a oportunidade de ver algumas das condições mais desconfortáveis para a prática do surf, sendo um país nórdico é muito complicada encontrar céu limpo e pouco vento à beira mar. Algumas das imagens que provêm destas condições são muito bem conseguidas e atrairão o mais atento dos observadores. (WJR)

domingo, 31 de março de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 1


Começou dia 30, o Porto Surf Film Festival, e a redacção teve o prazer de marcar presença nesta sua primeira edição. Este pequeno festival traz-nos uma diversificada compilação de filmes e documentários sobre o surf, um tema que pode parecer, inicialmente, focado num certo público alvo mas poderá surpreender muitos que arrisquem comparecer.

Neste primeiro dia foram exibidos ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin, e THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown. Acredito que as primeiras exibições foram um bom presságio para o que estava para vir nos próximos dias.

ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin (EUA, 2006)

A história de Sarah Gerhardt e tudo o que levou à sua conquista de uma das maiores ondas do mundo, a onda de Mavericks. Este documentário biográfico da primeira mulher a surfar uma onda desta magnitude acaba por se tornar em algo bastante sentimental e inspirador, não só pelo desafio como pelas diversas dificuldades que teve que ultrapassar ao longo da vida e que levaram aos seus grandes feitos, sejam eles académicos ou no desporto.

O que torna mais dificil a sua visualização será o excesso de granulado nas imagens, uma escolha talvez pouco pensada, visto que muitas dessas imagens seriam bastante deslumbrantes sem esse aspecto. No entanto, é um filme bem construído, com um desenvolvimento apropriado para o tempo de filme que tem. (WJR)

THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown (EUA, 1994)
.
Bruce Brown volta quase 30 anos depois com a sequela de um dos seus grandes trabalhos. Este traz-nos uma hora e meia de imagens simplesmente magnificas, a ocasional piadinha, um pouco de cultura e muito surf.

Aqui seguimos a viagem à volta do globo de dois fanáticos do surf pelos melhores locais para se praticar o desporto. Embora pelo caminho as desventuras sejam muitas, o destino é alcançado e são acompanhados por diversas caras familiares do primeiro filme. As duas personagens pouco importam para o cenário, a única coisa a saber é que um é o completo oposto do outro e passam o Verão a surfar nos sítios mais fantásticos.

O filme garante a qualquer público um tempo bem passado, sempre com um sorriso na boca, e nunca cansa referir que as imagens em altura de surf são espectaculares, definitivamente uma grande melhoria do primeiro em muitos aspectos. (WJR)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Trouble with the Curve (2012)

TROUBLE WITH THE CURVE sofre do mesmo mal que o próprio desporto em que se baseia, falta de emoção. Tal como no baseball raramente se encontra momentos de entusiasmo, este filme poucas vezes se torna interessante. Uma tentativa de mostrar que Eastwood ainda não envelheceu o suficiente para abandonar a carreira e até tentar dar luz às capacidades de Robert Lorenz, no final acaba por não se concretizar totalmente.

Gus (Clint Eastwood), um olheiro de baseball, faz uma ultima viagem para observar um potencial jogador para a sua equipa. No entanto, com a idade vêm as dificuldades, e a sua visão já não é o que era, por isso, um amigo, Pete (John Goodman), pede à filha de Gus, Mickey (Amy Adams), para o acompanhar e garantir que tudo corre bem. Numa mistela de maus relacionamentos familiares, olheiros rivais, interesses amorosos um pouco confusos e os prodígios escondidos de rabo de fora, temos Trouble With The Curve, onde o título se aplica adequadamente ao descrever a dificuldade que o filme tem em acertar.

Simplesmente mais um filme que não sobressai, onde todo o investimento apenas serviu para pagar aos actores, que também nada acrescentam. Pareceu-me mais uma tentativa de recriar o sucesso de Million Dollar Baby (2004), onde Lorenz foi assistente de direcção, cargo talvez mais apropriado. Mais estranho ainda será o contributo de Justin Timberlake, com o rumo que seria de esperar do enredo a sua participação, mais especificamente da personagem, não é muito compreensível. Depois temos o facto do filme ser tão previsível que bastam 10 minutos para perceber o rumo que tudo vai tomar. Mas temos pontos positivos, os últimos 20 minutos que quase conseguem salvar o filme da mediocridade, se não chegassem tão tarde, quem aguenta os primeiros 90 minutos poderá ter uma surpresa razoável.

Em geral, bastante medíocre. Não é, certamente, um filme que valha a pena ver com urgência. Demasiado previsível e fundamentalmente aborrecido, nem Eastwood, o único destaque, o safa, e tendo em conta a sua idade, é refrescante ver que ele ainda sabe o que faz.


Título Original: Trouble with the Curve (EUA, 2012)
Realizador: Robert Lorenz
Argumento: Randy Brown
Intérpretes: Clint Eastwood; Chelcie Ross; Ed Lauter; Amy Adams; Raymond Anthony Thomas; Clifton Guterman; Justin Timberlake
Música: Marco Beltrami
Fotografia: Tom Stern
Género: Drama
Duração: 111 minutos



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Moneyball (2011)

Em 1989, andavam Kevin Costner e Ray Liotta a lançar bolas num milheiral - Field of Dreams, de Phil Alden Robinson -, a América estava longe de imaginar que no novo milénio um dos seus desportos nacionais seria reduzido a estatística e aritmética. As bases já haviam sido escritas anos antes, é verdade, mas a teoria só passa a facto quando é finalmente posta em prática. Billy Beane, antigo jogador de basebol convertido em director-geral de uma equipa californiana, precisa de reconstruir o seu esquadrão com pouco dinheiro à disposição. Contrata um recém-licenciado em Economia e aposta a sua carreira numa visão revolucionária do jogo. Se há duas décadas se dizia a célebre «If you build it, he will come», em MONEYBALL o princípio passa quase pelo mesmo: se construíres a equipa certa, as vitórias hão-de aparecer.

O que se tenta explicar é que o basebol é, essencialmente, um jogo do números: o que se gasta, o que se recebe, as percentagens dos jogadores e os pontos conquistados. O que realmente importa é uma relação custo-qualidade aplicada ao desporto; se for bom mas demasiado caro, não interessa. Os olheiros, ligados à tradição, desdenham da abordagem e criticam quem vê o jogo como um conjunto de fórmulas e equações. A primeira vez que surgem em cena - e chega a ser caricato a forma como o fazem - aprovam e eliminam uma série de candidatos com base na sua aparência, na da namorada e noutras tretas que tal. O saber correr, lançar e/ou bater são avaliados individualmente sem que se tenha em consideração o contributo dessas acções para a equipa como resultado. Afirma-se algures na fita que a questão não deve passar por comprar jogadores, mas antes centrar-se em obter vitórias. E como diz Billy - Brad Pitt obcecado com junk food e tabaco de mascar -, um homem capaz de se rir das piadas que lhe dirigem por se saber superior a elas, o resultado do último jogo da temporada é o único do qual os adeptos se lembram.

No final acaba por ser mais importante mudar o modo como se vê o jogo do que ganhar o campeonato. A ideia da vitória moral (a melhor desculpa para derrotas difíceis de engolir), fruto de uma liderança sólida e de um compromisso para com o plano traçado. Bennett Miller - que uns anos antes havia dirigido Capote - volta a causar boa impressão (trata-se apenas da sua segunda longa-metragem), numa realização contida mas repleta de nuances. Pausada e reflectiva, a narrativa avança lentamente, deixando talvez demasiado espaço e tempo para que as noções abordadas se apoderem da audiência. Não obstante, trata-se de um argumento sólido - nota-se a mão de Aaron Sorkin -, capaz de aproveitar o melhor dos seus protagonistas e da história. Justifica a visualização.


Título Original: Moneyball (EUA, 2011)
Realizador: Bennett Miller
Argumento: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin (baseado no livro de Michael Lewis)
Intérpretes: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop
Música: Mychael Danna
Fotografia: Wally Pfister
Género: Biografia, Desporto, Drama
Duração: 133 minutos


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Wimbledon (2004)

Poucos são os eventos desportivos capazes de atrair a cobertura que cabe ao Torneio de Wimbledon. Vedetas internacionais da modalidade disputando o prémio maior perante bancadas completamente preenchidas e uma aristocracia insular que observa a rede quase misturada com os seus súbditos. A difusão dos mídia só veio alargar a festa, com transmissões televisivas e comentarios de antigas estrelas do desporto (no filme é John McEnroe que faz as vezes de analista de serviço). Parece emocionante, não é? Alguém deve ter achado o mesmo e decidiu produzir uma comédia romântica entre dois tenistas durante o Torneio. Aliás, e melhor ainda, entre uma jovem estrela em ascensão (Kirsten Dunst) e um já mais velho praticante da modalidade que nunca alcançou o estrelato, apesar de ter estado lá perto (Paul Bettany), que se conheceram quando o segundo entrou por engano no quarto de hotel da primeira. É curioso o timing do encontro: Peter Colt, prestes a terminar a carreira profissional, conhece Lizzie Bradbury durante a primeira participação da americana no Grand Slam inglês. O resto são peripécias típicas de uma comédia romântica pouco mais do que sofrível, papel químico de uma fórmula usada até à exaustão, interrompida apenas por breves momentos de ténis com bolas introduzidas na imagem durante a pós-produção. Se o aceitarmos como isso, Wimbledon é engraçado. Caso contrário, não fará muito sentido perder tempo a vê-lo.

Todos os cinéfilos têm os seus guilty pleasures. Wimbledon é um dos meus. Como comédia não é particularmente divertido, como filme romântico não traz nada de novo ao género. E, contudo, vejo-me quase sempre obrigado a parar o que quer que esteja a fazer no momento em que vejo o filme na programação de um qualquer canal da cabo que o decida transmitir em dia de poucas ideias. Há coisas assim na vida, e esta é uma delas. Todos nós temos, pelo menos, um amigo que não consegue explicar as suas escolhas e outro mais causídico na defesa dos seus argumentos. Em relação a Wimbledon, vejo-me no meio das duas figuras, dividido entre o ridículo de gostar de um exercício de cinema de mérito duvidoso e a ainda mais descabida consciência da sua falta de qualidade. Algo de muito errado se passa quando o maior pecado de uma fita passa pelo desperdício de elenco, relegando nomes como James McAvoy, Bernard Hill ou Sam Neill para papéis secundários com pouca ou nenhuma expressão na história. Mas como em tudo neste Mundo, os cães ladram e caravana passa, atirando-me de novo para o sofá sempre que Peter Colt, tenista mediano, caminha pela primeira e última vez rumo ao court central londrino, pronto para derrotar em nome do Reino Unido e da sua amada a arrogante vedeta americana que lhe faz frente. E tudo isto enquanto ouve uma vozinha dentro da sua cabeça dizendo-lhe que está velho e o melhor seria mesmo desistir. É obra! O resto fica para pensar noutro dia, na presença de melhores filmes.


Titulo Original: Wimbledon (EUA/França/Reino Unido, 2004)
Realizador: Richard Loncraine
Argumento: Adam Brooks, Jennifer Flackett, Mark Levin
Intérpretes: Paul Bettany, Kirsten Dunst, Sam Neill, Jon Favreau, Bernard Hill, Eleanor Bron, Nikolaj Coster-Waldau, Austin Nichols, James McAvoy
Música: John Colby, Ed Shearmur
Fotografia: Darius Khondji
Género: Comédia, Desporto, Romance
Duração: 98 minutos


sábado, 16 de junho de 2012

Real Steel (2011)

Rocky a vapor.

Lançado depois da época alta dos blockbusters, Real Steel prometia pouco. Claro que nomes como Spielberg, Zemeckis (produtores executivos) ou Danny Elfman (banda sonora original) lhe davam algum encanto, mas era difícil encará-lo como um filme sério, algo mais do que um produto da nova Hollywood, procurando facturar à custa de histórias recicladas e público incauto. Mas e se a história reclicada fosse da autoria de Richard Matheson (o mesmo que escreveu I Am Legend) e a fita contasse com fotografia de Mauro Fiore (vencedor de um Oscar pelo seu trabalho em Avatar)? Com tantos nomes grandes envolvidos na produção, sem contar com o elenco, era complicado não sentir a mínima curiosidade em relação a Real Steel. Seria tão mau como o esperado? Haveria algo que salvasse da fúria dos críticos um filme que estaria condenado logo à partida?

Num futuro próximo, o boxe robótico tornou-se o desporto-rei. As multidões deliram com tecnologia a andar à porrada com tecnologia (ou com touros, como no início do filme) e não é de estranhar que cedo após o aparecimento da modalidade se tenha criado uma Liga Mundial com robots de tudo o que é sítio a combaterem pelo primeiro lugar e o cinto de campeão. Os humanos também têm lugar nesta actividade, mas apenas como controladores à distância dos dispositivos mecânicos. Charlie Kenton é um antigo pugilista que, com a decadência do seu desporto, se voltou para a variante robótica do boxe. Sem grande jeito para a coisa, vai perdendo robots uns atrás dos outros, gastando todo o seu dinheiro na procura do lutador que finalmente lhe dê a fama e a fortuna que tanto quer. Só que em vez de um robot encontra Max, o filho que há muito deixou para trás. Charlie tem em Max uma hipótese de se redimir dos erros do passado, mas será ele capaz de se tornar um pai quando tudo a que está habitudo é ser um lutador?

Pai ausente, filho abandonado, robot-lutador desprezado - a tríade em que este Real Steel monta alicerces. Não fosse o último elemento e seria um drama familiar sofrível, desprovido de particular interesse e com um casting pouco mais do que inadequado. Com robots pugilistas à mistura passa a filme de acção sci-fi com um bocadinho de drama à parte. O cinema tem destas coisas. Personagens planas, enredo previsível, muita CGI e um final demasiado family-friendly. Tudo o que normalmente estraga um filme aqui faz com que ele resulte. Hugh Jackman e Evangeline Lilly, nomes maiores do elenco, aparecem demasiado discretos para o bem da película. Do lado oposto do espectro, Dakota Goyo e os efeitos visuais surgem em destaque, salvando o que havia para salvar de um filme que se esperava mediano. Não dizendo que é bom, o resultado final poderia ter sido bem pior. No geral, Shawn Levy, habituado a comédias familiares, assina em Real Steel um filme de acção competente. Dizer mais do que isso seria exagerar, menos seria injusto. Mediania no espectro cinematográfico do início ao fim, com o meio a fazer lembrar o suficiente Rocky para evitar traçar paralelos óbvios entre as duas obras.


Título Original: Real Steel (EUA/Índia, 2011)
Realizador: Shawn Levy
Argumento: John Gatins, Dan Gilroy, Jeremy Leven (baseado no conto de Richard Matheson)
Intérpretes: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Kevin Durand, Karl Yune, Olga Fonda
Música: Danny Elfman
Fotografia: Mauro Fiore
Género: Acção, Desporto, Drama, Ficção-Científica
Duração: 127 minutos