Mostrar mensagens com a etiqueta Documentário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Documentário. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fui ao Porto/Post/Doc revisitar fantasmas

Aproveitei o feriado para fazer o que costumo fazer nos dias úteis: meter-me numa sala a ver filmes. Mas, calma lá, que não foram uns filmes quaisquer, nem numa sala qualquer. Aproveitei o feriado para me enfiar no Rivoli, que acolhe por estes dias o Porto/Post/Doc, o novo festival da cidade, a ver documentários. A ocasião, de resto, pareceu-me propícia: desde logo, porque o tempo não dá tempo, que é como quem diz, há que aproveitar os momentos de ócio que o calendário nos oferece para frequentar eventos destes; depois, porque há qualquer coisa na expressão "Imaculada Conceição" que me lembra Manuel Mozos e João Bénard da Costa, o prato forte do dia.

Aproveitei também a ocasião - esta rebarbada e episódica cobertura ao festival, longe da prisão dos passes de imprensa - para revisitar fantasmas de outros tempos. Das sessões no Pequeno Auditório do Rivoli, dos corredores e cadeiras que já me acolheram mil sonhos, do cheiro do foyer onde travei outras tantas amizades. Contas de outros rosário (festival?), portanto.

Voltemos, no entanto, ao Porto/Post/Doc, que é uma maneira bem mais simpática de dizer "ao que interessa". E que aqui o que nos interessa - e se interessa! - são os filmes. Até 13 de Dezembro, o Rivoli (bem como o Maus Hábitos e o Passos Manuel) recebe esta bela iniciativa, ainda com aroma a novidade, com base (quase) exclusivamente documental, e que dobra como o evento mais interessante a decorrer na cidade pelos dias que correm - a malta da patinagem no gelo aqui ao lado que me perdoe a sinceridade. Vamos lá, então.


WAITING FOR AUGUST, de Teodora Ana Mihai (Bélgica/Roménia, 2014):

Os anglo-saxónicos têm uma palavra, simultâneamente bela e desoladora, que descreve na perfeição o primeiro plano de WAITING FOR AUGUST, de Teodora Ana Mihai: bleak. Não duvido que haja na nossa língua um sinónimo oportuno, mas aquelas cinco letras enquadram-se naquela estrada destingida pela neve e pelo asfalto, ocasionalmente pontuada pelos amarelos das luzes e pelos vermelhos dos sinais. Após esse intróito, pouca esperança se afigura para o que sobra do filme.

Todos os anos, milhares de pais romenos abandonam o país em busca de trabalho, deixando os filhos para trás. Atenção: abandonam o país, não os filhos, que esses não se podem abandonar. Pelo menos, é isso que Mihai nos quer mostrar. Na verdade, sabemos que há pais que abandonam os filhos; mas sabemos, igualmente, que esta mãe não abandonou os seus. A prova está no título, basta esperar por Agosto para que regresse. Mas se esperamos pelo regresso em Agosto, esperamos também pela nova partida no final do mês, pela repetição do ciclo anual. É essa uma das verdades inexoráveis de Waiting for August: qualquer retorno é temporário.

Daí que as crianças de Liliana sejam deixadas durante o ano ao cuidado da irmã mais velha, que só tem quinze anos. A uma espécie de parenting by proxy - quer da irmã-mãe, quer da televisão, que insiste em passar telenovelas espanholas - numa casa governada por quem ainda não tem (ou não devia ter) idade para a governar. E se, a espaços, nos podemos facilmente esquecer que Georgiana é. também ela, uma criança, cedo nos recordamos que sofre dos mesmos dramas que os nossos teens, das mesmas angústias próprias da idade. E é essa a outra verdade inexorável de Waiting for August, a de que, para os irmãos terem infância, Georgiana teve de hipotecar a sua.

Assim, e de verdade em verdade, de verdade para verdade, a obra de Mihai consegue o que poucas outras conseguem: um retrato da vida de uma família através de uma intromissão em grande parte invisível (e alguém reparava, à saída do filme, que quando as pessoas quebravam a tela não era para olhar para as câmaras, era para olhar para as pessoas por detrás delas). O bleak transformado em algo belo, como só o Cinema é capaz de transformar.


JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS COISAS QUE EU AMEI, de Manuel Mozos (Portugal, 2014):

Sala composta, compostíssma, para JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI. Tão cheia, que me vi no meio de um cortejo fúnebre (ou assim julgava, antes da sessão) escadaria abaixo. Por dois motivos - que, afinal, seriam só um -: 1) a oportunidade rara de "apanhar" um Mozos em sala; e 2) a vontade de (re)ver Bénard da Costa, uma espécie de paizinho (e "paizinho", aqui, no sentido mais carinhoso possível) cinéfilo.

Outros amarão as Coisas que eu amei é um filme imenso, tão imenso que quase não cabe na tela. Tão imenso, que precisa de se socorrer de outros filmes, igualmente imensos, para que possa existir. Do mais belo Lubitsch, do mais completo Ray, do mais musical Minnelli, do mais poético Dreyer, dos excertos de Oliveira e Ruiz. E através dessas Coisas todas, que, no fundo, são apenas uma, o Amor de Bénard da Costa - e de Mozos - contagia quem o ouve. E infecta o íntimo, como um vírus que se alastra, sem cura nem salvação. Porque o Cinema só existe em quem o sente, em quem sobre ele fala, em quem sobre ele escreve.

E Ray, Lubitsch e Mankiewicz, mesmo depois de levados pelo Tempo, pelo «homem da ampulheta». continuam, entre nós, tão presentes como quando, em carne, o estavam. E, como nessa luminosa cena de Gigi, é a memória que os faz, e que faz deles deuses, que os perpetua além-túmulo. A letra mata, o espírito vivifica - e não será o celulóide, também, ele letra, e o espectador espírito?

Do milagre da memória, de que já falava Luís Costa no seu Fontelonga, poucos saberão tanto como Bénard da Costa, o homem que viu Johnny Guitar mais de sessenta vezes (sessenta e oito antes do final dos anos oitenta, se a memória não me falha), mas que sobre ele só conseguia falar «delirando». E é, outrossim, sobre a memória que outros dos filmes seleccionados, The Ghost and Mrs. Muir, versa, nesse solilóquio do Capitão Daniel Gregg reproduzido, que, como diria Régio, «é um vendaval que se soltou,/ É uma onda que se alevantou,/ É um átomo a mais que se animou...». Aliás. é sobre a memória, sobre o acto de rememorar, que Mozos constrói o seu Bénard da Costa, a sua carta de amor ao Homem que tudo nos deu sem nunca nos exigir nada em troca, nada senão o desejo de viver com ele o que ele vivia tão profundamente.

Acredite, amigo leitor, que tentei evitar ao máximo o patetismo do que aqui derramo. Tentei, mas tentei em vão. Porque o Cinema não vive só, nem sobretudo, do objectivo, do que está lá e do que deixa de estar, mas também do subjectivo, do que dele levamos quando abandonamos a penumbra e os fantasmas. E se arrisco o absolutismo de afirmar Outros amarão as Coisas que eu amei - e nenhum outro filme foi capaz de me fazer deixar a sala tão contente, tão desfeito, tão abalado nas minhas convicções, tão sem saber o que fazer - como sendo o mais belo filme de sempre, faço-o porque acredito que o seu objecto é, por sua vez, também ele o mais belo. Bénard da Costa, João, quis que outros amassem o que ele amou. Hoje, digo com toda a certeza que amamos. Talvez não o amemos tão intensamente, com tanta disponibilidade. Mas amamos. E isso já ninguém nos tira. Nem o Tempo...

«Quem não percebe, não percebe também a dimensão do que não percebe.»

[JOÃO BÉNARD DA COSTA - OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI repete esta quinta-feira, 11 de Dezembro, no Pequeno Auditório do Rivoli, às 18h00.]

António Tavares de Figueiredo

sábado, 22 de novembro de 2014

20,000 Days on Earth (2014)

Durante muito tempo quis acreditar que o Nick Cave-artista não poderia ser o mesmo que o Nick Cave-pessoa. Enfim, que haveria alguma diferença, mesmo que eu não a soubesse ou pudesse identificar, entre os dois. Mantive esse crença desde o momento em que o meu interesse por Nick passou simplesmente das suas músicas para a figura em si (e quem o conhece perceberá perfeitamente o porquê). Depois de 20,000 DAYS ON EARTH tenho já as minhas dúvidas.


[Para contextualizar, devo escrever que, das muitas bandas que fui ouvindo durante a adolescência, Nick Cave & The Bad Seeds foi das únicas que se aguentou persistentemente nos meus leitores de música até aos dias de hoje. Não que esteja tão longe dos meus teens quanto isso, mas acho que essa preferência demonstra bem a minha admiração pela sua obra. Não se espere, portanto, muita isenção da minha parte neste caso.]

Retomando o parágrafo inicial, tenho agora dúvidas sobre a existência de uma fronteira entre as duas formas de Nick. Dúvidas sérias, devo acrescentar. Iain Forsyth e Jane Pollard - que estão já habituadíssimos a trabalhar o material de Nick - abalaram a minha fé profunda de que aquela personagem só existira, só poderia existir, numa dimensão ficcionada. Malditos sejam, por me fazerem desconfiar dos meus dogmas! Mostraram-me que, afinal, o Nick das baladas assassinas, essa criatura verdadeiramente sobrenatural, pode ser real. Não estou a dizer que seja, mas, sendo-o, a barreira que separa o performer do everyday man é vulnerável a transmissões osmóticas em ambos os sentidos. É Nick quem o admite quando fala da sua relação com a mulher: ele canibaliza-a nas letras que escreve, perpetuando, quase prostituindo, momentos íntimos em objectos para o público. Faz parte do pacto entre eles. Será uma prova de amor?

E, caso se trate de uma prova de amor, será de Amor a quê(m), à sua Arte ou à mulher? Novamente, não consigo afirmar com absoluta certeza. Nick ama a mulher, tudo bem. Mas não amará também a audiência que lhe permite a transformação (ou a sua ilusão) de que tanto fala?

Nada é claro no Universo Caveniano. Nick não deixa que seja. No seu Mundo psicanalítico, visceral, brutalmente sexualizado, não há lugar para maniqueísmos, apenas para ambiguidades. Nick não é moralista; essa tarefa reserva aos homens. Não, ele, que aspira à condição de Deus dentro da sua criação, contenta-se com a função de observador e catalisador das acções das suas projecções. Às tantas, surge uma cena de um concerto dos The Bad Seeds: Nick aproxima-se de uma jovem na primeira fila, coloca a mão dela sobre o seu coração e pergunta-lhe se o consegue sentir a bater. Ela diz quem sim, Ele diz que não. Como poderia ela, uma mera mortal, ousar sentir o seu Deus? Simples: não pode. Resta-lhe a catarse oferecida por aquele Deus diabólico, que aparecerá, invariavelmente,  momentos mais tarde ao som de Stagger Lee, com Warren Ellis a tocar violino que nem um desalmado, expiação possível para todos os males deste Mundo e do Outro. A pobre moça pecou (e tanto sabe que pecou que, mal Nick se desprende, baixa logo a cabeça em sinal de contrição), mas Nick é um Deus generoso que lhe perdoa o deslize. Daquele exorcismo colectivo a que preside todos saem com a justa absolvição que procuram.

20,000 Days on Earth é, dessa maneira, um filme enorme. Enorme por se centrar numa personagem já de si enorme, e enorme por ser capaz de encaixar em pouco mais de hora e meia tantas e tantas facetas diferentes - memória e presente, fantasmas e pessoas, (des)construção lírica e processo criativo, drama e documentário - de um dos artistas mais versáteis em actividade. 20 000 dias na Terra - qualquer coisa como 55 anos, menos uns trocos - é muita coisa. E Nick, que soube envelhecer, principalmente por não ter envelhecido, viveu-os a todos. Quem venham outros 20 000, e outros, e outros... From H[im] To Eternity.

«At the end of the 20th century, I ceased to be a human being.»


Título Original: 20,000 Days on Earth (Reino Unido, 2014)
Realizador: Iain Forsyth, Jane Pollard
Argumento: Nick Cave, Iain Forsyth, Jane Pollard
Intérpretes: Nick Cave, Warren Ellis, Ray Winstone, Blixa Bargeld, Kylie Minogue, Susie Bick
Música: Nick Cave, Warren Ellis
Fotografia: Erik Wilson
Género: Documentário, Drama, Música
Duração: 97 minutos


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Black & White 2013, Dia 3: do milagre da memória


Já terminado o Black & White 2013 há largos dias, e olhando o que ficou para trás, vou compreendendo melhor o que o Luís Costa quis dizer quando falou no «milagre da memória» durante a apresentação de FONTELONGA. Nessa coisa muito curiosa de se guardar na cabeça uma imagem do que foi, e que pode ou não - e inclino-me mais para a segunda opção - corresponder à realidade. À distância, tudo parece mais simples: os vencedores já se conhecem, a festa já se fez, os filmes já passaram. Sobra o simulacro quimérico que se retém do celulóide, das estórias projectadas. Mas, e passe a melancolia que "salta" destas linhas, já me adianto. Recuemos uma semana.

Na esplanada ventosa do Bar das Artes - onde, um dia mais tarde, entrevistaria o Luís e o Simon -, sento-me finalmente com o Xico. No auditório realiza-se uma artist talk com Evgen Bavcar, fotógrafo cego - para quem, desconfio, a imagem mental que guarda das formas e situações se afigura especialmente importante -, abandonada a meio; não que não estivesse a ser interessante, porque estava, mas a oportunidade de discutir Cinema com um dos gajos com quem mais gosto de o fazer é irrecusável. As cadeiras ainda não estão quentes, e já vamos em Tarkovsky. Que o russo tirava planos como ninguém, que os filmes dele são colossos. Tudo bem, concordo, mas e então o Dreyer? Pá, tens razão, o Dreyer; aqueles enquadramentos pelos ombros eram sobrenaturais, toda a gente parecia tocada pela Graça. E vamos a Reis - outra vez? Sim, outra vez. -, àquela Natureza poética, aos trabalhos com a esposa Margarida, a ANA e a JAIME. Lynch, esse mestre do non-sequitur, mete-se oportunamente na conversa. E César Monteiro, Gomes, Oliveira, Villaverde, enfim, todos esses gigantes do Nosso Cinema passados em revista. E acaba-se, como quem não quer a coisa, no Luís, amigo em comum, e no seu filme. Do Xico leva os maiores elogios: que houve quem chorasse ao vê-lo, que está muito bem feito. E a expectativa aumenta.

Despedimo-nos. E o meu telemóvel toca. É o Junior. Não conseguiu chegar a tempo do filme do Luís, que só pode ir amanhã. Discutimos a cobertura ao festival, a entrevista marcada, as crónicas que já se escreveram puxando do vernáculo e as que ainda faltam escrever. E vou tomar um café, para despertar da moleza provocada pelo Sol da tarde. As horas vão passando comigo a rabiscar no caderno. A inspiração, essa, tarda em chegar. A sineta salva-me do marasmo criativo: vão começar os filmes.

É um experimental a abrir as hostilidades. Literalmente. HERMENEUTICS (Rússia, 2012), de Alexei Dmitriev, exercita a (des)montagem, construindo um raccord entre um disparo de obus que aterroriza as tropas inimigas e um fogo-de-artifício que maravilha a populaça. Resumindo a questão - que, aliás, se resume por si na curta duração da peça -, a guerra como gáudio. Menos imediato é HAMAIKETAKOA (Espanha, 2012), de Telmo Esnal. Através de contornos absurdistas, Esnal transforma os homens em cães que rosnam entre si, colocando as mulheres a assistir ao espectáculo (diário, pelo que se julga). A ideia - e o comentário - é interessante; pena sobrar tão pouco no fim, para além das gargalhadas.

Das ruas passa-se para o ringue de THE FINAL BELL (França, ?), de Lionel Michaud. O pior pugilista de sempre, conforme nos é confessado pelas legendas finais, não quer perder o último combate. Uma personagem manhosa (o agente?) pede-lhe que o faça a troco de um emprego a tempo inteiro, depois a namorada emasculadora que prefere a segurança do rendimento à honra do "seu" homem, mas nem isso o convence. Resta ir à luta e esperar que o outro caia mais depressa do que ele. De Michaud, que quase "estrangula" o filme com tanto classicismo - que, apesar de tudo, sempre lhe terá valido o Grande Prémio do Júri -, dá para perceber a atracção pela Hollywood clássica através da forma como filma. Razoável.

TIN & TINA (Espanha, 2013), de Rubin Stein, foi a grande surpresa da noite. Terror a puxar pelos bons tempos da Hammer e da Universal, bem como pelo arquivo de gente como Carpenter, Lynch, Buñuel e mais uns quantos, cumpre o seu objectivo na perfeição: deixar a audiência desconfortável. Stein utiliza com particular habilidade a câmara, quase estática, terminando num travelling memorável: lentamente, revela o corpo chacinado do pai coberto pelas penas provenientes de uma «luta de anjos» - leia-se, almofadas - dos filhos. No meio de tamanha bizarria há ainda tempo para um dos melhores jump scares dos últimos anos. Altamente recomendado.

Os dois portugueses do dia merecem, cada um, o seu próprio parágrafo. SOB/UNDER (Portugal, 2012), de Nuno Prudêncio, é uma ode ao Cinema. Melhor, ao trabalho invisível por detrás do Cinema. Talvez seja por isso que às tantas a personagem de Sisley Dias diz ao protagonista que o seu trabalho - legendar filmes - não passa de um erro gráfico na imagem. Naquele gabinete em que a realidade se confunde com a ficção, em que as personagens trocam de lado na tela, trabalham-se esses caracteres que, embora errados, dão significado à acção. «Se quiseres, temo-nos um ao outro para traduzir durante o resto da vida. E já é trabalho suficiente.», diz o protagonista à amada pela legendagem de uma fita. E assim, como quem não quer a coisa, Prudêncio transporta a beleza do Cinema para a própria realidade.

Há um plano - nem de propósito, o último - em FONTELONGA (Portugal, 2013), de Luís Costa, que, desconfio, há-de ficar comigo por muitos anos que venham: no cemitério, Maria José, a narradora de tão sentido elogio à aldeia portuguesa, afirma com naturalidade que havemos todos de morrer e ninguém se lembrará de nós. É esse o grande soco no estômago da obra de estreia de Costa, um documentário filmado na aldeia dos seus avós maternos, esvaziada de gente e de vida. Só com essa intimidade se consegue capturar de forma tão bela a essência de um lugar, a verdade que se esconde no espaço. Costa teve ainda o mérito de pensar como poucos o seu filme: nada é deixado ao acaso, tudo tem uma razão de ser. Do «milagre da memória», esse romance tão bonito, conservado pela câmara para quem o quiser recordar.

António Tavares de Figueiredo

terça-feira, 30 de abril de 2013

Visions du Réel no Doc Alliance

site oficial do Doc Alliance Films disponibiliza gratuitamente até 5 de Maio três filmes da secção Etat d'Esprit do Visions du Réel, um dos mais importantes festivais dedicados a documentários. Oportunidade para ver, entre outros, VATERS GARTEN – DIE LIEBE MEINER ELTERN, de Peter Liechti, presente na edição deste ano do Festival de Berlim.

sábado, 27 de abril de 2013

É o Amor (2013)

Inicialmente uma encomenda do Curtas Vila do Conde, É O AMOR marca um afastamento de João Canijo em relação aos bairros sociais que se habituou a filmar. Talvez por isso pareça, à partida, mais alegre e luminoso do que essas obras passadas, objectos pesadíssimos - até pelas técnicas utilizadas para retratar a confusão desses espaços - e representativos de certa degradação.


Também por ser um documentário assumido se faz no sentido contrário ao do anterior Sangue do Meu Sangue, ficção com aproximação ao documental. Aqui é Anabela Moreira, a actriz - e logo uma das melhores da sua geração -, que se imiscui entre as "pessoas reais", na construção de uma personagem para um filme que não existe. Essa vontade de ensaiar um movimento diametralmente oposto ao que se lhe era esperado - mais na linha de Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, um making-of documental com a ficção [a necessidade de entranhar as personagens nos actores] como ponto de partida - será, porventura, o que de mais curioso se encontra em É o Amor.

Não se estranha, portanto, o à vontade com que Canijo documenta, filmando casamentos e momentos mais íntimos, quase como se nem estivesse ali - lá está a sua abordagem observacional a vir ao de cima, o seu lado mais fly on the wall -, deixando as emoções transparecerem sem recurso a artifícios de maior. Ou a sua capacidade de guiar o filme através da música, dando-lhe vida. Menos conseguidas são, contudo, as entradas de Anabela no seu video-diário, em contraste com o tom alegre do resto da fita, virtualmente desnecessárias do ponto de vista emocional, exactamente por estarem já bem definidas noutros trechos da obra. Veja-se, a título de exemplo, aquele magnífico zoom-out perto do fim - e que quase justifica, per se, as mais de duas horas de filme -, com Anabela a chorar no banco de trás da carrinha ao som de Zezé Di Camargo; ou ainda um outro, mais próximo do início, que a coloca isolada na lota. São esses momentos que, demonstrando a rara habilidade de Canijo em captar com a câmara momentos extraordinariamente fortes, melhor ilustram as diferenças entre a actriz citadina e as mestras que acompanha.

Houve alguém que, no final da sessão - que contou com a presença do realizador e do elenco -, comparou a obra a Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira. E não sem a sua razão, acrescente-se. Mas é precisamente na diferença entre as duas obras - que é como quem diz, na recusa de Canijo em abdicar completamente de uma dimensão artificial - que É o Amor falha. É quando se subtrai às Caxinas e se coloca  a câmara na mão de Anabela que mais se sentem os defeitos da visão planeada e se duvida da qualidade do que se tem pela frente. É preciso voltar às mestras, com Sónia Nunes à cabeça, a alma do filme, para se recuperar o encanto, por momentos perdido, do Amor sobre o qual tanto falam.

O que me leva a uma última conclusão: acho que, à semelhança da Anabela, ainda não compreendi totalmente o que isto do Amor. Mas, porra, até eu o acho lindo!


Título Original: É o Amor (Portugal, 2013)
Realizador: João Canijo
Argumento: João Canijo, Anabela Moreira
Intérpretes: Anabela Moreira, Sónia Nunes, Cassilda Pontes, Paula Saraiva
Género: Documentário
Duração: 135 minutos





sábado, 6 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 3

Nunca imaginei acabar uma Páscoa a ver filmes de surf. O Porto Surf Film Festival trocou-me as voltas e proporcionou-me a inesperada oportunidade. Testemunho passado - e que bem passado - pelo Wladimir Jr. Ribeiro, calhou-me assistir às duas últimas sessões do festival. E não saí desiludido do auditório da Biblioteca Almeida Garrett.

A BROKEDOWN MELODY, de Chris Malloy (EUA, 2004)

Antologia de histórias e vivências ligadas ao surf enquanto filosofia - e, na sua maioria, afastadas da sua vertente competitiva -, A BROKEDOWN MELODY mantém grande parte das características geralmente associadas ao subgénero. Assumir-se-á, assim, como um híbrido entre documentário e fita de desporto, misturando narrações em voz-off com planos de gente a praticar a modalidade em vários pontos do globo.

Mas filmar da Jamaica ao Peru, envolvendo tantas localizações e pessoas diferentes, poderá ter-se revelado um projecto demasiado ambicioso. Nasce dessa multiplicidade de situações a sensação de uma fita algo desconjuntada, falta de um fio condutor claro e capaz de ligar todos os seus componentes. Ficam, contudo, a magnífica fotografia de David Homcy, Sonny Miller e Scott Soens - há momentos em que as cores quase extravasam os limites do contraste -, a banda sonora interessantíssima, com músicas de Eddie Vedder, Jack Johnson e Kings of Convenience, e a ideia de que A Brokedown Melody consegue, mesmo que apenas a espaços, ser um obra elegante e de rara beleza. (ATF)


SURFING WITH THE ENEMY, de Scott Braman e Adam Preskill (Cuba/EUA, 2011)

Dois cineastas norte-americanos a rodarem em Cuba; a ideia já daria, por si só, pano para mangas. Mas o que Scott Braman e Adam Preskill descobriram no seio da comunidade surfista cubana é algo de verdadeiramente incrível. O título, SURFING WITH THE ENEMY, apropria-se ao resultado. Resta é descobrir quem é o inimigo no meio disto tudo. Passem-se algumas linhais gerais do filme em revista, não se fosse despejar no leitor informação sem especial sentido: em Cuba, surfar, se não proibido, é visto com maus olhos pelas autoridades. O perigo de alguém se escapulir da ilha com a ajuda de uma prancha é grande - a distância para outros países, o Haiti, a Jamaica, ou até mesmo os EUA, não é enorme -, e desagrada os responsáveis de Havana. O medo é tanto, aliás, que não se pode, sequer, estar perto da praia à noite. Outrossim, as associações e organizações privadas não são permitidas. A comunidade surfista é, portanto, semi-clandestina, para além de pouco desenvolvida.

O que torna ainda mais caricato que a meio surjam uns quantos oficiais do governo - produtores de TV, historiadores e funcionários de ministérios - a gabarem o espírito empreendedor dos surfistas, apoiando a prática da modalidade. Percebe-se também daí o lado activista da obra - e o envolvimento de Lance Henriksen enquanto narrador -, expondo a paranóia de um regime, dirigida neste caso em particular contra um grupo relativamente restrito de pessoas. No final, explica-se o porquê de tanta rigidez: um membro do governo confessa que os surfistas pertencem à vanguarda da sociedade, associada à rebeldia e ao desejo de maior abertura. O medo deixa de ser que eles surfem para os EUA, para passar a que eles mudem Cuba a partir de dentro. Fechou-se com chave de ouro. (ATF)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 2

A primeira edição de Porto Surf Film Festival continua pelo seu segundo dia. A proximidade à Páscoa não ajuda na adesão do público, mas ainda se preenchem algumas cadeira. E se o primeiro dia foi uma surpresa, no segundo esperava uma qualidade semelhante. Assim o foi.

Começou o dia com um filme bastante peculiar, SINGLEFIN: YELLOW, e acabamos com umas viagens às águas mais frias dos países nórdicos, com SEA FEVER.

SINGLEFIN: YELLOW, de Jason Baffa (EUA, 2005)

Neste pequeno filme de uma hora, seguimos os caminho de uma prancha de surf amarela especial enquanto é passada de mão em mão por diversos surfistas, usada nas mais diversas condições aquáticas. Funcionando quase como algo simbólico, esta prancha amarela aguarda eternamente pelo próximo fanático de surf para a levar a um lugar diferente.

Um filme bem feito que transmite bem a sua mensagem, que há muitas coisas que todos os surfistas partilham e não são só as pranchas. Com umas imagens bonitas com um ambiente relaxado que acaba por transmitir tudo o que realmente importa neste desporto. SINGLEFIN: YELLOW é, definitivamente, um que vale a pena ver, não só pelos amantes do surf. (WJR)


THICKER THAN WATER, de Jack Johnson, Chris Malloy, Emmett Malloy (EUA, 2000)

Este documentário é bastante agradável de se ver, é um conceito simples, imagens de um grupo de pessoas a praticar surf nos mais variados lugares, ao som de musica boazinha. Talvez a simplicidade da coisa e o efeito relaxante da música sejam o que torna este pequeno filme diferente, talvez o rumo indefinido de toda o filme e as gravações amadoras sejam o que impeça o publico de gostar. A divergência de opiniões em relação a THICKER THAN WATER é capaz de ser consideravelmente grande, mas por cá nem se achou mau de todo.

Thicker Than Water não passa de uma tentativa satisfatória a algo consistente, não tem muito para dar, mas o que dá ainda é bastante sólido e por isso não penso que seja uma completa perda de tempo, embora não valha mais que a primeira visualização. (WJR)

SEA FEVER, de Ken O'Sullivan (Irlanda, 2009)

SEA FEVER é um documentário mais focada num só local, Irlanda, e explora toda a história do surf de alguns indivíduos e do país, assim como uma das maiores ondas que lá reside. Certamente, é um filme bastante direto ao assunto e é competente no que transmite, conhece-mos famílias ligadas ao surf, alguns dos melhores locais e muita ligação entre gerações através deste desporto.

Temos também a oportunidade de ver algumas das condições mais desconfortáveis para a prática do surf, sendo um país nórdico é muito complicada encontrar céu limpo e pouco vento à beira mar. Algumas das imagens que provêm destas condições são muito bem conseguidas e atrairão o mais atento dos observadores. (WJR)

domingo, 31 de março de 2013

Porto Surf Film Festival, Dia 1


Começou dia 30, o Porto Surf Film Festival, e a redacção teve o prazer de marcar presença nesta sua primeira edição. Este pequeno festival traz-nos uma diversificada compilação de filmes e documentários sobre o surf, um tema que pode parecer, inicialmente, focado num certo público alvo mas poderá surpreender muitos que arrisquem comparecer.

Neste primeiro dia foram exibidos ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin, e THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown. Acredito que as primeiras exibições foram um bom presságio para o que estava para vir nos próximos dias.

ONE WINTER STORY, de Sall Lundberg e Elizabeth Pepin (EUA, 2006)

A história de Sarah Gerhardt e tudo o que levou à sua conquista de uma das maiores ondas do mundo, a onda de Mavericks. Este documentário biográfico da primeira mulher a surfar uma onda desta magnitude acaba por se tornar em algo bastante sentimental e inspirador, não só pelo desafio como pelas diversas dificuldades que teve que ultrapassar ao longo da vida e que levaram aos seus grandes feitos, sejam eles académicos ou no desporto.

O que torna mais dificil a sua visualização será o excesso de granulado nas imagens, uma escolha talvez pouco pensada, visto que muitas dessas imagens seriam bastante deslumbrantes sem esse aspecto. No entanto, é um filme bem construído, com um desenvolvimento apropriado para o tempo de filme que tem. (WJR)

THE ENDLESS SUMMER II, de Bruce Brown (EUA, 1994)
.
Bruce Brown volta quase 30 anos depois com a sequela de um dos seus grandes trabalhos. Este traz-nos uma hora e meia de imagens simplesmente magnificas, a ocasional piadinha, um pouco de cultura e muito surf.

Aqui seguimos a viagem à volta do globo de dois fanáticos do surf pelos melhores locais para se praticar o desporto. Embora pelo caminho as desventuras sejam muitas, o destino é alcançado e são acompanhados por diversas caras familiares do primeiro filme. As duas personagens pouco importam para o cenário, a única coisa a saber é que um é o completo oposto do outro e passam o Verão a surfar nos sítios mais fantásticos.

O filme garante a qualquer público um tempo bem passado, sempre com um sorriso na boca, e nunca cansa referir que as imagens em altura de surf são espectaculares, definitivamente uma grande melhoria do primeiro em muitos aspectos. (WJR)

sexta-feira, 29 de março de 2013

The Day I Will Never Forget (2002)

Permita-me o leitor começar a resenha com um aviso. De amigo, está claro. THE DAY I WILL NEVER FORGET será, muito provavelmente, um dos filmes mais crus e brutais alguma vez filmado. Em particular uma cena a meio, das mais controversas do Cinema, que envolve a circuncisão semi-explícita de duas meninas. É, contudo, também uma obra de elevadíssimo valor, urgente de ser descoberta, vista e analisada. Não será - à semelhança dos restantes trabalhos de Kim Longinotto, sempre atenta na sua observação do Mundo -, portanto, algo para se tomar de ânimo leve.

Aviso feito, hora de ir ao que realmente interessa. No Quénia, milhares de raparigas são vítimas da circuncisão forçada do clitóris. Há quem lhe chame mutilação genital - e com toda a razão, acrescente-se -, mas Kim Longinotto prefere o primeiro termo durante o documentário. Através de trechos captados em diferentes situações - consultas médicas, uma tertúlia de mulheres que discute o assunto, uma audiência em tribunal e até mesmo dos próprios rituais -, a britânica vai expondo os diferentes lados da questão. De um lado, os que são a favor da tradição - e já Vera, de Sisters in Law, outros dos grandes filmes de Longinotto, dizia «My whole life has been spent fighting tradition» -, do outros, os que a ela se opõe através do ponto de vista dos direitos.

Mas se para o espectador ocidental, à distância e, à partida, sem qualquer envolvimento extraordinário, o problema seria facilmente solucionado, com os partidos a serem tomados rapidamente, nas sociedades patriarcais do Quénia e da Somália - mas em que as matriarcas não estarão, igualmente, isentas de responsabilidade - o tema dá pano para mangas. Pelo meio, há a já mencionada cena da circuncisão - coisa violentíssima, desaconselhável para gente impressionável -, auge da visceralidade - será? - na obra de Longinotto. Segue-se-lhe outro plano de semelhante força - e que, confesso, me custou ainda mais ver -, o de uma menina que declama um poema sobre a sua circuncisão. Esses quinze minutos de filme desarmam completamente o espectador; é impossível ficar-lhes indiferente.

Tradição versus razão. No final, as raparigas que não querem ser mutiladas ganham em tribunal. Com a Lei do seu lado, os pais já não as podem obrigar ao ritual. Algumas voltam para casa, outras preferem ficar longe. Quanto a mim, arrisco-me a avançar que The Day I Will Never Forget, pela sinceridade brutal a que Kim Longinotto nunca se escusa, terá sido um dos filmes que mais me custou ver. Absolutamente obrigatório.

-//-

THE DAY I WILL NEVER FORGET será exibido hoje, dia 29 de Março, às 17h00, no Cinema Passos Manuel, no Porto. A sessão está inserida na retrospectiva dedicada a Kim Longinotto, que se prolongará até dia 30 de Março no Porto - com a presença da realizadora -, e migrará para Lisboa de 4 a 7 de Abril. Oportunidade única para assistir em sala a algumas das obras mais interessantes daquela que é uma das documentaristas mais proeminentes da actualidade.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A Última Vez Que Vi Macau (2012)

Nunca fui a Macau.

O filme começa e surge logo, quase a matar, Cindy Scrash - a Irene de Morrer Como Um Homem - a cantar You Kill Me para a câmara. A câmara, leia-se, o público. Andam uns tigres pelo fundo, enjaulados, e percebe-se que a cena tem qualquer coisa de cabaret. Uns planos depois, um jogo de paintball - uma guerra fictícia -, em que um dos participantes acaba morto. E põe-se Guerra da Mata a caminho de Macau, sem perceber muito bem o porquê da coisa. Agora pergunta o caro leitor que esquisitice em forma de filme será esta. E pergunta muito bem, que o caso não é para menos. Trata-se, afinal, de A ÚLTIMA VEZ QUE VI MACAU, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, fita fabulosa e incrivelmente singular na sua construção.


Continuando onde ficamos, mete-se Guerra da Mata em Macau, a pedido de Cindy - que aqui é Candy, a piscar o olho à do Andy Warhol -, que teme pela sua vida. A moça envolveu-se com os homens errados e viu-se numa alhada. E não é que Guerra da Mata é o único em quem ela confia para a salvar? O gostinho a film noir - o whiskey, as sombras, a própria donzela em apuros - que fica desses momentos iniciais permanecerá durante o resto do filme. Esta Macau - a que Guerra da Mata ao princípio não reconhece e que Rodrigues nunca visitara antes - é, na sua essência, um cemitério de filmes e estrelas, uma terra com o espírito intimamente ligado ao Cinema. Não se estranhem, por isso, as meias de Jane Russell - que morreu enquanto se filmava A Última Vez Que Vi Macau - a flutuar à entrada da gruta dos piratas, ou a música - retirada de Macao, de Josef von Sternberg - com que Candy abre a estória.

É também através dessas referências cinematográficas, sempre criteriosas - não fosse João Pedro Rodrigues o realizador que disse, numa entrevista, não gostar de filmes de citações -, que se desmonta a obsessão de conhecer a cara aos protagonistas. Não chega a haver uma materialização, no sentido convencional, do sujeito: vêem-se mãos e pés, ouvem-se vozes incorpóreas que narram, reflectem, planeiam e explicam. Da mesma forma, não se assiste às mortes das personagens, nem às suas metamorfoses. Essa ideia de construir uma casa com paredes e telhado - as convenções, os cânones do(s) género(s) -, mas não lhe dar recheio - as caras, as mortes - será, porventura, o mais desconcertante para o espectador em A Última Vez Que Vi Macau. Porque se quem vê caras não vê corações, quem não as vê tem, normalmente, ainda mais dificuldade em os perceber.

O documentário que não o é - mas que poderia tê-lo sido, olhando para a curta Alvorada Vermelha - e o noir sem enchimento: João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata manejam habilmente as regras e expectativas, filmando uma terra que, existindo, não passa de uma ilusão. E que, exactamente por ser uma miragem - com os néons, os casinos, os fogos-de-artificio, o exotismo de uma figura que dá pelo nome de Madame Lobo e as gaiolas douradas -, custa ainda mais a abandonar. O que se consegue em A Última Vez Que Vi Macau, com os seus mistérios por desvendar e caminhos por percorrer, é realmente algo de único.

Nunca fui a Macau. Minto, já lá estive. E gostei imenso do que vi.


Título original: A Última Vez Que Vi Macau (França/Macau/Portugal, 2012)
Realizador: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Argumento: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Intérpretes: João Rui Guerra da Mata, Cindy Scrash, João Pedro Rodrigues
Género: Crime, Documentário, Drama, Fantasia, Mistério
Duração: 85 minutos




segunda-feira, 18 de março de 2013

Masterclass de Michael Glawogger


Michael Glawogger, um dos mais influentes documentaristas em actividade - também com currículo firmado na ficção experimental - , deu uma masterclass no Planete Doc Film Festival, em Varsóvia. O autor de WORKINGMAN'S DEATH abordou os desafios de realizar documentários, o seu processo criativo e até a própria questão da autoria. Uma palestra com Wolfgang Thaler, o seu cinematógrafo habitual, sentado ao lado e de cerveja na mão.

O Doc Alliance Films disponibiliza a masterclass de Glawogger e o filme WORKINGMAN'S DEATH para visualização gratuita no seu site oficial.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Kim Longinotto no Porto


Kim Longinotto virá ao Porto para acompanhar uma retrospectiva da sua obra. Oportunidade única para ver - ou rever - o trabalho de uma das mais importantes documentaristas da actualidade.

Uma das mais proeminentes documentaristas em actividade, Kim Longinotto, é reconhecida internacionalmente pelos seus pungentes retratos e pelo seu sensível e apaixonante tratamento de tópicos difíceis.

Observando, reflectindo e contando as estórias de mulheres que desafiam convenções e lutam contra instituições, opressão e preconceitos, Longinotto documenta e revela as idiossincrasias e os costumes de sociedades oprimentes.

Passando por temas tão diversos como o divórcio no Irão, a mutilação genital feminina no Quénia, a violência sobre mulheres e crianças nos Camarões, na África do Sul ou na Índia, a educação de crianças emocionalmente perturbadas em Inglaterra ou mesmo questões de género, identidade sexual e contradições culturais no Japão, Longinotto assume-se politicamente comprometida, viajando pelo mundo inteiro para documentar os aspectos mais difíceis da realidade das mulheres.

Navegando pelas águas do documentário, desde que iniciou a sua carreira em 1976, trabalhando quase sempre com equipas reduzidas – a própria, na câmara, uma co-realizadora local e apenas uma pessoa no som – e mantendo-se sempre independente de quaisquer produtoras, Longinotto tem conseguido financiar o seu trabalho através da emissão dos seus filmes na BBC e vem conquistando a sua importância cinematográfica através do florescente circuito dos festivais de cinema.
Quase todos os seus filmes foram premiados um pouco por todo o mundo, sendo que “Sisters in Law” recebeu o Prémio Arte e Ensaio do Festival de Cannes, “Hold me tight, Let me go” foi galardoado com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Documentário de Amesterdão e “Rough Aunties” ganhou o Prémio do Júri na competição World Cinema do Festival de Sundance.

Esta será a primeira retrospectiva dedicada a Kim Longinotto no nosso país, uma realizadora que importa descobrir urgentemente.

Os ciclos decorrem de 28 a 30 de Março no Cinema Passos Manuel, no Porto, e de 4 a 7 de Abril no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa. Mais informações e respectivo programa aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Agnès Varda à borla

Não é todos os dias que se tem a oportunidade de ver - ou rever - parte da obra de Agnès Varda. E, ainda por cima, à borla. O site Doc Alliance Films disponibiliza dezassete documentários da influente realizadora para visualização gratuita até 17 de Fevereiro.

Numa altura em que se fala muito sobre mulheres cineastas - com Kathryn Bigelow à cabeça do grupo -, será mais do que nunca justo relembrar Varda, uma das derradeiras representantes do Rive Gauche. Entre os filmes disponíveis contam-se LA POINTE COURTE, BLACK PANTHERS, DAGUERRÉOTYPES e o já aqui referido LES PLAGES D'AGNÈS.

O resto do catálogo pode ser consultado aqui.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A vida em praias

Ao sexto dia, a primeira epifania cinéfila do ano. E logo pelas mãos - ou melhor, pela câmara - de uma velhinha octogenária. De estranhar, não fosse a idosa em questão dar pelo nome de Agnès Varda, uma das derradeiras representantes do Rive Gauche, movimento artístico contemporâneo da Nouvelle Vague. Nas quase duas horas de LES PLAGES D'AGNÈS, realizadas, escritas e narradas por esta Senhora Cinema, sempre viva e bem-disposta, ensina-se muito sobre Arte, e não só, a miúdos e graúdos.


Agnès aborda oitenta anos de vida através das praias que visitou e onde viveu. Da fuga da Bélgica para uma cidade costeira francesa - imortalizada em alguns dos seus filmes -, das areias Californianas às da ilha que pisava frequentemente com o marido Jacques Demy. Dos tempos que viveu em Paris e das fitas que dirigiu na sua rua de lá. Oitenta anos de histórias que recorda com maravilhosa delicadeza e liberdade, recusando, contudo, prender-se ao saudosismo e a nostalgia. Ou não fosse a sua lente uma das mais activas de sempre, pronta a capturar a verdade das coisas e a injustiça escondida na sociedade. Momento particularmente tocante - e excepção à regra que tenta manter durante o filme - é aquele em que recorda os amigos que já partiram - vivos nas muitas fotografias que deles tirou, algumas em exposição -, entristecendo-se ao lembrá-los; ou quando fala dos últimos meses de Jacques Demy, por quem realizou Jacquot de Nantes, baseado na sua infância. Agnès tem muito a ensinar, sobretudo por achar ter ainda mais a aprender.

No Dia de Reis, e através de uma prenda de Natal - como é bom ter gente que sabe do que gostamos -, finalmente percebi que, quando crescer, gostaria de ser como Agnès Varda. Visitar as suas praias, perder-me na sua obra, entregar-me às causas como ela se entregou e ainda entrega. Mas receio que tal me esteja vedado; a mim, ou a qualquer outro que o tente. É que Agnès, como todas as figuras da sua envergadura, é impossível de emular, única nas suas particularidades, virtudes e defeitos. A ela - e a quem me ofereceu o DVD, edição da Midas Filmes - um muito obrigado!

António Tavares de Figueiredo

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Cesare deve morire (2012)

Foi com este CESARE DEVE MORIRE que os irmãos Taviani foram a Berlim buscar o Urso de Ouro e o Prémio do Júri Ecuménico. E não sem mérito, acrescente-se. Num festival cujos prémios normalmente se revestem de consciência social - vejam-se, por exemplo, os galardões concedidos a Tropa de Elite em 2008 ou a La teta asustada no ano seguinte -, ignorando muitas vezes filmes superiormente executados, seria quase natural desconfiar à partida da qualidade desta obra. E estar-se-ia, pois, a cometer um erro gravíssimo e enorme injustiça, perante aquele que será, porventura, um dos objectos cinematográficos mais curiosos do ano.

Filmar Shakespeare - ou uma das suas peças - atribuindo-lhe subtexto político não constituirá novidade; ainda para mais tratando-se de Julius Caesar, obra que versa a morte de tiranos que tentam a usurpação do poder. Muito menos o será filmar o teatro como ponto de partida. Mas rumo aonde? Ora, à liberdade, aonde mais haveria de ser? Postas as questões pertinentes - e ainda serão algumas -, parte-se de uma produção teatral de prisão. Escolhe-se representar uma peça que tem algo de motim em si, um grito de revolta sem heróis nem vilões. As celas e o pátio servem de cenários para os ensaios - e na verdade filma-se mais dos ensaios do que da representação final - com os prisioneiros-actores a identificarem-se, amiúde, com as personagens que interpretam. Há uma relação próxima entre sujeito e objecto, uma transposição da ficção para o real.

É nesse cruzamento entre dimensões - a documental e a ficcional, a da liberdade e a do encarceramento - que os irmãos Taviani, herdeiros contemporâneos do neorrealismo italiano, encontram a sua maior virtude. Através de um equilíbrio estudado - evidente também pela fotografia e sonoplastia cuidadas - criam uma libertação dentro do próprio presídio. Não é por acaso que se começa pelo final da peça - pelas palmas, ovações e conseguinte re-encarceramento -, para depois o repetir no final do filme. Da sua natureza circular sobressai a monotonia do quotidiano dos actores-prisioneiros (às tantas invertem-se os termos), presos não só ao edifício, mas também aos seus próprios pensamentos. Quando se esperava que abrandassem, fruto dos seus oitenta anos, os irmãos Taviani entregam em Cesare deve morire uma das suas obras mais ambiciosas, produto inteligente e de incontestável engenho. Está alcançada a (fugaz) libertação.


Título Original: Cesare deve morire (Itália, 2012)
Realizador: Paolo Taviani, Vittorio Taviani
Argumento: Paolo Taviani, Vittorio Taviani (baseado na peça de William Shakespeare)
Intérpretes: Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana, Fabio Cavalli
Música: Giuliano Taviani, Carmelo Travia
Fotografia: Simone Zampagni
Género: Documentário, Drama
Duração: 76 minutos


domingo, 11 de novembro de 2012

Ward No. 6 (2009)

A linha que separa a loucura da sanidade é tão ténue que amiúde se torna indistinguível e cessa de existir. Aí, o sábio torna-se um pobre de espírito e o perturbado passa a iluminado. Nem sempre é discernível em qual das categorias, já de si pouco estanques, se encaixa alguém extraordinário. O conceito não é novo, nem a abordagem que Aleksandr Gornovsky e Karen Shakhnazarov lhe dedicam, mas WARD NO. 6 acaba por oferecer uma visão diferente sobre a questão. Em jeito de documentário - falso, mas que podia ser mais verdadeiro do que alguns que declaradamente o são, o que nos leva a perguntar onde se devem traçar os limites do género - começa-se por entrevistar meia-dúzia de internados num hospício soviético (a Rússia parece não ter chegado ainda ao local). Falam da sua vida na instituição e do seu antigo director. Proeminente psiquiatra de larga reputação, vê-se preso numa pequena cidade que, segundo ele, é incapaz de apreciar cultura e arte. Criatura de hábitos fixos - não dispensa a sua leitura diária (clássicos da literatura) nem o copo de vodka após o almoço - entra numa espiral descendente rumo à alienação quando conhece um paciente que partilha da sua visão. A figura, que lhe surge algo enquadrada na imagem de profeta, faz dele seu apóstolo e leva-o a abandonar a vida de médico.

Shakhnazarov, um dos mais influentes cineastas russos da sua geração, director-geral da Mosfilm (histórica produtora responsável por obras de gente como Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovsky e Akira Kurosawa, entre outros), oscila entre o falso documentário e uma narrativa mais convencional. Tudo muito diegético, excepção feita à sequência da visita do Doutor e do seu vizinho à capital, barulhenta e desorganizada, e pachorrento. A lentidão e passividade da fita imitam as da vida rural e custam a passar. Às tantas, também o público, "preso" à cadeira, restringido àquela sala de cinema que torna real a ficção de Chekov que passa no ecrã, sente a dor do médico. Quando há pouco para fazer os ponteiros do relógio tendem a mover-se mais devagar. Não é o melhor filme de Shakhnazarov (quanto ao outro realizador, que confesso não conhecer, não posso adiantar o mesmo) e pela densidade e rigor pode ser difícil de assistir para quem estiver formatado para um Cinema mais ocidentalizado, mas Ward No. 6 revela-se uma obra competente e sólida, da qual vale a pena recordar um par de cenas potencialmente memoráveis - vem-me à memória, por exemplo, o baile no final do filme. Como na vida, é quando o cansaço se começa a manifestar que se perde a vontade de distinguir entre o real e o imaginado.


Título Original: Palata N°6 (Rússia, 2009)
Realizador: Aleksandr Gornovsky, Karen Shakhnazarov
Argumento: Aleksandr Borodyanskiy, Karen Shakhnazarov (baseado no conto de Anton Chekhov)
Intérpretes: Vladimir Ilin, Aleksey Vertkov, Aleksandr Pankratov-Chyornyy, Evgeniy Stychkin, Viktor Solovyov
Música: Evgeny Kadimsky
Fotografia: Aleksandr Kuznetsov
Género: Documentário, Drama
Duração: 83 minutos


domingo, 10 de junho de 2012

Project X (2012)

O sonho de realizar a maior festa de sempre terá passado, nalguma altura, pela cabeça de todos nós e Project X faz isso mesmo, dá vida a esse sonho e trás-nos, de facto, a festa mais tresloucada, descontrolada e verdadeiramente épica. É o primeiro trabalho no grande ecrã, como realizador, de Nima Nourizadeh e que grande começo.

Qualquer tentativa de procurar um enredo profundo e com significado será inútil, isto é apenas a história de como três alunos do secundário tentam fazer uma festa de aniversário grande o suficiente para serem reconhecidos na escola. Infelizmente, noticias desta festa chegam a milhares de pessoas e a certa altura deixa de haver qualquer tipo de controlo. Aquilo que era suposto ser uma festa, entre amigos e conhecidos, num quintal tornou-se num cenário apocalíptico que ocupou um quarteirão inteiro.

O filme é gravado ao estilo cinéma vérité, sendo uma compilação editada de gravações 'caseiras', de várias fontes distintas, dos acontecimentos que levam a que a festa aconteça e a festa em si. Para os mais desinformados, isto não é parecido com The Hangover, poucas ou nenhumas semelhanças tem, apenas partilham alguns produtores, no entanto muitos esperam algo do género antes de o visualizarem e acabam por sair a achar que é um filme simplesmente rude, com actores amadores e mau trabalho de filmagem que incita o caos, o que não está longe da verdade, a níveis técnicos é um filme verdadeiramente mau, mas não é isso que se quer desde o inicio. Não é um filme com conteúdo, muito menos algo com um significado ou até um ponto moralista na história, nem foi isso que tentou atingir, é apenas uma gravação duma festa, a melhor festa, de 88 minutos com o objectivo de entreter, e isso sim, consegue e de que maneira.

Para além de ter sido completamente destruído por maior parte dos críticos é, de certa forma, triste ver como grande parte do público não conseguiu absorver a verdadeira essência desta experiência e decidem descartá-lo como se fosse um pedaço de lixo de cinema, quando na realidade não passa de uma festa, a simples demonstração do sonho de qualquer adolescente. Pessoalmente, achei simplesmente genial como conseguiram replicar todos os comportamentos típicos de uma juventude imatura num ambiente de completa liberdade e com acesso indiscriminado a imensas substâncias ilícitas, que, temos que admitir, é exactamente como os jovens de hoje iriam agir face tal situação. Todo o descontrolo que ocorre após a primeira parte do filme é de proporções nunca antes vistas, principalmente num ambiente realista como este, muito menos nos modestos subúrbios de Pasadena.

Quem estiver à espera de cinema, mais propriamente um filme a sério, mais vale dar meia volta e não olhar para trás, isto não é para vocês. Isto é para os que procuram diversão enquanto apreciam um bom balde de pipocas com um grupo de amigos, pois no meio de drogas, nudez, pessoas pequenas presas em fornos, cães voadores, adultos estranhos no meio de adolescentes, motins e um lança-chamas não há lugar para a decência nem para o que é moralmente aceitável. Assim, avalio este filme pelo seu factor de entretenimento e não pelo factor técnico.


Título Original: Project X (EUA, 2012)
Realizador: Nima Nourizadeh
Argumento: Matt Drake; Michael Bacall
Intérpretes: Thomas Mann; Oliver Cooper; Jonathan Daniel Brown; Dax Flame; Kirby Bliss Blanton; Brandy Hender; Alexis Knapp
Fotografia: Ken Seng
Género: Comédia
Duração: 88 minutos




sexta-feira, 25 de março de 2011

Justin Bieber: Never Say Never (2011): "Haverá Cura Possível?"

Após uns quantos anti-depressivos, um traumatismo craniano e uma severa overdose de analgésicos, consegui acabar este tormento. Justin Bieber: Never Say Never (2011), de Jon Chu, é capaz de ser mais aborrecido do que ver relva a crescer - como é possível que tenha sido realizado algo tão inútil e sem sentido? Nunca vi nada tão vazio, e, sinceramente, não cheguei a perceber o que tentaram alcançar com isto, para além de dinheiro. É algo que não passa dum simples e fraco anúncio publicitário ao trabalho dum rapaz de 16 que ainda nem descobriu a verdadeira funcionalidade do seu falo...
Isto é supostamente um 'filme' sobre o Justin Bieber, e se não sabe quem ele é, então é porque acabou de acordar dum coma de 5 anos, ou ainda vive duma pedra. E visto que ele só tem 16 é correcto supor que não um filme com muito conteúdo, principalmente, já que durante o mesmo pouco se fala do 'protagonista', dando-se mais ênfase à triste ilusão do seu actual superestrelato, impulsionado pelo mainstream das redes sociais. Acho que fiquei a conhecer melhor o operador de câmera do que propriamente o sr. Bieber, tirando o facto de ele me parecer bastante alegre e pouco desenvolvido mentalmente. O excesso de imagens e excertos de concertos é tanto,que quebra completamente qualquer tipo de raciocínio que o espectador possa estar a tentar desenvolver sobre os acontecimentos em questão. Outra inconsistência é a sua péssima organização cronológica, que faz com que o filme desabe no ridículo da confusão, entre berros ensurdecedores dos fãs.

Sendo algo inteiramente criado para agradar os fãs, se é que tal se pode chamar a pessoas com aquele tipo de comportamento doentio, é também algo feito só para que esses o entendam, se é que há sequer algo para entender. Aliás, é dada demasiada atenção a comentários de fãs, fãs esses que a meio do concerto quase se matam (literalmente) só para alcançarem o rapaz com a ponta do dedo, e a emoção chega a ser tanta que, na presença dum psiquiatra, poderia ser considerada como sendo assustadoramente avassaladora, dando um bilhete de ida directo para o manicómio com direito a uma sala isolada do mundo exterior. Algo que demonstra o poder da influência social presente nos jovens de hoje.

Sinceramente, não recomendo isto a ninguém em nenhuma circunstância. Publicidade há muita na televisão, e gastar dinheiro e tempo precioso para ir ver um anúncio de 115 minutos é algo completamente desnecessário e dispendioso.



Título Original: Justin Bieber: Never Say Never
Realizador: Jon M. Chu
Intérpretes: Justin Bieber
Música: Deborah Lurie; Justin Bieber
Fotografia: Reed Smoot
Género: Documentário 
Duração: 105 minutos