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sexta-feira, 29 de março de 2013

The Day I Will Never Forget (2002)

Permita-me o leitor começar a resenha com um aviso. De amigo, está claro. THE DAY I WILL NEVER FORGET será, muito provavelmente, um dos filmes mais crus e brutais alguma vez filmado. Em particular uma cena a meio, das mais controversas do Cinema, que envolve a circuncisão semi-explícita de duas meninas. É, contudo, também uma obra de elevadíssimo valor, urgente de ser descoberta, vista e analisada. Não será - à semelhança dos restantes trabalhos de Kim Longinotto, sempre atenta na sua observação do Mundo -, portanto, algo para se tomar de ânimo leve.

Aviso feito, hora de ir ao que realmente interessa. No Quénia, milhares de raparigas são vítimas da circuncisão forçada do clitóris. Há quem lhe chame mutilação genital - e com toda a razão, acrescente-se -, mas Kim Longinotto prefere o primeiro termo durante o documentário. Através de trechos captados em diferentes situações - consultas médicas, uma tertúlia de mulheres que discute o assunto, uma audiência em tribunal e até mesmo dos próprios rituais -, a britânica vai expondo os diferentes lados da questão. De um lado, os que são a favor da tradição - e já Vera, de Sisters in Law, outros dos grandes filmes de Longinotto, dizia «My whole life has been spent fighting tradition» -, do outros, os que a ela se opõe através do ponto de vista dos direitos.

Mas se para o espectador ocidental, à distância e, à partida, sem qualquer envolvimento extraordinário, o problema seria facilmente solucionado, com os partidos a serem tomados rapidamente, nas sociedades patriarcais do Quénia e da Somália - mas em que as matriarcas não estarão, igualmente, isentas de responsabilidade - o tema dá pano para mangas. Pelo meio, há a já mencionada cena da circuncisão - coisa violentíssima, desaconselhável para gente impressionável -, auge da visceralidade - será? - na obra de Longinotto. Segue-se-lhe outro plano de semelhante força - e que, confesso, me custou ainda mais ver -, o de uma menina que declama um poema sobre a sua circuncisão. Esses quinze minutos de filme desarmam completamente o espectador; é impossível ficar-lhes indiferente.

Tradição versus razão. No final, as raparigas que não querem ser mutiladas ganham em tribunal. Com a Lei do seu lado, os pais já não as podem obrigar ao ritual. Algumas voltam para casa, outras preferem ficar longe. Quanto a mim, arrisco-me a avançar que The Day I Will Never Forget, pela sinceridade brutal a que Kim Longinotto nunca se escusa, terá sido um dos filmes que mais me custou ver. Absolutamente obrigatório.

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THE DAY I WILL NEVER FORGET será exibido hoje, dia 29 de Março, às 17h00, no Cinema Passos Manuel, no Porto. A sessão está inserida na retrospectiva dedicada a Kim Longinotto, que se prolongará até dia 30 de Março no Porto - com a presença da realizadora -, e migrará para Lisboa de 4 a 7 de Abril. Oportunidade única para assistir em sala a algumas das obras mais interessantes daquela que é uma das documentaristas mais proeminentes da actualidade.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Django Unchained (2012)

A mais recente obra-prima de Quentin Tarantino não deixa nada por contar, não tem limites e deixa qualquer um preso à cadeira do inicio ao fim. DJANGO UNCHAINED possui tudo que se podia esperar de um filme do Tarantino, violência extrema, personagens caóticas, uma visão obscura e realista de um tema taboo e um estilo de realização e originalidade que apenas Tarantino nos pode proporcionar. A espera foi grande e o resultado compensa e satisfaz todos os desejos depravados dos fãs de Tarantino enquanto nos injecta com uma lição moralista e bastante directa.


Pessoalmente já aguardava esta estreia com imensa ansiedade e dela esperava grandes coisas, felizmente não me desiludiu e até ultrapassou as expectativas. A caracterização das personagens e o desempenho dos actores são óptimas, a destacar Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, cujas personalidades se contrabalançam na perfeição, um caçador de prémios que despreza a escravidão, é calmo e inteligente, e o dono de uma grande plantação que ganha a vida com lutas entre escravos, que por sua vez é mentalmente instável e narcisista. Depois temos Jamie Foxx que mostra do que é capaz e dá vida ao protagonista vingativo e determinado, Django, com um desempenho ao qual se deve dar grande mérito, num papel que muitos teriam grandes dificuldades em desempenhar, Foxx vai para além do que seria de esperar.

Django (Jamie Foxx) é comprado, à força, por Dr. King Schultz (Christoph Waltz) que acaba por lhe oferecer a liberdade. Esta dupla junta-se para apanhar e matar criminosos durante o inverno após o qual partem para salvar a mulher de Django, Broomhilda (Kerry Washington), das mãos de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um magnata das lutas de mandigos que dificilmente dá o braço a torcer.

Django Unchained é divertido de ver, facilmente nos apercebemos que muitos dos actores também se divertem nos papeis que desempenham, uma junção de comédia sem consideração por quem possa ofender, acção sangrenta e destrutiva e uma pitada de romance e heroísmo. Nem todos poderão apreciar o filme pelo que ele realmente é, uma crítica assertiva a uma das épocas mais cinzentas dos Estados Unidos, e poderão ficar ligeiramente ofendidos. Isto é uma das coisas que temos que admirar em Tarantino, a sua capacidade inigualável de não ter qualquer tipo de preocupação pelo que possam vir a achar do seu projecto e o faz como quer e bem lhe apetece, apenas quer transmitir a sua mensagem à sua maneira. E como seria de esperar, Tarantino dá o ar da sua graça com uma aparição breve no filme e ainda que não acrescente nada à narrativa, continua a ser uma adição engraçada aos seus filmes.

Posso garantidamente afirmar que é um grande começo de ano para o cinema. Já com algumas nomeações para os Oscares, aqui no Matinée temos os dedos cruzados para que algum vá para Django Unchained, pois é merecido. Escusado será dizer que se trata de um filme a não perder, teve estreia nacional na passada quinta-feira, e este é um filme que irão querer ver numa sala de cinema pelo menos uma vez. 


Título Original: Django Unchained (EUA, 2012)
Realizador: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Intérpretes: Jamie Foxx; Christoph Waltz; Leonardo DiCaprio; Kerry Washington; Samuel L. Jackson; James Remar
Fotografia: Robert Richardson
Género: Aventura, Acção, Drama, Western
Duração: 165 minutos




terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tabu (2012)

Tem-se em TABU, de Miguel Gomes, um dos objectos mais singulares da cinematografia recente portuguesa. Não só pela época que revisita ou sequer pela opção de fotografar a preto-e-branco - O Barão, de Edgar Pêra, por exemplo, também se situa nesse espectro -, mas sobretudo no talento envolvido na repescagem e utilização de todo um leque de técnicas e mecanismos que há muito se julgavam caídos em desuso e que aqui conferem ao filme uma dimensão indescritivelmente mágica. A entrada de Miguel Gomes na lista dos grandes cineastas da nossa praça - depois do surpreendente Aquele Querido Mês de Agosto - faz-se através de uma ligação Lisboa-África desmultiplicada em memórias e relatos.


Começando pelo magnífico prólogo, com ares de documentário, somos introduzidos, enquanto público, aos resquícios do Império e do Colonialismo. A um passado que já não existe e àquela paisagem luxuriante a que chamam África. A narração - que durante o filme vai revelando, sempre a seu tempo, todos os detalhes necessários à compreensão da narrativa - deixa logo claro que à vontade do coração não se podem sobrepor as de Reis ou Deus. A lembrança e o sonho são apresentados como elementos poderosos e capazes de guiar a experiência. De um lado temos aqueles que, não querendo recordar, vivem por eles atormentados; do outro, aqueles que têm como tarefa impedir que o que foi mas já não é morra no esquecimento. O que equivalerá a escrever que Aurora e Pilar - Laura Soveral e Teresa Madruga, respectivamente, fenomenais - são faces opostas de uma mesma moeda, atraindo-se até ao fim anunciado e que não tarda muito em chegar. Tudo para se perceber que o sufixo - Perdido - que cai de uma epígrafe para a outra foi, afinal, ganho através do tempo.

Do elenco à pós-produção, verifica-se em Tabu uma obra superior, colocada bem acima da média - quer nacional, quer internacional - e pautada por uma faculdade absolutamente assombrosa. Vê-lo é permitir que em nós penetre uma imagética forte, envolvida por uma musicalidade transcendente - apanágio da obra de Gomes -, que perdurará na nossa memória e não mais nos abandonará. Obrigatório.


Título Original: Tabu (Alemanha/Brasil/França/Portugal, 2012)
Realizador: Miguel Gomes
Argumento: Miguel Gomes, Mariana Ricardo
Intérpretes: Teresa Madruga, Laura Soveral, Henrique Espírito Santo, Isabel Muñoz Cardoso, Ana Moreira, Carloto Cotta, Manuel Mesquita, Ivo Müller
Fotografia: Rui Poças
Género: Drama, Romance
Duração: 118 minutos



domingo, 16 de dezembro de 2012

Amour (2012)

O primeiro plano de AMOUR, que irrompe pela tela sem pedir licença a ninguém, não só arromba a porta da casa, como também a própria audiência. E fá-lo com uma certa dose de violência que na altura quase passa despercebida mas que, inevitavelmente, voltará para nos assombrar. Abrem-se portas e janelas - há que deixar sair o cheiro - que nos mostram logo o final da história. O fim está já traçado ainda o filme não começou e não há nada que possamos fazer para o alterar. Resta-nos, pois, sentar e sofrer este Amor - e que fique bem claro que ele existe e está impresso em cada segundo do que vemos - que aqui se inicia e termina em Morte. Ou não fosse esta uma obra de Michael Haneke, realizador votado a objectos de um pragmatismo trágico tal que raramente guardam em si espaço para simbolismos ou subtilezas.


Mas se antes o austríaco optava pelo choque, em Amour vence o espectador através da crueldade calma e gentil com que filma a velhice. A passividade com que se é obrigado - de bom grado - a assistir à lenta degradação daquele casal é absolutamente desarmante. O Amor de mãos dadas com o Sacrifício e o Tempo, em jeito de anti-romance. O díptico Jean-Louis Trintignant/Emmanuelle Riva espelha bem essa condição do filme, entregando-se de corpo e alma à fragilidade senescente das respectivas personagens. Também nos seus olhares, gestos e expressões há Amor, neles que parecem conhecer-se há uma vida.

Numa análise cuidada, o que Haneke cria aqui - e que lhe valeu uma segunda Palma em Cannes - não é um filme bonito. É, contudo, algo muito mais poderoso e comovente, uma demonstração cabal de honestidade que roça a brutalidade e se estende aos planos aparentemente mais inocentes - conceito ao qual, na verdade, Haneke acaba sempre por se furtar no seu trabalho - e ângulos mais inesperados. Quando no fim se regressa àquela casa já não há Amor, só silêncio. Porque o Amor do austríaco mora nas pessoas e não nos objectos que elas tocam. E assim se é, fácil e progressivamente, derrotado pelo melhor filme do ano. E que gosto dá sê-lo por algo tão brilhante como Amour.


Título Original: Amour (Alemanha/Áustria/França, 2012)
Realizador: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Intérpretes: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, Rita Blanco
Fotografia: Darius Khondji
Género: Drama
Duração: 127 minutos




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Halloween (1978)

Finalmente, chegamos ao dia dos monstros e dos espíritos, e qual seria a melhor maneira de o celebrar do que com Halloween (1978), de John Carpenter, uma das grandes mentes do cinema de terror. O filme que mais marcou o género de terror slasher e que ainda hoje influência o mesmo. Introduzindo Michael Myers, o antagonista mais psicopático e mal compreendido da história do terror.

Após ter morto a irmã mais velha à facada, Michael Myers, de 6 anos, é institucionalizado durante 15 anos. Na noite antes do dia das bruxas, Michael foge e volta à sua terra natal, mas mesmo com os avisos do seu psicólogo, Dr. Sam Loomis, já será tarde demais. Principalmente para os jovens desprevenidos de Haddonfield, Illinois, que quando menos esperarem serão as presas de Myers durante a noite de Halloween.

Definitivamente, a obra-prima de Carpenter que com este filme deu à luz uma longa linhagem de slashers de terror após a grande influência de Psycho, de Alfred Hitchcock. O argumento é muito bom, acompanhado da realização inspirada de Carpenter, que dificilmente mostrará tanto potencial em projectos posteriores. As actuações são óptimas e as personagens são credíveis e fáceis para o público se identificar com elas, principalmente e curiosamente com Myers. O filme é low-budget e no entanto é surpreendentemente marcante e memorável.

Ao contrário do que se possa pensar, não é muito puxado para a violência extrema e gore, tal foi evoluindo mais tarde em filmes inspirados o Halloween. No entanto é um filme de verdadeiro terror, consegue literalmente deixar os cabelos em pé e dar arrepios na espinha, juntando um climax acelerado e de ferver o sangue. É, portanto, o filme que merece o lugar no pódio e a ultima e mais importante menção neste Especial de Halloween, não por partilhar o mesmo nome do dia, mas sim por ser um filme perfeito para ver dadas as circunstâncias.

Sendo um filme que define o seu género, irá pertencer à filmoteca obrigatória do blog. Com uma recomendação especial para ser visto hoje, por quem tenha disponibilidade, ou então o mais rápido possível, se nunca o viram.


Título Original: Halloween (EUA, 1978)
Realizador: John Carpenter
Argumento: John Carpenter; Debra Hill
Intérpretes: Donald Pleasence; Jamie Lee Curtis; Nancy Kyes; P.J Soles; Charles Cyphers; Tony Moran; Sandy Johnson
Música: John Carpenter
Fotografia: Dean Cundey
Género: Terror, Thriller
Duração: 91 minutos



domingo, 27 de maio de 2012

The Tree of Life (2011)

Seria difícil para The Tree of Life usufruir de uma passagem pelas salas de cinema livre de controvérsia. Primeiro, porque o trailer já dava para perceber, pelo menos em parte, o que estava para vir. Segundo, porque apesar de ter ganhado a Palme d'Or em Cannes, metade do público vaiou a decisão do júri em lhe conceder o prémio. Em Itália um cinema projectou o filme na ordem errada durante uma semana, embora sem queixas por parte do público, que julgava tratar-se apenas do estilo de edição vanguardista escolhido por Malick. Nos EUA alguns cinemas viram-se obrigados a colocar avisos sobre a narrativa não-linear da fita quando demasiados clientes confusos começaram a sair a meio e a exigir o reembolso dos bilhetes. Sean Penn, numa entrevista ao periódico francês Le Figaro, admitiu não ter percebido o rumo que Malick pretendeu dar à sua personagem. É assim The Tree of Life, tão fácil de gostar quanto de odiar.

Alguns filmes são assim. Ponto final, parágrafo. No caso de Terrence Malick, tem sido assim a sua carreira. Ave rara numa indústria onde todos os outros ganham a vida a dar a cara e a posar para as objectivas dos fotógrafos, por esta altura o cineasta norte-americano assume-se como um dos últimos verdadeiros perfeccionistas numa arte que cedo se rendeu ao dinheiro e à fama. Malick é um génio, amiúde incompreendido por quem não se quer ao trabalho de tentar entender a sua visão. E The Tree of Life não passa disso mesmo: a sua visão espiritual, a espaços até mesmo religiosa, sobre a vida, a criação, a morte e a (sua) infância.

Pelos olhos de Jack, ora jovem, ora envelhecido, vai-nos sendo mostrado o Mundo de Malick. A sua crença. A sua descrença. A sua família. Criado numa pequena cidade rural no Texas dos anos 50, Jack é o mais velho de três irmãos. Nos seus pais vê as duas facetas de um Deus habituado a adorar: na mãe, o Deus benevolente, no pai, o Deus austero. É nesse ambiente de eterno conflito, tanto interno, como externo, que a inocência de Jack é perdida em actos cada vez maiores e mais graves.

Brad Pitt tem em Mr.O'Brien, o pai, um dos papéis mais interessantes da sua preenchida carreira. Agressivo e austero, pensa que nada na vida é livre de custo e que os bons não estão talhados para ter sucesso. O que não significa que seja mau pai. Jack é interpretado por Sean Penn e por Hunter McCracken, como adulto e jovem, respectivamente. O primeiro tem insuficiente tempo de ecrã para causar qualquer impressão que seja no espectador, o segundo é absolutamente espantoso na pele da sua personagem. E depois há Jessica Chastain. Deslumbrante, a actriz californiana vai roubando todas as atenções para si, tornando impossível ignorá-la sempre que aparece em cena. Dos protagonistas adultos, é ela a que mais se destaca. Tecnicamente, a fita é um manual de cinema, um prodígio dos tempos modernos. A fotografia de Emmanuel Lubezki, nomeada para o Oscar, é simplesmente incrível. Os efeitos visuais utilizados seguem a mesma linha (Malick pediu ajuda a Douglas para os idealizar). A música capaz de conferir à película o carácter épico, quase operático, pretendido. Tudo unido por uma realização que surge próxima da perfeição, com Malick a conseguir de alguma forma impor ordem na sucessão caótica de imagens e planos.

A criação do Universo. O aparecimento da Terra. O nascimento da compaixão. A crença. A descrença. A vida no Texas rural dos anos 50. Tudo em pouco mais de 2 horas de filme. The Tree of Life é a magnum opus de Terrence Malick, simultâneamente simples e complexa na sua essência, incapaz de deixar quem quer seja indiferente depois de a ver. O director de fotografia diz que Malick tem mais seis horas de filmagem, e que pode editar um Director's Cut de quase seis horas que explore melhor a história do filme. O principal problema que se coloca é se haverá alguém com paciência para o ver. Acho que sim. À partida, já se sabia que a Academia dificilmente lhe entregaria qualquer prémio, preferindo de longe escolhas mais seguras e consensuais entre o grande público. «Onde estavas Tu?» - a frase que abre o filme é também a ideal para o fechar. Merece ser recordado? Sim! Porque o Cinema não se faz só de bilheteiras e prémios.


Título Original: The Tree of Life (EUA, 2011)
Realizador: Terrence Malick
Argumento: Terrence Malick
Intérpretes: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Género: Drama
Duração: 139 minutos



sexta-feira, 18 de maio de 2012

El Artificio (2011), por António Tavares de Figueiredo e Wladimir Jr. Ribeiro

«El cine es (...) el artificio.»

Numa rara ocasião em que duas cabeças pensam mesmo melhor do que uma, os editores do Matinée Portuense decidiram juntar esforços para vos falar de El Artificio, a grande revelação do Fantasporto 2012. O filme que para muitos poderá ter passado despercebido revelou-se uma das mais recentes pérolas do cinema europeu, capaz de entreter, maravilhar e arrebatar quem o decidiu ver.

Quique (Enrique Belloch num papel semi-biográfico) é um realizador que se vê incapaz de realizar. Temendo estar a perder a sua sanidade, Quique pede ajuda a Marta (Maria Josep Peris), sua irmã, numa tentativa de se agarrar ao que lhe ainda é familiar. Marta aceita, na condição de contratarem um enfermeiro para a ajudar a cuidar de Quique. O escolhido é Amador (Paco Martínez Novell), um jovem enfermeiro pouco ligado ao mundo das artes, mas bem intencionado.  O trio de protagonistas vai ter de aprender a viver junto, num convívio nem sempre fácil, mas benéfico para todas as partes envolvidas,

Desengane-se quem pensa que El Artificio se fica pela sua camada superficial. O filme tem muito mais para oferecer do que aquilo que pode parecer à primeira vista. As referências cinematográficas, que vão aparecendo com alguma frequência na fita, e a exploração das várias dicotomias abordadas (cinema/teatro, irmão/irmã, loucura/lucidez) conferem à fita uma riqueza conceptual que se estende por várias camadas de filme. Contudo, o que torna este filme interessante torna-o também pesado e inacessível a grande parte do grande público: não é certo que toda a gente que o veja seja capaz de ultrapassar a superficialidade inicial da película, como também não é certo que todos consigam captar todas as referências cinematográficas presentes em El Artificio.

Filme que preste homenagem a All About Eve, Howard Hawks e Humphrey Bogart será quase sempre capaz de ganhar o coração dos membros desta humilde redacção. El Artificio é capaz de juntar a essas virtudes uma realização arrojada da parte de Jose Enrique March, um meticuloso trabalho de edição e uma fotografia com qualidade bem acima da média. Curiosamente, parte o elenco, com o próprio Belloch à cabeça, é constituída por actores com formação em teatro, o que se vai notando na maneira de abordarem o espaço e os diálogos. Nada de muito preocupante, mas mais um elemento estranho num filme já por si pouco convencional.

De filmes todos nós gostamos, de cinema já não será tanto assim. El Artificio aborda exactamente esse amor do realizador March, do actor Belloch e da personagem Quique pela 7ª arte, transformando-o em algo quase contagiante. Belloch, que à esporádica carreira de actor junta as de encenador teatral e realizador de cinema, diz que este é o seu projecto mais pessoal dentro do seu próprio universo cinematográfico. O resultado final traduz essa sua visão bastante pessoal sobre El Artificio, tornando-o um exercício de cinema muito especial. Mais do que cinema, esta é uma fita que almeja ao estatuto de cinema sobre cinema, honra reservada apenas aos melhores. A perfeição não é alcançada por pouco, talvez devido ao peso conferido à obra, mas no final isso pouco interessará: 30 anos depois de Pestañas Postizas, Enrique Belloch volta a ter um filme digno de culto dentro do panorama do cinema europeu, este por razões mais honrosas.


Título Original: El Artificio (Espanha, 2011)
Realizador: Jose Enrique March
Argumento: Pablo Peris
Intérpretes: Enrique Belloch, Paco Martínez Novell, Maria Josep Peris
Fotografia: Paco Belda
Género: Drama
Duração: 91 minutos




terça-feira, 19 de abril de 2011

Casablanca (1942)

Captain Louis Renault: «In Casablanca I am master of my fate!»
(apenas para não escolher uma das frases memoráveis que já todos conhecem)


Escrever sobre Casablanca é escrever sobre cinema a sério - não há volta a dar, e toda esta crítica podia ser resumida nesta simples, e, no entanto, tão verdadeira frase. Casablanca é o grande clássico do cinema norte-americano, o filme que melhor sintetiza o espírito de quem habita no burgo do Tio Sam.

Numa época dourada para o cinema norte-americano, em que os maiores estúdios de cinema emprestavam as suas estrelas entre si, e em que os filmes lançados eram em muito menor quantidade do que hoje em dia, os filmes tinham o seu grande atractivo no argumento e na história que escolhiam apresentar aos seus espectadores, que, sem televisão, viam no cinema e na rádio as suas maiores fontes de entretenimento.

Em 1942, em plena IIª Guerra Mundial, a Warner Bros., gigante do entretenimento americano, conhecida na época pelas suas posições marcadamente anti-germânicas, decidiu apostar, e bem, em Casablanca, um filme com um argumento adaptado de uma peça de teatro (um musical) que nunca chegou a estrear. Rick Blaine (Humphrey Bogart) é um americano expatriado a residir em Casablanca, ponto obrigatório de passagem para quem queria voar para Lisboa e, consequentemente, para o Novo Mundo; dono do café da moda, onde se joga a dinheiro, se conquistam mulheres, e, ainda mais importante, se compram e vendem vistos (as Letters of Transit), indispensáveis para quem quisesse viajar para a América e escapar à guerra que assolava a Europa, Rick, que se mantém à margem da política, mesmo quando ela é discutida no seu café e pelos seus empregados, vê-se obrigado a enfrentar um passado que julgava já ter esquecido quando entram no seu café Victor Laszlo (Paul Henreid), figura do movimento de resistência clandestino à opressão alemã, e Ilsa Lund (Ingrid Bergman), a mulher que abandonou Rick em Paris.

Num elenco recheado de actores de enorme qualidade, entre os quais se contam Claude Rains (discutivelmente, e para mim, o melhor actor secundário alguma vez projectado num grande ecrã), Paul Henreid, Peter Lorre, Dooley Wilson (o Sam) e Ingrid Bergman, Casablanca vive sobretudo, mas não só, da interpretação inesquecível de Humphrey Bogart como Rick Blaine, o derradeiro herói dos anti-heróis. Bogart, que não se assumia como o habitual galã do cinema americano, correspondendo mais ao estereótipo de bêbedo briguento, deu vida como nenhum outro actor o conseguiria fazer a Rick - e Rick Blaine, o solitário que tinha como destino ajudar os oprimidos, deu vida como nenhuma outra personagem o conseguiu fazer à carreira de Bogart. O Oscar de Melhor Actor escapou-lhe, mas a fama, essa, nunca ninguém lha conseguiria tirar.

Casablanca é o filme que mais se aproxima da perfeição, pelo seu argumento, pelo seu elenco, e, sobretudo, pelo contexto em que foi produzido e originalmente lançado. O seu humor quase negro, a sua miríade de frases repetidas até à quase exaustão em todas as situações possíveis e imagináveis, a sua As Time Goes By, tocada por Sam no seu piano, o seu clímax na cena final, tudo contribui para a mitificação deste belíssimo filme. O momento em que vemos Casablanca é o momento em que começamos a ver, verdadeiramente, cinema - depois de o vermos, nada mais é igual ao que era antes: a água sabe-nos ao mesmo, o Sol brilha como de costume, mas nós, mudados pelo que vimos, queremos, sempre, e para sempre, retornar àquela magnífica cidade aportada na costa africana, símbolo de sonhos concretizados e de liberdade.

Casablanca não é um filme normal. É algo de incomensuravelmente belo, que merece ser revisto sempre que nos apeteça. E, quer queiramos, quer não, a frase que melhor o descreve é aquela que nunca chegou a ser dita: Play it again, Sam.




Ilsa: Play it once, Sam. For old times' sake.
Sam: [lying] I don't know what you mean, Miss Ilsa.
Ilsa: Play it, Sam. Play "As Time Goes By".

Título Original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz
Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch & Murray Burnett e Joan Alison (peça Everybody Comes to Rick's)
Intérpretes: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Dooley Wilson, Peter Lorre, Conrad Veidt
Música: Max Steiner
Fotografia: Arthur Edeson
Género: Drama, Guerra, Romance
Duração: 102 minutos

IMDb: 8.8/10
Rotten Tomatoes: 97% (9/10 average rating)