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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Jessabelle (2014)

JESSABELLE, de Kevin Greutert, nada surpreende, apoiando-se num argumento disparatado, actuações medíocres e uma realização preguiçosa, é apenas mais uma fraca tentativa a um filme de terror. Parece haver uma estranha obsessão por planos frontais de Sarah Snook, uma inquietante busca artística, e um conjunto desnecessário de cenas que existem para que o filme não tenha apenas 50 minutos.


Tudo começa relativamente simples, Jessabelle (Sarah Snook), incapacitada após um acidente de viação, vê-se obrigada a voltar para casa do pai, para que este a ajude durante a sua recuperação. O que Jessabelle não sabe será a sua ruína, quando uma estranha presença a assombra e velhas cassetes de video da sua mãe predizem um destino terrível. 

Inconsistente do inicio ao fim, esta fantasia de terror melodramático nunca assusta nem emociona. Os fracos desempenhos por parte dos actores apenas pioram as personagens que já pouca exposição possuem e a protagonista exausta-nos com a sua sarcástica omnipresença. Sarah Snook no papel de Jessabelle é desinteressante  e consistentemente nauseante, com uma expressão estarrecida e de estupefacção constante, num esforço exaustivo de transmitir inocência sem que alguma vez pareça natural. Acompanhada por Mark Webber, no papel de Preston, formam um dos casais mais inábil e incómodos dos últimos tempos-

O pior aspecto de tudo isto será o trabalho de Kevin Greutert, indeciso nos seus modelos, parece estar constantemente a alterar de estilo, mais preocupado com uma imagem limpa e colorida do que propriamente com a coesão espacial-temporal da acção. Juntamente com o incrivelmente aborrecido e pouco inspirado argumento de Robert Ben Garant, tornam Jessabelle num terror desinteressante com uma fraca execução em todos os aspectos.


Título Original: Jessabelle (EUA, 2014)
Realizador: Kevin Greutert
Argumento: Robert Ben Garant
Intérpretes: Sarah Snook, Mark Webber, Joelle Carter, David Andrews, Chris Ellis, Ana de la Reguera
Música: Anton Sanko
Fotografia: Michael Fimognari
Género: Terror, Thriller
Duração: 90 minutos


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Horns (2014)

HORNS, de Alexandre Aja, promete surpreender com humor e verdadeiros momentos alucinantes, não  fosse a falta de organização e coerência este seria o filme do ano. O filme, adaptado do romance de Joe Hill King com o mesmo nome, com duas horas, prolonga-se demasiado mesmo não tendo tempo suficiente para tudo.


Quando a sua namorada, Merrin (Juno Temple), é violada e assassinada, Ig Perrish (Daniel Radcliffe) é defrontado com acusações de toda a comunidade. Sem provas para determinar o que realmente aconteceu, apenas existem especulações e Ig é forçado a viver atormentado. Após uma das suas piores noites, Ig cresce um par de cornos. Um par de cornos que fazem com que todos sucumbam aos seus desejos mais íntimos e confessem os seus maiores segredos. Ig apercebe-se do poder que possui e parte a procura do verdadeiro culpado pela morte de Merrin, mesmo que pelo caminho cause algum caos.

Daniel Radcliffe volta em grande com mais um desempenho interessante, no papel de Ig Perrish consegue dar dinâmica a uma personagem com muita inconsistência. Juntamente com Alexandre Aja, Horns estaria bem encaminhado para se tornar num favorito, uma boa mistura de comédia negra com a quantidade certa de drama trágico. Infelizmente não há coerência suficiente no enredo e o desenvolvimento é muito  indeciso. As personagens giram a volta de um tornado confuso de emoções, que nem o talento dos actores consegue apaziguar e ficamos com alguns momentos pouco convincentes e estranhos. Um argumento com uma das tentativas mais fracas a causar algum tipo mistério, o que imediatamente cortou muito do interesse. Felizmente, Radcliffe e Juno Temple surpreendem pela positiva ao criar alguma química como casal com o pouco que lhes é dado, colocados entre a espada e a parede (neste caso o argumento confuso e as personagens instáveis), conseguem dar algum sentido a muita da desorganização. 

Talvez o melhor aspecto desta visão fantasiosa sejam os seus ocasionais momentos de loucura e prazeres caóticos, Alexandre Aja apenas triunfa na execução destes, deixando muito a desejar no resto do filme. Quando não somos entretidos pelos devaneios, somos aborrecidos pelos momentos mais melodramáticos que nem convencem nem comovem. Este vaivém entorpecido acaba por se tornar cansativo até ao momento que decide esquecer o seu rumo e despenhar-se. Apenas resta o sentimento de que falta mais qualquer coisa e no entanto parece ter coisas a mais.

Horns acaba por agradar ou enfastiar em intervalos, talvez o suficiente para dividir muitas opiniões. O desempenho do elenco e o esforço na realização são os botes salva-vidas, sem os quais esta fantasia diabólica seria mais um trágico naufrágio. 


Título Original: Horns (EUA/Canadá, 2014)
Realizador: Alexandre Aja
Argumento: Keith Bunin, Joe Hill (romance)
Intérpretes: Daniel Radcliffe, Max Minghella, Joe Anderson, Juno Temple, James Remar, David Morse, Heather Graham
Música: Robin Coudert
Fotografia: Frederick Elmes
Género: Drama, Fantasia
Duração: 120 minutos


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Black Swan (2010)

 
Nomeado para Melhor filme dos Oscars 2010, e no contexto do Halloween (embora de forma pouco ortodoxa), surge-nos o thriller psicológico BLACK SWAN. Este filme conta a história de uma bailarina de uma prestigiada companhia de ballet, Nina Sayers (Natalie Portman) e o seu papel na ilustre produção de Swan Lake, na qual foi nomeada a protagonizar, tendo de personificar dois opostos morais: o cisne branco e seu gémeo identico, o cisne negro.
 
 
O problema surge nesse mesmo ponto, pois Nina, frágil, inocente, controlada adequa-se perfeitamente ao cisne branco, mas não ao outro. E a palavra "perfeitamente" não foi usado ao acaso, o problema da personagem em não conseguir dar vida ao cisne negro é esse mesmo, ela deseja ser demasiado perfeita, é demasiado controlada, o cisne negro necessita de alguém "solto", relaxado, sexy sem receio. É aqui que entra Lily (Mila Kunis), perfeita repreentação do cisne negro na vida real. E é nessa oposição de personalidades que realmente começa a intriga. (e algumas cenas que muitos gostaram certamente de ver).

A pressão do papel começa a afectar Nina, aliada à sua já existente faceta auto destrutiva e à própria condição de um dia-a-dia de uma bailarina, repleto de sacrifícios físicos e psicológicos, assim como a pressão do manipulador director da produção Thomas Leroy (Vincent Cassel) e ao ambiente abafado e controlado que vive em casa à mercê de sua mãe.

Todos este factores levam-nos numa viagem visualmente deslumbrante de nos prender ao lugar, onde é por vezes difícil distinguir o que é verdade do que é ilusão graças ao trabalho do grande realizador Darren Aronofsky e do brilhante argumento. O final do filme vai de encontro à própria história do Swan Lake, sendo que, após Nina demonstrar que também tem realmente um lado negro dentro de si que a possibilita de encarnar o cisne negro na perfeição, acaba por morrer por sua própria mão, mostrando que a sua determinação por ser perfeita é superior à própria vontade de viver. Com uma brilhante actuação de Natalie Portman e repleto de cenas capazes de "brincar" com a interpretação do espectador, assim como deixá-lo a reflectir sobre o que acabou de testemunhar, é fácil perceber toda a atenção que este filme recebeu no ano em que estreou.


Título Original: Black Swan (EUA, 2010)
Realizador: Darren Aronofsky
Argumento: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin
Intérpretes: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder
Música: Clint Mansell
Fotografia: Matthew Libatique
Género: Drama, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 108 minutos


terça-feira, 28 de outubro de 2014

El Orfanato (2007)


Descrever EL ORFANATO, de J.A. Bayona, numa só palavra levar-me-ia, talvez, a escolher "executório". Escoltando uma narrativa fantasista, linear e simplista, este é mais um título de Terror que não desaponta em teor de sustos, apesar do sentimento de monocromia que dele advém.


Em El Orfanato o espectador é convidado a acompanhar o mistério  em redor de um orfanato fechado por mais de uma década e reaberto por Laura (Bélen Rueda), ex-residente dessa instituição, que planeava torná-lo numa instalação para crianças com deficiência. Após decidir mudar-se com o seu filho adoptivo Simón e marido, Carlos (Fernando Cayo), começam as assombrações. Simón é uma criança de sete anos que afirma conseguir ver um menino que usa um saco como máscara chamado Tomás. Tomás denuncia a verdade a Simón acerca da sua mãe e comunica ainda que ele iria morrer.

Contando com a produção de  Guillermo del Toro, o filme apresenta elementos típicos que seriam de esperar pelo cineasta mexicano, desde o apelo à fantasia transmitido por todo um ambiente singular e único, invocações de aparições do oculto e cenários enigmáticos, até ao recurso a personagens infantis remetendo para a inocência das crianças enquanto catalisador empático, qual ponte metafórica entre o observador e a película. Não obstante, não pude deixar de sentir pela falta da expressividade visual e do ambiente característicos do mexicano.

Numa trama que tem mais de belo que de assustador, apesar de não padecer nesta última característica sempre que a vicissitude o demanda, a história atinge o seu clímax num final penoso, mas reconfortante. "Um conto de amor. Uma história de terror."


Título Original: El Orfanato (Espanha, 2007)
Realizador: J.A. Bayona
Argumento: Sergio G. Sánchez
Intérpretes: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Geraldine Chaplin
Música: Fernando Velázquez
Fotografia: Oscar Faura
Género: Drama, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 105 minutos



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Saw (2004)


Vamos começar a nossa viagem de Halloween pelos últimos 10 anos do cinema de terror com SAW (2004), de James Wan. Já passaram 10 anos desde que James Wan trouxe uma nova visão macabra ao grande ecrã, com a difícil tarefa de dar voltas aos estômagos mais fortes e surpreender os mais perspicazes. Bem, talvez não tenha sido tão eficaz na surpresa, mas de certo que estômagos foram virados. Saw, rapidamente se tornou em filme de culto para publico mais sedento de sangue e veio para satisfazer os fetiches mais sombrios, originando seis sequelas com muitas das mortes mais desnecessariamente complicadas que já se viu em filme, culminando num dos enredos mais desnecessariamente complicados de que me lembro. Alguma vez se perguntaram de quantos plot twists seriam precisos para quebrar um argumento? Esta saga responde a essa pergunta e ainda nos leva mais além.


Adam (Leigh Whannell) e Lawerence (Cary Elwes) são dois desconhecidos que acordam acorrentados numa casa de banho e são forçados a participar nos jogos perversos de um assassino em série. Com as suas vidas, e das suas família, em risco, a vontade de viver é a chave para a vitória e de entre os dois apenas um a poderá atingir. Uma situação que põe também os próprios actores à prova, 100 minutos é muito tempo para ver dois homens e um morto presos numa casa de banho (ironicamente, imagino que daria uma excelente comédia), felizmente temos Dany Glover no papel de David Tapp, um detective que ainda não está demasiado velho para perseguir incessantemente o assassino, entrando também, inconscientemente, no seu plano diabólico. 

Enquanto acompanhamos o enlouquecer das personagens, já por si instáveis, face aos desafios, somos abalroados com talvez a quantidade ideal de violência física e psicológica, num enredo insípido com uma boa dose de sequências indutoras de epilepsia e um clímax tão arrogante que não consigo deixar de gostar. O plot twist acaba por se tornar num dos, se não mesmo no, elementos cruciais de toda a franquia, tendo este primeiro filme aberto o apetite para os seguintes.  

Todo o enredo gira à volta de Jigsaw, um assassino em série que coloca as suas vitimas em situações de vida ou morte, onde terão de ultrapassar desafios dolorosos (eufemismo) e possivelmente fatais na esperança de conseguir sobreviver, o que quase nunca acontece. Tudo parte de um plano supremo para ensinar os imorais a darem valor à vida. Tendo em conta as sequelas e todas as explicações delas provenientes, não se trata de um argumento propriamente coeso, no final, provavelmente, sobram demasiadas questões. Nunca há um claro desenvolvimento de personagens, tudo se desenrola de forma consistente e, eventualmente, previsível. Apenas com personagens tão desinteressantes e vazias tal enredo faria sentido, o que infelizmente é o ponto mais fraco de todos os filmes. 

Fundamentalmente, Saw abriu portas a um novo limiar de violência gratuita no grande ecrã e James Wan recebe pontos pela ousadia e alguma originalidade que trouxe a um género que pouco mais tinha para oferecer. Embora nem sempre bom pelas personagens e pelo verdadeiro sentido de terror, chega a compensar pela estranha e satisfatória experiência que proporciona. Uma boa maneira para começar a semana.



Título Original: Saw (Austrália/EUA, 2004)
Realizador: James Wan
Argumento: Leigh Whannel, James Wan
Intérpretes: Leigh Whannel, Cary Elwes, Danny Glover, Ken Leung, Dina Meyer, Michael Emmerson
Música: Charlie Clouser
Fotografia: David A. Armstrong
Género: Crime, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 103 minutos


quarta-feira, 27 de março de 2013

A Última Vez Que Vi Macau (2012)

Nunca fui a Macau.

O filme começa e surge logo, quase a matar, Cindy Scrash - a Irene de Morrer Como Um Homem - a cantar You Kill Me para a câmara. A câmara, leia-se, o público. Andam uns tigres pelo fundo, enjaulados, e percebe-se que a cena tem qualquer coisa de cabaret. Uns planos depois, um jogo de paintball - uma guerra fictícia -, em que um dos participantes acaba morto. E põe-se Guerra da Mata a caminho de Macau, sem perceber muito bem o porquê da coisa. Agora pergunta o caro leitor que esquisitice em forma de filme será esta. E pergunta muito bem, que o caso não é para menos. Trata-se, afinal, de A ÚLTIMA VEZ QUE VI MACAU, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, fita fabulosa e incrivelmente singular na sua construção.


Continuando onde ficamos, mete-se Guerra da Mata em Macau, a pedido de Cindy - que aqui é Candy, a piscar o olho à do Andy Warhol -, que teme pela sua vida. A moça envolveu-se com os homens errados e viu-se numa alhada. E não é que Guerra da Mata é o único em quem ela confia para a salvar? O gostinho a film noir - o whiskey, as sombras, a própria donzela em apuros - que fica desses momentos iniciais permanecerá durante o resto do filme. Esta Macau - a que Guerra da Mata ao princípio não reconhece e que Rodrigues nunca visitara antes - é, na sua essência, um cemitério de filmes e estrelas, uma terra com o espírito intimamente ligado ao Cinema. Não se estranhem, por isso, as meias de Jane Russell - que morreu enquanto se filmava A Última Vez Que Vi Macau - a flutuar à entrada da gruta dos piratas, ou a música - retirada de Macao, de Josef von Sternberg - com que Candy abre a estória.

É também através dessas referências cinematográficas, sempre criteriosas - não fosse João Pedro Rodrigues o realizador que disse, numa entrevista, não gostar de filmes de citações -, que se desmonta a obsessão de conhecer a cara aos protagonistas. Não chega a haver uma materialização, no sentido convencional, do sujeito: vêem-se mãos e pés, ouvem-se vozes incorpóreas que narram, reflectem, planeiam e explicam. Da mesma forma, não se assiste às mortes das personagens, nem às suas metamorfoses. Essa ideia de construir uma casa com paredes e telhado - as convenções, os cânones do(s) género(s) -, mas não lhe dar recheio - as caras, as mortes - será, porventura, o mais desconcertante para o espectador em A Última Vez Que Vi Macau. Porque se quem vê caras não vê corações, quem não as vê tem, normalmente, ainda mais dificuldade em os perceber.

O documentário que não o é - mas que poderia tê-lo sido, olhando para a curta Alvorada Vermelha - e o noir sem enchimento: João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata manejam habilmente as regras e expectativas, filmando uma terra que, existindo, não passa de uma ilusão. E que, exactamente por ser uma miragem - com os néons, os casinos, os fogos-de-artificio, o exotismo de uma figura que dá pelo nome de Madame Lobo e as gaiolas douradas -, custa ainda mais a abandonar. O que se consegue em A Última Vez Que Vi Macau, com os seus mistérios por desvendar e caminhos por percorrer, é realmente algo de único.

Nunca fui a Macau. Minto, já lá estive. E gostei imenso do que vi.


Título original: A Última Vez Que Vi Macau (França/Macau/Portugal, 2012)
Realizador: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Argumento: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Intérpretes: João Rui Guerra da Mata, Cindy Scrash, João Pedro Rodrigues
Género: Crime, Documentário, Drama, Fantasia, Mistério
Duração: 85 minutos




quinta-feira, 21 de março de 2013

Night Train to Lisbon (2013)

Parece-me que NIGHT TRAIN TO LISBON nunca será um filme consensual. Onde muitos verão monotonia, outros tantos descobrirão belos momentos de Cinema - e escreva-se logo a abrir que a fotografia é deslumbrante - plenos de significado. Aliás, o próprio filme, girando em torno de coincidências e da Filosofia - os protagonistas são um professor da disciplina e um médico dado a reflexões existenciais -, permite essa dualidade de opiniões.


Um homem salva uma rapariga que se quer matar. Ela foge, deixando-lhe um casaco vermelho - cor importantíssima durante o filme - e um livro em português. O homem, impressionado pelo que lê, e descobrindo um bilhete de comboio no interior do livro, parte imediatamente rumo a Lisboa. Quer conhecer o autor da obra, mas ele já morreu. Dedica-se, pois, a desvendar o mistério da sua vida.

Night Train to Lisbon faz-se entre o road movie e o filme de mistério - não chegando, no entanto, a pertencer inteiramente a nenhum dos géneros -, um exercício de calma na maneira como Bille August filma o passado, mas, sobretudo, o presente. Capaz de, mais uma vez, aliciar um elenco internacional de qualidade comprovada - a Jeremy Irons e Mélanie Laurent juntam-se nomes como os de August Diehl, Martina Gedeck, Bruno Ganz, Charlotte Rampling Lena Olin, Christopher Lee, Beatriz Batarda, Marco D'Almeida e José Wallenstein -, o dinamarquês debruça-se sobre uma das épocas mais negras da História portuguesa. E se o retrato dos anos de ditadura nem sempre sai exacto - evita-se abordar a dimensão social em toda a sua plenitude -, o esforço será, pelo menos, de louvar, ainda para mais num país que insiste em esquecer - e bem se diz a meio que «quando a ditadura é um facto, a revolução é um dever» - as suas décadas mais obscuras.

Apesar de algumas decisões criativas mais duvidosas - a questão linguística, com as personagens a falarem todas automaticamente em inglês, ou a visão algo turística com que August filma Lisboa -, Night Train to Lisbon revela-se um filme interessante. A mim, pelo menos - e admitindo que para muitos nunca passará de um mero pastel dramático e pseudo-filosófico -, proporcionou uma das mais belas viagens cinematográficas dos últimos anos.


Título original: Night Train to Lisbon (Alemanha/Portugal/Suiça, 2013)
Realizador: Bille August
Argumento: Greg Latter, Ulrich Herrmann (baseado no romance de Pascal Mercier)
Intérpretes: Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Lena Olin, Charlotte Rampling, Marco D'Almeida, Christopher Lee, Adriano Luz
Música: Annette Focks
Fotografia: Filip Zumbrunn
Género: Aventura, Mistério, Romance, Thriller
Duração: 111 minutos


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

The Woman in Black (2012)

THE WOMAN IN BLACK, de James Watkins, tenta dar nova vida a um género quase morto, com um ambiente gótico e antigo que demonstra ser eficaz no aumento da tensão e suspense. Com Daniel Radcliffe no papel principal, mostra-nos como o jovem actor amadureceu desde a saga de Harry Potter, ainda que não seja no seu potencial máximo.


Arthur Kipps (Daniel Radcliffe), um advogado e pai víuvo, é enviado para tratar de assuntos legais relativos à mansão Eel Marsh. Logo de inicio não bem aceite na vila onde fica hospedado e após ver uma mulher misteriosa nas redondezas da mansão coisas assombrosas começam a acontecer às crianças da vila.

Uma típica história de fantasmas que, surpreendentemente, pouco desenvolvimento tem. O foco excessivo em tentar assustar o público não deixa espaço para qualquer tipo de enredo misterioso. Nem os desempenhos por parte do elenco têm ênfase suficiente para tornar tudo mais interessante, com diálogos reduzidos e participações que pouco ou nada acrescentam ao que se passa. Todos os cenários me pareceram pouco significantes, quando a sua obscuridade deveria realçar o ambiente sombrio de um filme do género. Num modo geral, poucas são as coisas que realmente brilham neste filme, nomeadamente todo o estilo gótico da casa de Eel Marsh, onde grande parte da acção se passa, que poderia ter sido mais explorada. Depois temos Radcliffe, que parece empenhado no seu papel mais sério de um advogado viúvo e pai solteiro que corre o risco de vir a ser despedido, uma personagem que mesmo sendo o protagonista parece que apenas está lá para contar a história do espírito que assombra a aldeola e pouca importância dão ao seu próprio desenvolvimento pessoal.

Não se perde muito em The Woman in Black, se gostarem de estar constantemente agarrados à cadeira com a antecipação do próximo susto, então este será o filme para vocês. No entanto, se procuram algo com mais profundidade e mais coeso, então talvez não será a melhor escolha, pois tal como a mansão Eel Marsh, este filme é extremamente enevoado.


Título Original: The Woman in Black (Reino Unido/Canadá/Suécia, 2012)
Realizador: James Watkins
Argumento: Jane Goldman (baseado no romance de Susan Hill)
Intérpretes: Daniel Radcliffe; Ciarán Hinds; Jessica Raine; Liz White; Daniel Cerqueira; Misha Handley
Música: Marco Beltrami
Fotografia: Tim Maurice-Jones
Género: Terror, Thriller
Duração: 95 minutos


sábado, 5 de janeiro de 2013

Alex Cross (2012)

Das poucas regras que tentamos sempre seguir neste espaço no que toca às críticas publicadas uma delas - e, porventura, a mais importante - é a de respeitar o trabalho de quem faz filmes, independentemente da qualidade dos seus esforços. E se é verdade que, por vezes, ao entusiasmarmo-nos, podemos ultrapassar esses limites auto-impostos, também o será que tentamos nunca julgar um filme para lá do necessário. Começar uma resenha com tal aviso atenuador - quase-folhetinesco daquilo que achamos ter de mais próximo de uma linha editorial stricto sensu - pode parecer suspeito, mas adequa-se a qualquer filme de Tyler Perry, especialmente se realizado por Rob Cohen. Para quem não se encontra familiarizado com as duas figuras em  questão bastará escrever que o primeiro é o criador e corpo de Madea, velha afro-americana atrevida e com alguns quilos a mais, e o segundo responsável por duas das franquias mais pobres da última década - Fast and the Furious e xXx -, ambas ainda sem fim à vista. Da união entre os dois, um actor-tornado-realizador e um produtor-tornado-realizador - especialmente grave se tivermos em conta que nenhum dos dois revela particular talento para qualquer dos papéis que ocasionalmente desempenha -, nasceu ALEX CROSS, nova adaptação cinematográfica dos policiais de James Patterson.

A personagem epónima - já interpretada por Morgan Freeman em Kiss the Girls e Along Came a Spider - é um psicólogo e detective, investigador cerebral de homicídios difíceis de resolver. No seu caminho cruzam-se assassinos-em-série, psicopatas, enfim, gente perturbada. Mas se nos filmes anteriores os principais problemas manifestavam-se, sobretudo, ao nível do enredo demasiado convoluto e pejado de buracos, em Alex Cross a questão reduz-se à mais completa das previsibilidades. É possível antecipar, sem ter de pensar muito, tudo o que acontece no filme, da acção aos diálogos. E mais não escrevo, porque mais não há sobre o que escrever. Facilmente um dos piores de 2012.


Título Original: Alex Cross (EUA, 2012)
Realizador: Rob Cohen
Argumento: Marc Moss, Kerry Williamson (baseado no livro de James Patterson)
Intérpretes: Tyler Perry, Edward Burns, Matthew Fox, Jean Reno, Carmen Ejogo, Cicely Tyson, Rachel Nichols, John C. McGinley
Música: John Debney
Fotografia: Ricardo Della Rosa
Género: Acção, Crime, Mistério, Thriller
Duração: 101 minutos


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Cloud Atlas (2012)

Vamos arrumar logo a questão e escrever que CLOUD ATLAS é um portento técnico. Nessa área em particular não restarão grandes dúvidas sobre o talento dos envolvidos - com excepção, talvez, de algumas caracterizações mais forçadas -, quedando-se as preocupações por outros domínios. Adaptar para o grande ecrã o romance de David Mitchell, já de si grandioso, revelava-se uma empresa megalómana e de complicada execução. A expectativa era grande em perceber o que aqueles três realizadores - que, na prática, acabam por ser apenas dois para mim, face à minha incapacidade para discernir as vozes individuais da dupla Wachowski - podiam fazer com seis histórias intrinsecamente ligadas e espalhadas por quase três horas de filme. Será que passavam no teste? A resposta variará entre a audiência, dependendo, por exemplo, da predisposição de cada um para aceitar o que se viu ou se está prestes a ver. Quanto a mim, leva nota positiva, apesar das várias falhas a que se expõe.

O objectivo, também ele de difícil alcance, passaria pela compreensão da Humanidade e das ligações invisíveis que se formam entre pessoas, uma mistura de reencarnação com os seis graus de separação. Numa Era Global, sob a insistência de que todos nós nos encontramos conectados, as seis narrativas que compõe o mosaico encontram-se em pontos de quiasma - alguns melhor definidos do que outros -, apesar da dispersão espacial e temporal, quer através de personagens partilhados, quer de registos biográficos que transitam de uma para outra. Os elementos em comum reforçam a ideia - repetida várias vezes durante a fita, não fosse alguém esquecer-se dela - de que cada acto tem consequências que se estendem para além das imediatamente visíveis. Quase evocando a velha história do bater de asas de uma borboleta poder causar um furacão nos antípodas.


Essa linearidade cósmica, quiçá kármica, manifesta-se, inclusive, nos sujeitos. Ao longo dos segmentos o mesmo intérprete vê-se frequentemente a braços com personagens em semelhante situação. Pegando em dois exemplos muito rápidos, Jim Sturgess dobra o papel de apaixonado, e Hugo Weaving é sempre vilão, chegando a personificar o próprio Mal num dos blocos. Só Tom Hanks - e, porventura, Jim Broadbent a um nível mais discreto - ensaia uma espécie de redenção ao longo da fita, ora avançando, ora recuando no espectro moral. Outrossim, tal derivação passa para o próprio filme. Quase como se os Wachowski e Tykwer quisessem dizer que a história da Humanidade também se faz pelo Cinema. Se um protagonista grita em 2012 por Soylent Green, no futuro há algo tirado quase textualmente de lá. Ou então a existência de uma Nurse Ratched num dos episódios, que parece um pastiche da obra de Milos Forman. De novo as asas de borboletas e os furacões.

Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski têm os três créditos firmados a partir do final da década de 90. Entre eles são responsáveis por títulos como Lola rennt e The Matrix - que aqui se recria numa distopia sul-coreana -, entre outros, (re)vistos e bem presentes no imaginário cinéfilo de toda uma geração. Há, pois, uma tentativa em Cloud Atlas de versatilidade, tocando-se vários géneros, do drama à comédia, passando pela sci-fi, que culmina num blockbuster mais hábil do que o normal. A inteligência confunde-se, no entanto, com pretensão, tamanho é o desejo de produzir um objecto filosófico e analítico. Tivessem optado por algo ligeiramente mais simples e talvez o resultado fosse ainda mais satisfatório.

Muito já se escreveu sobre Cloud Atlas e ainda mais terá ficado por escrever. Só para acabar, que a resenha vai longa, fica a possibilidade de, num futuro, a Humanidade se converter em Unanimidade (estamos cada vez mais ligados), com direito a catecismos como «honor thy consumer». O Consumismo religioso, vigiado e mantido por um Estado autoritário, termina em Queda, e a gente do Antigamente passa a ser idolatrada como o deus do Agora. Volte-se, então, às borboletas e furacões.


Título Original: Cloud Atlas (Alemanha/EUA/Hong Kong, 2012)
Realizador: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Argumento: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski (baseado no romance de David Mitchell)
Intérpretes: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, James D'Arcy, Keith David, Xun Zhou, Susan Sarandon, Hugh Grant
Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer
Fotografia: Frank Griebe, John Toll
Género: Comédia, Drama, Ficção-Científica, Mistério
Duração: 172 minutos


domingo, 11 de novembro de 2012

Red Lights (2012)

As expectativas eram elevadas em relação ao próximo passo na carreira de Rodrigo Cortés. Depois do galego ter realizado Buried, obra ultra-minimalista que prendia Ryan Reynolds dentro de um caixão, antecipava-se sobre o que seria o filme seguinte a sair da cabeça do cineasta espanhol. Cortés optou por manter-se dentro do género, apresentando RED LIGHTS. Altera, no entanto, o registo, expandindo a trama e introduzindo elementos do paranormal (ou do pseudo-paranormal, conforme se discute na película). A história segue Tom Buckley (Cillian Murphy) e Margaret Matheson (Sigourney Weaver), dois cientistas que vivem a desmentir falsos fenómenos sobrenaturais. Quando Simon Silver (Robert De Niro), um psíquico  famoso e o único que Matheson não conseguiu desmascarar, reaparece após trinta anos de reclusão, Buckley fica obcecado em provar que se trata apenas de mais uma fraude.

Cortés constrói neste seu Red Lights um curioso exercício de cinema (e) psicológico. Ao  contrário dos outros ocultistas, os poderes de Silver permanecem um mistério durante grande parte do filme. Evita-se afirmar peremptoriamente que o sobrenatural não existe; diz-se apenas que, se existe, não se manifesta como as pessoas são levadas a crer. O próprio realizador declarou que a fita não se trata de um exercício de fé (ou falta dela), e De Niro, depois de conhecer alguns médiuns, chegou a afirmar que eles sabiam coisas sobre si que não tinham qualquer maneira de conhecer. Cada um dos lados suprime as provas potencialmente prejudiciais à sua causa, tornando a conclusão final - e, sobretudo, o modo como é alcançada - algo irónica. Auxiliado por uma direcção de fotografia sóbria mas competente da parte de Xavi Giménez e uma sonoplastia, a espaços, enervante, Red Lights pode muito bem funcionar como a afirmação do cineasta galego nos caminhos do Thriller. Os cépticos poderão não ficar convencidos, mas há aqui talento.


Título Original: Red Lights (Espanha/EUA, 2012)
Realizador: Rodrigo Cortés
Argumento: Rodrigo Cortés
Intérpretes: Cillian Murphy, Robert de Niro, Sigourney Weaver, Elizabeth Olsen, Toby Jones
Música: Victor Reyes
Fotografia: Xavi Giménez
Género: Drama, Mistério, Thriller
Duração: 113 minutos



Sinister (2012)

Parece facto assente que o cinema de Terror actual sofre da necessidade de viver dentro de um determinado conjunto de convenções mais ou menos fixas para que seja capaz de agradar a um público cada vez mais jovem e afastado das sementes do género. Haverá sempre, no entanto, quem se mostre capaz de as manipular habilmente, introduzindo elementos de novidade nas suas obras. É o caso de Scott Derrickson em SINISTER, filme que brinca com algumas das noções canónicas do Terror. A mais importante será, porventura, a de que o Mal precisa de um convite para entrar na vida das personagens. Seja por curiosidade, seja por inconsciência (ou uma combinação perigosa das duas), é comum a quase todo o Terror que sejam os sujeitos a abrir portas que mais tarde irão querer fechar, noção, de resto, explorada (e explicada) em The Cabin In the Woods. Outra igualmente relevante é a de que o Mal pertence ao próprio veículo que o difunde. Quanto mais físico e palpável, melhor. Filmes como Videodrome, de David Cronenberg, ou o mais recente V/H/S colocavam o peso sobre as cassetes, objecto agora antiquado e caído em desuso; Sinister coloca-o sobre a própria película. A entidade imprime-se mais no formato e na imagem do que no conceito. Só depois de o verem é que se torna real. A história não é nova - entidade que rouba crianças e mata as suas famílias -, muito menos o seu twist (há quem o julgue obrigatório, mesmo que implique uma certa dose de previsibilidade), mas é na interpretação dessas noções basilares do género que a película de Scott Derrickson conquista pontos à concorrência.

Muito pouco de Sinister é original. Nem o ponto de entrada na intriga, o snuff film - abordado anteriormente por Alejandro Amenábar em Tesis e por Joel Schumacher no inferior 8MM -, o chega a ser. O realizador compensa, contudo, no modo como filma, tudo muito pouco iluminado, com a luz (do projector, das lanternas) a ser completamente engolfada pela escuridão que a rodeia. Mistura-se found footage com cinematografia tradicional, na terceira pessoa, fugindo à moda que se tem vindo a formar numa escolha igualmente interessante. Ethan Hawke cumpre com o que lhe é pedido, interpretando de forma intensa Ellison Oswalt, um escritor que se mudou com a sua família para uma casa que foi palco de um múltiplo homicídio. O resto da família é durante grande parte do filme acessória, com a excepção da filha mais nova do casal no último terço da fita. Sinister vive sobretudo dos momentos que Hawke partilha com o projector, da descoberta daqueles pequenos segmentos de Super-8 depositados numa caixa esquecida no sótão.

O principal defeito do filme, para além da já referida trama fraca e algo previsível, é cair algumas vezes na tentação do jump scare óbvio. Fora isso, proporciona alguns bons momentos de Terror, um par de conceitos devidamente reimaginados e uma série de mecanismos que o impedem de se tornar demasiado maçador. Trata-se de um caso em que o filme é declaradamente melhor do que a história. Um bom filme de Terror assusta, mas deixa o espectador ir descansado para casa; um óptimo filme de Terror fica-lhe na retina já bem depois de ter terminado.


Título Original: Sinister (EUA, 2012)
Realizador: Scott Derrickson
Argumento: C. Robert Cargill, Scott Derrickson
Intérpretes: Ethan Hawke, Juliet Rylance, James Ransone, Clare Foley, Michael Hall D'Addario, Fred Dalton Thompson, Victoria Leigh
Música: Christopher Young
Fotografia: Chris Norr
Género: Mistério, Terror
Duração: 110 minutos



terça-feira, 30 de outubro de 2012

The Thing (2011)

Este THE THING é um remake de um remake. O original, o semi-Hawksiano The Thing from Another World, já havia sido readaptado por John Carpenter no início da década de 80 sob a mesma égide. Por cá solucionou-se o problema facilmente e, para evitar confusões, chamou-se ao mais recente A Coisa; optou-se pela literalidade do título em vez do mais artístico (e a remeter para a origem) Veio do Outro Mundo do filme de Carpenter. As diferenças entre os três, mais do que a estória, manifestam-se pelo tempo que passou entre eles. Uma renovação visual a nível dos efeitos e um update no terror para agradar às gerações mais jovens. Um grupo de cientistas vai para o Árctico desenterrar do gelo uma nave espacial e o seu ocupante congelado. Tudo parece correr bem até que na primeira noite a criatura salta pelo telhado e começa a matar os ocupantes da estação. É sua responsabilidade impedir que o invasor alienígena abandone o Árctico e estenda a sua matança ao resto do Mundo.

Clarificando, este The Thing é um remake do outro The Thing, o de Carpenter. É dos anos 80 que vêm as principais referências da obra e há, inclusive, um sujeito parecido com Kurt Russell no elenco. Fica a dever também ao Alien de Ridley Scott, não fosse a protagonista uma mulher de armas, preparada para o que der e vier. Perde-se parte da subtileza - a fita de Carpenter é toda ela paranóia e isolamento, com particular enfoque nos rigores do frio e da neve - em prol de uma abordagem muito mais in your face. Os tempos mudam, e Matthijs van Heijningen Jr. também não será nenhum John Carpenter. Ainda assim, temos uma enorme Mary Elizabeth Winstead a inscrever o seu nome num panteão ocupado por gente dura como a Ripley de Sigourney Weaver e um elenco bem mais do que competente no que lhe foi pedido. Sem ser mau, fica alguns furos abaixo dos filmes a que se seguiu. Esta moda de actualizar clássicos prejudica o susto. A sério que prejudica.


Título Original: The Thing (Canadá/EUA, 2011)
Realizador: Matthijs van Heijningen Jr.
Argumento: Eric Heisserer (baseado no conto de John W. Campbell Jr.)
Intérpretes: Mary Elizabeth Winstead, Joel Edgerton, Ulrich Thomsen, Eric Christian Olsen, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Paul Braunstein, Trond Espen Seim, Jørgen Langhelle
Música: Marco Beltrami
Fotografia: Michel Abramowicz
Género: Ficção-Científica, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 103 minutos


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Psycho" separado por quatro décadas, parte II

primeira parte deste artigo visa uma comparação geral, no tempo e no conteúdo, entre ambas as obras.


PSYCHO, de Alfred Hitchcock (EUA, 1960)

PSYCHO pode parecer um objecto algo estranho na filmografia de Hitchcock, não pela temática que aborda e pelos motivos que utiliza - recorrentes noutras obras do realizador -, mas sim pelas circunstâncias da sua produção e o espaço muito sui generis que ocupa na História do Cinema. A trama, passada rapidamente em revista, já todos a conhecem: uma rapariga (Janet Leigh, nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária) rouba 40 mil dólares a um cliente do seu patrão, e, numa noite de intempérie, procura abrigo no infame Bates Motel. A rapariga (e, já agora, o dinheiro) desaparece e a busca leva vários dos interessados no seu paradeiro (a irmã, o namorado e o detective privado) a esse mesmo motel. É tudo muito hitchcockiano, explorando conceitos-chave da moralidade e da culpa e incorporando elementos de mistério e tensão. Aliás, a marca do autor faz-se sentir em vários momentos da fita: a protagonista loira, a fixação por pássaros, o espectador como voyeur, criminosos alvo da empatia do público (tanto Marion Crane como Norman Bates, salvo as devidas distâncias), a transferência da culpa entre personagens e a relação conflituosa entre Norman e a Mãe. Mas, e retomando as circunstâncias em que foi produzido, é fácil atentar o carácter algo experimental de Psycho. Os estúdios não lhe concederam o mesmo financiamento que aos seus filmes anteriores e o orçamento ficou pouco abaixo do milhão de dólares. Hitchcock testava a possibilidade de criar um filme barato e rápido de filmar, mas que fosse, simultaneamente, apelativo para a audiência. Consegue contratar actores abaixo do seu salário normal e recorre a grande parte da equipa que trabalha na sua série televisiva Alfred Hitchcock Presents. Passada a pré-produção, põe-se a gravar.

A estrutura da fita é pensada para causar desconforto ao espectador. Em dois actos facilmente delimitáveis, a acção é sempre deixada em suspenso até ao último momento possível, precisamente quando acontece. O protagonismo feminino, dividido entre Janet Leigh e Vera Miles, contribui também para a sensação de estranheza: quando nos habituamos à primeira, ela sai de cena e faz-se entrar a segunda. Fora esse, há mais alguns mecanismos que ajudam a deixar o público em constante sobressalto; a impossibilidade de os detalhar a todos faz-me destacar o polícia à janela do carro de Janet Leigh (o gatilho que desencadeia a sua paranóia) e a casa dos Bates que observa, ominosa, o motel do topo de uma colina.

Cada visualização de Psycho permite encontrar novos prazeres - que vão desde a banda sonora composta por Bernard Herrmann aos títulos iniciais desenhados por Saul Bass - e dissecar mais uns quantos elementos da obra. Permite igualmente perceber que o marco do suspense realizado por Alfred Hitchcock resulta exactamente pela forma como foi filmado - o preto-e-branco impunha-se à cor - e pelos planos e cenas estudados ao detalhe. Assim, e com a patina que o foi envolvendo com o passar dos anos, Psycho é um clássico de pleno direito, exemplo canónico de como criar suspense e tensão num filme. Parte Cinema, parte ícone cultural (distinção reservada a poucas películas), é um excelente Hitchcock - sempre se deu bem com as suas experiências, veja-se o caso de Rope -, mas não o melhor.






PSYCHO, de Gus Van Sant (EUA, 1998)

Hollywood é uma máquina que por vezes se mastiga a si própria. Entre sequelas e remakes é costume que a qualidade caia consideravelmente em relação ao primeiro tomo das franquias, enevoando a sua memória. Atenta-se o caso deste PSYCHO, que se agrava pela tentativa de recriar o original quase plano-por-plano. Depois das sequelas na década de 80 - todas com Anthony Perkins e uma delas, inclusive, realizada pelo próprio - mais fracas mas divertidas, abriu-se a porta para que se fizesse uma readaptação do icónico filme de Alfred Hitchcock. A banalização da violência e o boom do Terror e do Thriller levaram a que a Universal financiasse o projecto em 60 milhões de euros e os avanços tecnológicos alcançados no seio da indústria permitiram pôr em prática algumas das ideias que Hitchcock tinha para o original - por exemplo, o establishing shot inicial de Phoenix.

A estória seria textualmente a mesma, actualizando-se as referências a dinheiro (fruto da inflação). Decide-se colorir a imagem com tons saturados e filmar quase tudo conforme os planos do original. Aqui e ali retoca-se a película, modificando algumas sequências e cortando outras. Feitas as contas, o resultado final só podia dar errado. E deu. Como a tecnologia não acompanhou a evolução da indústria e do público estranham-se muitas das cenas icónicas, que surgem aqui pautadas por um certo elemento kitsch - a queda de Arbogast pelas escadas provavelmente será o melhor exemplo (alguns anos antes tinha-se parodiado a cena em The Silence of the Hams, com Martin Balsam a fazer dele próprio), mas há também os casos da cena do chuveiro e de muitas outras - tornando-as sombras das que lhes serviram de inspiração e decalque.

Gus Van Sant não soube pegar no filme - a marca autoral não corresponde à de Hitch, nem será este o seu género de eleição -, e quando se apercebeu disso já nada podia fazer. Nota-se a luta constante por manter este Psycho fiel ao original, mas a verdade é que simplesmente se queda longe demais. Plano-por-plano, e plano depois de plano, manchou a memória de 1960, não conseguindo sequer gerar interesse em relação ao material do qual foi adaptado. O último plano de Norman Bates em ambos os filmes, a caveira justaposta à sua face, resume bem a película: Vince Vaughn tenta emular Anthony Perkins, mas, paradoxalmente, apenas serve para realçar as diferenças entre os dois; recorda-nos que estamos perante uma cópia modesta e mal executada, parente pobre do talento de Hitchcock, que sofre ainda mais por perder literalmente em todos os planos face ao primeiro filme.

sábado, 29 de setembro de 2012

Triangle (2009)

Uma boa tentativa, a isso se resume Triangle, de Christopher Smith, infelizmente o filme transpira arrogância e tenta ser mais do que consegue. 

Jess (Melissa George) juntamente com um grupo de amigos, Greg (Michael Dorman), Downey (Henry Nixon), Sally (Rachael Carpani), Heather (Emma Lung) e Victor (Liam Hemsworth), vão dar um passeio de barco. Acabam por naufragar e são aparentemente salvos por um navio, no entanto o navio não é o que eles esperavam e Jess, mãe de um filho autista, é a única ciente dos acontecimentos bizarros e acaba numa luta para conseguir voltar a casa para junto do filho.

Nenhum dos desempenhos merece uma menção superior, foram todos muito medianos, talvez o de Melissa George se destacasse um pouco mais se não fosse o único realmente relevante. O argumento tem tantos buracos que se fosse um queijo era ralado, e à medida que o filme vai avançando faz cada vez menos sentido. Numa tentativa de criar algo intelectualmente e psicologicamente avassalador cai tudo por terra quando é fácil desvendar o segredo nos primeiros 20 minutos, e daí prever o resto do filme sem dificuldade. Não queria falar do tema em si, já não pretendo estragar a experiência dos que ainda possam querer ver, mas posso dizer que é um tema que já foi melhor explorado em outros filmes, com um pretexto mais crédivel e não de deus grego. Simplesmente medíocre, não é mau mas também não é bom o suficiente para se fazer sobressair e acaba por ser enterrado nos escombros dos filmes de terror de série B, esquecidos após uma visualização.

Apenas para ser visto num dia de eterno aborrecimento, talvez como um daqueles filmes de domingo que se vê só porque mais nada de jeito está a dar na televisão.


Título Original: Triangle (Reino Unido/Austrália, 2009)
Realizador: Christopher Smith
Argumento: Christopher Smith
Intérpretes: Melissa George; Joshua McIvor; Michael Dorman; Henry Nixon; Rachel Carpani; Emma Lung; Liam Hemsworth
Música: Christian Henson
Fotografia: Robert Humphreys
Género: Mistério, Terror, Thriller
Duração: 99 minutos



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

The Tall Man (2012)

Ao contrário do que se possa pensar inicialmente, The Tall Man não é um filme de terror, mas sim uma espécie de crítica social cujas verdadeira intenções são reveladas de forma gradual e inesperada ao espectador. Pascal Laugier criou um enredo inteligente que tenta impingir choque e fazer o público pensar, o que devido a diversas inconsistências acaba por não acontecer ou simplesmente não é convincente o suficiente.

Na cidade de Cold Rock as crianças andam a desaparecer misteriosamente, a população acredita que é obra do 'Tall Man', uma personagem que se crê ser uma lenda mas que alguns já viram a vaguear pelos bosques da cidade. Nesta cidade devastada pela extrema pobresa, Julie (Jessica Biel) é a enfermeira local e acaba por se envolver nos segredos que obscuram a cidade quando o seu filho é levado. Quando se pensa que o segredo está para ser revelado, tudo aquilo em que se acreditava dá uma volta completa e deixa o espectador a ponderar os seus próprios valores morais.

The Tall Man tem o erro mais comum que se pode encontrar em filmes do género, tenta ser mais do que aquilo que realmente é e torna-se um pouco exagerado e nada convincente. Com situações rebuscadas que chegam a encaixar com o que o filme tem de bom. Óptimas actuações, Jessica Biel faz um excelente trabalho, em parte também porque desempenha dois papeis diferentes, e Jodelle Ferland mostrou mais uma vez uma grande potencialidade e faz justiça ao seu currículo bastante preenchido. Há que dar louvor à fotografia e em termos gerais é um filme bem concebido, mas voltamos ao problema de tentar passar por cima de si mesmo. Não é possível falar muito do problema em si sem arriscar revelar tudo o que torna o filme interessante, apenas que é um crítica à sociedade e que o caminho que tenta seguir e como o segue não é, em certas partes, plausível e quase fantasioso, num filme que é suposto ser encarado com seriedade.

Não é um filme que agradará a todos, não é fácil de gostar e pode tornar-se um pouco confuso, principalmente quando todo o tema é alterado bruscamente. Mas é um bom filme e recomendo a ver quem esteja disposto a vê-lo de mente aberta, poderá até surpreender.


Título Original: The Tall Man (EUA/Canadá/França, 2012)
Realizador: Pascal Laugier
Argumento: Pascal Laugier
Intérpretes: Jessica Biel; Jodelle Ferland; Stephen McHattie; William B. Davis; Samantha Ferris
Música: Todd Bryanton
Fotografia: Kamal Derkaoui
Género: Drama, Mistério, Thriller
Duração: 106 minutos



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

The Raven (2012)

Edgar Allan Poe, o grande mestre do macabro e do terror, morreu em circunstâncias misteriosas e por causas desconhecidas. The Raven, é o relato dos últimos dias do autor e de tudo o que levou à sua morte. Realizado por James McTeigue (V For Vendetta) e conta com a participação de John Cusack e Kevin McNally, visto assim seria de esperar algo de qualidade.

Poe (John Cusack) é um bêbedo mentalmente instável a quem a fama momentânea e egocentrismo subiu à cabeça. Quando um psicopata começa a recriar os cenários macabros presentes nas obras de Edgar Allan Poe, este junta-se à investigação liderada pelo detective Fields (Luke Evans) numa tentativa de prever e impedir os próximos ataques. Infelizmente, nada corre bem quando o interesse amoroso de Poe, Emily Hamilton (Alice Eve), se torna numa das peças chave para o plano do assassino.

Sempre achei John Cusack um pouco subestimado, principalmente porque já chegou a ter desempenho bons mas quase nunca lhe é dado o crédito devido, mas neste filme é difícil aceitá-lo como Edgar Allan Poe, tem uma actuação demasiado instável e por vezes desvia-se da personagem. Luke Evans com um desempenho demasiado exagerado como um detective arrogante, incompreensivelmente fixado no assassino e com uma voz que mais parece Christian Bale como Batman, um completo desperdício. O trabalho de realização é bom mas não ao nível de V for Vendetta, infelizmente, e a juntar ao enredo completamente despropositado tornam o filme pouco apreciável, aliás tudo me pareceu demasiado rebuscado e a ideia de um assassino que recria cenários imaginários sem qualquer aparente fonte de recursos torna tudo um bocado estranho e pouco plausível, culminando num final pouco satisfatório, esclarecedor e, sinceramente, pouco surpreendente. Não fosse eu fã das obras de Edgar Allan Poe, poderia ter suportado mais algumas das liberdades artísticas dos argumentistas.

Vive-se bem sem ter que ver The Raven, algo que inicialmente pode parecer um bom pedaço de entretenimento acaba por não passar de um filme mediano, só traz desilusão para aqueles que conhecem e gostam das obras de Poe, às quais este filme não faz justiça. 


Título Original: The Raven (EUA, 2012)
Realizador: James McTeigue
Argumento: Ben Livingston; Hanna Shakespear
Intérpretes: John Cusack; Luke Evans; Alice Eve; Brendan Gleeson; Kevin MacNally; Oliver Jackson-Cohen
Música: Lucas Vidal
Fotografia: Danny Ruhlmann
Género: Thriller, Mistério
Duração: 110 minutos



quarta-feira, 11 de julho de 2012

Red Riding Hood (2011)

À falta de ideias novas reciclam-se estórias antigas. Só à luz desta máxima se explica a recente tendência hollywoodesca de adaptar a chick flick todo o material possível e imaginável. Nem os contos infantis escapam à corrente, sexualizados ao limite do permitido e redesenhados segundo os moldes românticos de Twilight, percusor da moda. Red Riding Hood é cópia a papel químico da saga de vampiros e lobisomens pinga-amores, reciclando a fonte original e adaptando à sua realidade os lugares-comuns do género em que se enquadra, indo, inclusive, buscar a realizadora do primeiro tomo da série ja mencionada. Catherine Hardwicke quis repetir o sucesso, mas a coisa não lhe correu de feição. Aqui vale tudo para fazer render o thriller, desde desrespeitar os canônes do whodunnit, fornecendo pistas impossíveis ao espectador, até reduzir virtualmente todas as aparições da fera a matanças inócuas. Desde cedo é fácil perceber o rumo que a estória inevitavelmente vai tomar e a ordem pela qual as personagens irão ser mortas. E entre anacronismos e buracos no argumento vai-se fazendo a fita, quebrando o espírito do mistério sem nunca, no entanto, dificultar a sua resolução, negando qualquer traço de originalidade que pudesse existir.

É fácil encontrar os motivos que levam alguém a gostar de Red Riding Hood. Complicado é percebê-los. Amanda Seyfried tem talento para mais, mas continua a errar na escolha de papéis, Shiloh Fernandez e Max Irons são abomináveis como protagonistas masculinos, safando-se pela aparência, e nem Virginia Madsen, Julie Christie e Lukas Haas escapam a este cemitério na forma de filme. Billy Burke, reciclado da saga Twilight, é caso à parte, passando rapidamente dos 8 aos 80: ou nem aparece em cena, ou, quando aparece, resolve intrigas e mistérios qual deus ex machina, qual quê. O que torna ainda mais estranho que o pior da fita passe mesmo pelo sotaque imbecil que Gary Oldman adopta para a sua personagem. As referências ao material original que se foram desencantar ao baú são, na sua globalidade, despropositadas e diminuem ainda mais, se possível, o valor da fita. O resultado final é lamentável. Pior, parece que as adolescentes de hoje em dia têm o desejo bizarro de serem mordidas por criaturas de caninos afiados.


Titulo Original: Red Riding Hood (Canadá/EUA, 2011)
Realizador: Catherine Hardwicke
Argumento: David Johnson
Intérpretes: Amanda Seyfried, Gary Oldman, Billy Burke, Shiloh Fernandez, Max Irons, Virginia Madsen, Lukas Haas, Julie Christie, Adrian Holmes
Música: Alex Heffes, Brian Reitzell
Fotografia: Mandy Walker
Género: Fantasia, Mistério, Terror, Thriller
Duração: 100 minutos