segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A grande armadilha

Quem gosta de Cinema e tem por hábito analisá-lo com maior cuidado saberá o perigo que significa ver um filme que abra com um traiçoeiro «baseado em factos reais». E escrevo "perigo" porque o tal aviso induz quase automaticamente a um certo condicionamento analítico do qual até o mais atento dos espectadores tem dificuldade em escapar.


Ao olhar para a lista das estreias em sala durante o primeiro trimestre do ano, podemos identificar facilmente  várias fitas que fazem - ou podem fazer (*) - uso do mecanismo. De LO IMPOSIBLE - de resto, aqui representado pelo fotograma do seu aviso - a HITCHCOCK, passando por LINCOLN e HYDE PARK ON HUDSON, muitos são os filmes que se inspiram concretamente em acontecimentos da vida real. E o problema nem passará por aí - bem como a solução não passará por subtrair completamente a realidade ao Cinema -, mas sim pelos segundos de fundo tipicamente preto que exibem em letrinhas brancas a mensagem de que o que se está prestes a ver não é produto exclusivo da imaginação de alguém.

Outra das questões surge quando se reflecte sobre o valor de verdade vulgarmente atribuído a facto. Será o "facto real/verídico" uma mera redundância, ou esconder-se-á algo mais por detrás do suposto pleonasmo? Outrossim, quanto de verdade haverá sob a égide da realidade ficcional? Os exemplos mais recentes de como desarmar a bomba aparecem dos lugares mais improváveis. Em ARGO, de Ben Affleck, título baseado na extracção (verídica) de membros da embaixada norte-americana em Teerão através de um falso-filme, a dissonância manifestou-se no momento do clímax - a fuga no aeroporto -, que, ao que parece, nunca existiu nos moldes em que apresentado; nesse caso em particular, a realidade revelou-se menos entusiasmante do que a ficção quando tinha tudo para ser exactamente o oposto. Já Kathryn Bigelow foi desarmada por duas vezes em pouco mais de uma década: em K-19: THE WIDOWMAKER (2002) a tripulação do submarino russo, apesar de ter gostado do filme, criticou a hollywoodização dos acontecimentos representados; já com ZERO DARK THIRTY (2012) - sobre a perseguição a Osama bin Laden - foi a vez da CIA desmentir parte do reproduzido. Assoma-se, assim, a dúvida acerca dos limites do verdadeiro num objecto que se assume logo em si como uma mentira, uma encenação mais ou menos precisa da vida.

Escreveu-se tanto apenas para concluir o que há muito já se sabia, que o tal aviso se assume como a grande armadilha do Cinema. E que se a moda não é de agora, tem-se tornado, pelo menos, mais frequente nas últimas décadas. Pede-se à audiência um envolvimento emocional superior - através da confusão das fronteiras entre o real e o ficcionado - mesmo antes da acção começar, apelando-se ao investimento na história pela via mais fácil. Cabe ao cinéfilo mais precavido saber resistir à eficácia daquela simples frase.

Esta crónica foi baseada em factos verídicos.

António Tavares de Figueiredo

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(*) - à data de escrita destas linhas, alguns dos filmes mencionados não tinham ainda sido visualizados; coloca-se apenas - e por agora - a possibilidade da mensagem constar explicitamente da sua forma. 

2 comentários :

  1. Concordo com a alusão a ser encarado esse aviso de ser baseado em factos reais como uma armadilha. Caramba, até os filmes de terror já se servem da ideia (recordo o "The Strangers" mas sei que há mais...).

    Eu penso que Hollywood já percebeu que as pessoas aderem bem melhor quando o filme lhes é sugerido ter uma base na mais pura realidade. Que o que está a acontecer é credível e sem fantasias.
    Contudo, vejo que na maior parte dos casos, se torna num mero engodo comercial, e os filmes assim, acabam por ser apenas mais alguns entre muitos.
    O mesmo acontece quando Hollywood se decide a reconstituir a história, ou melhor, a sua história americana, com floreados para ser dada ao mundo como cultura histórica.
    Hollywwod vai ser sempre Hollywood... um negócio!

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    1. Isso dos filmes de terror já vem bem de trás. E assim de repente recordo-me do THE TEXAS CHAIN SAW MASSACRE, do Tobe Hooper, que já mostrava o tal "aviso" em 1974. E não duvido que haja exemplos ainda mais antigos.

      A questão é que dizer que filme A, B ou C é baseado em factos reais - e a expressão, em si, já é uma parvoíce, parece-me - funciona como uma espécie de condicionamento. Marca-se a audiência logo a abrir e pede-se envolvimento emocional muitas vezes a troco de nada. No fundo, é um mecanismo demasiado gratuito. Para o meu gosto, é claro :)

      Cumprimentos cinéfilos.

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